Do planejado ao improviso: montação drag como estratégia para enfrentar inseguranças

Tiffany Plazza

“Creep”.
Fonte: canal Tiffany Plazza (YouTube)

Por muito tempo, minha principal maneira de compartilhar meu trabalho  como musicista foi gravando vídeos sozinha em casa cantando com meu violão. Com o tempo, vendo gravações mais elaboradas que as minhas, passei a acreditar que meus vídeos não eram bem trabalhados o suficiente e que não valia a pena continuar produzindo-os. Com o drag, passei a dar mais valor para essa forma de gravar vídeo, pois a montação acompanha  a intensidade da minha voz e, com o violão, eu vi uma forma de dar  leveza e simplicidade para a performance. 

Então, senti vontade de gravar em vídeo  uma música autoral minha para postar nos meus perfis na internet, sabendo que isso seria um grande desafio para mim, já que eu era extremamente crítica com meu trabalho. Eu já tinha postado vídeos de músicas autorais minhas antes e costumava compartilhar elas com amigos, mas a pandemia mudou muito a relação que tenho com  minhas próprias composições. Por ter passado um bom tempo sozinha, foi fácil me perder em pensamentos negativos e sentir vontade de esconder meu trabalho.  Com o incentivo de professores, colegas e amigos, que recebi durante esses semestres de pandemia, resolvi ignorar minha mentalidade extremamente julgadora e decidi gravar um vídeo de voz e violão da minha música “Creep”, composta no final do ano passado. 

Iniciei os ensaios da música com antecedência para  performar da melhor maneira possível quando estivesse montada na frente das câmeras. Nessa música, eu me desafiei a criar um riff no violão, algo que  não imaginaria que eu fosse capaz de executar. Certa vez, depois de um show meu, conversei com um homem que me disse para abandonar meu violão e focar somente em cantar, porque eu não sabia tocar bem e o violão atrapalhava minha performance. Esse comentário ficou na minha cabeça enquanto eu ensaiava, toda vez que eu errava algum acorde, a posição dos dedos, ou quando algo soava esquisito, mas segui ensaiando e pensando em executar o melhor que eu podia. 

Senti que precisava ensaiar bastante essa música somente por causa do violão, o vocal estava confortável, mas como eu normalmente não me desafio no violão, ensaiei por vários dias. Eu já sabia a música inteira de cor, então procurei ensaiar poucas vezes por dia para não ficar muito apegada em detalhes, principalmente em relação ao violão.  No final,  decidi que essa experiência deveria ser algo divertido para servir como  prática, isso para eu não me cobrar tanto e não criar tantas expectativas em relação ao resultado final. Durante o ensaio, procurei também treinar a interpretação que eu queria dar à música, uma dica que escutei durante um workshop de performances e que me ajudou na hora de interpretar durante a apresentação é para não ter medo de errar ou desafinar.

Para a parte do drag, pensei em interpretar uma personagem maluca e transtornada, inspirada no filme de terror que inspirou a música, também chamado “Creep 2” (Patrick Brice, 2017). Queria que a minha personagem mostrasse a sua identidade no seu olhar. Para procurar minhas referências, utilizei uma pasta no Pinterest onde eu reúno todos os looks que vejo nas minhas recomendações com algum aspecto interessante (seja na maquiagem, no cabelo, ou na roupa). Essa pasta me poupa muito tempo na hora de montar um look, com ela posso sempre procurar referências que gosto com segurança quando estou sem uma ideia inicial. Me inspirei em maquiagens onde os olhos tivessem um destaque perturbador e estranho com sangue e compus o look ao redor dessa ideia.  Escolhi minha peruca laranja, que normalmente associo a uma personagem intensa pela cor forte e quente dela.

Tiffany Plazza montação drag como estratégia
Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo Pessoal

Na hora da montação, cada drag entra no seu próprio mundo e tem seu próprio processo. Mesmo que tutoriais sejam muito úteis e seja comum  as drags  compartilhem dicas de maquiagem umas com as outras, cada processo e cada montação é muito pessoal e deixa de lado muitas ideias de “certo” ou “errado”, normalmente associadas com o processo de maquiagem. Eu me desapeguei de tutoriais quando comecei a fazer make drag e passei a praticar da forma que eu queria para descobrir sozinha o que funciona melhor para mim e para meu rosto. 

Eu demoro em torno de 2 ou 3 horas para me montar normalmente, mas dependendo da montação, reservo o dia todo para esse processo, caso imprevistos ocorram, como foi o caso dessa performance que estava preparando para o vídeo. Minha ideia inicial era fazer dois olhos vermelhos com sangue escorrendo, mas ao colocar uma das minhas lentes vermelhas, senti muito desconforto e vi que estava com defeito. Por sorte, resolvi colocar as lentes antes de começar a maquiagem, então acabei planejando algo novo que ficou até mais interessante do que a ideia original.

Muitas vezes eu penso que imprevistos deveriam ser bem-vindos e nos causar menos estresse, dependendo de como podemos lidar com eles. Acredito que a prática de saber lidar com imprevistos e de saber como resolvê-los é importante. 

Durante a gravação, voltaram a surgir várias inseguranças que ignorei nos  ensaios, pois na hora de preparar o produto final é possível ver com mais clareza e detalhes como ele ficará. Se esse produto final não ficar tão semelhante com as minhas expectativas, minha resposta automática é pensar que não está tão bom quanto poderia. Com isso, pensei na hora que não tinha ensaiado o suficiente, que eu não escolhi a melhor maneira de gravar e até mesmo que eu não deveria ter me desafiado no violão, porque  não sabia tocar e não estava pronta para executar o que eu queria. 

Todos os pensamentos negativos que  ignorei vieram na minha cabeça no momento dessa gravação. Lembrei, então, da minha decisão de fazer desse projeto algo divertido e com a finalidade de prática e não procurar alcançar a perfeição. Depois de diversas tentativas de gravar, resolvi focar na minha performance e no que a música significa pra mim  e não no quão perfeita a música soaria. Na hora de assistir com calma, vi que o vídeo ficou exatamente como eu planejava: algo simples, íntimo e divertido. 

Percebi nessa experiência como o medo da minha resposta e da resposta dos outros ao meu trabalho é muito mais paralisante do que essas respostas acabam sendo. Uma vez falei com um amigo sobre esse medo de compartilhar minhas composições e meu drag e ele me perguntou do que exatamente eu tinha tanto medo. No fim eu não soube o que responder para ele, porque eu sei que, como artista, é impossível agradar todo mundo e nós não devemos fazer arte com a finalidade de agradar todo mundo. Também sei que, se não é possível agradar todo mundo, é igualmente impossível não agradar alguém, afinal, existe gosto para tudo. 

Não é uma surpresa pra ninguém que convive comigo que eu cobro muito de mim mesma e da minha própria arte, isso me levou a ser esforçada e a evoluir muito em pouco tempo. Mas as vezes eu me cobro de uma maneira que jamais cobraria outro artista e, assim, acabo sendo incoerente com o que eu acredito. No final, me incentivo todos os dias a olhar apenas para toda dedicação e sentimento que coloco no meu trabalho, olhar para o que ele significa para mim e enxergar a qualidade na paixão que  sinto enquanto faço minha arte, e não na cobrança excessiva.

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