Campo úmido e/ou alagável

Espera! Já leu o conteúdo introdutório sobre as diferentes fisionomias campestres?

Existem diversos tipos de campos…

Campos úmidos podem ser encontrados em todas as regiões dos Campos Sulinos, geralmente em pequenas extensões.. Diferenciamos o campo seco do campo úmido essencialmente pelo tipo de solo, havendo diferente capacidade de drenagem da água em cada um. A principal característica dos campos úmidos é possuir solos mal drenados de composição argilosa. Os campos úmidos podem ser encontrados em conjunto com campos alagáveis e banhados.

Foto: acervo LEVCamp.

Em um mesmo local podemos observar manchas de campo com solo encharcado, porém não coberto pela água, configurando um campo úmido, e manchas de campo alagado, onde a vegetação dominante ainda são as gramíneas e a água cobre completamente o solo.

Campos alagados são locais de relevo plano e alagadiço onde, assim como nos campos úmidos, as gramíneas são dominantes. Porém, esse tipo de ambiente também favorece o estabelecimento de espécies de plantas chamadas macrófitas aquáticas (adaptadas às condições de alagamento). Campos alagados costumam alternar entre períodos mais secos, principalmente no verão (onde as águas evaporam parcial ou totalmente), e épocas mais inundadas em decorrência das chuvas. Esses campos podem ocorrer associados aos banhados, ambientes similares mas que possuem menor presença de gramíneas e maior predominância de plantas submersas e flutuantes. Os banhados também são conhecidos por brejos, pântanos e outras nomenclaturas; nos Campos Sulinos, receberam este nome devido à influência da palavra em espanhol “bañado”. Os campos úmidos costumam apresentar regiões alagadas, mas as inundações são sazonais, diferentemente do que ocorre nos banhados, em que as áreas alagadas são quase que permanentes.

Espécies características

Nos campos úmidos é marcante a abundância de plantas da família Cyperaceae. Outras plantas herbáceas encontradas frequentemente nestes ambientes são Paspalum pumilum e plantas dos gêneros Utricularia e Drosera, que absorvem nutrientes através da ingestão de pequenos invertebrados.

A Drosera brevifolia é uma planta comum nos campos úmidos do litoral na região dos Campos Sulinos. Suas folhas possuem glândulas que secretam uma substância pegajosa, permitindo que a planta capture insetos que passam sobre suas folhas, absorvendo os nutrientes decorrentes da decomposição destes.

Foto: acervo LEVCamp.

Em relação à fauna, espécies de sapinhos do gênero Melanophryniscus são encontradas neste tipo de campo e também peixes do gênero Austrolebias (Rivulidae), que têm características anuais e habitam áreas temporariamente alagadas rasas durante uma pequena época do ano, na qual depositam seus ovos no lodo. Estas espécies são endêmicas desta região e ocorrem numa área muito reduzida, sendo, portanto, consideradas extremamente vulneráveis. 

Já os campos úmidos alagáveis são ecossistemas aquáticos encontrados em todo o Rio Grande do Sul e neles habitam espécies como a cobra-d’água (Helicops infrataeniatus), a perereca-do-banhado (Hypsiboas pulchellus), o ratão-do-banhado (Myocastor coypus), a capivara (Hydrochoerus hydrocoerus) e o caboclinho-de-papo-branco (Sporophila palustris). O RS é o segundo local com mais aves aquáticas do Brasil, atrás apenas do Pantanal, principalmente por fazer parte da rota migratória de diversas aves. Já a flora característica é lembrada por espécies como gravata ou caraguatá-do-banhado (Eryngium pandanifolium), marrequinha (Salvinia auriculata) e espécies do gênero Potamogeton. Apesar de pouco reconhecidos, são ambientes comparáveis a florestas tropicais em relação a sua produtividade, diversidade biológica e riqueza de nutrientes.

Conservação

Por serem pouco valorizados e também carecerem de estudos de suas características, os campos úmidos e alagáveis foram por muito tempo considerados improdutivos economicamente, o que levou muitos desses ambientes naturalmente encharcados a serem drenados ou aterrados, modificando completamente as características naturais desses ecossistemas. A conversão das paisagens naturais para outros usos é a maior ameaça à fauna e à flora dos campos. Entre as formas de degradação estão as drenagens para conversão das áreas em lavouras de arroz. Outro fator que causa degradação é o pastejo do gado em intensidades que ultrapassam a capacidade de suporte e regeneração da vegetação. Também merecem destaque como fatores causadores de degradação o despejo de lixo doméstico e a expansão urbana. 

Foto: Lua Cezimbra.

Nas áreas de banhado, a vegetação de gramíneas dos campos úmidos e alagados é substituída por espécies altamente especializadas, chamadas macrófitas aquáticas. As macrófitas possuem adaptações para o alagamento contínuo, como tecidos que armazenam ar, elas podem viver flutuando sobre a água ou enraizadas.

Por fim, é nos banhados que ocorre o “efeito esponja”, descrito como responsável por absorver, armazenar e filtrar o excesso de água das chuvas de forma a proteger as nascentes próximas. Além disso, os banhados realizam um importante trabalho como reservatório de carbono e também colaboram com a recarga dos aquíferos subterrâneos e estabilidade climática.


Referências:

[1] Pillar, V. D. P., Müller, S. C., Castilhos, Z. D. S., & Jacques, A. V. A. (2009). Campos Sulinos: conservação e uso sustentável da biodiversidade. Brasília: Ministério do Meio Ambiente.

[2] Pillar, V. D. P., & Lange, O. (Eds.). (2015). Os campos do sul. Porto Alegre/RS: Rede Campos Sulinos-UFRGS.

[3] de Abreu Ferreira, P. M., & Setubal, R. B. (2009). Florística e fitossociologia de um campo natural no município de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Biociências, 7(2).

[4] Boldrini, I. I., Trevisan, R., & Schneider, A. A. (2008). Estudo florístico e fitossociológico de uma área às margens da lagoa do Armazém, Osório, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Biociências, 6(4).

[5] Winckler, L. T., & Teixeira Filho, A. (2020). Anais do I Congresso sobre o Bioma Pampa.

[6] Carvalho, A. B. P., & Ozorio, C. P. (2007). Avaliação sobre os banhados do Rio Grande do Sul, Brasil. Revista de Ciências Ambientais, 1(2), 83-95.

[7] Simioni, J. P. D., & Guasselli, L. A. (2017). Banhados: abordagem conceitual. Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul, (30), 33-47.

[8] Burger, M. I. (2000). Situação e ações prioritárias para a conservação de banhados e áreas úmidas da zona costeira. Base de Dados Tropical. Porto Seguro

Palavras-chave: bioma Pampa, bioma Mata Atlântica, Campos Sulinos, vegetação campestre, flora, campo úmido, campo alagado, banhado.

Key words: South Brazilian Grasslands, grassland, grassland vegetation, open ecosystems, wet grassland, peat, bog.

O Flora Campestre é uma plataforma com o objetivo de divulgar conhecimento cientifico para o máximo de pessoas possíveis. A construção desta plataforma é realizada por iniciativa da equipe de divulgação científica do Laboratório de Estudos em Vegetação Campestre (LEVCamp) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.