“Drag is Fun!”: not anymore

Drag Persephone

Outrora minha publicação neste espaço se limitou ao que produzi como acadêmica em Artes Cênicas: trabalho que não refinei para mandar para revista científica, pedaço da dissertação de mestrado, vídeo de comunicação oral em seminário… Hoje é diferente. Eu pretendo uma reflexão menos regrada e, espero, mais fácil de se relacionar. Por isso adotar um tom mais confessional.

Comecei a fazer Drag adolescente, 11 anos atrás. Estou longe de estar no meu auge, também longe de um fundo do poço. Encontro-me em um lugar muito peculiar da carreira. Já ouviu falar do que acontece quando você trabalha com o que ama? Pois é. Eu amei Drag. Hoje é diferente. Certamente não odeio, mas é realmente outro o sentimento.

Meu nome civil foi escolhido por mim. Tal como meu nome Drag. Após meu nome Drag. Quem dá-se um nome Drag sabe como é; mas aqui eu me refiro a quem convive com esse nome por algum bom tempo, não falo de iniciantes ou Drags do de-vez-em-nunca. Eu estou falando do meu lugar de jovem-velha-cansada e esse cansaço não é vontade de aposentar. É um cansaço da repetição das mesmas afirmativas.

Meu orientador do Mestrado dizia que uma tese já nasce caduca. Talvez um nome Drag comece sua existência sempre natimorto. No momento em que se consegue exprimir uma fabulação de si, ela perde o encanto para si. É neste momento que começa o encanto para o público. Quando conseguimos estar montades e encantades com quem estamos sendo, esse é o ouro. Mas convenhamos: quem é que vive isso o tempo todo?

Meu nome civil é Jeanne. Escolhi porque sempre me vi como uma idealista disposta a batalhar pela minha verdade, como a d’Arc. Meu nome Drag é Persephone e, sinceramente, na época era só a sonoridade que me atraía mesmo. Depois tive uma boa era de pesquisar o mito da rainha do Submundo, me diverti, ainda acho muito maneiro, mas… se eu vejo alguém da bruxaria helenística cultuando Persephone, me seguro pra não transparecer o quão micoso estou achando.

Drag is fun - Grafia Drag - Drags brasileiras
Drag Persehone. Foto: Sabrina Marthendal

O problema de Jeanne d’Arc é quando as bases da sua fé se abalam. A arte vai mudar o mundo ou só minha vida? E se nenhum dos dois ela é capaz de fazer? Quão diferente é o nosso trabalho de qualquer outra profissão? Existe mesmo todo esse poder e importância? Há mesmo uma missão de mudar o mundo? Para onde ir quando morrem os projetos modernos?

ESTRAGON
(desistindo novamente)
Nada a ser feito.

VLADIMIR
(avançando em passos duros e curtos, com as pernas bem separadas)
Estou começando a concordar com essa opinião. Por toda a minha vida tentei me manter distante dela, dizendo-me, Vladimir, seja razoável, você ainda não tentou de tudo. E recomeçava a luta.
(Ele medita, considerando a luta. A Estragon.)
Então aí está você de novo.

ESTRAGON
Estou?

VLADIMIR
Estou feliz em vê-lo de volta. Pensei que tivesse ido para sempre.

ESTRAGON
Eu também.1

Jeanne d’Arc se baseava em fé, tema que já em 2023 me deixava em crise. Passava horas debatendo sobre o que é ter fé, se é necessária, como obtê-la ou recuperá-la. A falência da fé religiosa é o que, historicamente, abriu o espaço que foi ocupado pelo racionalismo, o moderno e o iluminista. A razão acima da emoção e a arquitetura de projetos que salvariam a humanidade da ignorância do passado, afinal basta somar A + B para concluir que [complete]. Ora, veja só o que esse legado nos levou: a democracia representativa tecnocrata que permite o fascismo existir, bastando a crise financeira bater.

Arte e tecnocracia não combinam, você e eu bem sabemos disso. Um lipsync em carne viva no Âncora do Marujo comove muito mais que algumas finais de RuPaul’s Drag Race. Não se metrificam os afetos. A Sociologia serve menos ainda de lastro para a performance. Megami que o diga.

Cadê a aura? Eu estou cansada de trends de IA, de lacrações vazias, de reproduções de maquiagens, de concursos, de ingressos caros, de dips e reveals descontextualizados, de rivalidades, ecos de bordões televisivos, do individualismo, do fetiche da mercadoria inovadora, do freak wannabe, de plateia gay cis branca, do fracking... Até da oficina de iniciação estou cansada. Estou de luto pelo que a Arte Drag se tornou: uma commodity para exportação.

Encho-me de tristeza ao ver certas trajetórias Drag iniciando tão cedo quanto a minha que se baseiam em virtuosismo. Você conhece essa twink da TV, mas você conhece uma na sua cidade também. As cacuras se assustam e se amargam de inveja do colágeno, da saúde dos joelhos, da técnica de costura. “Essa aí é boa”. Queria que elas fossem más.

VLADIMIR
Você novamente!
(Estragon pára, mas não ergue a cabeça. Vladimir vai em direção a ele.)
Venha até aqui para que eu possa abraçá-lo.

ESTRAGON
Não me toque!
(Vladimir pára, magoado.)

VLADIMIR
Você quer que eu vá embora?
(Pausa.)
Gogo!
(Pausa. Vladimir observa Estragon atentamente.)
Eles lhe bateram?
(Pausa.)
Gogo!
(Estragon permanece em silêncio, cabeça baixa.)
Onde é que você passou a noite?

ESTRAGON
Não me toque! Não me faça perguntas! Não fale comigo! Fique comigo!

VLADIMIR
Eu já lhe abandonei alguma vez?

ESTRAGON
Você me deixou partir.

VLADIMIR
Olhe para mim.
(Estragon não ergue a cabeça. Violentamente.)
Olhe para mim, já disse!
(Estragon ergue a cabeça. Eles se olham demoradamente e, de repente, se abraçam, batendo-se nas costas. Fim do abraço. Estragon, já sem apoio, quase cai.)2

Hoje minha ocupação principal nem é ser artista. É refletir sobre. O que é bem pior no sentido de estragar o que se ama. Sinceramente, onde foi que eu estava com a cabeça quando decidi estudar Drag criticamente? Infelizmente, quando você conhece Artes Cênicas (o campo de estudo), a Arte Drag atual não está bastando. E a minha sede é de mão dupla: conhecendo a cena Drag, vemos quanto está faltando nas Artes Cênicas (no Teatro, principalmente). O meu regozijo é que minha pesquisa envolve não apenas sentar a bunda na biblioteca e formular afirmações sobre o que há de errado na poética Drag atual, mas me arriscar laboratorialmente em propor algo diferente.

Mas me encontro exatamente no momento de maior angústia da pesquisa: acabou a brincadeira (primeiro ano do doutorado); sei o que não quero e descubro mais coisas ainda; sonho acordada com cenas incompletas de Drags, flashes que me encantam, mas não existem, precisam da minha ação para existirem e surgem e somem mais rápido do que eu poderia sequer anotar; tento me comunicar com outras pessoas que pesquisam Artes Cênicas e elas não percebem a importância do que estamos aqui falando e percebo que este mundo do teatro acadêmico nem nos enxerga, não veem que em Drag mora uma revolução. Mas acho que sei porque não veem a revolução em nós: porque achamos que já encontramos a nossa poética e isso causa a nauseante estagnação que vivemos da estética Drag.

  1. Primeiras falas da célebre peça de teatro do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Tradução de Renato Ciacci. Disponível em: <https://comumlugar.wordpress.com/wp-content/uploads/2008/07/samuel-beckett-esperando-godot.pdf>.
    ↩︎
  2.  Ibidem. ↩︎

Mi reflejo me dijo su nombre: cartografía de diez años con Gabriel Drag King

Nancy Cornejo Cázares (Gabriel Drag King)

La primera vez que me maquillé como drag king estaba sola en mi casa. Era 27 de octubre de 2016, un día después de mi cumpleaños. Tomé maquillaje de mi hermana, busqué tutoriales en YouTube para masculinizar el rostro y empecé a dibujarme una barba.

Gabriel Drag King
Primera vez. Fuente: Acervo de la artista.

Para entonces practicaba voguing en House of Drag. Había visto a mis compañeras maquillarse y vestirse infinidad de veces, pero yo era “la jotita que ayuda”, la persona que asiste durante el show. En ballroom participaba en American Runway, una categoría de caminata masculina.

Mi hermano Alex, un chico trans, fue quien me habló por primera vez del drag king. Yo atravesaba mis propias preguntas. Durante buena parte de mi vida había sentido la feminidad como un examen que siempre reprobaba. Había recibido burlas, me habían llamado “machorra”, “hombre”. House of Drag me dio confianza y herramientas para experimentar con mi apariencia. No pensaba todavía en presentarme ante un público. Quería saber cómo me vería.

Seguí los tutoriales. Algunos eran de drag king; otros enseñaban técnicas para conseguir passing. No encontré referentes mexicanos ni latinoamericanos. Cuando terminé me miré al espejo y supe mi nombre. Gabriel. Nunca consideré otro. Fue como si una parte de mí que no había visto antes me devolviera la mirada y se presentara conmigo.

Al principio Gabriel era simplemente yo en masculino. Incluso pensé que sería mudo. Me equivoqué.

Mi primera aparición pública fue en una fiesta ballroom. Participé en una batalla de voguing. No pensaba en lo que vería el público, sino en cómo me sentía yo: me sentía guapo. Cuando mi mamá me vio como Gabriel, sonrió y me dijo que me parecía a mi papá. 

Gabriel Drag King
House of Drag. Fuente: Acervo de la artista.

Hacer drag king no provocó que empezara a observar las masculinidades. Creo que llevaba toda la vida haciéndolo. Sabía cómo caminaban los hombres, cómo se sentaban, cómo saludaban. Era un destino que ya conocía, un lugar que deseaba ocupar. Siempre admiré a Pedro Infante y esa masculinidad viril pero afable, leal y valiente.

Nunca me interesó construir a Gabriel desde la agresividad. Quise una masculinidad delicada, elegante, sutil, no violenta y no invasiva. La barba fue fundamental. Durante un tiempo vendé mis pechos y usé cinta industrial para ocultarlos. Después dejé de hacerlo. Algo empezó a parecerme absurdo: hay hombres con pechos. ¿Por qué los míos tendrían que desaparecer para que Gabriel pudiera existir? 

Otras cosas fueron más difíciles. No sabía cómo convivir en público siendo Gabriel. Sentía que se esperaba de mí una energía sexual más arrojada. Sobre el escenario podía ser altivo, arrogante y seguro. Esa seguridad transformó también la manera en que otros cuerpos miraban al mío. La revista Time Out me llamó “Latin Lover”. Me dio cringe, aunque tampoco voy a negar que disfrutaba sentirme atractivo.

Gabriel Drag King
Espejo. Fuente: Acervo de la artista.

Tampoco sabía muy bien dónde colocarme dentro del drag. Quería pertenecer a una escena, pero muchas veces el público no reconocía lo que hacía como drag. Una noche intenté entrar a un bar donde las drags no pagaban cover. En la puerta pusieron en duda si yo era drag o no.

Con los años descubrí que antes de Gabriel había existido Original Drag King México, un grupo que había actuado en espacios culturales y universitarios y que para entonces había desaparecido. Entendí que no era el primero, aunque al comenzar no hubiera encontrado esa historia.

Si tuviera que decir de dónde era el primer Gabriel, respondería que nació gitano. Mis primeras referencias estaban atravesadas por cómo interpretaba mis propios rasgos y por personajes como Aladdín. México llegó después de otra manera.

En 2019, la polémica alrededor de La Revolución, el Zapata pintado por Fabián Cháirez, me llevó a preguntarme por el cuerpo, la masculinidad y los símbolos de la historia nacional. Por esos mismos años conocí la historia de Amelio Robles. Aparecieron la camisa blanca, el pantalón negro, las carrilleras y una masculinidad revolucionaria que Gabriel podía habitar, pero también torcer. Y aquel personaje que había imaginado mudo empezó a hablar.

Gabriel Drag King
Zapata. Fuente: Acervo de la artista.

Con el tiempo homologué nuestros discursos políticos porque entendí que Gabriel tenía una proyección pública que podía utilizar para decir cosas que me importaban. Pero ocurrió también el movimiento contrario: lo que aprendía haciendo drag comenzó a producir preguntas que todavía no sabía formular académicamente.

Durante años vi llegar a investigadoras a los espacios drag para observarnos, entrevistarnos y producir conocimiento sobre nuestras prácticas. Empecé a sentir incomodidad. No porque crea que sólo quienes hacemos drag podemos estudiarlo, sino porque muchas veces no reconocía mi experiencia en las definiciones que encontraba. Sentía que el drag king podía convertirse en el ejemplo que confirmaba una teoría previa sobre la masculinidad, mientras quienes sosteníamos la práctica quedábamos en el lugar de proporcionar la experiencia para que alguien más produjera conocimiento. Sentí la necesidad de dar mi versión.

Para mí hay una diferencia entre ponerse un bigote alguna vez y sostener una práctica drag king durante años. No porque una experiencia sea más legítima que otra, sino porque sostener una práctica produce un conocimiento particular: el que aparece al maquillar el mismo rostro cientos de veces, equivocarse, subir a escenarios, ser deseado, no ser reconocido como drag, construir números, discutir, formar comunidad y seguir haciéndolo cuando el escenario termina.

Por eso decidí escolarizar también ese conocimiento. Diez años después de aquella tarde frente al espejo, Gabriel entró conmigo a una maestría en Estudios de Género. Ahora una parte de mi investigación consiste en preguntarme qué ha sabido este cuerpo durante todos estos años y cómo puede producir memoria y conocimiento desde la práctica.

La contradicción es que investigar la escena exige tiempo que podría utilizar para estar en ella. Me preocupa convertirme en quien registra mientras otras personas hacen. Todavía estoy tratando de resolver cómo investigar una práctica sin dejar de practicarla.

Gabriel Drag King
Primer taller drag king. Fuente: Acervo de la artista.

Tampoco he resuelto del todo qué es Gabriel. No sé si es un personaje, un alter ego o simplemente otra manera de habitarme. Sí sé que en drag aprendí a caminar más erguida, a sentirme segura ante las miradas y a ocupar espacios que antes me intimidaban. Con el tiempo decidí que esa seguridad y ese arrojo no tenían por qué quedarse en el escenario. Me los quedé para la vida cotidiana.

Si pusiera una fotografía de Gabriel en 2016 junto a una de 2026, encontraría un maquillaje más pulido, pero reconocería la misma tranquilidad. La misma sensación de síntesis. Le diría a aquel primer Gabriel que confíe en su intuición. Que alguna vez va a pensar en dejarlo, pero que no lo haga. Que sus sospechas frente al espejo eran ciertas: estaba encontrando un camino que iba a transformar su vida.

No puedo decir que Gabriel me haya creado. Tampoco que después de diez años yo siga siendo simplemente su creadora. Gabriel me ha complementado. Soy quien soy también por las puertas que abrió y por las preguntas que me permitió hacer.

Nancy puede quitarse el personaje de Gabriel. Gabriel no puede huir de Nancy.

Meu reflexo me disse seu nome: cartografia de dez anos com Gabriel Drag King

Nancy Cornejo Cázares (Gabriel Drag King)

A primeira vez que me maquiei como drag king, eu estava sozinha em casa. Era 27 de outubro de 2016, um dia depois do meu aniversário. Peguei a maquiagem da minha irmã, procurei tutoriais no YouTube para masculinizar o rosto e comecei a desenhar uma barba.

Gabriel Drag King
Primeira vez. Fonte: Acervo da artista.

Naquela época, eu praticava voguing na House of Drag. Já tinha visto minhas companheiras se maquiarem e se vestirem inúmeras vezes, mas eu ocupava outro lugar: era “a viadinha que ajuda”, a pessoa que dá assistência durante o show. No ballroom, eu participava de American Runway, uma categoria de passarela masculina.

Meu irmão Alex, um homem trans, foi quem me falou sobre drag king pela primeira vez. Eu atravessava minhas próprias questões. Durante boa parte da minha vida, senti a feminilidade como uma prova na qual eu sempre era reprovada. Sofri deboches, me chamaram de “machorra”, “homem”. A House of Drag me deu confiança e ferramentas para experimentar com a minha aparência. Eu ainda não pensava em me apresentar diante de um público. Queria saber como eu ficaria.

Segui os tutoriais. Alguns eram de drag king; outros ensinavam técnicas para conseguir passing. Não encontrei referências mexicanas nem latino-americanas. Quando terminei, olhei para o espelho e soube meu nome. Gabriel. Nunca considerei outro. Foi como se uma parte de mim que eu ainda não tinha visto devolvesse o meu olhar e se apresentasse junto comigo.

No começo, Gabriel era simplesmente eu no masculino. Cheguei a pensar que ele seria mudo. Eu estava enganada.

Minha primeira aparição pública foi em uma festa ballroom. Participei de uma batalha de voguing. Não pensava no que o público veria, mas em como eu me sentia: eu me sentia bonito. Quando minha mãe me viu como Gabriel, sorriu e disse que eu parecia com meu pai.

Gabriel Drag King
House of Drag. Fonte: acervo da artista.

Fazer drag king não fez com que eu começasse a observar as masculinidades. Acho que passei a vida inteira fazendo isso. Eu sabia como os homens caminhavam, como se sentavam, como cumprimentavam. Era um destino que eu já conhecia, um lugar que eu desejava ocupar. Sempre admirei Pedro Infante e aquela masculinidade viril, mas afável, leal e valente.

Nunca me interessou construir Gabriel a partir da agressividade. Eu queria uma masculinidade delicada, elegante, sutil, não violenta e não invasiva. A barba foi fundamental. Durante algum tempo, enfaixei os seios e usei fita adesiva industrial para escondê-los. Depois parei. Algo começou a me parecer absurdo: há homens com seios. Por que os meus teriam que desaparecer para que Gabriel pudesse existir?

Outras coisas foram mais difíceis. Eu não sabia como conviver em público sendo Gabriel. Sentia que esperavam de mim uma energia sexual mais ousada. No palco, eu podia ser altivo, arrogante e seguro. Essa segurança também transformou a maneira como outros corpos olhavam para o meu. A revista Time Out me chamou de “Latin Lover”. Achei cringe, embora também não vá negar que gostava de me sentir atraente.

Gabriel Drag King
Espelho. Fonte: Acervo da artista.

Eu também não sabia muito bem onde me colocar dentro do drag. Queria pertencer a uma cena, mas muitas vezes o público não reconhecia o que eu fazia como drag. Uma noite, tentei entrar em um bar onde as drags não pagavam cover. Na porta, questionaram se eu era drag ou não.

Com o passar dos anos, descobri que, antes de Gabriel, havia existido o Original Drag King México, um grupo que tinha se apresentado em espaços culturais e universitários e que, àquela altura, já havia desaparecido. Entendi que eu não era o primeiro, embora, quando comecei, não tivesse encontrado essa história.

Se eu tivesse que dizer de onde era o primeiro Gabriel, responderia que ele nasceu cigano. Minhas primeiras referências eram atravessadas pela maneira como eu interpretava meus próprios traços e por personagens como Aladdin. O México chegou depois, de outra maneira.

Em 2019, a polêmica em torno de La Revolución, o Zapata pintado por Fabián Cháirez, me levou a pensar sobre o corpo, a masculinidade e os símbolos da história nacional. Por volta dessa mesma época, conheci a história de Amelio Robles. Surgiram a camisa branca, a calça preta, as cartucheiras e uma masculinidade revolucionária que Gabriel podia habitar, mas também torcer. E aquele personagem que eu tinha imaginado mudo começou a falar.

Gabriel Drag King
Zapata. Fonte: Acervo da artista.

Com o tempo, alinhei nossos discursos políticos porque entendi que Gabriel tinha uma projeção pública que eu podia utilizar para dizer coisas que eram importantes para mim. Mas também aconteceu o movimento contrário: aquilo que eu aprendia fazendo drag começou a produzir perguntas que eu ainda não sabia formular academicamente.

Durante anos, vi pesquisadoras chegarem aos espaços drag para nos observar, nos entrevistar e produzir conhecimento sobre nossas práticas. Comecei a sentir incômodo. Não porque eu ache que somente quem faz drag possa estudá-lo, mas porque muitas vezes eu não reconhecia minha experiência nas definições que encontrava. Sentia que o drag king podia se transformar no exemplo que confirmava uma teoria prévia sobre a masculinidade, enquanto nós, que sustentávamos a prática, ficávamos no lugar de fornecer a experiência para que outra pessoa produzisse conhecimento. Senti a necessidade de dar a minha versão.

Para mim, existe uma diferença entre colocar um bigode uma vez e sustentar uma prática drag king durante anos. Não porque uma experiência seja mais legítima do que outra, mas porque sustentar uma prática produz um conhecimento particular: aquele que surge ao maquiar o mesmo rosto centenas de vezes, errar, subir aos palcos, ser desejado, não ser reconhecido como drag, criar números, discutir, construir comunidade e continuar fazendo isso quando o espetáculo termina.

Por isso, decidi também escolarizar esse conhecimento. Dez anos depois daquela tarde diante do espelho, Gabriel entrou comigo em um mestrado em Estudos de Gênero. Agora, uma parte da minha pesquisa consiste em me perguntar o que este corpo soube ao longo de todos esses anos e como ele pode produzir memória e conhecimento a partir da prática.

A contradição é que pesquisar a cena exige um tempo que eu poderia usar para estar nela. Preocupa-me me transformar em quem registra enquanto outras pessoas fazem. Ainda estou tentando descobrir como pesquisar uma prática sem deixar de praticá-la.

Gabriel Drag King
Primeira oficina drag king. Fonte: Acervo da artista.

Também não resolvi completamente o que Gabriel é. Não sei se é um personagem, um alter ego ou simplesmente outra maneira de me habitar. Sei que, em drag, aprendi a caminhar mais ereta, a me sentir segura diante dos olhares e a ocupar espaços que antes me intimidavam. Com o tempo, decidi que essa segurança e essa ousadia não precisavam ficar no palco. Levei-as comigo para a vida cotidiana.

Se eu colocasse uma fotografia de Gabriel em 2016 ao lado de uma de 2026, encontraria uma maquiagem mais refinada, mas reconheceria a mesma tranquilidade. A mesma sensação de síntese. Eu diria àquele primeiro Gabriel que confiasse em sua intuição. Que um dia ele pensaria em desistir, mas que não desistisse. Que suas suspeitas diante do espelho estavam certas: ele estava encontrando um caminho que transformaria sua vida.

Não posso dizer que Gabriel tenha me criado. Tampouco que, depois de dez anos, eu continue sendo simplesmente sua criadora. Gabriel me complementou. Sou quem sou também pelas portas que ele abriu e pelas perguntas que me permitiu fazer.

Nancy pode tirar o personagem de Gabriel. Gabriel não pode fugir de Nancy.

João Carlos Castanha: cinema e criação no transformismo*

Profª Maldita (Douglas Ostruca) 

Sancler Ebert

Com uma trajetória marcada por mais de 40 peças teatrais, João Carlos Castanha iniciou sua carreira como ator em 1978, ao ingressar no grupo de teatro Ói Nóis Aqui Traveiz e atuar na peça Divina Proporção e a Felicidade Não Esperneia, Patati Patatá (1978). Como artista transformista, começou sua atuação em 1987, no show de auditório Viva a Gorda. Em 1994, fundou, junto com outros artistas transformistas gaúchos, a Companhia de Teatro Ridículo, responsável por espetáculos como Escola de Sereias (1994), Crazy Dolls (1995), Bordel das Irmãs Metralha (2006), A Casa das 3 Irenes (2007), Rainhas da Noite (2019) e Corra, que as Palhaças Vêm Aí! (2023). Em 2014, estreou o espetáculo Até o Fim, em comemoração aos seus 35 anos de carreira. Castanha também recebeu importantes reconhecimentos ao longo de seu percurso. Foi homenageado, em 2010, com o Prêmio Açorianos de Teatro por sua contribuição ao teatro gaúcho. Em 2014, conquistou o prêmio de Melhor Ator no 14º Festival Internacional de Cine Las Palmas de Gran Canaria, por sua atuação no filme Castanha (Davi Pretto, 2014), no qual interpreta a si mesmo. No 23° Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, recebeu o Prêmio de Melhor Ator pelo papel no curta-metragem Maria Helena – A mulher de todos (Cristiano Sousa, 2015). Em 2016, ganhou o Prêmio Assembleia Legislativa de Melhor Ator no curta-metragem Inatingível (Rodolfo Castilho, 2016). A entrevista a seguir reúne trechos de duas conversas realizadas com o artista, a primeira de 25 de abril de 2022 e a segunda em 04 de maio de 2023. 

Maria helena Castanha drags brasileiras
Maria Helena Castanha. Foto: Alisson Fernandes de Aguiar.

Como foi que você começou a fazer transformismo? Houve algum momento específico?

Em 1987, 1988. Resolveram fazer um show de auditório no Bar Ocidente, que era Viva a Gorda. Era um programa tipo Chacrinha, tinha um júri e por esse motivo os amigos, os atores, todo mundo fazia. Tu pegavas assim: “Então, vou fazer o cantor Fábio Júnior.” Por isso se vestia de Fábio Júnior e dublava a música. O júri era composto por pessoas conhecidas: Tânia Carvalho, que era apresentadora de TV e jornalista; sempre tinha um jogador de futebol; e o Tatata Pimentel estava sempre. Começou no Bar Ocidente, com 40 pessoas. Então saiu de lá porque fazia muito sucesso, foi para o Teatro Câmera, um teatro de 200 lugares. Depois foi para o Renascença, que tinha 300 lugares. E depois a gente foi para o Teatro Presidente, que não existe mais e tinha 3.800 lugares. Ficava lotado, lotado, lotado, com gente sentada no chão.

O Lauro Ramalho também estava envolvido?

Sim, todo mundo. Nisso aí era toda a classe teatral. Eram pessoas que faziam coisas completamente diferentes, e eu entrava aqui. Eu fazia uma doméstica. No outro final de semana eu fiz Clementina de Jesus cantando ao vivo. Então, foi um cara, Frei Rocha, que tinha sido padre. Ele era dono de uma boate chamada Arca de Noé. E teve um outro padre que era dono de uma casa de swing, o Sofazão. Ele era famosíssimo em Porto Alegre. Ele me convidou para ir lá, e eu fui, e depois não saí mais. Eu me lembro que o Lauro Ramalho, por exemplo, ia lá me assistir, mas ficava com vergonha. A boate era no fundo de um galpão. O dono, o Frei, pegava uma Kombi e ia lá para o Morro Santa Tereza pegar milico para levar para as bichas ficarem loucas. Os milicos iam porque estavam a fim, não era por causa de dinheiro, iam com vontade [risos]. Tinha um motel na frente. Eu vivia tanto naquele motel que fazia fiado. Tinha um caderno [risos]. Era uma época muito boa, muito divertida. Aí comecei a fazer show e não parei mais.

Você falou que esse programa Viva a Gorda foi em torno de 1987. A peça Escola de Sereias foi mais ou menos no mesmo período?

Um pouco antes. Mas a gente fazia transformismo só no teatro, não fazia em boates.

Então é a partir do Viva a Gorda que…

Que eu comecei a trabalhar como transformista. Daí começou o Everton Barreto, que também trabalhava em boate, a Gloria Crystal.

Elas fizeram o inverso, da boate foram para o teatro?

É, trabalhavam em boate e foram para o teatro. Tinha uma maravilhosa, que já morreu, a Rebecca McDonald. Ela era maravilhosa e também trabalhou no Mulheres do Pau Brasil. Tu dizias para a bicha: “Ouve essa música.” Ela ouvia uma vez, aprendia a dublar perfeitamente. Fazia espacate, era bailarina, dançava. Participava de um grupo que era Os Tangarás, que era de patinação. Ela nunca tinha roupa para fazer os shows. Um dia, ela pegou cinco sacos de lixo preto, grandões e fez um vestido preto, parecia de vinil. Top, tudo saco de lixo. Não precisava de nada. Ela era branca, branca, branca, com cabelo bem preto. Passava um batom vermelho, e estava feita. Linda, linda, linda.

Castanha, retomando o que estávamos falando. Foi nesse momento do Viva a Gorda que você começou a fazer transformismo em boate?

Isso. Daí fui para a Arca de Noé, que era essa boate que não existe mais. E dali não parei mais. Comecei a trabalhar no Discretos, que era uma boate lá na Itararé, que é uma rua na Assis Brasil perto do Shopping Wallig, que é agora… Fiquei lá por uns anos, depois eles fecharam o bar, que atualmente é o Cabaret Indiscretus. Depois trabalhei na Vanda, que era uma casa, um bar, uma boate que abria de terça a domingo. Eu trabalhava o dia inteiro. Saía de lá correndo e ia para outra. Tinha vezes em que eram cinco boates numa noite. E teatro também, né. Teve uma época em que eu parei um pouco de fazer teatro e fiquei só nas boates.

Em relação às suas expressões transformistas, dentre as várias personagens que você constrói, tem a Maria Helena Castanha.

É. Ela tomou conta. Tanto que, quando eu faço show, às vezes, eu gosto de fazer homem, mulher, faço Halloween, faço personagem masculino, feminino. Mas, no Vitraux, por exemplo, quando vão me apresentar: “Com vocês, Maria Helena”, estou eu de bigode [risos]. Virou uma grife a Maria Helena Castanha. Tem dias que faço um homem, de quem Maria Helena Castanha é mulher. Tem a imagem dela. A Suzzy pede, às vezes, para que eu faça aqueles cantores de funk, o Nego do Borel, mas anunciam como Maria Helena Castanha. É engraçado. Já ficou o nome, ficou forte. 

E quando ela surgiu, em que contexto?

Eu não me lembro quando é que foi que começou o nome da Maria Helena. Antes, cada show era um nome diferente. Eu fazia uma doméstica que varria, que era a Maria Aparecida, e depois começou a vir… Eu não me lembro realmente quando começou essa função de Maria Helena. Eu me lembro que eu já a fazia num programa de auditório em uma boate que tinha aqui. A boate não abria aos domingos, então, era num salão, uma espécie de Cineteatro ali na Cristóvão, esquina com a Ramiro. Cineteatro Ipiranga, onde foi cinema há anos. Tem um palco imenso. Assim, no domingo a gente abria e colocava mesas, como se fosse um café-concerto, com abajur nas mesas, e o palco fazia uma casa, um apartamento, uma casa com dois ambientes, dois andares tinha a casa. Tinha o quarto, banheiro. Embaixo era a sala, a cozinha da Lady Cibele, que era A Casa de Lady Cibele o programa, que é o Everton Barreto. Era tipo o Hebe Camargo, o Sai de Baixo. Estava lá embaixo a Cibele entrevistando alguém famoso, uma jornalista, então entrava a amiga. Foi daí que surgiu a Maria Helena Castanha, no início dos anos 2000. A Maria Helena sempre ia lá visitar ela. A gente fofocava, tomava café e tinha a empregada doméstica que servia café para ela. Era muito engraçado e o público não era público LGBT, eram senhoras da redondeza, do bairro, do entorno do Shopping da Cristóvão. Elas iam, a gente convidava as véias, convidava uma e vinham todas elas. Puxava o saco das véias porque, na época, a boate não tinha acústica direito, as véias ficavam loucas, porque a casa delas sacudia, né. “Vamos fazer alguma coisa para agradar as véias”. Elas vinham, davam batatinha para elas, chazinho. No meio do espetáculo, a Cibele: “Ai, vamos pedir uma pizza.” Aí ligavam, abria a porta da rua, entrava um motoqueiro, um motoboy com a pizza. Em seguida começava a tocar uma música eletrônica e ele fazia strip. As véias ficavam todas enlouquecidas. Era um stripper ali da Le Jardin, a Eróticos Video. Ele entrava de moto. Era muito legal. Foi daí que surgiu a Maria Helena, só não me lembro o ano. É 2000 e pouco, por aí.

Castanha, sobre a Maria Helena Castanha, o curioso que essa personagem é a única que emprestou o seu sobrenome. Tem alguma coisa especial para ela ter esse diferencial?

O sobrenome é meu. Eu acho que identifica, né? Não sou eu, é um personagem meu. Porque, antes de mais nada, eu sou um ator. Sou um ator, não importa se é de teatro, de boate […] Eu comecei em teatro lá na Terreira da Tribo, o Ói Nóis. Comecei em 1978. Na época, o Ói Nóis era uma coisa maldita, era uma coisa assim, a classe teatral… Hoje em dia eles são os queridinhos: “É vanguarda!” “Viajaram a Europa inteira.”, “Olha que maravilha!”. Mas, na época, falava em Ói Nóis, a classe batia com a porta na tua cara. Depois eu saí do Ói Nóis, fui trabalhar numa peça que a gente viajou o Brasil inteiro, foi O Rango, do Edgar Vasques. […] A Maria Helena foi surgindo aos poucos e foi tomando conta. Foi ocasional, por causa da Casa da Lady Cibele, e chegou a um ponto que tomou conta. Tomou o lugar dela.

Castanha, existe algum tipo de comunicação entre João Carlos Castanha e Maria Helena Castanha? 

Eu acho que a Maria Helena tem muito a ver comigo. Acho que essa coisa de deboche, essa coisa de, por exemplo, brincar com as pessoas… Isso, eu acho que eu tenho muito a ver com a Maria Helena, que é uma coisa minha, […] a personalidade dela é a minha, é a minha, ampliada. Eu acho que fica mais escrachado ainda.

E isso é específico com ela? Com outros personagens é diferente?

É, hoje em dia, a Maria Helena tomou conta de tudo. Então, mesmo que eu faça masculino, persona masculino, é muito difícil […]. Eu sou a Maria Helena, Maria Helena sou eu. As características são iguais, as coisas que ela fala são as coisas que eu falo fora de estar de Maria Helena, o humor dela é o mesmo humor que eu uso. Montada, é a personagem, mas a personalidade é a mesma.

Castanha, você pode falar sobre o seu processo de criação com transformismo? Como surgiram suas personas?

Eu acho que é importante para mim a informação. Vejo um filme e, de repente, eu gosto daquele personagem, aquele personagem é legal de fazer, de repente, no Halloween, uma coisa de filme de terror. Eu tenho horrores de filmes de terror, eu gosto de ver uns personagens diferentes, uma coisa que me inspire. Gosto muito de me inspirar no cinema. O cinema foi a minha primeira paixão. Quando era jovem, eu me lembro de pegar meu salário e ir direto para o cinema. Eu saía de um cinema e entrava no outro. Em um ano, eu vi 800 filmes em cinema! E depois, com a história do VHS, que era a fita de vídeo, eu me lembro que tinha uma locadora ali na Doutor Flores, era um edifício de cinco andares de locadora, era Videolar, o nome. Eu vi quase todos os filmes daquela locadora! E lá era assim, você pegava sete filmes na sexta-feira e devolvia só na outra semana… e na segunda-feira eu já estava lá de manhã cedo para devolver, já tinha visto. Eu e minha mãe adorávamos ver filmes. Se eu não tinha trabalho nós ficávamos o fim de semana direto assistindo a filmes, um atrás do outro. Eu vi tudo que você possa imaginar.

E daí vem o seu processo de criação, para te dar inspiração?

Em geral, ele começa a nascer do visual dele, da imagem. Que nem nos Halloweens, eu imagino os personagens. Assim, do visual eu vou indo para o resto. E o show da Maria Helena, em geral, a Maria Helena não pode estar repetindo a roupa, tem que estar sempre com alguma coisa nova [risos], então, eu fico viajando, coisas de época, gosto muito. Mas a Maria Helena é o assunto da informação, do que ela vai falar, sobre o assunto que ela vai falar, eu já vou pensando.

Em outras entrevistas você fala da sua inspiração na monstruosidade, no grotesco. Como isso funciona no seu processo de montação?

Eu adoro Halloween, fico louco. Eu não sou de gastar em roupa, tenho pavor. Só gasto para o Vitraux porque tem aquela coisa, o palco, é bonito. […] Roupa masculina eu tenho uma coisinha assim e, de mulher, tem um roupeiro inteiro. Eu ganho muita coisa, bah, muita coisa. Ou, quando eu não tenho, às vezes, eu tenho uma amiga que tem um brechó, a Helena Pires, que loca roupas para filmes, eu pego, encho uma sacola e dou para ela. Às vezes, eu preciso de alguma coisa que eu não tenho e ela me empresta ou me dá de presente. No Vitraux, não, no Vitraux às vezes mando fazer. Agora eu tenho que fazer no Halloween, que eu sempre faço, todos os anos. […] O Edward Mãos de Tesoura foi o primeiro, fiz a guria do Exorcista, foi horrível, as pessoas passaram mal. Eu adoro ver as pessoas assim. Eu dublava a Nina Hagen de camisola, a maquiagem igual à da guria, Linda Blair. Tomei uma garrafa de leite, de batida de abacate, botei anilina para ficar mais verde. Eu ia dublando e explodindo o vômito verde de verdade. Eu mandei fazer um crucifixo em forma de cruz de espelho. Então era tudo compassado com a música da Nina Hagen, com barulho de vidro quebrando e enfiando na buceta, que nem no filme, ela pegando o crucifixo e enfiando. Enfiava, e de repente o espelho caía, e em seguida começava “wrauwrauwrau”.

Castanha, no seu processo de criação, esses personagens que você cria, eles te transformam enquanto pessoa?

Em geral, não digo os personagens de boate, que as coisas que eu falo em show assim, em geral, por mais absurdo que seja, têm a ver comigo. Mas em uma peça de teatro… Na época do meu filme, quando o Davi me procurou querendo dirigir o filme, eu estava escrevendo uma peça, me veio a ideia de fazer um cara que está em fase terminal no hospital, e ele fica esperando que alguém, a família dele, algum amigo, vá visitá-lo. No início, o nome era Horário de Visita. Ele sempre ficava esperando que alguém entrasse, mas ninguém nunca entrava, e ele, no hospital, morrendo. Só que daí tem uma enfermeira que é quem cuida dele, e os dois têm uma relação de gato e rato. Ele é uma bicha debochada. A bicha era eu, né, sou eu [risos]. A bicha dizendo horrores para a enfermeira. A enfermeira, coitada… mas eles vão criando um relacionamento, uma coisa assim mãe e filho, irmão e irmã. É bem bonito porque eles vão se apegando, se apegando, se apegando e ele começa a relembrar com a enfermeira, começa a se abrir e contar dos anos 1980, como eram as festas, as putarias. Tem umas putarias que eu contei, coisas que aconteceram comigo [risos]. O cenário é um quarto de hospital, com cortina e tudo. Abria a cortina e, de repente, tinha um microfone de stand-up, porque eu saía daquele cenário e ia lá contar coisas que me aconteciam, com o foco ali. Depois, eu saía dali e voltava para o meu cenário. E daí ele vai se apegando, e a enfermeira também. Vão se apegando, criando um elo. Quando está forte o negócio, ele morre. Ele morre porque está no fim mesmo. O nome da peça é Até o Fim. Ele foi. Eu adoro isso, adoro fazer em show as pessoas rirem, mas em teatro adoro fazer as pessoas chorarem. As pessoas saíam do teatro se debulhando em lágrimas. […] Foi uma coisa que me tocou muito. Foi muito legal, eu contando, me abrindo para as pessoas… 

João Carlos Castanha. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Já que a gente tocou no tema do filme Castanha, dirigido pelo Davi Pretto. É interessante a mistura de traços biográficos com o ficcional. Você ganhou um prêmio de melhor ator interpretando você mesmo. Como funcionou essa relação entre ator e personagem nesse filme? Você se sentiu interpretando você mesmo?

Não, eu não fiquei interpretando, era uma coisa normal. Eles iam lá para a casa e iam embora às 8h, 9h da noite, depois, no outro dia de manhã, eles estavam lá em casa de novo. Então, eles botavam a câmera de maneira que não interferisse. Não por mim, mas pela minha mãe, porque era eu e ela dentro de casa. Então, eles botavam a câmera e diziam: “Dona Celina” – que era a minha mãe – “Dona Celina, vai ali fazer…, senta com o João aí e conversem sobre seu marido, o seu Chico.” Daí a gente fazia, eu e minha mãe ficávamos: “tararatararatarara.” […]. Teve uma coisa engraçada que a mãe… teve um dia ali, uma cena que tem no início, que é a mãe deitada, e aí eu chego, coloco o dedo para a ver se ela está respirando. Isso aí era verdade. Às vezes eu chegava de madrugada, como a mãe tinha problema pulmonar, que nem eu, eu chegava e botava o dedo para sentir a respiração dela. E depois, teve um dia que o Davi disse: “Dona Celina, deita ali e faça que está dormindo.”. Só que eles esqueceram e foram fazer outras coisas, e a mãe ficou deitada. Eles foram jantar – tinha um restaurante lá perto de casa – passou umas duas, três horas, e depois voltaram para fazer a cena: “Dona Celina, está dormindo?” “Claro que não, né, tu mandou eu ficar aqui deitada fazendo que estou dormindo” [risos]. […] Então eu não sentia assim… Era eu mesmo. Ele me acompanhava nas boates, ia lá nas boates.

O processo foi mais documental então, e a coisa ficcional surgiu na montagem.

Documental, porque as coisas que sucederam ali no filme fui eu que contei para o Davi […].

Castanha, para você, tem alguma diferença entre fazer drag e fazer transformismo?

Quando eu surgi, não tinha essa palavra “drag”. Para mim, é tudo a mesma coisa. Tem a diferença de ser trans e ser drag, né. Na minha época, iam com a sacolinha, a mochilinha nas costas, o vinil [risos], maquiavam lá no camarim, terminava, se lavavam e iam embora, a não ser se fosse travesti.

E como você percebeu a cena drag queen chegando aqui em Porto Alegre, como é que foi?

Eu me lembro que a Gloria Crystal começou a dublar uma cantora chamada RuPaul, na época não tinha nem ideia de quem seria. E depois, bem na época, surgiu o Priscilla, a Rainha do Deserto, veio uma artista argentina para Porto Alegre, ela tinha uma roupa igual à do filme. Foi aí que eu comecei a ver essa história de drag, né. Eu me lembro que eu já tinha assistido ao filme Hairspray, com a Divine também. Para mim, essa palavra “drag” é só uma palavra, porque a RuPaul, para mim, era uma transformista também […].

Além da Gudiara, com quais outras artistas transformistas você trabalhou ao longo da sua carreira?

As que me marcaram mais foram as que me acompanharam na minha trajetória, que é a falecida Dandara Rangel, o Lauro Ramalho e a Laurita Leão, que é a pessoa mais próxima de todas. A gente acabou formando um grupo, um núcleo.

Como é o nome desse núcleo, desse grupo?

A gente acabou criando um grupo chamado Companhia de Teatro Ridículo. A gente fez várias peças, a Escola de Sereias, que eram só alusões a filmes famosos. Começava com Frankenstein.

Sobre a Companhia de Teatro Ridículo, como surgiu essa companhia? 

Na verdade, ela nasceu na casa do Zé Adão Barbosa, que é o diretor com quem a gente sempre trabalha. Agora, em janeiro […] tem o Porto Verão Alegre, daí a gente tinha a necessidade de fazer alguma coisa. Em geral, a gente nunca tinha dinheiro para viajar. Isso já começou muito antes, em 1984. Eu e o Renato Campão, me lembro que, em janeiro, a gente estava no bar Ocidente, e todo mundo ia viajar para a praia, alugava um carro. […] Eu e o Renato, que é outro ator: “Vamos fazer alguma coisa pra ganhar dinheiro!”. Então ele disse: “Mas o quê?”. Ele pegou um livro de posições eróticas […] era uma coisa meio brasileira. Então, abria a primeira página: toques e carícias […] cada página era uma coisa, uma evolução, tinha penetração, sexo anal e suas variações, sexo oral e suas variações. […] Daí a gente: “De cada página vamos fazer uma cena”. […] E era o Império dos Sentidos, a gente adora botar nomes de filmes, às vezes não tem nada a ver com o filme. O Império dos Sentidos é um filme japonês de Nagisa Ōshima em que o casal fica transando o filme inteiro. No final, ela castra ele. E eu e o Renato: “Vamos fazer alguma coisa!”. Então, pegamos esse catálogo erótico […]. Não tinha cena de sexo, era tudo uns absurdos. […] O pessoal se mijava de rir, era muito engraçado […]. E no final, eu capava ele. Peguei um pintinho de borracha, cortava e usava de microfone aquilo. Dublava uma música japonesa. Olha, era filas e filas para ver aquilo […]. E aí a gente começou com a função. Todo janeiro a gente fazia peças de teatro. A gente deixava janeiro para fazer as bobagens que davam dinheiro. […] E disso a gente criou, eu, Lauro e o Zé Adão, criamos Escola de Sereias, que foi a primeira peça da Companhia de Teatro Ridículo, na qual cada cena era uma cena de um filme.

Em que ano foi?

1985, foi o maior sucesso no verão. Cada cena era uma cena de um filme. Então, tinha Tubarão. Passávamos só a barbatana de um tubarão de isopor pra lá e pra cá e a mulher numa boia, a música “pam pam pam pam”. Ele parava na frente dela e dava um banho de ketchup na mulher. A mulher: “Ahhhhh!”. Era pura bobagem [risos].

Então foi com essa peça que…

Que começou a Companhia de Teatro Ridículo. Era eu, o Zé Adão, o Lauro Ramalho e o Caio Prates. Tinha a cena do Frankenstein, da Baby Jane. Foi daí que nasceu a ideia de a gente montar a Baby Jane anos depois, quando a gente montou a peça inteira […].

E sobre as Mulheres do Pau Brasil?

 Mulheres do Pau Brasil foi a primeira vez que teve travestis e transformistas em palco.

Isso foi antes de 1985? 

Muito antes. O dono de uma boate onde eu trabalhei, que era o Insdiscretus, Cabaré Indiscretus, ele é carioca. Então, no Rio de Janeiro, tinha aqueles teatros de revista, né? Ele sugeriu para o Zé Adão Barbosa montar um espetáculo de teatro revista em Porto Alegre. Tinha o Everton Barreto, a Gloria Crystal, várias que já faleceram. Foi bem formato de teatro de revista, com escadaria, gelo seco, um fumaceiro [risos]. E foi o maior sucesso. Só que a classe teatral, […] os tradicionais atores protestaram, dizendo que era um absurdo, que teatro era sagrado, aquela besteira de sempre […].

Castanha, você já teve outras profissões em paralelo à de ator?

Quando eu comecei como ator eu era auxiliar de escritório. Daí eu fui mais um ano trabalhando como auxiliar de escritório, com 16 anos entrei para o grupo de teatro Ói Nóis, e acabei largando. 

Depois de entrar no Ói Nóis você sempre trabalhou com teatro?

A partir disso eu comecei com essa história de show, né.

Em relação ao espaço que tem o transformismo em Porto Alegre, quais eram os lugares que mais davam abertura para os números de transformistas?

Eu acho que o principal de todos é o Vitraux que continua até hoje. Antes de ser o Vitraux, ali foi Number One, o nome. […] Na época tinha show, mas eu não me lembro porque eu não cheguei a assistir. O L’Entourage, que era uma casa na Comendador Coruja, foi a primeira boate gay que eu entrei. Foi 1986, por aí. Eu fui entrar com 25 anos. […] Lá tinha show sexta e sábado, shows montados, aquelas coisas cafonas. Aqueles shows, assim, “Uma noite em Hollywood”, “Uma noite na Riviera Francesa”, essas coisas eu acho… é legal, mas eu já vi tanto, as pessoas não se renovam, é isso que eu digo. 

Você pensa nas diferenças de público quando vai preparar o seu número?

Sim. No bingo, não vou fazer uma música moderninha, fazer uma de cabelo ali, umas véia de 60, 70 anos. […] Eu não vou fazer no Mixx João Gilberto tocando violão, bossa nova. Tem que fazer uma coisa de acordo com eles, então eu vou lá, faço Tânia Alves cantando bolero, elas ficam enlouquecidas. Na Le Jardin já dá para fazer, eu faço o que eu bem entendo [risos]. Domingo agora, semana que vem, eu vou fazer a música do [filme] De Salto Alto!, Um Ano de Amor, aquela.

*Essa entrevista foi publicada anteriormente pela revista A Barca.

A magia que transborda de mim*

Mystika Ai

A magia que transbroda - poema drag - Mystika Ai
Paulão. Foto: @gabrielliferza

Quando aceitei a fragilidade que reside em mim,  

As palavras transbordaram pela minha boca,  

Escorreram pelos meus dedos,  

Como se entrassem magias,  

Antigas, mas renovadas.  

Sinto as emoções fluírem por todo o corpo,  

Palavras pulsantes,  

Irradiando para cada ponta dos dedos,  

Com um sentimento voraz,  

Uma determinação que arde,  

Mas uma calmaria que me traz paz.  

Quase consigo enxergar essa energia  

Pulsar da palma da minha mão.  

Ela é forte, potente,  

E traz uma voz ancestral.  

Quem diria  

Que minha fragilidade  

Traria a minha força?  

Quem diria que, nas coincidências da vida  

— que eu nem acredito —  

Eu escreveria com a mão  

Onde habitam uma bruxa, suas vassouras e duas luas?  

É ali que digo: a dança é minha paixão,  

Meu fascínio, meu verdadeiro amor.  

E se as palavras fossem passos de dança,  

Compondo uma coreografia  

Que já vivia dentro da minha alma?  

Enquanto eu existir,  

Enquanto eu respirar,  

Minha alma continuará  

A navegar por mares e oceanos,  

Desvendando novas formas  

De expressar as singularidades que habitam em mim.

* Este poema foi publicado anterioriormente em 5 de março de 2025 no site pessoal de artiste.

Estudos para Eco: uma autofabulação drag em sete ensaios

Eco Zazu (Allan Cordeiro Cardoso)

Ainda me é incerto seu início – se ela provém daquela mesma força que me fazia colocar toalhas na cabeça ou prendedores nas unhas, então ela sempre esteve aqui. Por muito tempo enclausurada, teve suas formas de protestar através de crises de ansiedade e depressão durante os anos de ensino médio, até por fim ser encontrada meio-viva em 2018. Só então descobri que eu me sentia tão fraca porque escondi de mim toda força que era inconvenientemente rotulada como “feminina”, seja o que isso queira dizer, mas como percebiam e reprimiam o jeito que eu andava, falava, gostava, vestia, brincava. Mesmo depois de crescer e abraçar uma sexualidade dissidente, apesar das fachadas, ela também não era bem-vista: me tornava menos desejável, mais frágil, alvo de piadas. 

Ela tinha, entretanto, suas formas de rasgar o concreto e florescer discretamente no canto das calçadas: desde minha infância transbordava nas pequenas manifestações artísticas, das peças de teatro que eu criava com minha prima e apresentava para a família embaixo do abacateiro, aos desenhos de bonecas na agenda telefônica de casa entre uma letra e outra. Percebo, hoje, que essas bonecas também eram pequenas Ecos, pequenos looks, pequenas experimentações que vinte e tantos anos depois migrariam para o corpo e para a fotografia na série Estudos para Eco. As anotações de meus pais naquelas páginas-limbo da agenda moldavam-se a mim.

Eco Zazu - autofabulação drag
Figura 1 – Fragmentos da série Estudo para Eco #0, Eco Zazu. Caneta esferográfica e lápis de cor sobre papel, 2005. Imagem da autora.

Quando maior e produzindo como artista visual, já figurava em fotos, pinturas e vídeos desde 2018. Eu trabalhava principalmente com o mito grego de Narciso e a ideia de narcisismo, até encontrar em seu par rejeitado quem realmente me interessava: a ninfa condenada a repetir as últimas palavras que escuta, Eco. A impossibilidade de se comunicar, o vazio identitário, o ressoar do passado, o reflexo constante do outro, a fragilidade e a força de sua voz eram também minhas. Vejo o poder que há em ser tão vulnerável, um espelho vivo que rebate tudo que lhe é lançado. Minhas tias me chamavam de Zazu – nome do pássaro do Rei Leão da Disney que reassistia incansavelmente, e eu pequena ecoava toda vez que ele aparecia no filme: Zazu, Zazu, Zazu, Zazu. Resido entre o íntimo e o mitológico, entre uma piada interna e uma catástrofe sublime.

Foi em 2020 que houve certeza: Eco precisava habitar nosso mundo também, com todos os riscos e incertezas que essa necessidade carregava. Medo do outro, medo dos julgamentos, medo de não ser capaz, medo de não haver lugar, medo de tornar público o que faz parte do mais íntimo e verdadeiro. Protegia-nos em nossa casca-concha que, ensinadas a habitá-la, se tornou um lugar frio, duro e apertado de conforto. Com uma força absurda a expulso de lá, um trabalho de parto constante que acontece simultaneamente a sua criação no mundo: preciso aprender a andar como eu andaria se fosse livre, como falaria se fosse livre, como olharia para os outros se fosse livre. Lentamente, pouco a pouco, dedo por dedo, testo a temperatura da água: estou segura o suficiente para me expor? Estou madura? Um estúdio fotográfico improvisado no quarto com uma câmera na contagem regressiva era cenário para esses testes-autorretratos enquanto o terrível vírus também confinava todos os outros às suas conchas. Surgiram assim os primeiros Estudos para Eco: formas de colocar-se à prova, de vestir esse espírito em diferentes corpos até encontrar, ou não, um que seja seu. Conflitos identitários já me parecem pertencer, sempre experimentando faces, talvez tenha saído da concha enquanto adolescente. Justamente da casca que surgiu a ideia do primeiro ensaio, em relação com outros dois elementos-chave: o buquê de autopiedade e a gargantilha de fósforos.

Eco Zazu - autofabulação drag
Figura 2 – Fragmentos da série Estudo para Eco #1 (Buquê de Autopiedade), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

O leque de habilidades que ser uma drag autônoma exige se abriu, me desafiando. A primeira, a mais demorada e talvez a mais importante na transformação, é vizinha do que sempre fiz, mas pintar meu rosto não é pintar uma tela: preciso primeiro conhecer os contornos do meu suporte, onde sombrear, onde iluminar, o que esconder, o que criar. As peculiaridades da maquiagem demandam uma pesquisa própria na cultura drag entre a imensidão de truques/saberes que antes só podiam ser aprendidos através de uma outra drag e hoje estão a dois cliques de distância – aprendi a esconder sobrancelhas com cola bastão, pó translúcido, corretivo vermelho e base para então desenhar novas que nunca ficarão simétricas; a moldar queixos, narizes e maçãs do rosto apenas com contorno e iluminador; a desenhar uma nova boca e a emoldurar olhos. Não foi útil saber a proporção de terebentina para óleo de linhaça ou como não deixar uma pincelada evidente na tela, mas por de trás das ferramentas diferentes, a teoria se aplica: contrastes e harmonias cromáticas, transição de tons, luz e sombra, linhas e manchas. Não apenas no rosto, mas penso todo o conjunto da montaria como elementos de uma pintura que dialogam, se reafirmando ou contradizendo dentro de um conceito/ideia/composição total. 

O enquadramento das fotos em plano médio no primeiro ensaio me salvava, propositalmente, de lidar com o restante da montaria: meu figurino era uma simples linha felpuda contornando meu peito, emprestada da sacola de materiais e retalhos de minha mãe. Ainda não me sentia segura o suficiente para sequer comprar roupas para mim, e não sabia costurar para materializar as ideias que tinha – apenas aqueles retalhos, cola, grampos, muita vontade, linhas soltas e fios corridos. Desses materiais e do meu analfabetismo têxtil nasce o segundo ensaio.

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Figura 3 – Fragmentos da série Estudo para Eco #2 (Linhas soltas e fios corridos), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

Diferentemente dos dois primeiros, porém com as mesmas limitações, o terceiro ensaio é mais um retorno à infância, agora a nomeando e categorizando como uma experiência compartilhada: uma criança viada. Incorporo, ainda do meu jeito gambiarrista, elementos como laços, bonecas, super-heróis, gravatas, colares e brincos que remetem aos estereótipos de gênero impostos desde o momento de nossa designação como menino ou menina, que, para cisgêneros, desencadeia toda uma performance que guiará o resto de suas vidas numa constante reafirmação, construindo o gênero que diz ser apenas consequência. Além dos elementos simbólicos mais reconhecíveis, os prendedores de roupa acoplados nas unhas fazem menção a essas pequenas performances da criança viada que buscam experiências próximas às que foram reservadas para aquelas designadas ao sexo oposto. Também é o caso da toalha na cabeça para simular cabelos longos, mas aqui representada através de uma memória particular: as fitas amarradas em minha orelha remetem às que amarrava nas orelhas de Leitoa, a ursinha preferida que fazia parte da Turma do Pooh como Leitão e foi transformada na boneca que nunca tive, para quem fazia vestidos e roupinhas com formas de docinho e pedaços de tecido amarrados. É uma infância de hoje, de crianças que já são adultas e de crianças que já nem mais existem, todas compartilhando de uma mesma verdade que transbordava de seus corpos desde muito cedo. Verdade inconveniente e inexplicável que, por este mesmo motivo, são forçadas a esconder apenas para não entrar em choque com uma cisheteronormatividade que colapsa com a simples existência de um ser que não se adequa a seus padrões e é inocente demais para o fazer de forma confrontante. A criança viada escancara a ficção e o caráter performativo do gênero, quebrando a sequência sexo-gênero-sexualidade pressuposta como natural da forma mais doce e explosiva possível.

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Figura 4 – Fragmentos da série Estudo para Eco #3 (look para seu próprio chá de revelação), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

Um dia minha mãe achou um bolero felpudo branco, disse que lembrou de mim e perguntou se eu queria. Outro dia, casualmente procurando bijuterias online, achei brincos de pompom. Como peças de um quebra-cabeça que guardo esperando encontrar suas complementares, algumas ideias vão se formando ao longo do tempo e magnetizando umas às outras até formarem uma composição coesa e o conceito só vem no final, às vezes meses depois, como uma fita que amarra esse conjunto com um laço no topo: foi o caso do quarto ensaio. Após produzi-lo de forma tão espontânea, apenas encaixando peças, vi nos retratos algum tipo de palhaço soturno, descrição que de certa forma me cabe e já existe em forma de personagem: o palhaço trágico de um dos meus jogos favoritos desde os 7 anos de idade, The Sims. O palhaço aparece quando seus personagens estão miseráveis e têm sua pintura em casa. Ele tenta animá-los mas não consegue por também ser sentimental, os deixando ainda mais tristes. Anda em torno da casa chorando e tossindo, e a única coisa que o faz feliz é insultá-lo. Só é possível livrar-se dele pondo fogo ou vendendo sua pintura, chamando os Exterminadores de Palhaços ou fazendo seu personagem ficar feliz. 

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Figura 5 – Fragmentos da série Estudo para Eco #4 (o palhaço trágico), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

Ainda não estava pronta para sair de casa, mas o suficiente para pisar fora do quarto. O quintal da casa dos meus pais no Rio Tavares foi mais um passo na lenta transição do fundo branco do estúdio improvisado, que passou para fundo preto e cinza no Estudo #4 feito de lençóis, para então me fotografar no ensaio seguinte diante dos lençóis confessados e pendurados no varal com um pedaço de mundo nas bordas das fotos. Entre eles, Eco do sonho de uma dona de casa suburbana, uma versão glamourizada, hollywoodiana, algo que nunca foi nem será para elas nem para mim: da esposa que eu nunca vou ser, para a esposa que eu nunca vou ter. Preocupo-me aqui, pela primeira vez, com enchimentos de peito e de quadril: começo a fabular meu corpo-prótese em constante mudança (como todos os outros) e a aprender como moldá-lo com espumas, silicones, sutiãs, espartilhos e meias-calças. 

Eco Zazu - autofabulação drag
Figura 6 – Fragmentos da série Estudo para Eco #5 (do que nunca será), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

Do outro lado do quintal, crescia entre os pés de milho de nossa horta o pesadelo: um ser que não é orgânico nem transgênico, nem planta nem gente, nem homem nem mulher. Em Março de 2021, colhendo milhos com minha mãe, fiquei deslumbrada com a textura dos cabelos sedosos do vegetal que me lembraram da minha falta de perucas, com apenas uma até então. Como aconteceu com o bolero felpudo branco no Estudo #4, aquela textura pedia um look inteiro ao seu redor: nesse caso, um look inteiro de milho. Como aquela safra que colhíamos já estava madura, plantamos uma nova e esperei quatro meses para colher o resultado, que serviria de cenário e de material para a montaria: cabelos de milho, folhas de milho, espiga de milho e milho estourado. Vários testes foram necessários antes da confecção final, uma vez que trabalhar com material orgânico também demanda aprender seu tempo e formas de conservá-lo. Os cabelos e as folhas secavam em questão de horas e perdiam sua aparência desejada, o que é um grande problema para uma equipe de uma mona só que passa quatro horas apenas se maquiando. Tudo tinha que ser planejado para ser feito na hora certa: primeiro a saia de pipocas do vestido na noite anterior, que são mais resistentes, para na manhã seguinte fazer a parte superior de folhas. No início da tarde seria a peruca feita de cabelos de milho, que deveriam estar na água até colar na rede base para a peruca e depois sempre borrifados. Por fim, no meio da tarde começaria a maquiagem para fotografar de noite. O medo de ser observada ainda estava lá, com cada flash imaginando o que os vizinhos iriam pensar. Sabia, entretanto, que deveria me acostumar a ser olhada e com o tempo acabar gostando disso, resgatar aquela parte de mim que fazia peças de teatro para a família debaixo do abacateiro com a prima. Agora sou só eu, modificada, cheia de próteses, maquiagem, artifícios e truques para me sentir mais orgânica, mais verdadeira. Eu, transgênerica.

Eco Zazu - autofabulação drag
Figura 7 – Fragmentos da série Estudo para Eco #6 (T de orgânica), Eco Zazu. Drag em fotografia digital, 2021. Imagem da autora.

A partir de então, quando o mundo reabriu em 2022, pisei lá fora. Comecei a frequentar espetáculos, festas, bares e vernissages montada, por vezes deixando as pessoas em dúvida se faço parte do show/mostra, se sou uma artista convidada ou uma intrusa descarada. Não sou mais uma imagem congelada, mas viva, me relacionando, afetando e sendo afetada por outres. Comecei a performar e fazer dublagens, e como já desconfiava, acho que é o que mais gosto de fazer. Aprendi muitos truques e ainda restam muitos outros para aprender, como o desafio de evitar que minhas sobrancelhas coladas derretam com o calor insuportável da ilha ou como voltar para casa com todas as unhas coladas nos dedos. Exijo muito de mim, esqueço o quão recente tudo isso é e o tanto que já andei, logo eu que olho tanto para o passado – espelho seletivo. Secretamente acredito que todo esse processo não vai ter mais tanta graça quando tudo estiver resolvido e eu não sentir mais as borboletas no estômago que acompanham aquele medo, um medo que tenho descoberto ser doce, aquele mesmo de empurrar-se para fora da concha. Antes o sentia tão intenso ao simplesmente pisar fora de casa, agora está quase apagado nessa situação, mas volta ao entrar ou mesmo pensar em estar num palco. Quero sentir esse tipo de medo mais vezes.

UMA BREVE REFLEXÃO ACERCA DO PROCESSO CONSTRUTIVO DA PERFORMANCE “A BICHA É BICHO” 

Henrique Alves Amaral a.k.a Monalisa de Bandana

Este documento é o registro de um percurso. Há aqui, o que foi desenvolvido por mim, Monalisa de Bandana, durante a disciplina Práticas Performativas I, ministrada pelo artista multimídia e professor Mário Ramiro. Ao final do curso pudemos expor nossas obras no “Laboratório do Semestre do Departamento de Artes Plásticas”, que aconteceu no Espaço das Artes da Universidade de São Paulo (EDA-USP) de trinta de junho até quatro de agosto de 2025.
Na abertura do Laboratório, em trinta de junho, apresentei ao mundo a performance “A BICHA É BICHO”. Ademais, hei de refletir acerca deste processo criativo, percorrendo teorias e esboços artísticos que estiveram presentes no processo de criação dessa obra. Sem mais delongas, vejamos a proposta da performance para entender do que estamos falando e iniciarmos a discussão.

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Bruno Makia.

DESCRIÇÃO LITERÁRIA DE “A BICHA É BICHO”

A performance é iniciada, em silêncio. Entra de algum canto a protagonista, caminha desconfiada, veste uma saia feita apenas de franjas, tem seus cabelos armados, embaraçados, bagunçados como uma cria da mata, Em seu peito nu, lê-se a palavra “SUJO” numa cor similar à sangue, em seu rosto todo uma branca maquiagem, em seus olhos a negra sombra de guerra.  Caminha como um animal arisco pronto para revidar. Vê pessoas, são os espectadores que foram ao espaço onde a performance é realizada, não os reconhece – há estranhamento, certa curiosidade.

 Segue em direção ao centro do espaço,  um quadrado de um metro e meio, forrado com plástico sobre o chão. Antes que ela possa centralizar-se, começa um áudio ao fundo. Primeiro, ouve-se a curiosa pergunta “BICHA?”, depois, numa tonalidade espantosa “ OH, BICHA!”, e então, numa gozação como quem faz piada “HAHAHA BICHA!”, e outro, e outros, até que tornam-se um grande e irritado coro que entoa “BICHA! BICHA! BICHA!”. Em suas vozes, o áudio ganha volume, intenção e agressão verbal. A protagonista, agora acuada, se escora pelos cantos, esboçando grunhidos com a boca, fazendo movimentos corporais baixos, representando a vergonha, o medo  do ambiente, a dor da recusa, a dor da exposição e a solidão. Ela corre até o centro,  dá um grito, o coro se cala. 

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”. Foto: Bruno Makia.

Ela balbucia, respira profundamente,  levanta o rosto, a postura, o corpo. Então, passa a uivar, a latir, a cacarejar, relinchar. Emite sons e traça movimentos  da simbologia do reino animal, age como tal, se faz pertencente àquela classe. Depois, num transe com o público, passa a dizer incansavelmente olhando no fundo dos olhos de cada um:  “a bicha é bicho, a bicha é bicho, a bicha é bicho”. Inicia-se a dublagem da canção “Não Recomendado” de Caio Prado. 

Durante a dublagem, a performer inicia traçando movimentos de poses para câmera. Diz a canção: “uma foto estampada numa grande avenida”. A branca moldura de um quadro, antes posicionada no chão do centro do espaço, ganha vida na mão da protagonista, que com força segura, entra dentro dela, se contorce  em movimentos, se apreende com dificuldade. A canção segue: “a placa de censura no meu corpo diz, não recomendado à sociedade”. A protagonista, se aproximando do final da performance, pela primeira vez senta ao chão, sob os próprios joelhos, como quem deixa o corpo pender de cansaço. Em sua frente, há uma bacia prata com líquido terroso, a letra diz: “não olhe pro seus olhos, não creia em seu coração, (…) diga não à aberração”, e sob um clímax passa a agredir o próprio corpo, com as mãos lambuzadas naquele líquido, vai se estapeando na face, nos seios, nos braços, nas pernas, marcando a si mesma em sujeira, contaminando o espaço (apesar do forro de plástico) com seus respingos.

Fim. 

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Bruno Makia.

O QUE SERIA UMA PERFORMANCE? 

O que seria uma performance? O tudo e o nada, o ir e o vir, o estar e o não-estar. O conceito de Performance é uma resistente afirmação anti-uno, inimiga de uma unidade conceitual. Sua  nomenclatura passou a  ser afirmada em 1970, apesar de já existir nas ações. Ela se faz diversa, sendo uma ampla categoria artística onde cabem muitos elementos, trazendo consigo desdobramentos das pinturas, esculturas, carregando influência das artes interdisciplinares musicais, teatrais, dançantes, poéticas, teórico-conceituais. Atua em forma de vídeos, instalações, desenhos, textos, fotografias, corporalidades e o que se possa imaginar. Diz Regina Melim (2008) que quando o  assunto é performance, é sempre um número muito variável de concepções, as quais não se postulam como obrigatórias para atingir um consenso.

Com isso, a performance não é serva do corpo, apesar de muito usá-lo. É de costume associá-la apenas ao corpo, e a uma obra que acontece ao vivo, com um público presente naquele espaço-tempo em específico.  De fato essa categoria performática existe, mas Melim e Ramiro nos ajudam a pensar numa ampliação metodológica dessa arte – a potência das artes plásticas e visuais performáticas. 

Tendo uma breve contextualização dessa definição, pensemos agora no corpo e espaço da performance “A BICHA É BICHO”. A obra chega ao fruidor no que se chama espaço de performance (Melim, 2008). Ali, se interage com a obra. O olhar, o toque, a presença, o sentir e o refletir do espectador são necessários para a composição – somos uma extensão mútua, atuamos juntos. 

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Bruno Makia.

Neste caso, o recurso base foi o corpo – enquanto escolha pessoal. Como pensa Michel Foucault (2013), o corpo é a utopia de todas as utopias. É meu marco-zero, e através dele e sua inserção no mundo é que a arte pode surgir. As questões políticas que levaram à criação dessa performance atravessaram meu corpo, as pautas sociais baterem de frente com ele, as opressões colidiram em meu peito, em cima de minha cabeça, me comprimiram. Através de meu corpo, com meus olhos pude ler os conceitos de performance, e me contaminar com suas ideias. Através da animalidade investigada em meu próprio corpo, homem-animal, pude entender a expansão das articulações e as possibilidades para além do bípede, assumindo com orgulho o ser bicho – afinal, somos todos animais. 

DOS ELEMENTOS ESTÉTICOS USADOS NA PERFORMANCE

Tudo fala. Todos os elementos presentes na obra trazem consigo uma simbologia minuciosamente pensada para se refletir acerca delas.

Em relação a maquiagem, pensemos em suas referências artísticas e proposta almejada. O intuito é ser animal, metamorfo, desviante da norma humana. A base da pele, inteiramente branca e a cor e formato das sombras, são homenagens a Ney Matogrosso, esse homem-bicho, que carrega em sua existência e performances a representação e força animalesca.

A peruca, modelada num arisco vermelho, armado, arrepiado, bagunçado, embaraçado remete a Caipora, criatura mitológica brasileira que protege a mata.
Em relação à vestimenta, pouco se há. O figurino é em sua maioria o corpo da protagonista – ela é um animal, não existem convenções sociais que a obriguem a estar vestida. A única coisa que se usa é uma saia com tiras desfiadas num oxford marrom  –mais uma vez, influência de Ney. Há fios de tecido que se misturam ao nu de suas genitálias, como pelos que crescem e se alastram. 

No peito, embebida em tinta vermelha, a escrita SUJO, estampa  em letras maiúsculas a ótica da sociedade sobre aquele bicho. 

UMA BREVE REFLEXÃO FILOSÓFICA ACERCA DA PERFORMANCE

“A BICHA É BICHO” surge enquanto uma tentativa de transmutar reflexões filosóficas apresentadas num papel, para os palcos com práticas corporais artísticas. Ou seja, para que meu corpo representasse essa performance, ele refletiu e buscou entender a intersecção entre filosofia teórica, arte e vivência (política). Empiricamente e teoricamente, vejo corpos como o meu submetidos a um sistema de violências implícitas e explícitas. Para muitos, somos o escárnio social. Por trejeitos afeminados, quadris soltos, batons e tintas sobre a cara nos violentam. Nos marcam a ferro e fogo enquanto bicha. Ou melhor, enquanto bichos. Somos viadinhos, somos bambis, somos borboletinhas, somos cobras, somos veneno, somos o oposto, o avesso, o signo da morte. 

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Bruno Makia.

Este trabalho é uma alusão direta a formas de opressão animalizada sob as quais submeteram a comunidade LGBT+. Num sistema que destrói a mãe natureza, buscando lucro e luxo, entendem o ser animal enquanto algo ruim – essa é a ótica do colonizador. Portanto, toda a representação estética apresentada no trabalho, buscam traduzir teorias que abordam sobre discursos de poder que nos oprimem socialmente, moralmente e institucionalmente reverberando domínio sob nossos corpos e nossas identidades. 

Foucault no decorrer de sua trajetória intelectual, discorreu diversas vezes acerca dos conceitos de poder. Porém, nos ateremos em reflexões publicadas nas obras História da Sexualidade: a vontade de saber e Microfísicas do Poder. Lendo Foucault pude entender como sou violentada por uma prática negativa conceituada enquanto jurídico-discursiva (Foucault, 2020). Existem práticas discursivas e institucionais que vem trabalhando mecanicamente por séculos para se instaurar e aparentar uma naturalização social. Essas carregam consigo dogmas, criam suas próprias regras, escolhem quais corpos querem representar e quais querem negativar (Foucault, 2020). Nesta reflexão, entendemos que existem discursos em nossa sociedade que se articulam enquanto opressores de gênero, sexo e identidade, mesmo sabendo que estes oprimem também a partir da racialidade, ou normalidade mental

Mas afinal, como atua essa prática normalizada?

Faço minha trajetória de exemplo. Eu nasci e através da minha genitália me marcaram socialmente enquanto sexo masculino. Ganhei roupas, um enxoval, enfeites de quarto, majoritariamente azuis. Fui à escola, e andando como bípede riram de mim, falaram sobre eu ter um jeito errado de andar e conversar. Reclamei à professora, ela disse que era melhor eu aprender a andar e falar como homem para evitar confusões. Eu cresci, me tornei adolescente, descobri o que era paixão. Tive um amor efervescente, não pude exercê-lo; a igreja que frequentava dizia que eu não merecia o paraíso divino por sentir aquilo. Minha família, concordava com essa autoridade castradora e a reproduzia. Tantos órgãos de poder me dizendo que eu não podia ser aquilo. Afinal, que seria “aquilo”? Antes mesmo de saber o que era ser LBGT+ eu já sabia o que era violência e abuso de poder. 

Assim se organiza o poder do discurso, que sobressai a linguagem e atua também através do dispositivo. Em instituições, em leis, em valores morais vigentes, em servidores do Estado, nas burocracias, nas reflexões filosóficas, nas diversas áreas das ciências (Foucault, 1984). Diversos recursos que refletem e influenciam diretamente na formação e ação do senso comum. Se reproduzem opressões sem nem bem saber o motivo para tal, simplesmente há um imaginário instaurado, tido como indubitável. Quanto mais se exercem essas práticas mais parece que sempre estiveram ali, responsáveis pela interdição do ser marginal, impondo a lógica da censura e delimitando às formas de existência (Foucault, 2020). Essa é a unidade jurídico-discursiva em ação. 

 Entretanto, nada está realmente estabelecido ou ganho. O autor define o conceito de poder e nos põe a pensar em sua disputas e tensionamentos constantes:

Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de forças imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes, as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de forças encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas, ou ao contrário, as defasagens e contradições que se isolam entre si; enfim, as estratégias que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. (FOUCAULT, 2020, p. 100-101)

Sim, o poder produz positividade (Foucault, 2020) – eu diria que em parte majoritária. Entretanto, neste trabalho nos ateremos a sua negatividade e essa cristalização institucional jurídico-discursiva.

Partindo de minha existência no mundo e do contato com a teoria crítica, pude entender o porquê desde muito cedo fui moralmente violentada: eu não cumpria a norma esperada. Aqui, coloco-me enquanto um corpo dissidente queer e praticante da arte marginal Drag. 

Sendo assim, agora nos ateremos a uma estrutura de  opressão específica, a reificação da binariedade e dos gêneros. Em Problemas de Gênero, Judith Butler nos põe a refletir sobre os processos de criações culturais das identidades e gêneros, assim como práticas de subversão dessas (Butler, 2016). E, nas páginas concluintes do primeiro capítulo Sujeitos de Sexo/Gênero/Desejo vemos clara ligação às reflexões foucaltianas. 

Existe uma estrutura reificada onde a binariedade é  aceita e imposta. As práticas reguladoras uniformizam as identidades por meio, por exemplo, da heterossexualidade compulsória e falocentrismo, fazendo com que se exija um modo específico de ser e se portar no mundo (Butler, 2016). Vemos aqui, as estruturas de poder organizando gêneros e identidades. Claramente, um corpo queer põe em xeque as normas anteriormente impostas, quando não age conforme esperado. Dando assim, uma possibilidade de denúncia e um possível deslocamento da lógica estabelecida. 

Afinal, como subverter a norma estabelecida estando dentro da mesma? Não há possibilidade de criarmos novos gêneros e identidades do zero, para recomeçar partiremos de dentro da norma? Não sou eu quem vos trará essa resposta, só digo que, enquanto artista enxerguei nos signos animalizados da performance uma possibilidade de ruptura, ou provocação, da lógica. 

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Bruno Makia.

Ao afirmar ser animal, ser escória e ser bicha, eu não compactuei ao pacto deles. Na verdade, busquei subversão. Afirmei força, poder, transgressão, reconexão à natureza anterior à colonização. Assumo com orgulho ser bicho, entendo às dificuldades e mecanismos de opressões aos  quais sou submetida. Ainda assim, não abro mão de o ser. Demonstrei medo, dor, raiva, resistência, sentimentos estes, que todos os animais têm. 

Ao se assumir bicho, eu não reivindico um retorno a uma natureza essencial ou anterior à cultura. Trata-se de um gesto de recusa da lógica binária colonial que produziu a separação hierárquica entre homem digno e criaturas indignas, entre humano e animal. A animalidade deixa de operar como signo de degradação para tornar-se espaço possível de aliança, coexistência e resistência. 

Portanto, falo enquanto testis, conceito alemão trabalhado por Sueli Carneiro no livro publicado sobre sua tese (2023). Falo como testemunha de um evento radical colonizador, testemunha das artistas marginais que não tiveram devido reconhecimento, testemunha das que vivem em condições sub-humanas por serem dissidentes e não terem o mínimo. Testemunha das bichas animalizadas.  A nossa existência, desde a criação da ideia de Brasil, foi difícil. Na tradição da Europa Ocidental, política e religiosa, os nossos corpos nunca foram bem quistos, e neste embate cultural, ainda mais com a colonização, sempre houve formas de resistência (Foucault, 2020). Testemunho não só a dor das minhas, como as estratégias de resistir e permanecer. 

Este trabalho é uma tentativa de resistência artística. É a tentativa de retirar a subalternização do animal-bicha instituído pelo colonizador. Acolho a figura do animal como uma existência que escapa às classificações e normatizações impostas ao sujeito moderno.

Trabalhar a animalização estabelecida a partir das opressões sócio-culturais sob o corpo queer numa performance enquanto Drag Queen é instigante. Pensar performance de gênero, desconstrução de estereótipos, resistência da arte marginal, e transformar essa reflexão teórica numa obra prática, performada no EDA-USP, é satisfatório. Estar num espaço, como a maior universidade da América do Sul, é poder pensar nas diferentes formas de se fazer arte, pesquisa, ciência e refletir em como legitimá-las academicamente.

A BICHA É BICHO
Performance “A BICHA É BICHO”.  Foto: Isabela Moraes.

 Agradeço ao sagrado e eterno Ney Matogrosso por sua brilhante trajetória, carreira disruptiva, animalizada e extremamente sensível que muito me inspira na construção performática da minha Drag e em meus estudos de corpo.

Agradeço ao Mário Ramiro, professor e artista que me possibilitou acesso a novas referências bibliográficas e artísticas. E, importantemente, abriu espaço para que eu realizasse este trabalho, que é um laboratório criativo. 

 Agradeço ao cantor e compositor Caio Prado pela criação de Não Recomendado.

Agradeço ao espetáculo teatral Eunucos das Irmãs Brasil que assisti na Mostra Internacional de Teatro (MIT-SP) em 2024, onde pude abraçar  a nudez, despudor e provocações animalescas das atrizes em cena. 

Agradeço a exposição Fabulação Bicha de Giovanni Bosica que esteve em cartaz na Casa Fluida no segundo semestre de 2025.  Em específico saúdo a Instalação  intitulada “SUJO” – foi o empurrão imagético necessário na etapa final de “A BICHA É BICHO”. 

Todos estes foram referência criativa e seguem sendo resistência. 

BIBLIOGRAFIA:

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad.: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. 

CARNEIRO, Sueli.Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar, 2023.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber (vol. 1). São Paulo, Paz e Terra, 2020. 

____________. “Nietzsche, a genealogia e a história”. In. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 4ª ed. Graal, 1984.

____________. O corpo utópico, as heterotopias. Posfácio de Daniel Defert. São Paulo: Edições n-1, 2013. 

MELIM, Regina. Performance nas Artes Visuais. Zahar Editora. Rio de Janeiro, 2008.

Uma drag queen vitruviana

Profª Maldita (Douglas Ostruca)

Ao nos deparar com uma compilação de imagens do elenco de artistas selecionadas para a 18ª temporada de RuPauls Drag Race (RPDR), percebemos uma redundância estética expressa no estilo das maquiagens. Mudam as cores, a intensidade das linhas, a composição dos olhos, mas o formato dos contornos e da iluminação se repetem. Olhos e bocas grandes, narizes afinados, zigomáticos ressaltados, recorrências também percebidas nos tutorias de montação drag publicados no YouTube investigados na pesquisa de mestrado e no meu próprio processo de montação como drag queen. Essa predominância não é apenas uma tendência, os procedimentos concretos de aplicação dos produtos sobre o rosto dão a ver lógicas abstratas que sustentam um determinado formato de rosto, sendo essas regras de composição implícitas que nos interessa aqui mapear.  

Figura 1: Elenco da 18ª temporada de RPDR. Fonte: DragRaceTea – Reddit

Entre os aspectos evidentes nos rostos das 13 bonitas apresentadas na figura 1 estão a simetria e a proporção harmônica na distribuição das zonas de contorno e iluminação, bem como na construção dos olhos, narizes e bocas. Quem já se arriscou na arte da maquiagem, seja drag ou não, sabe como é difícil espelhar os traços, raramente consigo espelhar e recorro ao famoso truque do “se errar, aumenta”. É por isso que na maior parte das vezes meu delineado vai até a base do cabelo e, observando bem, ainda assim a simetria não acontece. Beleza e simetria aparecem à nossa percepção como sinônimos, mas como é que tais signos foram articulados?

Entre os expoentes na história da arte a tratar das proporções do corpo humano está o pintor e cientista italiano Leonardo Da Vinci, com o Homem Vitruviano, construído por volta de 1490, o qual por sua vez parte dos estudos do arquiteto romano Marco Vitrúvio Pólio desenvolvidos em I a.C. O que nos parece é que a maquiagem drag queen contemporânea opera como uma tecnologia de reinscrição de um cânone ocidental de beleza baseado na proporção matemática, a qual apaga as diferenças ao ser tomada como universal. Para desenvolver tal argumento, trabalharemos com um deslocamento da figura do Homem Vitruviano (figura 2) para a Drag Queen Vitruviana (figura 3), operando como uma personagem conceitual capaz de tornar hiperbólicas nossas observações.

Homem Vitruviano
Figura 2: O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci. Fonte: reprodução Revista Oeste
drag queen vitruviana
Figura 3: A Drag Queen Vitruviana. Fonte: Elaborada com Chat GPT.

Em seus estudos, o semioticista Umberto Eco (2014) localiza uma articulação entre beleza e proporção na filosofia platônica. Platão trata a proporção em seu caráter ontológico, estando ela envolvida na constituição do cosmos. Nas palavras do filósofo, “[…] o mais belo dos laços é aquele que, na medida do possível, faz de si e das coisas afins uma coisa só: ora, a proporção realiza isso de modo belíssimo” (Platão, séc. IV a.C., Timeu, 31c-32b, apud Eco, 2014, p. 49). Nisso, a proporção aparece como uma relação, um laço que une elementos distintos em “uma coisa só”, ou seja, a unificação do heterogêneo. Em sua leitura, Eco (2014) destaca que em Platão a beleza se distingue do suporte físico no qual pode vir a se manifestar. Nesse sentido, a arte aparece como uma cópia da beleza autêntica, devendo ser substituída pela beleza das formas geométricas compostas pela proporção. Apesar dessa desconfiança de Platão em relação a arte, Eco sugere que as ideias do filósofo influenciam artistas daquele período como é o caso do escultor grego Policleto que constrói uma estátua com base em regras de proporção tomadas posteriormente como canônicas. 

Também interessado nas expressões da proporção na arte, o pesquisador Mario Curti (2014)) aponta o arquiteto romano Marco Vitrúvio Pólio, em I a.C, como um marco no estabelecimento de uma descrição do corpo masculino ideal. Segundo Curti, esta descrição se aproxima mais de um ideograma do que da representação de um corpo humano, sustentando-se apenas na imobilidade plana e sem volumes. Ao se dar conta da inconsistência de seu modelo ideal, Vitrúvio propõe ajustes no cânone através da teoria das correções ópticas, a qual para Curti permanece limitada, já que toma como base um ponto de vista fixo ao nível dos olhos que não é definido especificamente. Esses ajustes quebram por si só com a busca por uma proporção canônica universal que possa ser definida objetivamente.

Tanto Umberto Eco (2014), quanto Mario Curti (2014), observam uma influência da filosofia e da arte grega e romana no Renascimento, com destaque para a articulação entre as noções de beleza e de proporção matemática. É nesse contexto que Leonardo da Vinci reaviva o cânone de Vitrúvio ao compor o conhecido Homem Vitruviano como corpo ideal. Assim como Vitrúvio enfrentou problemas de distorção à visão na busca por medidas fixas em seu cânone, Da Vinci precisou incluir ajustes como tentativa de ajustar as inconsistências de uma proporção fixa. Nisso, o pintor considerou variações decorrentes do movimento dos corpos e da idade. Em vista disso, Curti destaca a impossibilidade de se efetivar um cânone das proporções, não havendo convergência em termos de padrões únicos que abranjam a heterogeneidade de expressões do corpo humano. É nesse sentido que o escultor renascentista Vincenzo Danti afirma que não há uma proporção fixa nas representações do corpo humano em pinturas e esculturas, confrontando as buscas por identificar tal padrão. Michelangelo di Lodovico  é outro pintor e escultor a tensionar a busca pelas proporções ideias, sugerindo que artistas deveriam confiar apenas no senso de proporção dos seus olhos, colocando a percepção visual acima dos cânones. Em relação a isso, Eco (2014) ressalta que apesar da articulação entre beleza e proporção se fazer presente em distintos momentos históricos, há uma diferença no que em cada contexto é entendido como proporcional. Além disso, o semioticista  alerta para o risco das leituras anacrônicas, o que sugere a necessidade de se demarcar a diferença entre a perspectiva de beleza na era clássica, no renascimento e no que hoje percebemos como belo nas montações drag queen.

Mas se a nossa Drag Queen Vitruviana não é uma cópia do Homem Vitruviano de Da Vinci, então porque sugerir tal figura para pensar os parâmetros de maquiagem em uma montação? O que tais figuras compartilham não são os mesmos códigos de beleza expressos visivelmente. Michelangelo, Vincezo e Eco nos dizem da impossibilidade de se estabelecer uma mesma proporção que seja fixa e comum a diferentes obras de arte em distintos períodos históricos. Disso, entendemos que na materialidade das montações drag queen também são múltiplas as variações proporcionais que regem as maquiagens. Contudo, o que a figura da Drag Queen Vitruviana dá a ver, assim como o Homem Vitruviano, é a valorização da própria proporção como signo de beleza. Isso é que opera como uma lógica de funcionamento nas montações. Mesmo que concretamente sejam múltiplas as variações, há nelas uma busca pela beleza ideal expressa na proporção harmônica e na simetria das formas desenhadas sobre os rostos. Trata-se de uma reinscrição da busca incessante pela proporção como forma de alcançar uma harmonia reconhecia coletivamente como bela.

Isso vai ao encontro da afirmação de Mario Curti (2014), de que apesar de criticada e tensionada ao longo dos séculos, a proporção como régua para medir a beleza ideal insiste em retornar. Para o pesquisador, isso fica evidente no caso dos estudos do matemático romeno Matila Ghyka (1977)) que no início do século XIX procura por indícios da repetição da proporção áurea (também conhecida por proporção divina ou número de ouro) em diferentes formas de expressão, indo de conchas, pinturas, construções Greco-Romanas e Renascentistas, até o corpo humano. Isso demonstra o que Curti entende como uma obsessão ocidental pela busca da proporção universal como princípio de organização das formas heterogêneas do mundo, a qual é associada à beleza.

Figura 4: Icosaedro. Fonte: The geometry of art and life – Matilda Ghyka (1977, p.65).
Análises harmônicas de Elen Wills
Figura 5: Análises harmônicas de Elen Wills. Fonte: The geometry of art and life – Matilda Ghyka (1977, p.102).
Figura 6: Diagrama de proporções de Elen Wills. Fonte: The geometry of art and life – Matilda Ghyka (1977, p.103).

Em seus estudos sobre as proporções do rosto humano, Matila Ghyka (1977) identifica uma correlação entre a simetria do formato geométrico do icosaedro (figura 4), identificado em pirâmides egípcias, e os rostos humanos ideais tidos pelo autor como uma média entre os indivíduos. Nas palavras de Ghyka, “Se tomarmos (…) a projeção do grande icosaedro como a moldura do rosto humano, LOK é a horizontal dos olhos, mn a da ponta do nariz, PS a da boca” (1977, p.66, tradução nossa). Isso evidencia não só a valorização da simetria, mas uma busca por estabelecer um padrão rigoroso do que seria o rosto humano ideal. Nessa mesma linha de pensamento, Ghyka ainda sugere que tais rostos ideais correspondem com a proporção áurea (Φ), chegando a especificar as razões matemáticas. Em suas palavras,

No rosto mediano ou ideal, encontramos também a proporção Φ entre a altura do rosto (até a raiz do cabelo) e a distância vertical ‘linha das sobrancelhas-ponta inferior do queixo’, e entre a distância vertical ‘parte inferior do nariz-ponta inferior do queixo’ e a distância ‘linha de encontro dos lábios-ponta inferior do queixo (Ghyka, 1977, p.98, tradução nossa).

Por essa via, Ghyka afirma que tais parâmetros foram encontradas nas medições do rosto da atleta Helen Wills, campeã olímpica de tênis (figura 5). Além do âmbito da beleza, o autor chega a associar tais proporções a um padrão de normalidade, reconhecendo que existem variações individuais, mas que os corpos saudáveis expressam um “design ‘sinfônico’ perfeito ou tema harmônico” (1977, p.97, tradução nossa). Entendemos tal cadeia associativa não só como obsessiva, conforme sugere Curti (2014), mas também como delirante. É o delírio ocidental de apagar as diferenças em prol de um padrão homogêneo. Trata-se de um modo de pensamento que estabelece um padrão de medida a partir do qual as diferenças serão categorizadas, hierarquizadas e, sempre que possível, corrigidas. 

Chama a nossa atenção que a sobreposição da proporção áurea sobreposta em rostos, conforme proposto por Ghyka, reaparece na maquiagem drag queen como um sistema de distribuição de luz e sombra, produzindo um rosto idealizado através de parâmetros geométricos (figura 7). Nas maquiagens artísticas, e também sociais, busca-se ressaltar com uma base de tom mais claro a chamada “zona T”, construída através de pontos paralelos em uma linha vertical (um ponto na testa próximo às sobrancelhas, a linha superior do nariz, um ponto acima do lábio e outro ponto no queixo). É curioso que esses pontos correspondam com as proporções mencionadas por Ghyka sobre o rosto ideal. Além desses, as maquiagens também ressaltam a região abaixo dos olhos, formando triângulos invertidos. Já a parte superior da testa, os lados do nariz, as bochechas e os ossos do maxilar tendem a ser contornados em um tom mais escuro de base, reforçando a ideia de uma moldura que pode até lembrar as arestas do icosaedro presentes nas leituras de Ghyka (figuras 4 e 6). 

Figura 7: Diagrama das zonas de contorno e iluminação de maquiagens drag queen. Fonte: Elaborada com Chat GPT.

Cabe notar que as variações nas medidas de rostos individuais em relação aos padrões ideais mencionadas por Ghyka, também são consideradas na materialização do diagrama de contorno e iluminação das maquiagens. Embora haja uma região comum, os traços de luz e sombra variam de um rosto para o outro, tendo em vista que os rostos em si apresentam formatos distintos. Com isso, as variações heterogêneas podem ser atenuadas e sobrecodificadas pela proporção ideal e supostamente universal. O que está na cara nessa lógica de pensamento, mas que muitas vezes não vemos é que o concreto, os corpos em si, são o que variam e mesmo que seja possível extrair um ideal a partir de uma média entre essas variações, ainda assim, na materialidade dos corpos permanecem as variações. São as diferenças que precisam ser apagadas e ajustadas para que se sustente a ideia de uma proporção matemática fixa, percebida como ideal, normal, saudável, bela. Reencontramos aqui o problema enfrentado por Vitruvio e, posteriormente, por Da Vinci, os quais acabam por sugerir flexibilizações nos cânones para abarcar as variações de ponto de vista, de postura e de tonicidade dos corpos representados artisticamente. Indo ainda mais longe, Michelangelo di Lodovico e Vincenzo Danti criticaram a noção de que há um padrão fixo de proporção para a representação do corpo humano na arte. Contudo, essa lógica é tão cristalizada em nossa subjetividade que o delírio da busca pela proporção ideal insiste em retornar e se repetir. 

A Drag Queen Vitruviana é, para nós, a figura abstrata que rege nossas subjetividades em busca da proporção divina, mas que só existe como abstração cristalizada, máquina de rostidade que opera através da sobrecodificação das diferenças. Trata-se de um ideal, por isso mesmo, inalcançável. Mecanismo de produção da falta. Implicadas nesse modo de funcionamento, localizamos ao menos quatro lógicas que se articulam entre si. A lógica da proporcionalidade que trabalha através da matematização da beleza ideal e universal. A lógica das simetrias que demarcam o equilíbrio entre duas partes que harmonicamente devem compor o uno. A lógica da normalização que apaga as diferenças para materializar um padrão médio. A lógica da sobrecodificação que atualiza a proporção ideal em um diagrama abstrato e ajustável para que cada rosto concreto possa, da beleza divina, se aproximar.

Esse modo de funcionamento está tão arraigado em nossas subjetividades que mesmo o conhecendo racionalmente, no âmbito dos afetos parece inevitável a sensação de frustração quando não alcançamos a tão estimada proporção ideal associada à beleza ocidental. Ficamos presas nessas imagens clichês e mesmo percebendo essa repetição de montação em montação, um traço fora do ideal ainda pode por tudo a perder. Por não ver tal padrão atualizado no rosto, já desistimos de nos montar certas vezes, indo para a rua envenenadas pelo afeto da falta. Essa articulação entre a proporção matemática e a beleza se repete há tanto que se cristalizou em nossas subjetividades, operando como uma jaula que lima a criatividade em prol de uma forma fixa do rosto humano médio tomado como universal. Mas se tais formas ideais truncam o processo, por que são ainda tão estimadas? Porque queremos tanto olhar no espelho e ver nele refletida a imagem da Drag Queen Vitruana? Seria apenas para sermos reconhecidas pelos outros como bela? Ou seria porque ao sermos contratadas para um trabalho nos é exigido o domínio das proporções ocidentais? Porque nos cobram tanto se nos olham de fora sem a coragem de se arriscar? Porque nos cobramos tanto se a montação é para se experimentar os tantos outros de si que há para vivenciar? 

Referências

CURTI, Mario. Canons of Proportion and the Laws of Nature: Observations on a Permanent and Unresolved Conflict. Architectural Histories, Switzerland, v. 2, n. 1, p. 19, 2014. 

ECO, Umberto. História da beleza. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014. 

GHYKA, Matila. The geometry od art and life. New York: Sheed and Ward, 1977.

SANTOS, Douglas Henrique Ostruca dos. Tutoriais em (des)montação: uma cartografia de corpos eletrônicos drag na plataforma do YouTube. 2020. 282 f. Dissertação (Comunicação e Informação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/205936. Acesso em: 15 mai. 2026.

Entrevista com Linda Power

Por: Ash Rose

A arte transformista e as cenas drag nacionais e internacionais estão em constante mudança. Novas referências, gerações, técnicas e subculturas ganham espaço todos os dias com o impulso das mídias sociais. Ser um artista que segue em evidência é um trabalho constante para ficar atento às novidades da cultura pop e se reinventar, e disso a transformista Linda Power pode falar como ninguém. São 31 anos trabalhando com a arte drag em suas diversas formas de expressão e nos mostrando todas as possibilidades e vertentes que essa arte nos trás. Linda nos ensina que nunca é tarde para tentar coisas novas e ainda se manter fiel a si mesmo. São três décadas de brilho, carnaval, elã e trabalho duro, tudo coberto de glitter e bem preso com grampos e cola para consolidar uma carreira única e cheia de surpresas. São três décadas de drag e uma vida de pura arte, que começa com o teatro, desfila pelo carnaval, se reinventa através do burlesco e se redescobre mais uma vez através da imitação de grandes cantores. E é por isso que o Grafia Drag convida esse grande nome da cena curitibana para nos contar o segredo de como manter a longevidade no mercado drag e seus ensinamentos mais preciosos. 

Linda Power drag Curitiba
Linda Power. Fonte: Acervo do Artista.

Ash Rose: Que Linda Power é uma referência para a cena drag de Curitiba não é segredo para ninguém, e esse ano você completou 31 anos de carreira sólida e uma agenda cheia. Qual foi o primeiro contato com arte que te transformou? 

Linda Power: Sempre digo que os primeiros contatos vieram quando eu ainda era criança, desenhando, criando histórias de teatro para os amiguinhos da vizinhança, ouvindo música e promovendo festinhas na garagem de casa. Meus presentes de aniversário de Natal sempre eram lápis de cor, tinta, massa de modelar. Tive o privilégio de poder frequentar circo, teatro e cinema muito novo, então a arte sempre esteve inserida em minha vida como um todo. 

Ash Rose: E quando isso se transformou em desejo de se tornar drag queen? Qual foi o impulso que fez  nascer Linda Power enquanto persona? 

Linda Power: Através do Carnaval. Ali comecei a me montar para curtir os bailes de salão que existiam na minha época. O despertar como Drag Queen foi em 1995 com o filme Priscilla Rainha do Deserto, no outro dia estava eu, em frente ao espelho, com tinta guache (risos) rebocando a cara. Foi uma chave que virou no automático! Quando terminou o filme eu disse a mim mesmo: “É isso que eu quero fazer!”. 

Ash Rose: A cultura popular e a arte drag estão sempre se transformando e se reinventando, quais foram as suas maiores referências no começo da carreira e quais são as referências que você tem hoje? E como você sente o impacto geracional entre essas referências?

Linda Power: Minhas referências creio que vem muito dos filmes de musicais, pois sempre amei, principalmente pelas performances e figurinos! Tipo Flashdance, Moulin Rouge, Chicago. Minhas referências hoje? Uma pop, digamos, que eu gosto muito é a Bianca Del Rio do Drag Race, e também as minhas amigas, pois elas podem ser grandes referências. Sinto um grande impacto, e acho maravilhoso, pois me ajudou e ajuda bastante a me reinventar a cada dia. 

Linda Power drag Curitiba
Linda Power. Fonte: Acervo do Artista.

Ash Rose: Dentro desses anos de carreira, quais foram as suas formas de se reinventar? E quais foram os trabalhos que você sentiu que foram uma virada de chave na sua maneira de se expressar artisticamente?

Linda Power: As formas de se reinventar acho que vem naturalmente com o decorrer do tempo. Chega em uma altura do seu trajeto artístico que é necessário abrir novos horizontes. Se quiser permanecer na cena e no mercado de trabalho, você precisa estar antenada no novo, no que evoluiu, entende? Precisa estar em evidência. E claro que minha virada de chave aconteceu quando surgiu a Rita Lee na minha vida artística. Depois disso veio Ney, Amy, Elis, David Bowie, e agora, até o Michael Jackson!

Ash Rose: Hoje, você trabalha não só como transformista, mas também como produtor de eventos, figurinista, jurado de concursos drag, entre várias outras formas de produzir e transmitir arte. Quais são as possibilidades que a arte drag te traz? 

Linda Power: Muitas possibilidades. A financeira, lógico! (risos). Me traz, e me trouxe ao longo destes anos, muito conhecimento e muito avanço. Me proporcionou, e ainda proporciona, conhecer lugares, pessoas, ter novas vivências artísticas todos os dias… Trouxe amadurecimento. Junto também algumas dificuldades, pois faz parte do processo. Mas trouxe o mais importante: o prazer de trabalhar no ofício que eu amo. 

Ash Rose: O evento “Domingão Power”, palco aberto que você produz em Curitiba tem sido a porta de entrada para muitas novas artistas transformistas na cena curitibana, assim como acolhe todos os tipos de artes, e hoje você é reverenciada e consagrada como a nossa “Vó”. Sabemos como seu trabalho reverbera na cena, mas como isso reverbera dentro de você? O que mudou na Linda Power vendo o nascer das novas gerações de drag queens, kings e artistas transformistas? 

Linda Power: É para mim uma vitória, digamos assim. Chegou ali um tempo que eu já tinha realizado muito sobre mim como artista. E o Palco é Seu, do Café do Teatro, e também depois O Domingão Power, me deram a  oportunidade de poder repassar e contribuir com a cena, no sentido de dar incentivo, de poder passar ensinamentos, de poder acolher! E sempre digo em minhas falas que o mais importante hoje é deixar um bom legado.  

Linda Power drag Curitiba
Linda Power. Fonte: FotoFolia

Ash Rose: Quais são os obstáculos e quais são as maneiras de se adaptar a novas experiências artísticas que você encontrou ao longo da carreira? 

Linda Power: Os obstáculos são muitos! Mas faz parte do percurso da trajetória. Aqueles dias que dá vontade de desistir. Aqueles dias em que você acha que não é bom o suficiente. Mas… repito, faz parte. E creio muito em uma frase bem clichê: Querer é poder quando existe amor pela arte! A maneira não existe receita, existe esforço. 

Ash Rose: E por último, olhando para trás, com certeza  nem tudo foram bons momentos. Como você superou os desafios? Deixa pra gente uma “dica da vó” para todes que querem permanecer com a chama artística acesa dentro de si. 

Linda Power: Netas do meu coração, nem tudo é um mar de rosas. Mas também nem tudo é só dificuldades e obstáculos. Se está no sangue, então está em você fazer arte. Os meus desafios, eu ainda supero todos os dias, e vou superar até o último suspiro. Talvez minha tática seja tentar ser feliz o máximo que eu puder e tentar enfrentar as dificuldades com minha maior armadura: A ARTE. 

O gosto de Rebecca McDonald pelas “internacionais”

Bruno Arthur Voss Bernardy

Escrever sobre Rebecca McDonald envolve inúmeras nuances. Atravessamentos de marcadores sociais, perspectivas de trabalho (acadêmico e político-social), hábitos do cotidiano. Ou seja, preciso me posicionar de onde falo, sobre o que e por quê falo e o que almejo com isso; também preciso encontrar ferramentas teóricas que influenciem essa pesquisa; e, por último, considerar que é impossível desligar uma “chave” em minha mente que deixa de pensar em Rebecca durante todo esse processo, que exige meu tempo e energia.

Por motivos que já considero óbvios, quando o tema de uma produção é uma pessoa com marcadores sociais de alguém que sofreu violências psico-socio-econômicas (e até mesmo físicas) por parte, principalmente, do Estado, a ética precisa ser redobrada. Quando eu, um homem cisgênero, branco e homossexual, realizo uma pesquisa sobre uma artista também branca e que foi dissidente da cisgeneridade, preciso não somente avaliar quais são os limites do que devo ou não narrar, mas também exercitar como Rebecca se sentiria em ter sua trajetória investigada, visto que ela já faleceu.

Nesta linha, para além dos percursos tradicionais da produção historiográfica, como buscar e articular fontes, me inspiro na pesquisadora Saidiya Hartman, a respeito da necessidade de fabular sobre o cotidiano de Rebecca, de especular sobre os seus acessos à informação e conhecimento, enfim, preciso tensionar o que encontrei em jornais com o que ouvi das testemunhas e com o que não foi localizado — ainda. Em geral, os maiores detalhes, os fatos mais absurdos e as questões mais ordinárias foram encontradas nas entrevistas de História Oral que realizei com amizades e o público da artista. Foi a partir destes materiais que descobri uma das principais características de Rebecca: sua idolatria por divas internacionais.

Rebecca McDonald
Rebecca McDonald nos bastidores do curta-metragem Au Revoir Shirlei (1991). Fonte: Print do vídeo de making of. Acervo pessoal.

Em síntese, Rebecca McDonald pode ser considerada uma das principais transformistas/drag queens de sua geração, entre meados da década de 1980 e início da década de 2000. Se apresentando em diversas boates da capital gaúcha, a artista marcou a memória da comunidade que hoje identificamos como LGBTQIA+ e que viveu naquele período de severas instabilidades político-econômicas e também pelo momento mais cruel da epidemia do vírus HIV, o que acentuou a homofobia já existente na sociedade brasileira. Nesse contexto, a arte drag e transformista na noite porto-alegrense pode ser interpretada como um alívio àquelas tensões sociais; a audiência se deslumbrava e as artistas se realizavam. Nilton Gaffrée Júnior, quem dá corpo à drag queen Cassandra Calabouço, relembra quando viu Rebecca pela primeira vez, quando ainda tinha muitas dúvidas e poucas certezas pessoais:

A primeira vez que eu vi a Rebecca, eu lembro o ano. Foi em 1991, com certeza. No Wanda, no Bar da Wanda. O Bar da Wanda ficava exatamente na esquina da Castro Alves com a Ramiro, onde hoje é um prédio, ali tinha uma casa, um casarão, assim, de dois andares. […] E ali eu fui em 1991, e eu me lembro porque eu não tinha saído do armário ainda e eu fui com um amigo que ele era gay. Daí eu fui com meu amigo gay para ver, assim, como é que era e tal, mas porque era o meu amigo. Isso era coisa dele, não era coisa minha. Mas eu já estava, claro né, com os dois pés já passados da porta, mas não tinha tido a coragem… Enfim, não tinha saído do armário para mim mesmo ainda. Não fiquei com ninguém. Morria de medo, achava que eu ia para o inferno só de estar ali. E quando eu entrei que eu vi pessoas, né, do mesmo sexo se beijando e trocando afeto num lugar público, sem ser escondido, aquilo me chocou. 

Mas eu me lembro de ter assistido a apresentação da Rebecca e isso me atravessou de diferentes maneiras. Assim, na época, eu não dançava ainda. Eu não tinha tido experiência ainda no teatro. […] A Rebeca era como se ela fosse, assim, uma força da natureza. Ela era muito… A presença cênica da Rebecca era muito grande. O lugar era pequeno, o palco era bem próximo das pessoas, mas além disso a energia dela não estava contida… Não, ela fez uma música do grupo Black Box que chamava, acho que era I don’t know anybody else, que era um gritaredo na música, assim, início dos anos 90, né? Um gritaredo, assim, um horror a música, mas cada vez que eu ouço, eu me lembro da Rebecca. 

E ela tinha um rosto muito anguloso, assim, né? Quando eu a vi… Veja, lá naquela época eu não participava da comunidade LGBT. Hoje a gente tem um entendimento das coisas. Naquela época, eu não sendo da comunidade, eu tendo toda a carga de preconceito, né, de já sentir que eu era, mas eu não queria ser [risos]. Eu me lembro que quando eu vi a Rebecca, eu não entendi muito bem o que ela era. Ela não me parecia uma travesti. Mas eu também entendi que ela não era uma mulher [cisgênera]. Não era essa a questão. E também não era exatamente um homem dentro do que eu entendia. Hoje eu tenho uma palavra para dizer o que eu acho. A Rebecca era um corpo queer, assim… Uma performance queer. Ela não precisava de enchimento. Ela não precisava de peito. Era o corpo dela ali, o rosto dela ali. Maquiado, ok, mas com uma maquiagem muito simples, nada elaborado como hoje a gente tem, né, uma make drag artística. Não, não. Era um lápis no olho, um batom, o cabelo dela, não era nem peruca. 

E ela dançava [suspiro]. Ela dançava muito, muito… Quanto mais eu danço, quanto mais eu, né, sou artista da dança, mais eu vejo o quanto ela era uma jóia rara, assim. Ela era um corpo e uma energia que se mexia, e isso era absolutamente para fora, assim… Eu fiquei e fico… Não existe como eu não lembrar da Rebecca. Essa foi, eu acho, que uma das únicas vezes que eu a vi performando, mas eu nunca esqueci. Nunca, nunca… Ela era incrível, incrível, incrível…

O relato acima ajuda não somente a entender o impacto que Rebecca causou, mas também traz detalhes de como ela executava sua “performance queer”. Tal performance não se reduzia somente aos palcos, como era com outras colegas também transformistas. Everton Barreto, quem personifica Lady Cibele, foi amigo próximo, se apresentando junto nas boates e também frequentando a residência de Rebecca. Ao se conhecerem no final da década de 1980, Everton acompanhou o que podemos considerar como processo de transição de Rebecca, tanto na questão do desuso do nome dado ao nascimento, quanto na postura e estética corporal:

É nos anos 1990 quando ela realmente fez a transição. Que ela saía da casa dela já como Rebecca direto. No condomínio dela, […] todo mundo já se referia a ela como “a Rebecca”. Era muito legal isso. Tinha um respeito lá, bem grande. E ela saía de manhã, à tarde, à noite como Rebecca e nunca teve problema lá.

Pergunto se Rebecca se identificava como travesti naquele período, considerando se tratar de uma identidade de gênero, como hoje acontece, e Everton responde:

Não tinha isso. Eu acho que era mais subjetivamente, entendeu? Aquilo já estava imbuído nela que não precisava dessa afirmação “eu sou uma travesti”, né? Simplesmente “eu sou a Rebeca” e pronto, bastava. Sem querer, eu acho que era uma militância, né? Sem querer já era uma militância. [Ela saía na rua] de salto alto, o cabelo preso, maquiada, andando de ônibus durante o dia, tá entendendo? Então, quer dizer, era um enfrentamento à sociedade mesmo. Até porque ela era uma pessoa muito bonita. Era uma guria muito linda. Então, era muito feminina, os traços eram femininos também, né? [A postura] era muito delicada. Era um pouquinho mais baixa do que eu e era quase imberbe, era pouquíssima barbinha, então tudo isso facilitava muito, né? Magérrima e poucos pelos.

De todas as testemunhas que entrevistei até agora, nenhuma conheceu Rebecca antes de começar a se montar. Suas amizades contam que quando adolescente, a artista patinou no Clube de Patinação Tangarás, localizado na zona sul de Porto Alegre. Sabe-se também que era comum o Clube realizar apresentações artísticas que tinham como inspiração os espetáculos da Broadway. Estes relatos trazem essa experiência atlética para amparar as habilidades de Rebecca nos palcos, sua desenvoltura para dançar e até mesmo abrir espacate, movimento ginástico que, conforme narrado, ela era a única que fazia naquele período.

Assim, poucas fontes me auxiliam a pensar em como Rebecca desenvolveu sua arte e, paralelamente, sua identidade de gênero. Na ausência de informações e testemunhos, resta fabular como ela conheceu e quando se interessou pela prática do travestimento, a montação, a arte drag e transformista. Quais foram suas referências? Showgirls internacionais do início da primeira metade do século XX? Atrizes do auge da indústria hollywoodiana pós segunda guerra mundial? Divas de musicais da Broadway e da música pop estadunidense? Todavia, alguns indícios existem.

Sobre a escolha do nome e sobrenome, até agora, restam apenas especulações. O filme Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940), dirigido por Alfred Hitchcock, pode ser um palpite, diante da popularidade, inclusive no Brasil, tanto do diretor quanto da produção. Questiono-me quando e se Rebecca McDonald assistiu, tendo ela nascido em uma família de classe baixa no final da década de 1960 e vivido sua juventude entre 1970 e 1980. Ela frequentou os cinemas de rua, que existiam em razoável quantidade e atraiam o público que buscava lazer, em um momento em que a televisão ainda era um objeto de luxo? A respeito do sobrenome, o pesquisador, que também foi público de Rebecca quando ainda era criança, Luís Francisco Wasilewski, levantou o fato de que Josephine Baker, importante showgirl da primeira metade do século XX, nos EUA e na Europa, tinha McDonald como sobrenome de registro. Teria a artista gaúcha conhecido sobre artista internacional que faleceu em 1975? Teria Rebecca visto em algum lugar sobre Josephine? São hipóteses que carecem de maiores embasamentos, mas que alimentam a imaginação desse passado que não consegui acessar, de como Rebecca se tornou Rebecca.

Comerciais, filmes e novelas das décadas de 1980 e 1990 me fazem refletir sobre os padrões de beleza que Rebecca possivelmente teve acesso. Enquanto um hobbie particular meu, de assistir gravações antigas de programações da TV aberta, muitas vezes me pergunto se Rebecca assistiu isso ou aquilo. Especulo se ela assistia a travestimentos cênicos de artistas como Chico Anysio e Jô Soares, ou mesmo se assistia ao Show de Calouros, no qual se apresentavam travestis e transformistas. Contudo, seria anacrônico pensar que Rebecca acessava tais conteúdos como hoje eu acesso, quando consigo rever, pausar e voltar na gravação quando quero. Ao mesmo tempo, assistir estes materiais me aproximam de uma suposta realidade vivida por Rebecca, por mais que ela pudesse nem mesmo ter um aparelho de televisão próprio naqueles períodos.

Rebecca McDonald
Rebecca McDonald durante performance de City Lights, no espetáculo Mulheres do Pau Brasil (ou Quando Eles Viram Elas) (1991). Fonte: reprodução do perfil no Facebook do ativista, já falecido, Alexandre Böer.

Lauro Ramalho, quem personifica Laurita Leão, também amigo de Rebecca, narra que era da televisão que vinham as principais referências daquela cena transformista. Quando elas se reuniam no camarim das boates, havia compartilhamento de materiais e conversas sobre variados assuntos, mas principalmente sobre músicas e dublagens:

Ainda era [disco de] vinil. A gente levava o vinil, era um inferno. A gente pegava ônibus, enfim, não tinha Uber e o táxi era caríssimo. Então a gente tinha que levar o figurino numa sacola e o vinil embaixo do braço. Quando era mais de uma música, então tinha que levar dois LPs. E depois sim a gente começou a usar fita cassete e por fim veio o CD, foi a última coisa. Mas o que a gente compartilhava muito, nessas noites em que nós nos encontrávamos, porque a gente ficava no camarim por muito tempo, né? A gente falava muito a respeito de música, porque não era um papo muito erudito, assim… A gente falava de novelas, eu me lembro que a Dandara adorava falar das novelas que ela assistia. De filmes que eventualmente a gente via durante a semana. De boys… Falávamos muito dos casos… Muita fofoca… Era uma coisa, assim, meio cabeleireira, sabe? Era um pouco esse o papo, porque era entretenimento, sabe, a gente fazia um entretenimento e o assunto era mais ou menos aquilo. O que as pessoas tinham feito durante a semana… Era um papo mais descontraído.

Pergunto então quais eram as referências artísticas de Rebecca, quais cantoras, se nacionais ou internacionais, divas do cinema etc., ao que Lauro responde:

Internacionais. Muito internacionais. [Como] Liza Minnelli. Nossa, ela adorava Liza Minnelli. Tanto que no [espetáculo] Mulheres do Pau Brasil ela faz Marilyn Monroe e a Liza Minnelli. O número da Liza, que é o City Lights, era in-crí-vel! […] E, então, ali ela fazia a Liza e era uma coisa impressionante, porque ela descia e subia aquelas escadas… As escadas acho que tinham uns dez, doze degraus. Ela descia de costas. E subia. E fazia hor-ro-res! E era uma música interminável, porque ela termina e recomeça. Gente, era um número fan-tás-ti-co. E o número da Marilyn, que é muito lindo. Que é o Diamonds Are a Girl’s Best Friend, só que ela faz com o figurino d’O Pecado Mora ao Lado. Que é aquele vestido branco… E aí no final ela pega o ventilador, traz o ventilador, põe o ventilador aqui e fica assim, refestelando [expressões corporais que rementem a atuação da atriz no filme citado]. É maravilhoso. E esse número é com os bailarinos. O City Lights era só ela. 

E ela gostava muito de Grace Jones. Ela fazia La Vie En Rose. A Grace Jones gravou La Vie En Rose, só que numa versão super pop, e a Rebecca fazia. E a Rebecca tinha uma coisa de perceber, assim, coisas. Tem um momento da música que eu acho que é um piano, e aí ela fazia nos dentes, ela batia nos dentes. Então ela criava os movimentos a partir da música, que eram incríveis. E toda movimentação, assim, todo o trabalho que vem lá do… Que vem lá do [Clube] Tangarás, com certeza, que vem do trabalho de patinadora… Ela usava em cena. Então era as coisas das pernas, essa coisa da elasticidade que ela tinha, que  era incrível. E o carisma. A Rebecca era muito carismática. Ela fazia qualquer coisa e as pessoas ficavam [expressão de ovacionar]. Tanto que tinham pessoas, isso não acontece mais, que tinham pessoas que iam naquela noite para vê-la, na noite que ela fazia. Tinha muito disso. Acho que Dandara [Rangel] também tinha um público… Eu tive, Castanha teve, mas isso nessa época nos anos 1980 e 1990, que tinham pessoas que iam para nos ver. Gostavam de ver determinado artista… A Rebecca tinha um séquito, assim, enorme. E era lindo de ver.

A mesma pergunta foi feita a Everton, que diverge um tanto das lembranças que Lauro carrega, a respeito de quais eram as cantoras mais dubladas por Rebecca, quem eram as suas favoritas:

Marlene Dietrich e Madonna. Rebecca foi uma das primeiras transformistas a dublar Madonna que eu vi na vida. E ela era uma excelente dubladora da Madonna. Inclusive, ela copiava os figurinos, as coreografias! Era impressionante como ela conseguia reproduzir na cena. Madonna era o ídolo dela.

Considerando que a entrevista com Everton foi uma das últimas a serem coletadas, questionei sobre Liza Minnelli, ao que ele respondeu que Rebecca “gostava, mas a Madonna era a Santa Madonna. O cabelo, lencinho na cabeça, todos aqueles figurinos que a Madonna usava nos anos 1980, [Rebecca] usava todos iguais. Era sempre Madonna.” Enquanto também sou muito entusiasta de divas pop assim como Rebecca parece ter sido, quero saber quais músicas eram dubladas e Everton exclama:

Todas, todas, todas. Like a Virgin, Like a Prayer. Vogue, então… A primeira vez que que… Eu não sei como é que ela conseguia decorar as coreografias, porque saía o clipe, no outro final de semana, ela já estava fazendo na boate. E fazia igual a coreografia de Vogue. Era ovacionada! Porque ela era muito rápida [estalo de dedos].

Pergunto para Everton qual e como era o acesso que Rebecca tinha a esses conteúdos:

“Televisão. Era o auge da MTV [início da década de 1990], né? Então na MTV ela pegava os vídeos da MTV, gravava e depois ensaiava e tinha facilidade por ser bailarina também né, então conseguia muito bem. Mas era maravilhoso assistir!”

Entretanto, jornais, revistas, outros meios de acesso a cultura, não eram consumidos por Rebecca: 

Não! Isso não. Isso não, até porque a gente… Todo mundo falava assim “ah, como a Rebecca é burrinha…” Ela era muito buurriiiinha, assim, para falar e tal, sabe? Ela não era muito atinada, tu entendeu? Não era mesmo. Ela  fazia aquele estilo Marilyn Monroe, bonita e burrinha, gostosa e burrinha, sabe? [Porém, era] uma excelente dubladora. Não falava uma palavra em inglês, mas quando tu assistia a dublagem dela, era per-fei-ta. Parecia que ela falava em inglês mesmo, [que] tinha fluência no inglês. Impressionante. Impressionante. Tu jurava que ela sabia inglês. Era uma coisa incrível. Sem falar uma palavra em inglês. Muito louco, né?

Outra importante amiga de Rebecca que consegui ouvir foi Gloria Crystal, que também falou sobre os gostos e escolhas de dublagem:

Como eu te falei, a cantora que tu desse, ela [fazia]… A Rebeca fazia Pink Floyd. E tem uma música do Pink Floyd que é só aquele som, só os gritos, né? Ela fazia aquela música, interpretava aquela música… Em momento algum aquela música ficava chata com ela. Aquilo era uma coisa que tu ficava olhando e tu não acreditava que ela tava fazendo. Impressionante, assim… E ela fazia a… Janis Joplin, maravilhosamente bem. Cantoras negras… Eu fazia com ela, a mãe e a filha, Cissy Houston e Whitney Houston. Ela fazia tudo que tu desse para ela fazer. E era assim, “tenho uma música que é para ti fazer”… Na época a gente não tinha esses recursos [de hoje], não falávamos inglês, não tinha nada, nem tinha tradutor… Então, eu tinha muito a mania de, conforme eu escutava, eu escrevia. Ela tinha o ouvido. Ficava assim [expressão de ouvir com atenção e cantarolar], escutava umas cinco vezes e já sabia a música. Dava uma raiva da Rebecca por causa disso… Ela conseguia fazer assim. Ou então ela chegava, onde todo mundo [estava] chiquérrimo e ela não tinha terminado o vestido dela. Então ela se montava, uma coisa aqui, outra coisa ali, e ela conseguia ficar mais bonita que todo mundo que ia fazer show. Dava um ranço dela por causa disso… [risos] Maravilhosa. Mas ela era apaixonada por Madonna. Amava a Madonna. O último show que ela fez na vida dela, pra tu ver como ela era de uma diversidade, assim, ela fez Rihanna, uma música da Rihanna. Um dos primeiros sucessos da Rihanna, não lembro qual, mas que a Rihanna tá dentro de uma gaiola… Ela fez aquela música.

Questionei à Gloria sobre como elas acessavam as referências, se por revistas, televisão, ao que ela me responde, se referindo à década de 1980, visto que de todas entrevistadas, Gloria é a que conheceu Rebecca primeiro, porém Rebecca já era Rebecca, já se montava:

Quando tinha alguma referência, é porque alguém chegava, que viu o show [antes] e disse “Rebecca, eu vi que tem uma cantora que é a tua cara, o nome da música é isso…” e na outra semana a pessoa levava o disco, entendeu? Aí levava o disco, “toma, então se tu quiser tu faz.”  E era assim que a gente fazia. [Para] todos nós, tínhamos essa cultura de alguém olhar e dizer “olha, tu combina com essa cantora, então tu faz…” […] Era essa a forma que a gente tinha de compartilhar. A gente não tinha muita informação, primeiro porque nós éramos bibinhas, sem dinheiro, sem trabalho. Muitas vezes […] nós saíamos de casa [Gloria morava no bairro Jardim Botânico] sem a passagem, nós íamos a pé até a [Avenida] Independência, na frente da OSPA para fazer show [na boate Pantheon]. E nós não ganhávamos cachê. O cachê era assim […] quem arrasava mesmo ganhava dois ou três drinks. A Rebecca sempre ganhava três. E eu, arrasava, mas ganhava dois, nunca passei para os três… Então ela era muito boa. Ela abria um espacato como ninguém, ela subia nas paredes, fazia de tudo que tu possa imaginar. Então a gente não ganhava cachê, se divertia e ia embora para casa a pé. [Depois] dormia o dia inteiro, era muito louco isso, o nosso começo. [risos]

Divas Internacionais
Montagem com imagens das divas pop de Rebecca McDonald, da esquerda para a direita: Madonna, Liza Minnelli, Grace Jones, Whitney Houston. Fonte: Imagens encontradas na internet, com livre reprodução.

Acredito que a essa altura do texto, já deve ter ficado nítido as preferências de Rebecca. O jornal local Poa Noite, quando em janeiro de 1991 divulgava sobre o espetáculo de teatro de revista Mulheres do Pau Brasil (ou Quando Eles Viram Elas), dirigido por Zé Adão Barbosa, publicou:

REBECA E AS INTERNACIONAIS

A encarregada de levar ao palco as presenças internacionais é Rebeca Mac Donald’s [sic] que dublará Marilyn Monroe numa cena de Diamonds Are a Girl’s Best Friend, do filme Os Homens Preferem as Louras, além de Liza Minelli, conforme Zé Adão, um momento antológico do show. Vale destacar que Rebeca vem se sobressaindo a cada novo show que participa. Ela vai além de se travestir de mulher e dublar. Tem arte. Um algo mais que a torna especial. Começou fazendo shows em bares gays. Hoje vem ganhando um público mais diversificado como do Porto de Elis ou mais recentemente no Ocidente onde foi ovacionada.

Agora, Rebeca chega ao teatro e se confessa extremamente satisfeita, “está sendo maravilhoso, porque a partir desse espetáculo estou recebendo propostas para fazer outros trabalhos fora do meu meio, o meio gay”. A postura no palco, a técnica nos lábios ao dublar que é perfeita, ela conta que “aprendi foi com a força de vontade e muita garra”. Nunca fez aulas de dança. Seu talento é nato. Está evoluindo. Confessa que só não saiu de POA por causa da família e dos amigos “sou uma pessoa muito carente”. Mas adianta que talvez ainda este ano vá a Itália a convite, realizar uma temporada de shows.  [traslado conforme original]

Assim, parece que era consenso entre o público, para além de suas amizades, que Rebecca se interessava por artistas estrangeiras. Não podemos presumir que acessar tais conteúdos, videoclipes, discos de vinis, etc., era mais difícil quando se compara com artistas nacionais. Como relatado, os meios de acessos e de compartilhamento foram mudando com o passar dos anos e o surgimento de novas tecnologias, bem como diante da possibilidade de maiores rendimentos financeiros. Se no início da carreira os cachês eram somente drinks e aplausos, ao longo da década de 1990, ao menos estas artistas veteranas, começaram a receber dinheiro por seus trabalhos, tanto nas boates como no teatro e no cinema. Porém, não se pode dizer que a arte drag e transformista enriqueceu as praticantes gaúchas do cenário aqui retratado. Por volta do final da década de 1990, Rebecca começou a trabalhar em salões de beleza, diminuindo a frequência de suas apresentações. Suas amizades também se dedicaram no mesmo e em outros ramos.

Até onde pesquisei, Rebecca realizou poucas viagens, circulou por cidades gaúchas e chegou a ir para Brasília durante a divulgação do curta-metragem que ela protagoniza, Au Revoir Shirlei (1991). Ela não chegou a ir para a Itália, como disse ao jornal, e, a princípio, nunca realizou uma viagem internacional. Mas isso não impediu o seu gosto por divas pop estrangeiras.

Não é o interesse aqui aprofundar teoricamente, mas para pensarmos como ou porque Rebecca tinha tais preferências, o sociólogo francês Pierre Bourdieu nos auxilia a partir de seu conceito de habitus e sua articulação com o gosto cultural:

“Na relação entre as duas capacidades que definem o habitus, ou seja, capacidade de produzir práticas e obras classificáveis, além da capacidade de diferenciar e de apreciar essas práticas e esses produtos (gosto), é que se constitui o mundo social representado, ou seja, o espaço dos estilos de vida” (A Distinção, Editora Zouk, 2007, p. 162).

Deste modo, não consideramos que tais gostos de Rebecca derivam de uma essência própria dela, algo natural, mas sim foram os contatos que ela teve com tais referências internacionais (durante sua vida, principalmente durante as fases de maiores desenvolvimento, como infância e adolescência) que a fizeram externalizar essas suas preferências, através de suas práticas artísticas. Logo, é possível indicar que sua passagem pelo Clube Tangarás, associado com outras condições sociais (como classe, corporalidade e até mesmo estrutura familiar) induziram Rebecca a gostar das divas internacionais. Entretanto, novamente, isso são apenas especulações, considerando que todas as testemunhas encontradas até agora conheceram Rebecca quase adulta, já determinada em ser Rebecca e praticante da arte drag e transformista. Nesta linha, conhecer sua experiência no tangarás com maiores detalhes, ouvir testemunhas deste período de sua vida, são caminhos de pesquisa que, infelizmente, apesar de esforços, não consegui acessar ainda.

Rebecca McDonald, Nei Araújo e Lady Cibele
Rebecca McDonald, Nei Araújo e Lady Cibele em meados da década de 1990. Fonte: acervo pessoal de Everton Barreto (Lady Cibele).

Para encerrar, acredito que, além de preservar a memória sobre Rebecca McDonald, este trabalho que venho realizando ajuda a compreender as diferenças geracionais de artistas drag e transformistas. Se hoje existe o amplo acesso à internet, o sucesso internacional de RuPaul’s Drag Race e uma maior facilidade de consumir música (atuais e antigas), a situação era bem distinta no final do século XX, conforme foi mostrado acima. No mais, essa questão sobre as gerações e suas diferenças merece melhor discussão em outro momento, assunto esse que envolve outra polêmica desta cena, as divergência e as aproximações do que é drag e o que é transformista. Rebecca passou por essa transição de nomenclaturas, se auto intitulou com os dois termos, mas sempre acompanhada das internacionais.

No mais, destaco outro trecho da entrevista com Nilton Gaffrée Jr./Cassandra Calabouço, pois a sua experiência de ser público de Rebecca foi bastante especial e inspiradora para a arte que ele começaria a realizar alguns anos depois de tê-la assistido pela primeira vez. É importante relembrar que Nilton estava no início de sua vida adulta, em um momento que “aquilo tudo era muito confuso”, que ele “não sabia nada do que era”. No entanto, ele narra que Rebecca lhe apresentou um outro universo possível:

Ela me conquistou. Ela me arrebatou. Ela me seduziu. Ela não me assustou. Entende? Toda essa força… Ela não me… Porque hoje, né, eu acho que na época eu poderia ter ficado “credo, que horror! Socorro! Não quero! Quero fugir!”. E não, assim, pelo contrário, sabe… Tinha algo ali que eu disse “Ai, que maravilha isso.”

Tô de Drag: o coletivo é revolucionário

Anubis Blackwood

Este ano faço dez anos enquanto artista drag e, em outros ensaios literários como RuPaul’s Drag Race é o bastante para uma drag sonhar? (2024), onde  enfatizei minha jornada inicial solo. Ao longo da minha trajetória participei da criação do coletivo Tô de Drag, que hoje será o foco dessa conversa.

Tô de Drag
Primeira formação do coletivo em 2023. Fonte: acervo fotográfico do coletivo.

Aquela história tão recorrente entre as novas gerações de drag também aconteceu para mim: uma drag de banheiro. Para quem experienciou essa jornada sabe que os conhecimentos ao redor da montação giram em torno da internet, e muitas vezes quando colocamos em prática e nos montamos, não há na maioria das vezes sequer perspectiva de sair de casa, ou do banheiro em si. Falta de companhia, repressão familiar, vergonha, falta de confiança e medo da reação pública são alguns fatores que moldam esse estudo em reclusão.

Acontece que somente uma pequena parte dessa arte envolve teoria. A meu ver, sua maior dimensão se constrói no campo social e em exposição pública, e isso se dá por uma herança histórica. Nossa jornada foi escrita em comunidade, onde até nos momentos em que as artistas ficavam dentro de seus espaços de criação, faziam isso em companhia de sua família drag. Por isso, passei mais da metade da minha carreira me sentindo incompleta: por mais que tivessem amigues para sair, esses ocupavam um lugar de suporte na minha vida enquanto comunidade LGBTQIAPN+, mas não podiam ocupar o espaço de suporte artístico e político, e era justamente essa ausência que reverberava em mim.

Assim, ao mudar da capital para o interior de São Paulo,mais especificamente Jundiaí, pude encontrar uma comunidade mais íntima e pouco tempo depois fazer parte da criação do primeiro coletivo drag da região. Meu coração foi finalmente tomado por uma sensação de completude. Hoje, somos 12 integrantes e não possuímos nenhum processo seletivo: queremos que todo mundo agregue e se sinta bem, amparade por nossa família. Dentre muitas entradas e saídas, conseguimos assegurar que somos um grande mecanismo de mudança, tanto no âmbito interno de cada pessoa, uma vez que nossa abordagem serve de apoio para o processo de autoconhecimento,  quanto no âmbito externo, uma vez que nos posicionamos socialmente como grupo. 

Nossa história é, de certa forma, recente, já que iniciamos nossas projeções em 2022, mas a trajetória tem sido extremamente rica e cheia de altos e baixos. Esse é o ponto desse ensaio: registrar nossa jornada para que possamos mitigar as incansáveis tentativas de nos apagar enquanto forças artísticas. Não sei dizer o quanto nosso coletivo vai durar, mas quero hoje, agora, deixar toda nossa graciosa experiência registrada, a fim de evidenciar a importância da organização coletiva e inspirar futuros coletivos drag.

Embora frequentemente enfatize o fato de sermos o primeiro coletivo drag da nossa área, jamais posso afirmar que criamos uma cultura drag aqui. Antes de nós tivemos Divinna Synik, Karol Della Lastra, Kauara Laffity e tantas outras que viveram momentos de glória nas décadas anteriores. 

Tô de Drag
Espetáculo “Drag Através do Tempo”, pela Lei Paulo Gustavo, Campo Limpo Paulista, Sp. Foto: Nala Vizion.

A primeira versão do coletivo Tô de Drag veio em 2022, em uma oficina drag organizada pela própria Divinna Synik. Essa oficina é uma tradição da nossa comunidade em Jundiaí, ocorrendo há mais de dez anos, em setembro, tendo Karol Della Lastra como idealizadora (nossa avó, como ela mesma gosta de ser chamada). Essa oficina culminava em um concurso que elegia a Miss Drag da Parada LGBTQIA+ de Jundiaí, e nós, na época cinco, não conseguimos tratar de forma tão competitiva umas às outras. No fim daquele dia, criamos um certo carinho, por mais que nunca tivéssemos nos visto antes. 

Após esse evento, continuávamos a conversar no grupo do Whatsapp. Tudo começou com um tom despretensioso como: “vocês sabem de algum rolê drag aqui?” ou “onde posso comprar uma lace?”. E não demorou muito para que começássemos a perceber que não havia esses rolês drag, ou que não tínhamos dinheiro para comprar laces e looks caros, o que nos fez conversar sobre emprestar coisas umas para as outras. Desse modo, transformar aquele grupo do Whatsapp em um coletivo foi nada burocrático: foi simplesmente natural, quase inevitável, diante das dificuldades que atravessávamos enquanto indivíduos.

O capítulo seguinte foi cheio de descobertas, ternura e amizade. Havia ali uma ideia simplória: queríamos ocupar palcos e faríamos isso de forma gratuita ou não. Havia um ímpeto em se montar e performar, nada tão longe disso. O que primordialmente queríamos era criar laços emocionais umas com as outras e termos companhia quando saímos por aí, pelas noites de Jundiaí. Era o que precisávamos na época. 

Quando olho para trás, percebo que o Tô de Drag desempenhou um papel vital para cada integrante que passou pelo coletivo. Não possuíamos perspectiva de que poderíamos perseverar na arte drag. Parecia algo impossível no interior, uma vez que não nos contratávam, chamávam ou sequer aparecia uma viva alma para nos dar a possibilidade de ter uma carreira profissional. Drags do coletivo me confessaram que, se não fosse pela força da nossa união, certamente já teriam desistido dessa área de atuação. Isso se dá, pois se manter em regiões interioranas é um desafio avassalador para qualquer artista, ainda mais para artistas drag, que enfrentam, até mesmo em grandes cidades, enormes dificuldades em não só capitalizar, mas tornar a execução do que fazemos viável.

Além disso, desde seu primeiro dia o coletivo é mecanismo direto de autoconhecimento e expressão. Sempre dialogamos sobre o livre-arbítrio de cada pessoa e para onde cada uma direcionaria a arte. Tínhamos drag DJ, drag cantora, drag dançarina de vogue, drag teatral…cada uma em seu nicho, mas sempre compartilhando vivências, dores e delícias. Para essas cinco (me incluindo nesse número), isso foi suficiente até certo ponto. Em 2024 tivemos a saída de uma integrante e, no ano seguinte, perdemos mais duas. Não porque o coletivo não era bom, mas porque cada uma, dentro de toda a liberdade que sempre demos umas às outras, não se viam mais na abordagem que tínhamos como coletivo ou na arte drag em si. Assim, em 2025 seguimos com um plano que tínhamos desde nossa fundação oficial, em 2023: abrir o coletivo para outres integrantes. 

Tô de Drag Brasil
Noves integrantes do coletivo, 2025. Foto: Alex Balbino.

Ao abrirmos, fomos agraciadas com uma gama diversa e pudemos amparar as novas drags que apareceram na região. Se antes tínhamos uma sensação de que todas estavam no mesmo barco, dessa vez o cenário mudou um pouco. O coletivo já tinha uma história prévia, assim como as drags fundadoras que continuavam nele. Já tínhamos executado eventos de grande porte com auxílio de editais culturais, já tínhamos entrosamento entre nós e, acima de tudo, tínhamos experiência enquanto grupo. Em decorrência disso, passamos por momentos de educação e compartilhamento de causa, ao mesmo tempo que aprendemos com quem chegava. Encontramos a necessidade de fazer mais encontros, oficinas e até mesmo criar um grupo adjacente apenas para compartilhar estudos e referências drag. O coletivo que sempre prezou por educar, e o novo grupo trouxe ainda mais fortemente essa função, e isso mudou tudo.

O nível de complexidade aumentou exponencialmente se compararmos ao período de  fundação do Tô de Drag. O tom despretensioso de se montar e ocupar qualquer palco que nos deixassem subir deu lugar para uma instituição educacional e de apoio para quem está iniciando a jornada drag. Hoje, o coletivo continua com um tom afetuoso, mas devido à demanda interna e externa, ele também necessita que tenhamos uma abordagem quase empresarial. Nós intermediamos negócios com contratantes, fazemos eventos abertos ao público e frequentemente somos convidadas para agregarmos a iniciativas de cunho político e social. O coletivo desempenha um papel muito mais rebuscado na comunidade LGBTQIAPN+, e isso nos força a tratar a arte drag de forma extremamente séria e profissional.

De maneira transparente, posso afirmar que ao longo dos anos percebemos que as demandas não giram em torno apenas de performar no palco. Movimentos sociais precisam de nós, assim como o cenário cultural da região. Em aspecto profissional também, já que nas intermediações com contratantes percebemos que precisamos de um amparo maior, uma vez que já enfrentamos problemas ao redor de remuneração justa e do olhar externo que o mundo tem perante nossa arte. Não nos levam tão a sério como levam demais artistas como musicistas e atuantes de arte visual, o que nos obriga a nos fortalecer enquanto instituição. É como se hoje tivéssemos uma responsabilidade que exacerba nossas necessidades de forma que não as torna mais individuais. Uma vez que nossa região nos avalia como grupo, precisamos coletivamente  nos posicionar como tal. 

Referente ao posicionamento, posso dizer que isso também se ampliou em ação. Encontramos uma ampla gama de objetivos artísticos como sessões de desenho com modelo vivo drag, colaborações fotográficas com fotógrafos, além de ministrar oficinas. Antes, queríamos só um lugar para performar, já hoje queremos nos desafiar a nos inserir em qualquer lugar que queiramos agregar.

Por isso, vejo um futuro brilhante para o Tô de Drag. Sem pseudo-pioneirismo, tampouco menosprezo, vejo a realidade através dos meus olhos: nos organizamos de forma que raramente visualizo no cenário nacional e atuamos com tanta multidisciplinaridade que também compreendo o quão raro é fazer tal feito. Por isso, afirmo que o coletivo Tô de Drag é revolucionário, ao menos nas vidas de quem participa e é atravessado por ele. 

Tô de Drag Brasil
Drag Vibes, festival de performances drag feito anualmente pelo coletivo. 2025. Foto: Ju Tafarelo.

Devido à dificuldade de resistir em uma cidade historicamente ultraconservadora, coletivos são essenciais para Jundiaí. Temos coletivos que trabalham em prol do meio ambiente, dos direitos da mulher, de populações racializadas e me enche o coração perceber que o Tô de Drag se encontra, atualmente, em estado de igualdade em relação a todos esses. Sabemos com toda a certeza do mundo que, mesmo que algo aconteça um dia e tenhamos que finalizar os trabalhos, por muitos anos a cidade se lembrará de nós. Criamos um legado inegável, e dentre tantas oficinas e iniciativas de que já participamos, mudamos a perspectiva de vida de muitas pessoas. O que mais esperamos é que as drags (pelo menos as que estão ao nosso redor) compreendam seu poder artístico e político além do profissional, e nunca aceitem menos do que merecem. Torcemos para que ao longo do tempo possamos atuar tal qual um sindicato e assim possamos remar contra a maré, maré essa que tende a nos inferiorizar. Não é à toa que estamos em processo de nos tornarmos ‘ponto de cultura’ na cidade. 

Em cidades que nos ensinam de forma explícita a reduzir a nossa existência, organizar-se coletivamente é um gesto radical de insubordinação.Depois de anos de experiência compreendo que o Tô de Drag nunca foi apenas sobre performance. Foi e continua sendo sobre permanência. Ocupamos espaços com seriedade, os quais por muito tempo nos foram negados. Transformamos ,a cada ato, a ausência em presença organizada.

Mais uma vez, afirmo que  nossa duração é incerta, mas há algo que já não pode ser desfeito: uma vez que nos vimos em conjunto, uma vez que entendemos a potência de existir em grupo, torna-se impossível desaprender esse gesto.

E eu não sou mais uma drag enclausurada entre quatro paredes, negociando meu reflexo com a possibilidade de existir. Minha imagem não é mais sustentada de forma solitária. Ao olhar meu reflexo, não vejo mais somente eu: meu espelho reflete muitas, em toda sua gama. 

Talvez o Tô de Drag não tenha resolvido todas as lacunas que atravessam a experiência de ser uma artista drag no interior, e nem poderia. Mas ele fez algo que, para mim, parece ainda mais rebeliante: ele tornou impossível voltar à solidão como um estado natural.

O despertar “tardio” da arte: a libertação drag após os 30

Pietro Lamarca (Gabriela Coiradas)

Tenho observado nas redes sociais um movimento medieval — creio que seja adequada a nomenclatura, dada a expectativa de vida que pessoas adultas tinham na época – das novas gerações (adolescentes e início dos 20 anos) de pensar os 30 anos quase como um deadline, literalmente. Não se deve dar início a nenhum novo grande projeto, usar roupas adequadas “à idade”, não frequentar lugares x, y, z, não gostar de certas músicas, séries… e por aí vai. Interessante que isso tem nome agora, e é até cobrado na redação Enem: etarismo.

Muitos podem dizer “ah, mas é só uma bobagem adolescente”. De fato, em muito isso pode ser verdade, mas o caso é que nós, que já viramos o Cabo da Boa Esperança da maturidade, tendemos a ficar com um ligeiro desconforto ao pensar nessas questões, principalmente no que diz respeito a aprender coisas novas e, mais importante, libertar antigos desejos que foram deixados para trás com o capitalismo tardio. E se você for mulher, a cobrança é dobrada – física e profissionalmente, como certa Substância já nos deixou bem claro na tela grande.

Reprodução: RHpravocê

Esse tipo de receio adiou um tanto minha primeira montação, eu diria. Quando comecei a pensar em gênero e arte, eu ainda estava nos 20 e poucos, mas o conhecimento e a pulsão para de fato pensar em materializar alguma coisa vieram na beiradinha dos 30. Já havia pensado nas razões de eu ver homens montados de drag queens (quando sequer tinha vivência com a comunidade trans), e não mulheres performando masculinidades no campo artístico. Havia comprado da China uma lace de bigode que ficou anos numa gaveta, e que aos 32 anos me parecia impensável descobrir o que fazer com ela – e se já faziam, porque o receio de começar algo que não existe era ainda maior. Em dois Halloweens, já tinha tentado fazer figuras masculinas, mas algo parecia incompleto.

Para a minha felicidade, um dia, em um fumódromo de balada LGBT, eu vi uma pessoa montada de drag king. Não conseguia parar de encarar aquela figura, que usava uma lace igual à que eu tinha e que era uma das mais perfeitas performances de gênero que eu já havia presenciado. A pulsão foi tão forte que eu, introvertida até dizer chega, resolvi ir até ele e perguntar tudo que fosse possível sobre o que estava sendo feito ali. O resto é história.

O meu ponto aqui é que as coisas foram acontecendo para mim de uma maneira tão orgânica quanto poderia ser se eu estivesse na casa dos 20. Em nenhum momento, o sentimento de “será que sou muito velha para isso” passou pela minha cabeça depois que mergulhei no mundo king. Parece que, de modo natural, no meu interior, havia uma consciência de que não existe período “certo” de vida para se fazer alguma coisa. Eu só queria fazer e isso me bastava. E talvez seja isso que esteja faltando um pouco nas novas gerações de artistas.

Começar alguma coisa mirando apenas no resultado final, na fama, em quantas datas e agendas sua persona vai ter é garantia de frustração e de perda da melhor parte de todo o processo: o caminho. Pouca coisa tem mais valor do que perceber no espelho a sua evolução, no quanto já foi andado até chegar no objetivo de maquiagem, de figurino, cabelo, show… é uma sensação de conquista, de trabalho, de estudo. E todas essas coisas dependem da sua VONTADE, não da sua idade. É claro que se o início do seu despertar artístico acontecer em um contexto em que não existe a obrigação de trabalhar 44h semanais e pagar aluguel, será muito mais proveitoso. Mas isso tampouco tem a ver com a idade, tem a ver com realidade social. Privilégio também não tem faixa etária.

E sem dúvida o maior receio, a grande questão sobre fazer coisas de maneira “tardia” (mesmo que isso não exista de fato), é comparar-se com quem começou muito mais jovem, ignorando todos os demais recortes. Esquecemos que talvez a maturidade faça com que lidamos melhor com o intenso mundo artístico drag, com a desvalorização, com contratos abusivos. A bagagem de mundo deixa a gente esperto em reconhecer o que vale a pena ou não, porque o racional costuma ser mais dominante. Ser macaco velho tem mais vantagens do que parece, até para ensinar quando o silêncio é a melhor política.

É claro que, muitas vezes, bate na nossa mente o “se eu tivesse começado antes”… Mas a verdade é que você começou quando estava internamente pronto para isso. Ter começado antes poderia fazer com que a compreensão da sua arte fosse outra, o direcionamento fosse outro. Ter vivido num mundo de capitalismo selvagem por mais tempo ensina o que priorizar, que arranjos e escolhas fazer. Mostra que raras vezes a gente começa alguma coisa com reconhecimento, com bom cachê, e que se não estudar de fato, se aprimorar, não vai passar de um hobbie.

E tudo bem se for, mas é preciso ter consciência de que estágio a sua arte está e o que realmente se quer fazer com ela. E nada melhor que umas boas décadas nas costas para clarear a visão sobre o caminho que desejamos trilhar.

Além disso, ter me descoberto dentro de uma expressão artística depois dos 30 anos me ajudou a me conhecer ainda mais em muitos aspectos.

Passei toda a faixa dos 20 socializada como pessoa heterossexual, sem maiores questionamentos, afinal, a criação tinha sido esta a vida toda, o que resultou também no convívio apenas com homens cis gays, era o mais perto que eu chegava da comunidade no início dos anos 2010. Fiz exatamente o caminho mais comum que “mapô”, “mulher viado” costuma fazer: começa a ir em balada LGBT -> começa a conviver com pessoas trans -> descobre múltiplas sexualidades e expressões de gênero -> começa a investigar o que é possível viver para além do mundo que conhecia. E isso ter acontecido quando eu já estava com “certa idade” permitiu que tais análises fossem feitas numa perspectiva mais profunda, de mais autoconhecimento do que pura empolgação, pois é um momento em que a gente se respeita mais e quer ser menos aceito pelos nossos pares sociais.

Ser drag king a caminho do título de cacura fez com que eu me permitisse ter experiências que antes me eram negadas por mim mesma, pois a persona era tudo que eu não conseguia ser, principalmente livre para experimentar todas as sensações que me dessem na veneta. Cá estamos em tinta rosa, roxa e azul. Imagina se existisse data limite para sermos nós mesmos?

A maioria das nossas limitações existe não só porque moramos demais dentro da nossa cabeça, mas porque deixamos que esse universo particular seja mais palpável que o mundo real. Conflitos geracionais fazem parte da cultura desde que Silvetty Montilla brincava de boneca, é só não os validar e deixar que ditem os passos futuros. Até porque esse papo de “limite para viver é 30 anos” volta para morder o rabo dos vinte-e-poucos como um oroboros: seja para causar ansiedade, pois “o tempo está acabando”, seja quando de fato chegarem aos 30 e perceberem o quanto de bobagem estavam falando.

Tornar-se drag aos 32 – e ainda ser aos 40 – foi a maior libertação que eu poderia ter dado ao meu ser. Podia ter sido dança, teatro, escrita, pintura… qualquer coisa que tocasse a minha alma a ponto de eu PRECISAR botar para fora.

E a necessidade de se expressar tem classificação livre: para todas as idades.

Dragficar o olhar: resenha de A coisa drag (Sandro Ka, 2024)

Profª Maldita (Douglas Ostruca)

Livro A coisa Drag
Capa do livro “A coisa Drag” (Sandro Ka, 2024).

Em A coisa drag, Sandro Ka propõe uma investigação sobre a drag enquanto fenômeno estético, político e epistemológico, deslocando-a de uma compreensão restrita à performance de gênero para situá-la como uma metáfora da própria arte contemporânea. Desde as primeiras páginas, o autor aborda a expressão drag a partir de sua ambiguidade constitutiva, de sua fluidez e de sua operação tensionamento das pressupostas verdades. A drag aparece, assim, em sua potencialidade de expor lacunas, fraturas e instabilidades dos regimes normativos de sentido.

É a partir desse modo de funcionamento que Sandro Ka constrói o que se pode chamar de uma perspectiva drag de análise: uma lente de observação da arte contemporânea orientada pelo que o autor nomeia de dragficação. A pergunta que atravessa o livro — “o que seria a arte contemporânea se não uma forma drag de existir?” — não busca uma resposta definitiva, mas instaura um campo de indeterminação produtiva. Na perspectiva de Sandro Ka (2024), a drag é pensada como um fenômeno que transborda, atravessa e contamina diferentes expressões artísticas, operando por meio do “exagero, da gambiarra, da ironia, da ambiguidade, da contradição” (p.4).

A coisa drag se estrutura também como um projeto curatorial expandido, sendo o conceito de “dragficação” (2024, p.5) um operador para ler diferentes obras artísticas, passando longe de uma categoria fechada com características estanques. O livro reúne trabalhos em múltiplos suportes — pintura, performance, fotografia, escultura, vídeo-performance, lambe-lambe, cerâmica, plástico e instalação — reforçando a ideia de que a drag não se fixa em uma linguagem específica, mas se manifesta como atravessamento transversal.

Entre as obras analisadas, algumas representam a drag de forma imagética direta, como a obra Madame Bigode (2021), de Amorim, que trabalha com um jogo de sobreposição entre códigos de gênero femininos e masculinos, desestabilizando a binariedade. Na série UóHol (2020), de Rafa Bqueer trabalha figuras conhecidas na cena drag. Na pintura Spacer Woman (2024), Thix constrói uma figura mascarada apenas com os olhos maquiados à mostra. Em outros trabalhos, artistas drag são retratadas por fotografias figurativas, dando a ver montações heterogêneas em ato. Esse é o caso da série Polaroids (2024) de Igor Oliveira e da fotografia Bastidores (2017) de Matheus Fabrin que retrata a drag queen Cassandra Calabouço. Nessa via, há ainda a foto da drag Sarita Themonia, feita por Matheus Clima (2020) como parte da série de foto performance Reaproveitamento, a qual trabalha com questões ecológicas articulando corpo, resíduo e ambiente..

Em um segundo eixo central do livro, nota-se obras que se apropriam de traços reconhecíveis em montações drag para construir obras que vão além das representações figurativas de drag queens. Entre essas características, Sandro Ka pontua o kitsch, a cultura pop, o brega e o camp como estratégias que operam no limiar entre útil e inútil, valor e desvalor, chique e cafona, gerando estranhamentos e rupturas. Esse “entre”, constantemente reiterado pelo autor, constitui um espaço de potência da arte drag. Obras como a Revista Santas Drags (2019), de Lai Borges, exemplificam a quebra de contextos e a ressignificação de códigos visuais e simbólicos, acionando uma performatividade queer que desloca sentidos religiosos estabilizados. A noção de montagem e desmontagem, provinda nas montações drag, também atravessa diversas produções: a montação como costura, como pele porosa e como composição de si, presente em Lembranças de um esquecimento (2024) de Dods Martinelli, Dama (2023) de Victor Borém, e Sapo Alegórico /Jardins Zoobotâncios (2004) de Téti Waldraff. Outras obras exploram ainda estados extra-humanos, a vertigem, a deformação e a instabilidade identitária, reforçando o devir na arte drag.

Por fim, o conceito de “dragficar”, em diálogo com o artigo Sob a dragficação: narrativas dissidentes e subversões estéticas na arte contemporânea, amplia ainda mais o alcance teórico do livro. Dragficar não é fixar uma definição, mas afirmar a impermanência dos corpos, das formas e dos sentidos. Trata-se de uma abertura para conexões, para leituras do mundo a partir dos saberes e práticas drag. Em A coisa drag, Sandro Ka analisa a arte contemporânea localizando nela traços dispersos provindos das montações drag, efetuando em ato o próprio dragficar enquanto epistemologia do entre, do excesso e da instabilidade. Trata-se de dar legitimidade a um modo singular de conhecer, criar e existir.

Rubão, Ruby: quando o corpo clama por infinitas possibilidades

Entrevista por Ayla Cinema

Tenho uma amiga minha que construiu seu espaço na foice, numa cidade muito conservadora. Uma pessoa em que um corpo e uma existência é pouco para ela, com seu corpo visita o masculino e o feminino que lhe foi privado e/ ou imposto. Nos faz visitar a fronteira de gêneros como poucas, e por vezes já experimentou a metamorfose da fusão entre animal e humano. 

Quando a conheci, Rubia Romani já era uma atriz renomada da cena teatral da cidade de Curitiba. Vi sua carreira florescer de diversas outras formas no seu encontro com a arte Drag King e com o Burlesco, nas quais construiu as personas Rubão e Ruby respectivamente. Tais figuras arrebatam cabarés, galerias e teatros mundo a fora. Performances como Cavalo, em que Ruby, nos convida a vê-la como um cavalo, e ao longo da performance o próprio cavalo vira um animal a parte de seu corpo, até ela montar propriamente no cavalo, embalada pela música Cavalo da diva Liana Padilha. Assim como em Cosmos, no qual ela abre o número como uma viúva e faz um streap- tease ao som de Blu Bel, até culminar em uma projeção de estrelas no teto que saem do brilho de sua cabeça. Performances inventivas, dramatúrgicas, ousadas, debochadas. Como Rubão, vi ela fomentar diversos filhos Drag Kings, porque além de tudo é uma pessoa que tem a generosidade de partilhar sua caminhada. Segundo ela, foram mais de 300 pessoas. 

Rubia, Rubão, Ruby, como preferir, vem conferir esse papo que deu um livre pout-purri da carreira dessa atriz/ ator/ vedete, que inicia com uma constatação da sua performance de gênero no dia-a- dia, atravessando a formações de um coletivo artístico, e em dos trabalhos mais recentes, com a artista japonesa Seaborg, no qual encarnou uma porca inflável. 

Quando escrevo A.C. sou eu quem vos fala, Ayla Cinema, quando coloco R.R. é Rubão/ Ruby com a palavra. 

***

A.C. – Primeiro eu queria saber como tudo começou com o transformismo. E como é dar conta de um corpo que acessa tantos estados e tantas personas?

R.R- Transformista eu já via muito na TV, então já gostava muito desde criança. E toda criança acho que gosta dessa coisa da montação, quer dizer nem todas, mas acho que a maioria. Mas pra mim a montação veio de um lugar completamente diferente, porque eu comecei com o Drag King, não tinha referência disso. E foi como um chamado espiritual, não foi algo que eu pensei nossa eu vi isso em tal lugar, agora eu quero fazer isso, não foi assim. Foi num lugar de muitas sincronicidades, por isso que eu digo que foi espiritual. Um período de muitas transições da minha vida e de uma queda profunda, de muita decepção, muita dor. E eu estava na passagem dos 29 para os 30, que vem retorno de Saturno, que a gente fica bem doido, não sabe o que está acontecendo muito. Muita coisa não se encaixando, uma crise muito grande, eu estava vivendo essa crise. E aí as sincronicidades foram acontecendo, primeiro eu estava em um bar com um amigo, um guardanapo caiu no chão e eu me levantei para pegá-lo. E eu só me levantei para pegar, meu amigo começou a rir do jeito que eu peguei, e eu estava como uma Dita Von Teese, uma Cláudia Raia, acontecendo num estado performático meio burlesco. E já era uma maneira de me portar que me foi colocada desde a infância. Meu amigo perguntou: “Mas porque você está pegando o guardanapo assim?” Eu respondi: “Assim como?”. Ele levantou e imitou exatamente o que eu fiz, na hora que eu vi a gestualidade dele, eu levei um susto porque eu me vi na gestualidade dele. E quando eu fui dizer “Isso é Natural do meu Corpo” , eu não consegui nem terminar a frase. Parece que se abriu uma fenda temporal naquele bar, e parece que eu fiz uma retrospectiva de tudo o que o meu corpo tinha vivido até aquele momento. Até eu pegar aquele guardanapo, coisas tipo as princesas da Disney, 16 anos de ballet clássico, toda a construção de um caminho de ser menina.  Foi a primeira vez que eu tive um estranhamento com essa normatividade compulsória, de pensar que isso não é natural, isso está sendo construído a muito tempo.  Fiquei me vendo como um avatar, e eu não tinha ouvido falar em teoria queer ainda, nada dessas coisas, isso era 2014. E os movimentos feministas, e teoria queer estavam começando a ser mais falados no Brasil ainda. Já existiam os termos, mas essas discussões ainda não estavam acaloradas no Brasil. Fui embora de um jeito muito estranho, me sentindo um boneco, sentindo que eu não tinha feito escolha nenhuma da minha vida. E eu fiquei me olhando nesse estranhamento por muito tempo, estava lendo um livro na época chamado Um, Nenhum e Cem Mil do Luigi Pirandello. Sobre uma pessoa que começa a entrar numa jornada, o um homem que ele pensa que ele é, o nenhum que na verdade estamos sempre mudando, e o cem mil em que a gente é um para cada um que esbarramos na vida. E aí começo a fazer experimentações para perceber quem é esse um, esse nenhum e esse cem mil que sou eu. Comecei a fazer experimentações com o espelho, com meu próprio corpo, olhando pra mim. E me fazia perguntas: Como é o tamanho do meu sorriso? Como é o meu seio? Como é a minha munheca?

E foi por uma experimentação gestual, de entender como esse meu corpo tinha sido construído. Depois disso fui trabalhar num festival de dança contemporânea na Bahia, eu ficava muito tempo no QG do festival. Vale ressaltar que eu estava em crise com as masculinidades da minha vida, sobretudo em relação aos homens que deviam me proteger. No festival eu ficava muito no QG, e eu reparava muito em umas mulheres que falavam alto, que tinha uma energia sexual muito forte e eu ficava me perguntando quem são essas? Elas faziam uma residência com uma coreógrafa húngara chamada Eszter Salomon, ela estava remontando uma peça dela própria que chama Reproduction. E a hora que eu vi a peça, me deu um bug e senti um frisson que eu não conseguia ficar na cadeira. Não eram elas, eram eles, estavam todes montados como a masculinidade hegemônica. Tinha toda uma pesquisa erótica, porque a certa altura do espetáculo eles faziam posições do kama sutra em câmera lenta. E depois eles retornavam montados como mulheres, e os gêneros se pulverizavam, não eram mais aquelas mulheres, não eram mais aqueles homens, eram vários outros. E aí eu fui embora de lá muito louca, querendo experimentar isso, como é que faz? 

Nem sabia ainda dessa palavra Drag King, e eu refletindo como seria isso apareceram os diretores Débora Zanatta e Estevan de La Fuente, me convidaram para fazer um filme chamado Lovedoll, li o roteiro e encontrei ali a possibilidade de uma primeira experimentação que ia de encontro com a minha busca. Uma mulher que se despe dos códigos femininos após receber uma boneca inflável pelo correio. Foi uma busca pelos códigos do gestual, ainda sem os códigos da montação. Logo veio o carnaval, que é o celeiro das nossas Drags, e eu ganhei uma lace de bigode natural de um amigo. Quando eu vesti o bigode, um mundo se abriu, me senti atraída por mim mesma. Quase como aquele personagem o Máscara, o que elementos de montação vão provocando em diversas partes do corpo, é como se você conseguisse acessar outro estado a partir de elementos. Meu corpo foi sentindo outras coisas, que eu não sabia que eu poderia sentir. Quando eu saí na rua aconteceu o êxtase erótico, político, de tudo, eu estava me sentindo com um poder, que eu era quase um super herói. E eu pensei: isso é muito forte, eu quero mais, e aí comecei a me montar, não porque eu queria levar para a cena, mas porque eu queria sentir de novo o mesmo êxtase.

Me montava para aparecer nos lugares, convidavam a Rubia para um churrasco, eu aparecia de Rubão, me montava para andar de bike, para ir num boteco sozinha. Fiquei uns 3 anos, me montando e invadindo outros espaços. Uma experiência quase que invisível, não impondo que eu fosse um novo Drag King, e nem pensava sobre ir para a cena. Hoje em dia teria muito medo de fazer umas coisas que eu fazia, por isso eu digo que foi uma espécie de chamado espiritual, como ir no boteco sozinha, falar com os homens, entender mais do mundo masculino. Eu estava precisando subverter a raiva que eu estava sentindo das masculinidades, subvertendo na criação de outro corpo, subvertendo em riso o que me doía. No meio disso encontrei o burlesco e comecei a fazer performances como Ruby, mas logo Rubão veio reivindicar seu lugar em mim e comecei as fazer as performances de burlesco misturando com drag king, assim Rubão começou a ter vida própria de uma forma que eu quase não controlei. Meu trabalho ficou conhecido, as pessoas começaram a me chamar para dar aulas. 

Análtica do Brasil Recruta
Análtica do Brasil Recruta. Foto: Adeloyá OjúBará.


A.C.- Como surgiu o projeto de formar novos Drag Kings? E qual o sentimento de introduzir tantas pessoas nesse universo?

R.R.- Desde a minha primeira performance, que até hoje é a minha melhor performance de Rubão que chama Análtica do Brasil Recruta. Apresentei pela primeira vez no Ruído em Cena, um festival de performance que a Juana organizou, assim que eu sai de cena tinham muitas mulheres impactadas de como que eu estava fazendo aquilo, e perguntando se eu não dava oficinas. E eu pensei olha, nunca dei oficina mas eu tô 3 anos investigando essa criação, eu comecei a pensar que podia partilhar o que eu estava vivendo. Passou umas 3 semanas, eu dei a primeira oficina. Queria que as pessoas experimentassem o frisson e a subversão dos desconfortos, como o que eu estava vivendo. Então comecei a oficina em processos de mergulhos em nossas dores e nossas delícias, em códigos corporais estabelecidos, para ir trazendo coisas à tona. Não é uma coisa só de fora pra dentro, aí outra coisa acontece quando se monta. ( ou seja o processo interno traz bastante material e quando se monta outras coisas acontecem, a experiência é mais tridimensional, do que pensar de fora para dentro) Então tem um momento de escavação, de buscar referências, escavação de repulsas e atrações. Tem um momento que cada pessoa traz um pouco da sua vivência, então não é uma verdade absoluta a minha oficina, deixo isso bem claro para as pessoas. Eu parto da minha vivência, mas provoco as pessoas de coisas que elas podem ir atrás e pesquisar. Tem um lugar de pesquisa corporal, tem um lugar que eu trago também um pouco do erótico, eu tenho formação em terapia orgástica, é algo que atravessa a minha vivência e criação King, como se trabalha o erótico dentro dessa pesquisa. E aí uma coisa que pra mim não fazia sentido era fazer uma oficina, e acabar ali dentro da sala, porque para mim estava no lugar de ir pra vida, entender como esse seu avatar se relaciona com as pessoas, sem ensaio, respondendo a uma lógica em tempo real. Eu queria que as pessoas também sentissem isso, então na época eu criei junto com outro King o David Grelow a festa Kings of The Night. Uma festa para introduzir as pessoas na cena, e ter essa experiência na sociedade fora da sala de ensaio. Tinham pessoas que nem eram artistas, tinham pessoas que às vezes tinham o desejo mas não queriam investigar sozinhas, então eu criava uma performance coletiva dentro da festa para as pessoas se sentirem seguras de performar pela primeira vez, e performar ao meu lado. O paizão Rubão, ali junto para a pessoa decidir depois se gostaria de continuar com a pesquisa. Dessa história surgiu um coletivo chamado Kings of The Night, criei um grupo para quem quisesse continuar na investigação e trocando referências, também havia pouca informação sobre Drag Kings na época. Muitas pessoas estavam me questionando desde 2014 porque que eu estava me montando de homem, num momento tão feminista, que era um desserviço pro feminismo e eu não tinha explicações exatamente porque era um chamado do meu corpo, e aí fui tentando pesquisar teorias pra ter como responder. Acabei encontrando coisas em inglês, fui traduzindo e tentando construir um pensamento para explicar mais profundamente porque aquilo estava me orbitando tanto. Dar oficina, foi uma realização minha, quando eu era criança e adolescente eu dizia que eu tinha um negócio no peito que eu queria distribuir, não sei o que era. Eu entrei em muitas cagadas na vida tentando distribuir isso pro mundo, eu sinto que com Rubão isso aconteceu. De repente eu tava compartilhando algo grande que eu sentia no peito, e ver as pessoas também sentindo esse frisson esse êxtase. Gente dizendo que a vida tinha feito sentido, gente dizendo que gostaria de transacionar de gênero porque estava se sentindo melhor nessa outra pele. Como se fosse um processo de entrar em sintonia com o próprio corpo, pessoas descobrindo fazer piada com coisas que são muito duras, descoberta de outras masculinidades e que abraçar sua masculinidade também fortalece sua feminilidade. Foi me surpreendendo os lugares que tocavam as pessoas, por isso essa arte para mim é muito especial, porque cada pessoa que faz, cria um sentido próprio, único e particular. Sabe, eu acho que é sair desse lugar eu quero ser como tal pessoa, você se colocar nesse lugar do que tem de único dentro de si é um caminho muito potente para autoconhecimento, para muita coisa. De 2017 até agora, dou bastante oficinas, não sei quantos filhos eu tenho exatamente, mas talvez umas 300 pessoas passaram por essas oficinas, presencialmente eu já tinha ido para diversas cidades, mas na pandemia acabei dando aulas online para pessoas de diversos lugares do país.

A.C.- Você acredita que existe um feminino e um masculino que nos é negado de acessar independente de identidade de gênero? Como essa subversão dos gêneros, o masculino no King e a feminilidade do burlesco te atravessam e o que isso trouxe pra sua vida?

R.R. – Eu tenho lugares bem ambíguos com tudo isso, eu não acho que existe exatamente UM homem, UMA masculinidade, UMA feminilidade. Mas eu acho que todas essas leituras binárias estão intrínsecas em nossa estrutura, por leituras muito errôneas e até históricas. Mas eu acho que existem essas pulsões que a nossa vida toda ela vão se dando em opostos e que tem um monte de coisa no meio. Tem dois pólos, e um monte de coisa que acontece nesse intermédio, e acredito que isso valha para tudo, como a dicotomia entre dor e prazer. Não existem lugares puros, mas a construção binária está tão arraigada, que a gente faz as leituras dos códigos quase que automaticamente. E as estruturas hegemônicas nos negam a experimentar outras coisas, nos negam de experimentar a fronteira, e eu acho que é na fronteira que a gente vai descobrindo coisas, o que faz sentido para nós mesmos. Eu tenho um amigo trans, que ele diz: “Eu acho que existem tantos gêneros, quanto existem pessoas no mundo”. Quando a gente faz esse mergulho de como a gente se vê, do que a gente quer expressar, é muito único. Às vezes falar da não-binariedade, não vai expressar tudo que tal pessoa sente no conceito em si. Eu acho que no lugar de trânsito a gente descobre o que faz sentido, foi nesse lugar que minha feminilidade foi se transformando. Foi dentro de entender as masculinidades, que outras feminilidades foram brotando em mim. E aí eu vejo que quando me monto tanto de Ruby, quanto de Rubão, outros homens e outras mulheres que estão dentro de mim surgem. A Ruby é formada de expressões que estão aqui dentro, Rubão são outras expressões de outra parte de mim. 

A.C-Você tem diversos números emblemáticos mas no burlesco destaco Cavalo e Cosmos. Queria que você comentasse um pouco sobre a criação desses números porque eles transcendem o esperado de um número burlesco, um é sobre acessar o estado animal, o outro nos leva a viajar pelo universo ambos mistérios quase que extrafísicos. 

R.R.- Eu acho que realmente são números emblemáticos, são os carros chefes. O Cavalo foi meu primeiro número no Burlesco, ambos os números eu acho que vieram da ignorância que eu tinha do que era a coisa. Então se eu puder dar um conselho para os jovens a referência também é muito interna, porque se ela fica só externa você acaba só reproduzindo uma fórmula pronta. Meus melhores números vieram da ignorância que eu tinha do que era a coisa. Eu tinha feito um workshop pequeno com a Miss G (Artista grande referência do burlesco nacional) de Burlesco, então não tinha muito conhecimento, mas eu sempre transitei por diversas artes, me considero meio promíscua das artes. Quando eu vi o Burlesco pela primeira vez, tinha uma coisa muito interessante de acessar muitas artes, mas ao mesmo tempo ter um lugar muito próprio, é dança mas não é dança, é teatro mas não é teatro, é cômico, mas não é cômico. Com a Miss G, fui descobrir que existiam muitos estilos de Burlesco. O Cavalo eu sinto que foi um número que eu recebi ele, eu fazia muitos animais no ballet clássico quando criança. Eu decidi que queria trabalhar com um falo que não fosse humano, eu queria trazer o fetiche, mas o fetiche não estereotipado. Eu sou o cavalo, e aí vai trazendo a narrativa que vai se transformando na cena, depois eu sou uma amazonas, depois eu sou a amazonas desse cavalo e uma relação tão íntima e delicada com esse Cavalo. Tem algo muito erótico, mas depois de toda essa trajetória eu escolho alguém do público para se transformar em meu cavalo. 

( Vale ressaltar que essa performance é embalada pela música Cavalo da banda Noporn, cantada por Liana Padilha que já nos primeiros versos entoa – Meu amor é seu, meu amor é seu cavalo. A performance foi apresentada em diversos tipos de espaço, e em diversos lugares do Brasil, chegando a ser comparada a uma possibilidade de atravessamentos a Teoria King Kong.)

A narrativa foi vindo depois, mas partiu de um lugar muito chulo, o desejo de trabalhar com um dildo e descaracterizá-lo da forma humana, mas sempre parte de um lugar e depois vou complexificando. 

Falo para os jovens, às vezes pode vir de um lugar muito esdrúxulo, e depois você pode aprofundar. Porque como eu venho da dança contemporânea, sempre vem de um lugar muito cabeção, às vezes eu sinto que as pessoas não conseguem nem aprofundar. Estou generalizando, mas às vezes você querer elucubrar demais, como demonstrar que leu Foucault, mas a sua obra não está comunicando, não está falando nada com nada, ninguém está entendendo, ninguém saiu com nada. Porque você está querendo prestar uma conta ao Focault que você leu, e não uma coisa que realmente tem sentido para você, que tenha a ver com suas sombras e brilhos e que gere conexão com o público. 

O Cosmos é um número muito querido para mim, ele vem de outra história profundona da minha vida. Porque eu tenho três histórias profundonas na minha vida que são o Drag King, o Burlesco e a pesquisa erótica. As três coisas aconteceram meio que ao mesmo tempo, tive até de tirar um ano sabático depois. Como eu estava vivendo um lugar soturno da alma com separação, decepção das masculinidades, eu tive uma experiência na Califórnia que eu tive um orgasmo cósmico que me pegou de surpresa. 

Aconteceu com um cara que ia ser monge, uma história hollywoodiana que se eu for contar inteira, é uma coisa louca. Foi um lance pelos chacras, meu corpo se debatia, sem toque, sem nada. Depois que passou essa experiência, eu voltei para casa, parecia que eu estava drogada de tanto êxtase. Contei pra minha mãe o que tinha acontecido, ela disse que era Tantra, ela me revelou que ela estudava o Tantra mas nunca tinha me contado sobre porque sofria muito preconceito numa cidade pequena. Me mostrou uma biblioteca secreta com todos os livros dela de Tantra, comecei a estudar e fui ao caminho das terapias orgásticas. Depois dessa experiência minha criatividade se abriu de um jeito, e foi quebrando amarras, muita coisa caiu por terra, o amor romântico caiu, o amor próprio surgiu, ainda não tinha tido amor próprio dessa forma. Entrei em meditações, que meu corpo criava uma erótica e uma energia que era para mim mesmo. O número Cosmos é a narrativa dessa minha história, eu começo como se fosse uma viúva, era como eu me sentia antes, tudo morto me sinto como Hades e Perséfone que vai lá e planta nesse terreno morto o que vai nascer dali é muito mais forte. E quando essas sementes nasceram, elas nasceram muito potentes de tudo que morreu de mim. Vou me despindo, troco para um figurino vermelho e vou ficando mais safadinha como se fosse um despertar dessa sexualidade, que rompe com o que eu tinha aprendido de sexualidade até então, e isso me levou ao cosmos. E depois dessa experiência, eu tenho orgasmos cósmicos, eu vejo luz, eu vejo brilho, muitas criações minhas vem de meditações, desses transes de sexos diferenciados. Depois de um tempo contei tudo a um amigo e ele disse: “Rubia eu ouvi uma música, e ele é a história que você me contou.” E ele me apresentou Cosmos da Blue Bel, meu corpo até levantava da forma como ela canta o ápice, e praticamente veio instantânea a criação e terminar com uma imagem que pudesse ser um planetário a olho nú sem filtros que saísse da minha cabeça. 

Espetáculo Super Farm de Seaborg
Espetáculo Super Farm de Seaborg. Fonte: Arquivo pessoal do entrevistador.

A.C-  Falo do extrafísico refletindo como o excesso de materiais sobre o corpo nos leva a um lugar de profunda reflexão dos papéis de gênero desenhados pelo status quo e acho que você nos provoca em todas as instâncias o que é transcender o ser estar de gênero com performance e pra mim é quase como transcender a matéria. E como comentei você já vinha nessa pesquisa do mundo animal. Mas recentemente fez o espetáculo Super Farm* da artista japonesa Seaborg, onde somos provocados o limite do humano, animal e artificialidade. Queria que você contasse um pouco dessa experiência e como essa experiência atravessa a sua trajetória Drag/ Burlesca.

*(Super Farm é um espetáculo interativo apresentado no Sesc Consolação em São Paulo, onde a artista Seaborg constrói um grande cenário de fazenda todo em látex, e os animais que povoam essa fazenda são performers vestidos de animais em látex, foi aberta uma seletiva no Brasil de atores, atrizes e performers, Rubia foi uma das selecionadas).

R.R.- Trabalhar com a Seaborg foi muito incrível, eu acho que vou atrás de muitas experiências diversas na arte, para poder sentir coisas diferentes. Só uma existência como Rubia, seria muito pobre. Então como eu posso ir ali catar uma experiência diferente em relação a mim, e que isso possa me trazer de reflexão. Muitas pessoas me enviaram o trabalho dela e depois também quando abriu a convocatória. Tinha uma época que eu fazia muitas coisas com boneca inflável, número do Rubão, eu me montava de boneca inflável também. Esse lugar do artificial, em que a mulher é sempre colocada como objeto, querer explodir esse lugar artificial sempre me interessou como uma revanche de como somos tratadas enquanto mulher. Ia de encontro com muitas coisas que eu já havia feito, coisas de pós-pornô para ver até onde eu vou com a dor, ou até onde eu vou com uma asfixia ou algo assim, e é na arte porque na vida cotidiana eu nem gosto dos extremos. Tem esse lugar de entender os limites do corpo, um lugar artificial, também animal. Ali dentro fui entendendo outras coisas, a Seaborg também veio do lugar do fetiche, do BDSM, ela quem fazia as roupas de látex. Dentro do BDSM, tem esse lugar de falar sobre o cuidado, e a gente não fala muito sobre. O trabalho dela como se chega muito limites do corpo, tem de se falar de cuidado o tempo todo. Ela fala sobre o cuidado, em todos os lugares do trabalho dela, se você assistir é sobre cuidado. A gente ali vestidos com grandes roupas de látex, no meu caso vestida de leitão, vendo como as pessoas vão se relacionar com leitõezinhos que acabaram de nascer, estão super vulneráveis, de quatro para as pessoas, poderiam pensar em chutar. Como as crianças se relacionam? Elas vão bater? Elas vão amamentar? Os adultos vão debochar? Toda a obra dela vai revelando camadas sobre cuidado, e aí aprendi que esse cuidado reverbera nos bastidores, tudo tem conversa e somos ouvidos. É muito difícil ficar dentro daquela roupa, mas tudo é feito com cuidado para ficar num limite possível dentro do desconforto. Não imaginei que eu ia extrapolar os limites de me emocionar nessa experiência, o primeiro dia que eu vi de dentro do porco uma senhora dançando comigo, e eu emocionada de ver a alegria dessa pessoa. Como performer e eu achei incrível, a conexão que parte da vulnerabilidade tanto dos performers quanto do público. O público está vulnerável, porque também é obrigado a interagir, é uma conexão para ambos. Como vou me expressar num corpo que já não é meu corpo, sem falas, dentro de um grande porco de látex. Encontrar sutilezas dentro de um grande avatar, a dramaturgia também tem muitas camadas, as roupas e o cenário são fantásticos, você pode se divertir só com isso, mas se pega as camadas reflete em muitos outros lugares. A forma como os japoneses trabalham achei um primor, uma gentileza para os feedbacks e para escuta. E Seaborg me selecionou por conta do Rubão, porque como ela vem do cabaré de outras coisas, surgiu uma conexão. O espetáculo termina numa grande celebração, meio baladinha, então se conecta com a minha trajetória e lugares que eu já passei. 

A.C.-O que você diria para quem está começando nas artes do montação e burlesco? 

R.R.- Primeiro calma, eu acho que esse momento de redes sociais parece que tudo tem que estar lindo e perfeito para ontem. Curte o negócio, curte o lugar de não saber, as coisas vão sendo reveladas. Viva seu processo sem estar preso ao olhar externo, isso mina coisas. Se ainda não acha que é momento de colocar nas redes, não coloque. Não busque validação e aprovação, se você está disposto a mostrar seu processo sem estar refém disso, publique o seu início, mas veja como reverbera em você, como você se sente em relação a isso. Um ano de Drag é igual a de um cachorro, um ano é igual a sete anos, o trabalho vai mudando muito. Então vai curtindo as fases, não atropele os momentos. Segundo é, viva profundamente as coisas, veja o que faz sentido para você. E terceiro é estude, estude mesmo, para também não achar que você está inventando a roda, tudo já foi feito, adoro encontrar referências similares do que estou querendo fazer. Como para cavalo fui encontrar referências de 1920, mas não para ser capturada pelas coisas que eu vi. Para estar aí nas coisas que estou criando, e que orbitam no inconsciente coletivo. Estudando a gente também honra quem veio antes, e estudar também para não falar merda e entender o que você está fazendo. E digo, não seja capturado no sentido de querer ser igual a tal pessoa. Para mim a criação tem que partir de você e ela surge dessa dicotomia de dor e brilho, dor e brilho.

 A.C.- Qual o futuro das artes da noite pra você? E o que podemos esperar dos seus próximos trabalhos?

R.R.- Eu acho que as artes das noites são muito potentes e muito maravilhosas, mas não são valorizadas. Não vai haver futuro se a gente não fizer uma revolução (risos). Ainda tem muito lugar que só quer que a gente dê close por drink, ou que paga tão pouco que não cobre nem o transporte. Não vai ter artista foda, se a gente não for pago, então as pessoas vão estar doentes, tenho visto muita gente com a saúde mental muito debilitada. Porque fazemos muito e no fim do mês estamos fudidos, sou a favor de uma greve das artes da noite. Daqui a pouco vai ter só iniciantes, e a gente não vai ter uma história duradoura, o que é muito triste de ver. A gente vê pessoas do passado se encontrando numa velhice muito precária, nossos ídolos das artes da noite nessa situação. Eu estou querendo me distanciar das artes da noite, mas só porque quero sair da lógica desse mercado que não paga. Mas amo as artes da noite, porque sou desse lugar, e de lá que eu quero fazer essa volta pro teatro. Não que o teatro pague bem, mas a gente acessa outros lugares. Mas eu acredito muito no cabaré, nessas artes que não vem do lugar convencional, porque elas estão conectadas com lugar de política e dor que precisam ser  faladas. Não precisa esperar o edital, vai lá e faz e precisa se colocar nesses lugares, e não é de hoje, é de sempre. Foi desses lugares que saíram as vanguardas então eles vão continuar existindo, mas eu gostaria que elas existissem com mais dignidade. Para os performers serem duradouros e terem dignidade para existir. Sobre meus próximos trabalhos, estou em processo de dois solos teatrais, a performance do Cavalo vai virar um solo de uma hora que terá outro nome. E um solo do Rubão de comemoração de 11 anos de existência. Será uma celebração da minha própria existência, mas também de 11 anos pesquisando essas duas personas Rubão e Ruby, vou estrear os dois juntos. Personas que revolucionaram a minha arte e minha vida, antes disso eu era artista dos outros. Acho que vai ser bem legal, convido vocês para verem, será no primeiro semestre de 2026. Por enquanto é isso que estou por realizar, mas nunca se sabe o que as peripécias da vida nos reservam.

Drag monstras e o uso da estética humana:

Reflexões sobre signos não-monstruosos na arte monstra

Mia The Witch

Mia The Witch Grafia Drag

Certa vez, estávamos eu e outra amiga drag monstra em uma socialzinha com outras drags. Fazia muito calor em Porto Alegre naquela noite. Estávamos todas sentadas em um fumódromo, jogando conversa fora. Não me recordo quem foram as artistas que tínhamos assistido performar na tradicional casa Vitraux, aqui da capital gaúcha, mas certamente eram drags belíssimas – nossa cena, sobretudo, é demarcada por drags que personificam os signos de beleza hegemônica feminina, não conformando um local que dê muito espaço para outras abordagens drags. A conversa estava animadíssima naquela madrugada, até que uma das drags presentes na roda, após eu e minha outra amiga nos afirmarmos enquanto monstras, tecer o seguinte comentário: “Eu não acho que vocês são monstras, ser drag monstra é outra coisa”. Incrédula com tamanha petulância, eu indaguei o que, na concepção dela, era ser uma drag monstra, portanto. Foi quando me respondeu que, a partir de seu entendimento limitado, uma drag monstra deveria apresentar uma estética monstruosa que nada se assemelhasse à estética humana. Eu dei um sorriso malicioso e deixei a conversa fluir para outro assunto. Porém, essa conversa frequentemente reverbera na minha mente.

De modo geral, minha colega de cena não estava totalmente equivocada no comentário que fez. Barillo (2020) afirma que drag monstras são artistas que, através da arte drag, buscam por um desmanche dos códigos da humanidade; seriam artistas drags que rompem não apenas com condutas normativas sociais, como também com certos padrões estabelecidos dentro do ofício drag. Se olharmos superficialmente, a leitura que minha amiga fez de nossa estética estaria correta, afinal estávamos performando vários signos da feminilidade humana, além de outros relativos à monstruosidade. Contudo, Barillo (2020) também aponta que as drag monstras estão comprometidas com a monstruosidade não apenas no âmbito estético, mas também conceitual, já que “o monstro força a ruptura das bases, quebrando com estruturas monolíticas” (Barillo, 2020 apud Paleólogo, 2013, p. 2). Desse modo, proponho que para atribuir significação à uma drag monstra não se deve apenas tomar como base o campo visual, como também torna-se fundamental ter um entendimento do que é um monstro e dos elementos que assim o conformam.

Se buscarmos pela origem do monstro, pesquisadores da literatura, tais como Júlio Jeha (2007), afirmam que essas criaturas surgem na mitologia grega e romana, sendo lidas como um aviso contra uma infração do acordo de paz estabelecido entre a humanidade e o divino. O monstro, nessas civilizações, era entendido como um castigo de Deus; um ser abjeto que rompia com as condutas consideradas naturais, estabelecendo o caos na sociedade. Sobretudo, desde sua origem, o monstro representa perigo à humanidade. Portanto, desde a Grécia Antiga, é um inimigo dos humanos que precisa ser combatido. No livro “Da natureza dos monstros”, Luiz Nazário (1998), que é historiador e especialista em cinema, propõe que não é apenas a estética que constitui um monstro: vários outros elementos são importantes para conformá-lo assim. Deixando evidente que esses seres não precisam incorporar todos os elementos que são levantados no seu estudo, o autor os apresenta a partir da vasta possibilidade de características que podem (ou não) integrar os monstros. Dentre esses elementos, os quais engendram uma análise psicológica e física do monstro, o autor elenca a mutabilidade. É exatamente sob tal constituinte que eu gostaria de adentrar.

Monstros

Drácula (1931), Mística dos X-Men, transformação de bruxa em The Witches (1990) e a Cuca do Sítio do pica-pau amarelo (2001)

Conforme Nazário (1998), a mutabilidade diz respeito às metamorfoses que a corporalidade do monstro pode sofrer. Dessa forma, o autor demonstra a ideia de que o corpo desses seres não têm, necessariamente, uma apresentação estática, ou seja, uma forma única, já que “a besta pode-se revelar humana através da máscara” (Nazário, 1998, p. 117). Sobre esse ponto, podemos pensar em diversos monstros conhecidos na cultura pop que, como uma das habilidades que os tornam diferentes dos humanos, migram de aparência: o vampiro Drácula é um morcego que também possui uma versão de aparência humana com presas assassinas; no clássico filme The Witches (1990), as bruxas se hospedam em um hotel sob a aparência de mulheres humanas e, apenas entre iguais, prontas para realizarem uma convenção, revelam sua estética monstruosa original; nas histórias em quadrinhos, a mutante Mística é conhecida por ser uma monstra que pode se transformar em qualquer ser que ela queira, confundindo todos a respeito da sua identidade; a lenda do lobisomem indica que esse monstro é, na verdade, um homem amaldiçoado que se transforma à meia-noite em um ser metade humano e metade lobo; ainda, podendo abrasileirar mais os exemplos, temos a Cuca, bruxa com aparência de jacaré do nosso folclore, que tem o poder de se transformar em uma mulher humana e andar em sociedade sem ser descoberta. Mesmo antes de poder se transformar, a Cuca do seriado infanto-juvenil “Sítio do pica-pau amarelo”, clássico da rede Globo, retrata a jacaré com um longo cabelo loiro e um vestido vermelho – reconhecidos signos de sedução feminina. Vários são os exemplos possíveis. Em todos os que citei, além da habilidade de mutabilidade do corpo, temos outra semelhança: todos esses monstros podem apresentar uma (ou mais) variação de si em um corpo humanoide – humanoide e não humana, pois monstros nunca poderão assumir a identidade humana, podendo apenas representar cópias.

Dado todo esse contexto, parece-me um tanto raso afirmar que drag monstras não são monstras por performaram quaisquer signos de humanidade, sejam eles lidos culturalmente como masculinos ou femininos. Afinal de contas, nenhum dos exemplos citados acima deixa de ser um monstro por apresentar, momentaneamente, uma estética humanoide. O mesmo julgo valer para atribuir significação à performance artística das drag monstras, já que estão não apenas comprometidas com a monstruosidade pelo fator estético, como também no âmbito conceitual. Claro que uma artista que nunca faz uso de uma estética monstruosa não estaria totalmente aliada aos ideais previstos na montação das drags monstras. Essa, por outro lado, já seria uma nova discussão, a qual não pretendo me deter e cometer o mesmo erro que minha colega cometeu: o de ditar regras para o drag alheio. Aqui, me reservo exclusivamente a debater a respeito dos usos de signos humanos na tipologia das drags monstras – algo que, por mais trivial que possa parecer, ainda causa algumas controvérsias.

Conhecido por ser um reality show específico para drags monstras, The Boulet Brothers’ Dragula consiste em uma competição drag pelo título de próximo super monstro mundial. Nenhuma artista que tenha sido escalada para as seis temporadas que já foram ao ar deixa de se considerar uma monstra. Aliás, esse parece ser um preceito básico para fazer a seleção no programa – todas devem se identificar como drags monstras. Portanto, o programa traz uma proposta drag que rompe com os sentidos hegemônicos do que é lido socialmente como o trabalho de uma drag, justamente por adentrar ao campo da monstruosidade. Exemplo disso são as provas extremas que as participantes realizam, envolvendo serem enterradas vivas, comerem vísceras de animais, serem torturadas com agulhas, entre diversos outros casos vistos no reality que, de modo geral, indicam certas irregularidades na semiosfera drag que tensionam os sentidos ali produzidos.

drag monstra Grafia Drag

Em ordem, de cima para baixo, Melissa Befierce, Landon Cider, Louisiana Purchase, Sigourney Beaver, Fantasia Royale Gaga, Aurora Gozmic e Jade Jolie, competidores de “Dragula”

Todavia, em “Dragula”, nem todas as participantes performam, de modo contínuo e exclusivo, signos estéticos da monstruosidade. Se olharmos elementos que compõem o drag feito por artistas que já passaram pelo programa, tais como Melissa Befierce (primeira temporada), Landon Cider e Louisianna Purchase (terceira temporada), Sigourney Beaver e Jade Jolie (quarta temporada), Fantasia Royale Gaga (quinta temporada) e Aurora Gozmic (sexta temporada), entre outros nomes que poderiam ser citados, percebemos que a construção das suas personas não está firmada apenas nos ideais estéticos da monstruosidade. Diversas vezes no reality, vemos performances sob a estética da humanidade, seja a partir do que reconhecemos como signos de glamour e luxo ou da decadência e degradação.

Ao caminho disso, é bem verdade também que algumas dessas artistas mencionadas foram questionadas por suas colegas, durante o programa, a respeito de “não serem monstras o suficiente para ocuparem a vaga na competição”. Sigourney Beaver e Jade Jolie são dois casos de drags que sofreram esses comentários em Dragula. Talvez porque performam signos sociais atribuídos à feminilidade humana aliados a outros da monstruosidade. Em específico, quando falamos de Sigourney Beaver, acredito que o que fundamenta tais comentários é um discurso misógino que, infelizmente, permanece no meio drag. Beaver é uma mulher cisgênero fazendo drag e sua monstra é exuberante, glamourosa e elegante. Vejo claramente influências de monstras como a noiva de Frankenstein, Morticia e Elvira em sua drag. Portanto, questionar o quão monstra é uma mulher que faz drag através de traços da feminilidade humana, aliado a outros da monstruosidade, me parece, no mínimo, interessante quando ninguém questiona o quão monstras são essas personagens que citei e inspiram Beaver, mesmo elas correspondendo muito aos ideais estéticos de feminilidade que convencionamos sócio-culturalmente.

Por outro lado, no caso de Jolie, acredito que o maior contribuinte para sua deslegitimação enquanto uma “verdadeira monstra” estejam nos fatos da drag ter sido uma participante de RuPaul’s Drag Race (temporada 5) e por ter fama em personificar a diva pop Taylor Swift. Drag Race é um reality show responsável por tornar a arte drag em parte da cultura mainstream nos anos 2000, trazendo várias problemáticas consigo, como a padronização estética das drags que, em sua maioria, são extremamente femininas no programa. Tendo isso em vista, confesso que fui uma das pessoas que não entendeu o anúncio de Jade Jolie como participante da quarta temporada de “Dragula”, pois tudo o que se conhecia dela até o momento era que sua drag era uma linda e colorida Taylor Swift. Contudo, ao longo da temporada, Jolie demonstrou o quanto pertencia também àquele universo, apesar dos comentários constantes, tanto de colegas de temporada, quanto de parte da fanbase, dizendo o contrário. Parece haver uma rejeição muito grande por parte das pessoas à liberdade de ora estar mais aliada a uma tipologia drag e ora a outra, não só falando das drags monstras, mas me permitindo fazer um comentário generalista sobre a arte drag em si. Fato este que, na minha opinião, deveria ser encarado de modo positivo, uma vez que demonstra a versatilidade do artista. Afinal, Madonna não criou uma carreira lendária ficando presa ao mesmo gênero musical e a uma única estética – seria entediante.

Meu ponto aqui é questionar, principalmente, esse entendimento de que drag monstras precisam manter uma aparência monstra o tempo todo para serem validadas desse modo. Aliás, mais do que isso, é refutar a ideia de que drag monstras nunca podem se aliar aos signos da humanidade. Primeiro porque, como levantei anteriormente, estudos acerca dos monstros na literatura e no cinema indicam a existência de elementos que os constituem, como a mutabilidade, que dá a habilidade desses seres sofrerem uma metamorfose em sua corporalidade, os concedendo, em alguns casos, uma aparência humanoide. Monstros como Drácula, Mística, Lobisomem e a Cuca não deixam de ser monstros quando estão performando humanidade através da mutabilidade de seus corpos. Eles sempre serão monstros, apesar do uso das características que convencionamos social e culturalmente aos humanos. Segundo porque, como citei anteriormente ao abordar as acusações feitas à Sigourney Beaver, existem diversos monstros na cultura pop que englobam elementos da humanidade em sua aparência e, mesmo assim, permanecem sofrendo a categorização de monstros perante aos verdadeiros humanos.

Assim, acredito que o que possa justificar essa dualidade que podemos encontrar em algumas drag monstras que utilizam ora signos de monstruosidade, ora de humanidade, ou ainda que tenham uma performance artística que mistura ambas as possibilidades, é justamente a ideia de que tais artistas estão compromissadas com a tipologia monstra para além da estética, de modo também conceitual. À vista disso, passamos a entender que vários são os monstros que, seja pela mutabilidade ou pela conformidade de seus corpos, demonstram semelhanças sígnicas aos humanos. Logo, ao vermos uma drag monstra performando uma estética humana, podemos lembrar que diversas bruxas passam por transformações de seus corpos como disfarces entre os humanos; que tantos vampiros têm uma forma física humanoide, além do original corpo de morcego; e que maldições também aprisionam humanos dentro do viés da monstruosidade, como no caso dos lobisomens.

Por fim, acredito que toda a conversa desenvolvida ao longo deste ensaio seria demasiadamente profunda para se ter em um fumódromo de festa com alguém que, em várias outras questões, já se mostrou conservadora e fechada ao diálogo. Acredito que, quando fazemos arte, nem todos vão estar preparades ou vão se sentir agradades com o que iremos servir à mesa: uns podem se fartar, outros podem recusar. Citando as grandes drag monstras Boulet Brothers: “drag é arte, e arte é subjetiva”. Porém, a quem se interessa por drag monstras e sempre se perguntou porque, por vezes, algumas de nós temos uma aparência humanoide, busquei neste texto levantar alguns apontamentos pertinentes que podem nos orientar ao caminho de tais respostas.

REFERÊNCIAS

BARILLO, Maira Lopes. Monstruosidade na montação: a performatividade monstruosa de drag queens, dançarinas burlescas e de voguing fotografadas. Arte da Cena (Art on Stage), Goiânia, v. 6, n. 1, 2020. Disponível em: <https://revistas.ufg.br/artce/article/view/59818>. Acesso em 20 de out.. de 2025.

JEHA, Julio. Monstros e monstruosidades na literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

NAZÁRIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte e ciência, 1998.

Junno Ju no Academia de Drags: a representatividade das comedy queens

Junno Ju

Representar o Rio Grande do Sul no primeiro reality show de drags do Brasil é uma honra imensa. Mais do que uma conquista pessoal, é um marco para toda a cena artística e LGBTQIA+ gaúcha. Eu, uma comedy queen que tanto lutou por espaço e reconhecimento, agora faço parte de um reality comandado por uma das maiores drags brasileiras da história, e da comédia… Silvetty Montilla. 

Junno Ju Academia de Drags
Junno Ju. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Me chamo Junno Ju, tenho 22 anos, sou atriz, criadora e comediante. Fui selecionada entre as oito participantes do “Academia de Drags 4”, reality show que há mais de uma década revela grandes nomes do cenário drag nacional, como Rita Von Hunty, Gisella Popovick e Slovakia. Nesta nova temporada, o programa ganha ainda mais destaque com o apoio do canal UOL, que transmite os episódios gratuitamente pelos canais @splash_uol e @academiadedrags no YouTube. 

Ser representante do Rio Grande do Sul no elenco é simbólico. Mostra não apenas o talento do nosso estado, mas também a resistência, pluralidade e ousadia de uma cena que vêm enfrentando dificuldades estruturais. Já dividi o palco com grandes nomes da comédia e, agora, terei a chance de estar diante de uma das minhas maiores referências, a própria Silvetty Montilla. 

Junno Ju Academia de Drags
Junno Ju. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Desde 2018, crio conteúdos autorais para as redes sociais, mesclando humor, atuação, drag e roteiro. Entre meus vídeos mais conhecidos estão “Drag Race Gaúcho”, “Encontro do Grindr”, “Eleições”, “Paródia de Divertidamente” e “Saúde Mental”. Em 2023, participei do reality “Atua ou Surta”, da DiaTV, onde venci o desafio de comédia. No ano seguinte, conquistei o Festival Comédia de Floripa e, desde então, venho ocupando palcos ao lado de artistas como Fernando Pedrosa, Junior Chicó e Nelly Coelho… 

Atualmente, apresento meu espetáculo “The Caricatas Show”, uma produção 100% LGBTQIA+ que une stand-up, performances drag e audiovisual em um formato original e único. É nesse cruzamento entre o teatro, a comédia e o universo drag que me encontro por inteiro, e é essa a essência que pretendo levar para o programa, o ABSURDO! O absurdo como forma de resistir. 

Junno Ju Academia de Drags
Junno Ju. Fonte: Acervo pessoal do artista.

O espaço da comédia ainda é majoritariamente heteronormativo, e raramente contempla artistas drags com o reconhecimento que merecem. Por isso, estar no Academia de Drags vai muito além da visibilidade: é um ato de afirmação. Busco ocupar esse lugar e mostrar que existem outros estilos de artistas drags, artes que vão além do famoso lip sync. Afinal, rir, também é um ato de resistência, um ato político… 

A nova temporada do Academia de Drags estreia no dia 3 de novembro, prometendo muita emoção, e, como boa teatreira que sou, muito drama. E podem ter certeza: o que o público verár ali é Junno Ju em sua forma mais pura, criativa e autêntica.

Grafia Drag, ano IV: saberes dissidentes, gongações críticas e audiovisualidades drag


Professora Maldita (Douglas Ostruca)


Em outubro de 2025, o Grafia Drag completa 4 anos com publicação quinzenal de textos sobre as cenas drag e transformistas. São 91 textos produzidos por artistas e pesquisadories, abrangendo temas que vão desde processos de criação até os contextos históricos e políticos nos quais a arte drag e transformista se insere. Neste último ano, foram compartilhados 22 materiais, os quais dão continuidade às linhas escriturais desenvolvidas nos anos anteriores – os processos e memórias coletivas da montação, a gongação crítica e a divulgação científica dos saberes drag desenvolvidos em pesquisas acadêmicas. O destaque vai para os drag kings e as drag monstras que ocuparam o Grafia Drag, dando visibilidade para seus processos criativos e trajetórias dissidentes dentro das próprias cenas drag. Entre os tópicos abordados neste ciclo estão: as trajetórias de kings e monstras, a experimentação estética e de gênero, as críticas aos padrões hegemônicos de beleza e feminilidade, os saberes adquiridos pela prática e pesquisa drag, e a relação entre arte drag e audiovisualidades.

Foto: Klaudia Rak. Fonte: Pexels


Dissidências drag: kings, monstras e fetichistas

Ao longo dos últimos 12 meses, houve um aumento das expressões drag dissidentes no Grafia, as quais trabalham com expressões alternativas à hegemonia das feminilidades ideais que são recorrentes nas cenas drag. No texto “Arte drag e gênero: uma jornada de descoberta”, o drag king Ash Rose traça sua trajetória de montação em articulação com as experiências e descobertas de gênero, considerando que a arte o ajudou a se entender e afirmar como um homem trans socialmente. Nesse sentido, na entrevista do drag king Vicente Van Goth para Lorde Lazzarus, o entrevistade também menciona o papel da arte drag na sua autocompreensão como uma pessoa não-binária, além de ser uma via para se reconectar com sua ancestralidade. Já na entrevista de Adriana Prates para Lazzarus, a artista relata a criação do Cabaret Drag King em 2013, projeto voltado para a experimentação coletiva das masculinidades na cena de Salvador. No ensaio “A primeira noite de um king”, Catharina Conte fala de suas primeiras experiências com o king Mr. Raba, até a constituição de Reynaldo, que se desdobrou em uma parceria com o king Cauê para realizar a peça Brodagem. Nesses ensaios e entrevistas, a expressão king se mostra em distintas facetas, incluindo vivências que passam por Salvador, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.

Além dos kings, entre outras expressões drag que quebram a hegemonia da feminilidade expressa nas montações drag queens estão as drag monstras e as drag alternativas, fetichistas, que também marcaram presença no Grafia neste último ciclo. Em seu ensaio “Oh meu deus, criei um monstro”, Mia The Witch compartilha algumas inspirações para o seu processo de criação de uma drag monstra, tendo como foco o trabalho de Evah Destruction. Por essa mesma via, no ensaio “Arte drag: florescer nas fissuras”, Ptera Dactyla aborda suas referências em filmes de terror trash e gore para compor expressões “belas e glamorosas com um toque de insalubridade”. Já Valkiria Montezuma, em “Drag punk: rock, fetiche e a quebra dos padrões”, trata de sua montação enquanto uma drag alternativa e punk, propondo uma articulação entre rock e fetiche para constituir sua estética. Ainda nessa vertente de expressões drag dissidentes, Matheus Aguiar, no ensaio “Noitesuja Santa Ceia: benditas sejam as themônias!”, trata do processo de criação da performance Santa Ceia, conduzida pela Noitesuja junto às drag themônias de Belém, as quais desafiam os padrões de beleza e binaridades de gênero presentes nas cenas drag e transformistas.


As gongações críticas: problematizando as cenas drag



Nesse ciclo, permanecem os ensaios atentos às desigualdades e preconceitos reproduzidos na cena, os quais são explicitados através de gongações críticas direcionadas ao coletivo. Com o texto “Pacto de silêncio: a violência velada no meio drag”, o king Pietro Lamarca coloca em evidência as violências praticadas por homens cis que fazem drag dentro das próprias cenas artísticas. Já em “Um problema genital: o preconceito com a vagina nas artes”, o autor discorre acerca do preconceito com a vagina nas artes, expondo as desigualdades de oportunidades e cobranças em relação às pessoas AFAB que fazem drag.

Por sua vez, Drag Urbana utiliza o espaço do ensaio “Abaixo a beleza: uma nova realidade depende da estranheza” para criticar a hegemonia dos padrões de beleza associados a uma imagem ideal de feminilidade nas montações drag, propondo a afirmação da estranheza como lugar de potência estética a partir do qual parte para abordar as próprias desigualdades sociais do contexto em que vive. Nessa mesma linha, em “Rupaul’s Drag Race é o bastante para uma drag sonhar?”, Anubis Blackwood levanta questionamentos em relação às disparidades entre a realidade vendida pelo reality Rupaul’s Drag Race e suas vivências enquanto artista drag no interior de São Paulo. Por fim, na entrevista concedida por Rita Von Hunty à Profª Maldita, a artista ressalta as articulações entre arte drag e política, reforçando as diferenças entre sujeitos que atuam pensando no coletivo e sujeitos que tendem a focar no individual.


Saberes Drag: entre práticas e pesquisas

Os saberes provindos da montação estão no Grafia desde o início do projeto, seguindo presentes no último ano decorrido. Partindo de sua dissertação, no ensaio “O conceito drag”, Persephone Ephemera Pepper circunscreve diferentes camadas que compõem conceitualmente o termo “drag”, evidenciado em sua polissemia. Já a drag Giboulé De Marx, com o ensaio “Giboulé de Marx: a drag museum”, traz a primeira contribuição internacional para o Grafia. Nesse texto, a artista fala de sua pesquisa acadêmica e artística, na qual, além de trazer inspirações de Karl Marx para a montação, também compõe a estética drag enquanto um museu, quebrando com as formas ideais de feminilidade que imperam nessa arte. Por outra via, em “A primeira drag: abertura de caminhos na arte e na academia”, Kam Middle Space ressalta seu protagonismo como a primeira drag a ser homenageada por uma turma na Universidade de São Paulo, o que para ela é uma forma de incentivar outras artistas a ocuparem diferentes espaços sociais.

No âmbito dos saberes drag, também estão os conhecimentos que surgem da prática e da vivência. Entre esses textos está “Maquiagem com propósito: como montar um personagem”, no qual Tiffany Plazza aborda o papel da maquiagem na composição de personagens, evidenciando caminhos para construir montações drag com distintos desdobramentos e camadas. Já Anubis Blackwood, no ensaio “Arte drag: conexões consigo e com signos de gênero”, compartilha seu processo de autoconhecimento e conexão consigo mesmo através das experimentações de signos de gênero que ocorrem nas vivências com a montação drag, o que lhe trouxe outras perspectivas sobre as feminilidades. Nessa mesma vertente, em “Arte drag como fonte de inspiração”, Ivy De La Foxx aborda suas experiências com a arte drag como uma busca por tocar afetivamente outras pessoas, trazendo-lhes diferentes olhares sobre si e o mundo.


Audiovisualidades Drag: cinema, audiovisual e arquivo

Ao longo desse ano, surge um novo conjunto de textos que articulam arte drag e audiovisualidades. Em “Uma drag de cinema”, Ayla mapeia sua trajetória artística destacando o entrelaçamento entre arte drag e cinema. Em paralelo, Bruno Arthur Voss Bernardy, no ensaio “Au Revoir Shirlei: transformistas e travestis no festival de cinema de Gramado”, resgata o filme que levou transformistas e travestis para o festival de Gramado pela primeira vez, ressaltando a grandiosidade de Rebbeca McDonald para a cena artística gaúcha.

Por fim, o ensaio “Transformistas no show de calouros: interpelações de gênero e desobediência”, da professora Maldita, parte de um fragmento do Show de Calouros, em que Pâmela Costa e Cristiane são inquiridas por Silvio Santos, para discorrer acerca das lógicas que regem as interpelações de gênero proferidas pelo apresentador e as desobediências efetuadas pelas artistas.

Considerações finais

Em seus quatro anos de existência, o Grafia Drag tem se consolidado como um espaço aberto de circulação de saberes, experiências e reflexões sobre as cenas drag e transformistas. Os textos publicados evidenciam a multiplicidade de expressões, passando pelas drag queens, pelos drag kings, pelas drag monstras e alternativas. O projeto também evidencia seu comprometimento com um olhar crítico sobre as cenas e com a produção de conhecimento através da sistematização de saberes oriundos da prática e da pesquisa. Além disso, a recente aproximação com o audiovisual amplia as possibilidades de visibilidade e reatualiza a celebração das memórias do transformismo através de filmes e materiais de arquivo, fortalecendo a articulação entre arte, política e pesquisa. Dessa forma, o Grafia Drag reafirma seu papel como plataforma de resistência, experimentação e criação coletiva, valorizando trajetórias dissidentes e inspirando novas formas de pensar e viver a arte drag.

A primeira noite de um king

Catharina Conte

A pandemia já se anunciava, como o céu nos segundos que antecedem a tempestade, quando me montei de drag pela primeira vez. Eu estava em Londres, início de 2022, e, quase por instinto, me inscrevi para performar em uma noite drag no TRAMSHED, um espaço cultural no sul da cidade coordenado pelo brasileiro André Pink. A proposta era uma scratch night (em português, uma noite de rascunhos), ou seja, um espaço para apresentar números ainda em processo. Mal sabia eu que quem estava em processo era eu.

primeira noite de um king Reynaldo grafia drag
Reynado. Fonte: Acervo pessoal da artista,

Eu não fazia ideia do que exatamente queria apresentar. Só sabia que queria me montar e subir ao palco. Sabia que dublaria, dançaria, seduziria e viveria, ainda que por uma noite, meu sonho de diva pop.

Performances drag me emocionam desde pequena. Filha de atores, cresci entre as coxias dos teatros de Porto Alegre; os camarins eram extensão da minha casa, e minha família se estendia na classe artística. Foi ali que aprendi a me encantar com o que acontecia no palco. Desde cedo eu assistia a João Carlos Castanha, com seu estilo ousado e debochado. Nunca esqueci dele tirando um peixe de dentro da roupa enquanto dublava, à sua maneira particular, My Heart Will Go On, de Celine Dion. Também me fascinava com Dandara Rangel, que me ensinou a amar Alcione através de seus números. Heinz Limaverde fazia uma Kelly Key irreverente; Laurita Leão me encantava com sua beleza e doçura; Caio Prates me arrancava risadas com seu Fábio Júnior e sua Julie Andrews.

Com as drags, aprendi desde cedo que, com uma dose de magia, posso ser quem eu quiser. Mais do que o teatro que eu já conhecia, o drag me mostrou como celebrar com o glamour possível, como se cada gesto tivesse o brilho de um milhão de dólares.

Foi assim, sentada nos ombros de gigantes, que decidi performar pela primeira vez. Comecei pela música: Try a Little Tenderness, de Otis Redding, na voz da minha crush de infância, Cássia Eller. Os gritos de Cássia, o staccato da canção, a batida cheia de violência necessária fizeram surgir em mim uma figura masculina.

Vesti um terno roxo com rosas amarelas, cortei o cabelo e desenhei um bigode. Meu cabelo curto na época ajudava a compor, diante do espelho, uma versão de mim vinda de outro multiverso. Uma versão vigorosa, que não pedia desculpas, que transbordava confiança.

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Reynaldo. Fonte: Acervo pessoal da artista.

A confiança de um homem hétero.

Preparei meu número com o auxílio de Fernanda Mandagará, Ramiro Silveira, Nicole Cerato e León Franz, porque mesmo sozinha, eu estava acompanhada.
Ao entrar em cena, entendi: a autorização que o masculino carrega para existir no mundo atravessava meu corpo no palco. Ao ser ele, eu me tornava uma versão mais potente de mim. Eu era mais forte do que eu mesma.

No fim daquela noite, voltando de metrô para casa, eu sabia que um sonho tinha se realizado. Eu podia não compreender tudo sobre meu drag naquele dia, mas ele havia nascido. Ainda mamava no meu peito — e eu estava feliz de ter parido.

Explorar Mr. Raba me sustentou durante a pandemia. Preencheu tardes tediosas, deu cor a dias repetidos. Ele foi crescendo: apareceu em participações como MC em noites de drag e burlesco, em vídeos para internet, e até em conversas de bar, quando surgia de repente entre uma cerveja e outra.

O tempo passou. Mudei-me para São Paulo e criei uma amizade com Maíra de Grandi, atriz que também tinha seu king: Cauê. Nossas trocas nos fortaleceram até que decidimos escrever Brodagem, uma peça onde nossos kings pudessem interagir e inventar uma relação.

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Reynado e Cauê. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Foi nesse processo que senti a necessidade de entender quem era Mr. Raba para além da performance. E aí nasceu Reynaldo: um homem aparentemente confiante, mas cheio de fissuras na personalidade — como eu. Um adorável detestável que mora dentro de mim.

A peça parte da amizade desses dois homens para discutir, com humor e deboche, temas como masculinidade tóxica, amizade masculina, sensibilidade e poder. Misturamos linguagem de podcast ao vivo, improviso e participação do público, criando um espaço onde o ridículo da masculinidade hegemônica se expõe sozinho. E finalmente, chegamos em maio de 2025, quando realizamos nossa primeira temporada em São Paulo, na Casa de Artes. A cada noite, a plateia se tornava cúmplice do jogo e alimentava o improviso. Criamos BRODAGEM também como um convite ao riso e à reflexão.

Reynaldo, meu drag king, é um projeto infinito como eu. Como diria minha colega de cena, Maíra, depois que se coloca um bigode, não se pode voltar atrás.

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Reynado. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Cada dia que passa, entendo que, no meu corpo, a pesquisa de drag king permeia a performance de gênero, cria uma lente para experienciar o mundo, inverter a lógica, estar no lugar de poder da sociedade, ser o monstro que vos fala que eu tanto temo e amo ao mesmo tempo.

Ao descobrir em mim Reynaldo, descobri um tipo novo de coragem. Se no começo eu só queria dublar, dançar e viver um sonho de diva pop, hoje entendo que o drag king é muito mais do que uma performance: é uma prática de liberdade. É a chance de habitar o impossível e de seguir criando mundos onde eu possa ser quem eu quiser.

Vicente Van Goth: arte, ancestralidade e resistência na cena drag brasileira

Entrevista por Lorde Lazzarus

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS . Foto: Paulo Neobeck

(Lorde Lazzarus) Primeiramente, gostaria de dizer que é muito especial para mim fazer essa entrevista com você, uma vez que sou fã de sua pessoa e seu trabalho, e também por já termos dividido a bancada do júri do Concurso KING OF KINGS de 2023. Foi muito marcante conhecer você no Rio em 2018, no Bixcoito Dregui Festival, organizado por Miranda Lebrão (que hoje, já é RuGirl pela segunda vez, com o Global All Stars). Na ocasião, você fazia parte da “Exposição Viva” e homenageava Ney Matogrosso. Quais foram os pontos de partida para a criação de Vicente Van Goth? Quais são suas referências e influências?

(Vicente Van Gogh) Me aproximei da arte drag através de amigues que se montavam como queen, colaborando no figurino e maquiagem delus. Isso era 2015 ou 2016 e eu não conhecia nenhum drag king na época, ainda que já tivesse muita vontade de estar no palco performando masculinidade. Na época eu era muito fã de um rapper e idol de k-pop chamado G-Dragon e me inspirava nele para absolutamente tudo, inclusive vestir minhas primeiras roupas “masculinas” e cortar meu cabelo curto pela primeira vez, o que seria a semente para a compreensão da minha identidade não-binária e drag king. Também em 2015, em uma viagem ao Japão, assisti a um espetáculo do Takarazuka Revue, companhia teatral tradicional composta exclusivamente por mulheres. Ver as atrizes que interpretavam papéis masculinos foi uma experiência que me mudou e me disse que era possível realizar o que eu há tanto tempo desejava. No final de 2016 me apresentei como Vicente Van Goth pela primeira vez.

(Lorde Lazzarus) Em seus números artísticos e figurinos, é frequente a presença de signos e elementos de cultura asiática amarela (japonesa, como o Butô, e coreana, com as canções de k-pop). Como é trazer para o palco do transformismo a sua ancestralidade? Qual a importância, na sua visão, de pessoas como você ocuparem esse lugar na arte drag/transformista no Brasil?

(Vicente Van Gogh) Essa busca pelo contato com a ancestralidade veio mais de forma afetiva do que qualquer outra coisa. A figura masculina da qual eu era mais próximo na infância até o início da idade adulta foi meu avô japonês. Evocar essa ancestralidade é, acima de tudo, estar mais perto dele depois que ele faleceu. Minha experiência com masculinidade e afeto vem praticamente toda dele. 

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.

(Lorde Lazzarus) Neste ano você participou do Concurso DRAGSTAR, no Rio de Janeiro, que é o antigo RAINHA DE CINELÂNDIA, e que tem lugar no icônico teatro Rival, palco histórico do transformismo brasileiro. Acompanhando a competição, vi que você era um dos favoritos a vencer, mas ficou em terceiro lugar. Você concorda com a sua colocação na ranking do concurso? Você acha que sofreu, de alguma forma, preconceitos diversos por ser um artista AFAB transgênero?

(Vicente Van Gogh) O resultado é algo que escapa totalmente do nosso controle quanto artistas, posso falar apenas do trabalho que apresentei ao longo do concurso, do qual me orgulho muito. Apresentei performances consistentes e tive quase que exclusivamente críticas positivas das juradas. Talvez não fosse a hora de uma pessoa como eu vencer, mas com certeza não por falta de qualidade artística. Sim, sofri preconceito aberto e velado durante a temporada, cheguei a falar um pouco sobre isso nas minhas redes. 

(Lorde Lazzarus) Recentemente você debutou a sua persona drag queen, Zara Tustra. Zara Tustra, em suas palavras, é “o desgraçado feminino, [uma] mística sem deus”. Como se deu a criação dessa persona? Quais diferenças você destaca entre Vicente Van Goth e Zara Tustra?

(Vicente Van Gogh) A Zara se criou na pandemia, a partir de um processo psíquico muito doloroso. Fui tecendo o primeiro figurino dela para lidar com questões mentais e, mais tarde, físicas. Quando vi, havia ali essa persona que eu já tinha idealizado tantas vezes sem desembocar no concreto. Frente a tantos discursos vazios sobre o tal do “sagrado feminino”, o meu desgraçado feminino era real e habitava meu corpo. Para mim, tanto o Vicente quanto a Zara têm sua parcela de desgraçamento e de celebração, ambos calcados nos binarismos que nos são impostos durante nosso desenvolvimento.

(Lorde Lazzarus) Seu trabalho é muito prolífico. Além de drag king e drag queen, você também atua na arte burlesca e como figurinista. Por que a escolha pelo burlesco? Que artistas dessa vertente são fonte de inspiração para você? A arte da montação, da criação dos figurinos e do burlesco caminham junto com Vicente e Zara Tustra ou você se vê desenvolvendo algo diferente nesse espectro?

(Vicente Van Gogh) Tudo caminha junto pra mim. Escrita, figurino, performance. Ferramentas de se contar uma história e de celebrar a vida e a expressão do corpo. O burlesco surgiu na minha vida “por acaso” e foi uma comunidade que me acolheu como performer quando a cena drag sequer me enxergava. Tenho a alegria de dizer que minhas inspirações no burlesco são amigues e pessoas com quem dividi o palco.

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.

(Lorde Lazzarus) Como é a cena drag/transformista do Rio de Janeiro? Você a considera plural o suficiente (com toda a diversidade de corpos e artes possível)? Você se sente acolhido e valorizado por ela?

(Vicente Van Gogh) Sinto que precisei trabalhar como transformista por quase oito anos antes de ser verdadeiramente visto pela cena drag, o que só começou a ocorrer a partir do meu desempenho no DRAGSTAR. Inclusive, ainda que eu tenha sofrido preconceito por ser uma pessoa AFAB durante a temporada, conheci pessoas e artistas maravilhosas que me acolheram e demonstraram respeitar e valorizar meu trabalho. Sobre a pluralidade da cena, acredito que ela ocorra mais em potência do que na prática. São poucas as oportunidades de trabalho, então drags iniciantes acabam se lançando e se desenvolvendo através dos concursos. De certa forma, concursos tendem à padronização. Fazer um bom número drag e fazer um bom número para concurso são coisas diferentes, mas infelizmente grande parte dos performers drag não tem a oportunidade e a liberdade de se desenvolver como artistas fora das expectativas das competições.

(Lorde Lazzarus) Você tem vontade de se inscrever para participar do DRAG RACE BRASIL? Acha que seria possível que alguma pessoa AFAB seja selecionada para essa segunda temporada?

(Vicente Van Gogh) Tenho vontade, um dia. Possível é, mas bem pouco provável.

(Lorde Lazzarus) Vicente e Zara certamente têm planos grandiosos para os palcos onde podem se apresentar. Tem algum número em especial que você gostaria de explorar com cada um deles e aguarda por oportunidade? Poderia dar um spoiler do que seria para todo mundo que acompanha o GRAFIA DRAG? E onde seria um sonho poder se apresentar?

(Vicente Van Gogh) Tenho vontade de fazer um número com os dois juntos, mas ainda não faço ideia de como isso ocorreria. Nunca pensei sobre exatamente onde seria um sonho me apresentar, ainda que já tenha me apresentado em vários lugares dos sonhos (como o Teatro Rival, por exemplo). Mas seria incrível ser convidado para me performar no máximo de cidades possível, no Brasil e fora dele.

(Lorde Lazzarus) Que conselho você dá às pessoas AFAB que estão ingressando no mundo da montação, e que são desencorajadas constantemente com o machismo que ainda impera dentro e fora dos nossos espaços?

(Vicente Van Gogh) Vai ser difícil. Você vai ouvir merda no camarim e vai ser desvalorizade quando estiver no palco, tudo isso vai acontecer. Mas você também vai ter a oportunidade de transformar, pelo menos um pouco, a cena, ousando estar onde não queriam que você estivesse. Nós temos uma vivência única e, na maioria das vezes, somos pessoas multitalentosas que precisam dar conta de muitas habilidades para serem vistas. Ou seja, a cena só tem a ganhar com a nossa presença.

(Lorde Lazzarus) Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço. 

(Vicente Van Gogh) Queria convidar a todes a conhecer meu trabalho através dos meus perfis no Instagram (@vicentevangoth / @zaratustradrag) e assistindo a um show meu, se tiverem a oportunidade. Aguardo convites para performar, no RJ e em outros estados. Fortalecer a cena king não é só elogiar e seguir nas redes, é também convidar para performar em shows e festivais.

Arte drag: conexões consigo e com signos de gênero

Anubis Blackwood

O que significa sentir-se pertencente? O que nos reconecta ao mundo quando a vida nos descola de nós mesmos? 

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

É impressionante como podemos nos perder ao longo da nossa trajetória, mesmo habitando o próprio corpo e pensamento. Ainda assim, é possível experimentar um abismo entre quem somos e aquilo que nos tornamos. Este ensaio não se propõe a uma análise sociológica abrangente, mas a um mergulho íntimo: uma narrativa sobre divergências, desencontros e tentativas incessantes de reconexão consigo.

O desfecho, adianto, é que encontrei na arte drag um ponto de inflexão — a ferramenta simbólica e estética que me permitiu atar-me novamente a mim mesma e, por consequência, ao mundo.

Desde cedo, percebo que revisitar memórias de infância é um exercício revelador: nelas residem fragmentos que ajudam a compreender quem somos hoje. Carrego a impressão de que sempre houve atrito entre mim e os padrões de gênero, sobretudo na forma como são performados socialmente. Na infância, embora me encaixasse em muitos aspectos do estereótipo de uma menina cisgênero — apaixonada por Barbies e por criar vestidos improvisados com retalhos  —, havia um distanciamento silencioso. Gostava dos signos femininos, mas não do que vinha acoplado a eles: a maneira como eram mediados por outras meninas e pela sociedade ao redor.

Recordo-me de um episódio específico para exemplificar. Ao assistir, em um programa de domingo, imagens censuradas de Helen Ganzarolli em uma revista famosa, minha reação inicial foi de fascínio: parecia-me uma mulher que detinha pleno domínio de si, exuberante, admirável. Cheguei a me imaginar adulta naquele arquétipo — não necessariamente na exposição, mas na confiança. Contudo, bastou ver as reações masculinas jocosas de convidados do programa, os olhares velados das senhoras da plateia e o desconforto explícito de minha própria família para que esse desejo se apagasse.

Não posso mapear exatamente quando e como essa percepção se sedimentou, mas compreendo hoje que experiências assim moldaram minha relação com a performatividade de gênero. Aprendi a amar e a temer simultaneamente aquilo que sou. Temia, sobretudo, o tratamento social que receberia conforme a forma de me apresentar ao mundo.

Na adolescência, minha mentalidade já era outra. Se aos dez anos eu desejava ser como Helen Ganzarolli, aos quinze eu rejeitava ostensivamente qualquer referência próxima a mulheres como ela. Evitava símbolos ultrafemininos e julgava quem os adotava. Por trás dessa postura, havia a consciência dolorosa de que tudo ligado ao feminino era invariavelmente sexualizado, desvalorizado e maltratado. Também havia feridas deixadas por meninas que personificavam a cartilha tradicional da feminilidade e que, de algum modo, me excluíram. Era a narrativa comum da bissexual que não encontra seu lugar.

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

À época, desconfiava de minha orientação sexual, mas ainda não me compreendia como parte da comunidade LGBTQIAP+. Essa indefinição, somada ao desconforto em relação à performatividade de gênero e às turbulências hormonais, intensificava o sentimento de vazio. Buscando pertencimento, transitei por diferentes identidades culturais: fui kpopper, roqueira, adepta da cultura medieval, mas nada preenchia a lacuna.

Até que, aos dezoito anos, assisti ao meu primeiro show drag ao vivo. Ao longo daquela performance, tive a sensação de que minha mente se expandia. Pensei: E se eu pudesse vestir o que quisesse no palco? E se pudesse manipular a plasticidade do gênero de acordo com minha própria narrativa? E se não tivesse medo de encarar a mim mesma, meus traumas, e o mundo ao meu redor? Ali, encontrei a ferramenta de conexão que tanto buscava.

Ao criar minha persona, Anubis, canalizei energia e atenção para mim mesma, e isso me auxiliou a me inserir no mundo. Com ela, desmontei conceitos pré-estabelecidos sobre quem eu deveria ser, criando espaço para me olhar sob outras perspectivas. O medo do julgamento — de ser lida como um determinado “tipo” de mulher — dissipou-se. A aflição diante da interação com signos masculinos e femininos também.

Essa desconstrução impactou minha vivência sexual. Não que tenha havido uma explosão de experiências, mas passei a reconhecer-me como um ser sexual, desejável e dotado de agência — fosse usando camiseta e calça larga como ser humano ou vestido e salto alto como entidade artística. A autoestima, descobri, é uma dádiva que a arte drag me ajudou a cultivar.

Dentro desse percurso, compreendi como as intenções e motivações de drags AFAB (assigned female at birth) diferem, em muitos casos, das drags nascidas resignadamente homens. Para estes, a performatividade do feminino pode funcionar como libertação diante de algo que lhes foi negado; para nós, AFABs, pode significar outro processo: o de reconciliação com signos que, apesar de familiares, foram carregados de ambivalência, dor e falta de autonomia.

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Na minha experiência, abraçar símbolos femininos por meio da drag é ato simultâneo de subversão e reparação. Não que, quando jovem, eu não considerasse belos o brilho e os vestidos; apenas não queria ser socialmente associada a eles. Ao perceber que a drag me permitia caricaturar e amplificar esses elementos até torná-los plásticos, evidenciando sua artificialidade, senti-me mais confortável em me apropriar deles. Reclamar tais atributos para si, exagerando-os até o limite, é — para mim — um gesto radical.

A sociedade espera que eu tenha cabelos longos, mas não espera que eu use uma peruca de um metro. Espera que eu vista saias e vestidos, mas não que sejam os mais curtos e reluzentes que se possa imaginar. Espera que eu use maquiagem, mas não que a manipule como o faço. Ao reivindicar esses signos, utilizo-os segundo meus próprios critérios, transformando-os em ferramentas de narrativa política e pessoal.

Minhas escolhas estéticas, assim, tornaram-se mecanismos de cura e reparação de traumas inerentes à experiência de ser mulher. A cada montação, reencontro fragmentos meus que antes permaneciam silenciados.

Hoje, percebo que a arte drag não apenas me reconectou com o mundo, mas também me devolveu a minha própria voz. Recuperou minha relação com a sexualidade, permitindo-me habitá-la com autonomia e prazer. E, talvez o mais comovente, resgatou minha criança — aquela que costurava vestidos de tecido improvisado e sonhava com o glamour da TV, mas que um dia se calou diante do olhar alheio por medo. Encontrá-la novamente, livre e risonha sob a luz do palco, é a prova de que a reconciliação consigo mesma é possível — e que, por curiosas vezes, ela vem vestida de couro e paetê.

Maquiagem com propósito: como montar um personagem

Tiffany Plazza

Recentemente, em maio de 2025, ministrei uma oficina para o “Programa de Educação Tutorial (PET)” da faculdade de Psicologia da PUCRS,  em que compartilhei minhas ideias e processos na hora da criação dos meus visuais drag e, principalmente, como faço para atingir a transformação desejada a partir da maquiagem. Quando elaborei a oficina, pensei em não trazer apenas dicas de maquiagem, mas também procurei trazer algum diferencial que apenas meu processo e minha visão como artista pudesse oferecer.

 Em 2024 fui jurada no concurso “Copa das Drags” da Workroom, do qual já fui finalista e me convidaram para o desafio temático de Halloween. Durante minha fala como jurada, comentei sobre o impacto de elaborar uma maquiagem onde cada pincelada e produto aplicado tem um propósito. Por exemplo, se eu quero me transformar em um vampiro, eu preciso de elementos visuais que indiquem que eu sou um vampiro, como dentes. Se eu quero me transformar em um palhaço, é necessário reproduzir uma maquiagem com elementos que indiquem que sou um palhaço e investigar que elementos são esses. Assim como uma maquiagem social tem o propósito de valorizar e destacar certos traços, a maquiagem artística também possui uma intenção em todos os traços e cores que são inseridos. 

Tiffany Plazza Grafia Drag maquiagem com propósito
Tiffany Plazza vampira. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Como uma artista drag que gosta de se transformar em várias criaturas diferentes, ainda procuro manter um certo padrão e estética em minhas maquiagens para trazer uma identidade constante para a minha persona drag.  Na hora de me transformar em uma outra criatura, quando eu me monto pensando em algo além do glamour, sempre me pergunto: como inserir essa criatura e seus traços na Tiffany? Se eu for fazer um vampiro, não será apenas um vampiro, mas sim uma versão da Tiffany de um vampiro. Claro, que nem sempre consigo manter certos traços que são da minha identidade visual, dependendo da intenção que quero causar com a maquiagem. Por exemplo, quando me transformei em um coelho para um show de Páscoa, resolvi abrir mão do meu contorno usual, porque, na minha visão, não faria sentido com o personagem.

Tiffany Plazza Grafia Drag maquiagem com propósito
Tiffany Plazza coelha. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

As principais perguntas que definem meu processo artístico são: Qual história eu quero contar? Qual efeito eu quero causar? E quais características eu quero destacar? A partir dessas perguntas, eu baseio todas as escolhas feitas na hora de elaborar um figurino e uma maquiagem. Afinal, eu acredito que devemos dar valor a todos os elementos visuais que compõem a nossa arte e pensar que todos esses elementos contribuem para uma história que estamos contando ao público. Mesmo que tenhamos intenções diferentes e mais específicas para tudo que produzimos, no final, nossa maior intenção é que sempre o público se identifique e se conecte com o nosso trabalho.

Tiffany Plazza Grafia Drag maquiagem com propósito
Tiffany Plazza palhaço. Fonte: Arquivo pessoal da artista.



Uma drag de cinema

Ayla Cinema (Igor Urban)

Meu caminho Drag se abre muito com o Teatro, assim como o possível início da história Drag em Roma e Grécia, onde homens interpretavam papéis femininos. Eu tinha uns 18 anos. Meu sonho era ser ator. Um diretor de teatro me disse que eu era muito viado para fazer galãs, e que se eu não era capaz de interpretar galãs másculos,  então, era melhor eu seguir outra carreira. Esse trauma e esse soco no estômago me rondaram até eu descobrir no que eu transformava ele. Logo depois, quase no mesmo ano, comecei a experimentar a existência do meu alter ego Ayla, batizada pela primeira amiga que me maquiou. Entrei no google e descobri que o nome significa brilho da lua em Tailandês, gostei, e o nome ficou. Também tive uma pessoa muito importante nesse processo de despertar e de dar os primeiros passos com minha Drag que foi Dalvinha Brandão. Para  mim, ela é uma grande artista. Transita por todas as linguagens artísticas com maestria, inclusive deixo aqui a indicação do disco que ela gravou, chama-se “O Amor É Uma Invenção da Nasa pra Vender Travesseiro”. Ela foi como uma Drag Mother para mim, sabe todas as histórias, todos os bafos, todos os truques. 

Ayla drag de cinema
Ayla Cinema em Revelações. Foto: LeticiaHF.

Em 2015, passei um ano em Portugal, estudando cinema. Conheci um grupo de Teatro, com o qual me identifiquei e decidi entrar . Comentei que fazia Drag, e me deram o papel de uma cantora que vinha do Brasil na montagem que estavam fazendo. Eu tinha uma cena de destaque em que fazia uma dublagem. Ali, um mundo se abriu, entendi que eu não precisava ser galã para fazer acontecer. Eu precisava desvendar mais da persona que criei, precisava desvendar mais o que era Drag para mim. 

Voltei ao Brasil em 2016, Rupaul’s Drag Race ainda não era um grande surto, Pabllo Vittar estava surgindo. Era nebuloso Drag ser mainstream no Brasil, não tínhamos noção que vinha um segundo boom em relação ao tema, em termos midiáticos. Considero que era o início de um novo momento para o cenário Drag. Naquele ano, eu tinha que  criar um documentário para uma matéria de faculdade, e  disse para a minha dupla: tenho esse filme em que quero falar sobre o carnaval e tenho esse em que quero entrevistar diferentes gerações de Drags. Ela disse: “Se você fizer esse filme de Drags eu topo!”. E eu lancei um: Mas será? É meu primeiro filme, será que as pessoas vão me levar a sério?! Ela me encorajou muito, disse que era o que me pulsava, e mais, disse que Ayla tinha que abrir o filme, deixando claro a minha subjetividade, porque aquela pesquisa me movia.  Assim foi, Ayla abre o filme com a frase: “Não é sobre querer ser mulher”, porque era uma mensagem que eu queria deixar claro, Drag independe de gênero e sexualidade, é sobre outros departamentos. 

Foi muito especial as trocas que tivemos, seguimos o filme com Juana Profunda, hoje uma sumidade consagrada da cena Curitibana, ali ela começava  já com questões e desejos muito contundentes. Ali foi um encontro de cara, Juana se tornou uma das minhas melhores amigas no in e no out Drag, também se tornou minha musa, atuando em outros filmes que dirigi depois. Na mesma festa, entrevistamos Suzaninha Richtofen, outra sumidade, mas da cena de Florianópolis, também foi importante  tê-la conosco. Nossa terceira entrevistada foi Diandra Stope, que também foi especial, porque ela trouxe a ótica de uma cena de Curitiba que não existe mais, de certa forma. Ela viveu o primeiro auge Drag nos anos 90, com boom do filme Priscilla Rainha do Deserto. Conseguimos imagens de Diandra performando na CATS CLUB, uma finada casa em Curitiba que ficou famosa por shows de Drags. Fechamos o filme com a cereja do bolo, que foi Silvetty Montilla, uma sumidade não só da cena paulistana, mas da cena brasileira. Ela foi muito receptiva, deu sua visão como um todo, amarrou toda a pesquisa muito bem. Intitulamos o filme de “O Mundo Estratifica, O Corpo Se Desloca”. É algo que veio de uma frase, lendo um artigo de Judith Butler, no qual  ela fala sobre performance de gênero, para ela, Drag é sobre tirar o gênero desse lugar estratificado que o mundo nos coloca. O filme rendeu bons frutos, fomos selecionados para o Olhar de Cinema, um dos festivais mais importantes do país e circulamos por outros festivais como CineBH. Saí dos festivais com respostas muito contundentes de público, e com uma certeza que aquele era meu lugar de fala, que era uma coisa pouco falada, e que eu precisava habitar esse espaço. Drags no cinema, ainda tinha um mundo a desbravar e a falar. E ainda tem!

Ayla drag de cinema
Ayla Cinema em Mirror Mirror On The Wall (2019). Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Atrizes Drags no Cinema a gente só tem como grandes referências Divine nos Estados Unidos e Laura Divison no Brasil. Laura é uma referência que inclusive me chegou tardia, as pessoas não conhecem muito e os filmes são raros de achar, porém, foi uma grande artista que deve ser celebrada.  Priscilla Rainha do Deserto, é um grande marco, mas foi feito com atores de renome que não são Drags. Já Laura e Divine, levaram as personas filme a filme, como uma grande construção. 

Mais que o meu trauma subvertido, meus desejos começaram a ganhar mais espaço e mais fôlego. Pensei, Ayla já habitou o primeiro filme, porque não Ayla habitar vários filmes? Vou criar o meu próprio espaço enquanto articulação e trabalho de ator e vou fazer esse emblema entre criador e criatura. Com isso, comecei a desenvolver um método autodidata de como eu dirigiria e atuaria de Ayla, ao mesmo tempo, nos próximos filmes que gostaria de criar. E assim foi com mais um filme, dessa vez, uma videoarte intitulada “Snow Ayla”, em que desconstruo ideias de contos de fada e falo sobre abuso, com uma trilha remixada do filme clássico da Branca de Neve, da Disney. Fiz uma performance ao vivo com o filme no Festival Ruído Encena em 2017, um festival de performances incrível, idealizado pela Juana Profunda a.k.a. Daniel Valenzuela. Esse festival propunha como um grande encontro de arte de performance do Brasil e até de outros lugares do mundo. Tinha todo tipo de performance ,não só Drag, foi de fato um evento especial. 

Em 2018, escrevi uma ficção intitulada Te Convidei Pra Jantar. A sinopse consistia em uma Drag e um palhaço, num date existencial, em que discutem sobre carreira, sobre o real e o irreal, sobre o que existe por detrás de diferentes tipos de artificialidade do alter ego e como eles não se desmontam em momento algum. O filme era complexo demais, muitas cenas, muito diálogo, vi que ali não daria pé para atuar e dirigir nem se Ayla fizesse uma ponta (risos). Chamei um trio de atores talentosíssimos da cena curitibana que eu tenho o privilégio de ser amigo, Juana Profunda e Cleydson Nascimento como protagonistas. Rubia Romani também tem um papel, ela é uma atriz que sou fã, multifacetada, vai do drama à  comédia, mas tem várias personas que habitam aquele corpo como, um Drag King, que construiu uma cena de Drag Kings em Curitiba, e também possui uma personagem Burlesca. Ambas figuras, Rubão e Ruby Hoo, colocam abaixo qualquer boate ou lugar em que se apresentam. Sou fascinado pelas ações e desejos dela, assim como sou por Juana. 

2019 foi um momento derradeiro do meu TCC, na antiga Faculdade de Artes do Paraná, hoje intitulada UNESPAR. Resolvi retomar a videoarte,  os contos de fada e Ayla diante das câmeras. Crio “Mirror Mirror On The Wall”, subverto finais felizes, subverto a imagem do príncipe e da princesa. E, de novo, bebo de Branca de Neve, escolhi como epígrafe uma frase do filme Branca de Neve, de 2000, do Diretor Português João César Monteiro em que diz: “Que Imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido Branca de Neve no melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos sobre ela”. O filme de César Monteiro é bem polêmico, ele é mais áudio do que visual, foi rigorosamente criticado, são muitos minutos de tela preta. É uma adaptação de um texto teatral escrito pelo suíço Robert Walser, no início do século XX. Para  mim não só fazia sentido com toda a desconstrução e estranheza que eu queria passar, mas também como uma homenagem a tudo que o Cinema Português me trouxe. Convidei novamente Juana Profunda para integrar o elenco e o talentoso ator Max Carlesso. Mais uma vez entramos no festival Olhar de Cinema e ganhamos o prêmio de melhor filme da Mirada Paranaense. Me trouxe novas certezas de que sim, se meu eu, lá do passado tinha dúvidas se iria ser levado a sério, aqui estamos, e também que desejo era esse de tanta aprovação da cisnorma? A gente só tinha que fazer, fluir e seguir, as outras coisas seriam consequências, ou não. Não era validação que importava, era diálogo, era habitar um espaço.  

Ayla drag de cinema
Performando na Festa de Dalvinha Brandão em 2017. Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Só sei que olhei para tudo até aquele momento, e até pensei, eu posso falar sobre outras coisas, eu posso dirigir filmes sobre qualquer outra coisa, mas ainda tem muito fôlego para imergir no Drag, ainda tem muito chão e muita coisa a dizer. Esse ano, finalmente, finalizei meu primeiro filme para além da academia e  por projeto de lei. O filme se chama Revelações, foi produzido pela Beija Flor Filmes.Começo a abrir uma nova aba, sai dos contos de fada, saio da fantasia um pouco, do etérico, e venho para o real. Talvez, meu filme mais complexo e meu filme mais íntimo, resolvi falar sobre a minha relação com minha Tia Avó. que é uma das maiores pesquisadoras de abelhas do mundo e está com demência avançada. Com esse filme, quero questionar se as pessoas se esquecem que foram conservadoras ou podem existir pessoas que nunca foram? Não vou dar mais spoilers, vocês vão ter que assistir ao filme que sai em breve, mas basicamente é uma anatomia da minha vida, onde desejos e pulsões começam. Também é uma celebração a quem minha Tia foi e é.

  A mensagem que eu quero deixar aqui, é da nossa pensadora contemporânea “Nunca acreditem em vocês”, (brincadeira). O que eu quero deixar é que acreditem sim, acreditem que Drag pode ocupar o espaço que a gente quiser, e se o espaço não existe, a gente vai dar um jeito de abrir ele.

Não sou cantora, não sou humorista, não sou do bate cabelo, estou aqui provocando em abrir outra aba pouco usada, porém já antiga por exemplos citados, sou uma Drag Atriz de Cinema. Não gosto de caixas mas no Sul desbravei o lugar da Direção, mas também existem outras Drags diretoras de Cinema pelo Brasil que estão produzindo no hoje que devem ser celebradas como Toni Dri a.k.a. Malu Vitta em São Paulo, Paula Lice na Bahia e Rafael BQueer no Pará, inclusive procurem pelo trabalho dessas artistas pois são incríveis.  

Peça Quase Ministro, 2016 em Portugal. Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Para mim, se Cinema não for um espaço de quebras de paradigmas e uma lupa para novas e ou outras existências, não faz sentido. Assim como Drag é sobre desmantelar o que nos foi posto,vou seguir meu Cinema Drag, até achar que não tenho mais camadas e assuntos sobre. 

Sou muito grato a todas as equipes que fizeram parte dessa trajetória, e embarcaram nas minhas loucuras, afinal Cinema não é uma arte que se faz sozinho, ela é do coletivo. Drag tem um processo um pouco mais solitário, porém sem as trocas com o outro ela também não existe, seja nos camarins com outres artistes, seja no encontro com o público de teatro ou boate, ou quem sabe no encontro do público com um filme de Cinema, porque não?!

Arte Drag: Florescer nas fissuras

Ptera Dactyla

A Arte Drag é, desde seu início, um movimento de ruptura de padrões estéticos e de gênero. Ruptura da normalidade. O que vemos na mídia, em reality shows e redes sociais é apenas uma superficial camada do que fazer drag é e pode ser. 

Florescer nas fissuras Ptera Dactyla Grafia Drag
Ptera Dactyla na Workroom. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Minha experiência com drag iniciou com uma jovem não-binária, trancada em casa com a pandemia, confusa com tudo o que a cercava. Certo dia, nasce Ptera Dactyla como um respiro de alívio. Consegui definir o que era uma expressão artística e o que era uma expressão do meu eu. Colocar um vestido ou fazer um delineado não era sobre drag, e sim sobre a expressão de gênero que eu desejava ter. Assim, separei a Fro, uma travesti não-binária que apenas deseja viver sua vida como qualquer outra pessoa, da Ptera Dactyla, uma criatura sensual e divertida do submundo, representando um exagero dos mais profundos sentimentos de sua criadora.

O processo de criação da minha persona reuniu todos os estudos, referências e interesses artísticos que já tive. Em uma grande mescla de inspirações que vão de filmes de terror trash e gore a figuras elegantes e sedutoras, Ptera Dactyla surge como uma divindade saída do lixo tóxico. Beleza, glamour e um toque de insalubridade. Pelo menos é assim que a vejo. Uma figura que representa as mais profundas loucuras da mente dessa travesti. Com ela, me dou o direito de percorrer caminhos artísticos que me permitem ser tantas coisas, o que vejo como a parte mais bonita de fazer drag. Se eu quiser ser uma dinossaura patricinha, eu posso. Se eu quiser ser uma vampira elegante e assassina de homens eu posso. Se eu quiser ser uma criatura rastejante e horrorosa, eu posso.

Com formação em maquiagem artística e efeitos especiais e estudando teatro, vi na arte drag uma oportunidade de experimentar, casando com influências de artistas como Nina Hagen, Sade, Prince e Drags como Sasha Velour, Juno Birch e Alma Negrot. Tudo isso com um toque de humor e sensualidade. Procuro desafiar padrões de gênero e conformidade com meus looks, minha maquiagem e minha performance. Trazer o inesperado e o chocante. Despertar sensações em quem me vê ou me assiste. Mesclar signos do masculino e feminino, misturar Drag King e Drag Queen em uma grande mistura que eu e algumas pessoas preferimos chamar de Drag Queer. 

Encontrar um nome que realmente represente toda essa maluquice é uma tarefa interessante. Busquei em todos os interesses e influências que tive ao longo da vida e acabei caindo na paleontologia. Dinossauros e fósseis. Me sugeriram apenas “Ptera”, mas adicionei “Dactyla”, dando um toque de humor. Sinto que escolhi um nome que me representa e me diverte.

Levar essa forma de arte como uma maneira de fazer dinheiro é muito difícil e desgastante. É caro e consome tempo. Mas é recompensador. Ver a construção de uma imagem de delírios pessoais e lampejos de criatividade tomando vida é, com certeza, gratificante. Não tenho dúvidas de que não sou a única artista Drag que já pensou em desistir e “aposentar” sua persona, mesmo após um trabalho que te orgulhe. As contas chegam e (ainda) não é possível pagar contas com satisfação pessoal. Mas continuamos, aos trancos e barrancos.

Florescer nas fissuras Ptera Dactyla Grafia Drag
Ptera Dactyla. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Sempre achei cafona quando via alguma Drag em algum reality dizendo que fazer Drag salvou sua vida e que formou uma família. Hoje mordo minha língua. Drag me salvou e me salva diariamente, pelas relações que formei, pelas que fortaleci e pelo fato de ter aberto meus olhos para ver quem eu realmente era e o que eu queria expressar. 

Muito obrigada, Ptera.

OH MEU DEUS, CRIEI UM MONSTRO: Evah Destruction como uma das minhas inspirações criativas

Mia The Witch (Patrick Nascimento)

criei um monstro Evah Destruction Grafia Drag
Evah Destruction. Fonte: Instagram da artista.

Quando se trabalha com arte ou qualquer outra forma de criação, é muito importante que se tenha referências e inspirações. Nenhuma criação nasce do nada. Tudo se cria a partir de um repertório de inspirações. Além de drag monstra, eu também sou publicitária de formação. Na minha área, aprendemos que a criatividade não é um dom, mas sim um exercício. Ela pode – e deve – ser estimulada através de certas atividades. Há um processo para a criatividade, muitas vezes, bastante pessoal. O que importa aqui é a retirarmos desse local de dom divino, como se as ideias simplesmente fossem brotar num deleite de talento provindo da mente gloriosa do artista. Toda criação parte de uma boa pesquisa de referências e inspirações. Na arte drag, não é muito diferente. Frequentemente, conversando com amigas que também são artistas drag, consigo observar seus processos criativos e, muitas vezes, me identifico com o modo que criam. Algo que sempre me ajuda é observar as outras artistas de quem sou fã. Não é uma questão de meramente copiar ou reproduzir o que elas fazem, mas ter uma observação atenta aos nuances que me fazem amá-las e tentar traduzi-los aos códigos que configuram e montam a minha própria drag. Dentre essas artistas, algumas que são drags e outras não, está a monstra Evah Destruction. Trata-se da minha drag queen favorita de todos os tempos. Neste ensaio, buscarei trazer reflexões, enquanto artista da mesma plataforma e fã, sobre o que me causa tamanho encantamento no trabalho desempenhado por ela.

Antes de partirmos a um exercício reflexivo, no qual irei me reservar ao direito de fã em ser totalmente apaixonada por Evah, acho coerente apresentá-la às leitoras/es leitores/aos leitores. Evah Destruction é uma drag monstra de 33 anos (9 de maio de 1992), natural da cidade de Bedford, no estado do Texas, Estados Unidos. Atua, majoritariamente, na cidade de Austin, do mesmo estado e país, apesar de ser uma artista com fama internacional e conseguir atuar em diversas cenas ao redor do globo. Sobre sua fama, pode atribuir-se a sua participação na terceira temporada do reality show estadunidense The Boulet Brothers’ Dragula (2019) e também ao seu retorno no spin-off Titans (2022), da mesma franquia. Evah se identifica como uma pessoa não-binária (they/them/she/her) e é reconhecida no meio artístico por ser uma monstra com bastante pêlos corporais, tendo sua branding associada à imagem do lobisomem – criatura humana que se transforma em lobo em noites de lua cheia. Outra figura bastante associada a Evah é o palhaço, uma vez que teve um vídeo viral espalhado na Internet, em 2014, durante uma performance na parada de orgulho da cidade de Atlanta (EUA), em que interpretava a música “That Laughing Track”, do grupo de DJs Crookers, vestida como um palhaço que tinha como característica marcante risadas estridentes e com certo tom de psicopatia, antes de integrar o elenco da terceira temporada de Dragula. Além de drag monstra, Evah também é atriz e está em cartaz no musical “Urinetown: The Musical”.

Adiante a essa apresentação, podemos partir às finalidades deste ensaio. Eu conheci Evah em 2019, a partir de sua primeira participação em Dragula, franquia da qual também sou fã. Conforme a terceira temporada ia ao ar, meu amor por ela ia despontando. Nessa época, eu já era artista drag há dois anos. O primeiro grande fator que me despertou atenção em Evah foi a questão do uso dos seus pêlos corporais como artifício de monstruosidade dentro da plataforma drag. Eu me senti, de imediato, bastante identificada porque nunca escondi meus pêlos. Ao contrário, eu sempre os mostrei nas minhas montações como forma de criar rupturas de sentido dentro do drag. Isso foi algo pelo qual, com dois anos de carreira e em um contexto ainda mais restrito de como se pensava na figura drag, eu sofri retaliações do meio que me deixavam bastante insegura. Na cena em que eu estava inserida, não era visto de bom tom uma drag queen peluda. A depilação não era necessariamente uma regra ao ofício drag, mas se esperava que a artista utilizasse recursos como o uso de diversas meia-calças e blusas de segunda pele que os escondessem, caso ela preferisse os manter no corpo. O resultado de uma montação hegemônica no drag era a ilusão de uma fêmea lisa, sem pêlos. Até o momento em que conheci Evah, pouco tinha me deparado com outras artistas drag que também utilizassem seus pêlos para sua expressão artística. O que sempre me interessou no drag foi ser uma artista de contracultura – mesmo o drag já sendo um movimento de resistência política, criaram-se certas normatividades aos artistas e eu não me interesso por segui-las . Quando percebi que Destruction partilhava dessa escolha estética, me dei conta de que isso era uma partilha ainda mais profunda do que meramente uma questão visual: era uma ideologia, como entendemos e desempenhamos o drag em nossas plataformas. De alguma forma, entendi que o impacto que Evah pretendia era o mesmo ato político que eu buscava alcançar.

criei um monstro Evah Destruction Grafia Drag
Evah Destruction performando. Fotos: Gabriel Gastelum.
criei um monstro Evah Destruction Grafia Drag
Evah Destruction performando. Fotos: Gabriel Gastelum.

Além de ter uma admirável habilidade em se maquiar, transformando-se na monstra que ela é a partir do uso de maquiagens, próteses e diversos outros materiais, Evah também me inspirou a entender a monstruosidade drag através da corporalidade. Claro que sendo uma criatura monstruosa, ela se monta a partir de referências vindas da cultura do horror: lentes brancas, sombras e delineados excessivamente pretos e exagerados, unhas longas e pontiagudas como garras, o uso de sangue ou manchas que remetem a podridão e decomposição, entre figurinos e perucas igualmente sombrios. Entretanto, o estético não é tudo o que resume a monstruosidade em Evah. O modo com que ela se move durante uma performance nos transporta a um universo sobrenatural: ali não está mais uma figura humana, mas sim a representação de uma entidade nefasta. Durante seus atos, é possível observar seu corpo em transe e torções. Existe uma voracidade no modo em que ela se movimenta através de gestos ora bruscos, ora tão suaves que causam pânico. Suas expressões faciais costumam ser bastante demarcadas também: uma besta em fúria; noutras vezes, um semblante maligno e psicótico. O modo com que os lábios, perfeitamente sincronizados com a letra das músicas, se movimentam descontroladamente também produz sentidos de monstruosidade. Através de como conduz seu corpo, o público é convidado a uma viagem sensorial ao medo, agonia e aflição. Nisso, reside meu enorme encantamento pessoal com o trabalho que ela desempenha. Foi assistindo aos seus shows na Internet – porque, infelizmente, ainda não tive a alegria de assisti-la ao vivo – que eu compreendi a potencialidade de transformação do corpo em um dispositivo que aciona sentidos de monstruosidades para além das escolhas estéticas, tais como maquiagens, perucas e figurinos. Acredito que após ver Evah performar, eu passei a entender também qual o tipo de arte performática que me atraía enquanto performer. Assim, busquei entender qual era a monstra que vivia em mim e deixei que ela se manifestasse através do meu corpo também. Aqui, acredito muito em uma manifestação de incorporação do monstro. É como se, a partir da arte, eu entendesse que a Mia se manifesta numa possessão que toma conta do meu corpo. Ao mesmo tempo, não é como se ela vivesse fora de mim quando não estou montada: ela fica de resguardo e toma o controle quando eu preciso manifestar a monstra que vive sob minha pele.

Ainda, existem identificações de outras ordens da minha parte com Evah que, somadas às anteriores, dão força ao sentimento de admiração que sinto por ela. Admiração que, por sua vez, fornece subsídios para que eu veja nela uma referência para a minha arte. Dessas outras identificações, posso apontar que estão associadas a questões identitárias. Assim como Evah, eu também me identifico enquanto uma pessoa não-binária; Evah é assumidamente uma little monster como eu, ou seja, nossa diva pop favorita é Lady Gaga e, mais do que simplesmente ser fã, ser little monster é um lifestyle com valores específicos; Evah é atriz de teatro, e eu sempre tive a vontade de fazer aulas. A partir das várias formas que apresentei neste ensaio, Destruction tornou-se uma grande referência no meu processo criativo. Sinto uma conexão muito forte com o que ela apresenta ao mundo, conseguindo me ver através dela. Acredito que toda forma de drag é política, mas nem sempre fala de uma mesma política. Com Evah, sinto que as conversas que pretendemos estimular através dos nossos trabalhos são muito próximas. Enxergo nela uma potência muito forte, acredito demais no potencial da arte dela e me espelho em quem ela é enquanto artista.

As famílias drags são uma das tradições mais antigas que temos na plataforma. Diz respeito a quando uma drag queen mais experiente acolhe uma drag novata e compartilha com ela não apenas seus ensinamentos acerca de maquiagem, figurinos, performance de palco, mas também seu sobrenome. Assim, tornam-se mãe e filha. A novata é uma eterna pupila da artista experiente, esperando-se que essa tradição seja levada adiante, geração após geração. Assim, uma novata é a mãe do futuro, que levará adiante o legado de sua família drag. Eu não tive uma família drag. Nem fui acolhida, nos meus anos iniciais, na comunidade drag em que estou inserida. Eu era vista como alguém que era fã de drag, uma bichinha que tinha vontade de aprender a se montar, mas nunca respeitada como uma artista em si, de igual para igual. Isso porque eu nunca fui o tipo de drag que era convencional na minha cena, as drags de beleza hegemônica. Eu sempre quis ser uma artista estranha, que rompesse com as ideias binárias de gênero que a minha cena local atribuía ao drag. Dessa forma, não tive família. Costumo brincar que minha mãe drag é o YouTube, local onde aprendi a maior parte das habilidades técnicas que tenho hoje. Porém, mesmo sem ter consciência ou sem querer, fosse sensato dizer que Evah Destruction foi minha mãe. Ou, ao menos, uma das muitas mães que eu tive. A partir da sua arte e do quanto ela demonstra conhecer a si mesma, Evah Destruction me apresentou quem é Mia The Witch também.

Arte drag e gênero: uma jornada de descoberta

Samantha Rose e Ash Rose

Ao longo dos anos enquanto artista drag, tive uma jornada muito pessoal dentro dos meus processos artísticos, os quais são diretamente relacionados com a experimentação do gênero através da arte. Durante a formação de Samantha Rose e Ash Rose, eu tive a experiência de entender que me identifico como um homem trans. A arte drag me veio como algo que jogou fora os paradigmas que não cabiam mais, assim como as crenças e os preconceitos enraizados. Isso me tirou completamente da minha zona de conforto, permitindo que eu  explorasse todas as coisas que nem sempre me foram encorajadas.

Samantha Rose e Ash Rose Arte drag e gênero
Samantha Rose. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Aos 18 anos, experimentei pela primeira vez me montar de drag queen, seguindo os ensinamentos da minha mãe drag Phedra Fur. A expressão feminina mesclada de sensualidade, confiança e beleza sempre havia me encantado muito, ainda que essa mesma feminilidade já fosse algo esperado de mim desde cedo. Muitas das características que eu atribuí a minha drag já me eram cobradas desde a juventude . Eu observava com admiração a performance do gênero feminino desde muito novo, sempre desejei me tornar um artista.  As divas do pop (e do kpop, posteriormente) chamaram minha atenção num lugar de inspiração. A Samantha caiu como uma luva no meu corpo, afinal, me foi ensinado uma performance de gênero atribuída ao meu nascimento, na qual eu desejei me encaixar por anos. Aprendi a ter movimentos delicados, aprendi a postura correta em que deveria me posicionar, aprendi a maquiar muito cedo e sempre tive interesse em moda. Apenas demorei para entender o quanto isso estava mais relacionado com a minha expressão artística favorita do que de fato com  quem eu era enquanto pessoa.

Samantha Rose Arte drag e gênero
Samantha Rose. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Quando tinha 21 anos, experimentei pintar meu primeiro bigode após uma oficina do drag king Rubão. Até então, sempre estive confortável com a minha drag queen, a feminilidade era uma performance natural e familiar. Assim era a Samantha, a mulher que eu fui criado para ser, mas que nunca fui de fato. Isso ficou claro quando comecei a experimentar a arte drag king. Naquele ponto, depois de alguns anos, eu já me entendia como uma pessoa não-binária, e os conceitos de gênero estavam cada vez mais se desfazendo e se transformando na minha mente conforme eu aprendia e vivia. 

Quanto mais estudava diferentes formas de masculinidade, quanto mais observava diferentes tipos de homens e suas representações, mais se formava dentro de mim o homem que eu era. Precisei desmistificar preconceitos, convicções e auto-cobranças infundadas em conceitos falidos, como, passabilidade e heteronormatividade. O Ash nasceu do homem que eu desejava ser antes da transição, mas não do que eu sou de fato hoje. Entendi isso melhor quando comecei a desvincular as coisas umas das outras. O drag king foi para o lado da sátira, do exagero, da distância com a realidade e, por trás dele, foi nascendo e se libertando o Nicholas.  

Ash Rose Arte drag e gênero
Ash Rose. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Em certo momento, a cidade pequena no interior do Rio Grande do Sul onde eu vivia já não me cabia mais. A vida que eu levava não seguia alinhada com as minhas convicções,  com isso, decidi me mudar para Curitiba. Depois de 3 anos perambulando, performando e produzindo pela cena drag curitibana, consegui me entender plenamente como o homem trans, bissexual e não-mongamico que sou, alinhado agora com as minhas convicções. Isso ocorreu graças ao convívio com diferentes realidades, nas quais pude me encontrar em sociedade e com aqueles que apreciam e respeitam minha identidade. A arte drag me ajudou a encontrar o eu que hoje afirmo e sou.

Arte drag como fonte de inspiração

Ivy De La Foxx

Prazer. Me chamo Ivy De La Foxx. Faço drag desde os 20 anos.

A minha drag veio de um momento muito difícil na minha vida. Sofri um abuso e quando tudo parecia estar desmoronando, foi através da arte drag que eu tirei forças pra seguir em frente. O significado do meu nome veio da Poison Ivy (Hera Venenosa, vilã do Batman) e da atriz Megan Fox (em especial no papel de Jennifer em Garota Infernal). 

Ivy De La Foxx
Ivy De La Foxx. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Gosto muito de misturar vários tipos de referências na minha drag. Mas a minha maior referência é a Lady Gaga, pois foi com ela que eu aprendi a ser um artista. No álbum “Born This Way”, eu vi que era aquilo que eu queria fazer e ser. Não apenas uma drag queen de bate cabelo ou dublagem, e sim uma artista que dança, interpreta, se entrega de corpo e alma no palco, mas que além de tudo sempre leva uma mensagem para o público. Incentivando as pessoas a  se amarem da maneira como são e aprenderem a dançar com suas  dores e traumas. 

Para mim, ser drag queen vai além do close e da make. Drag é representatividade e muita luta. Todos os dias muitas pessoas da comunidade sofrem preconceito ou até mesmo perdem a vida. Para mim, ter um tempo no palco é uma forma de  usar esse espaço para passar algo para as gerações que estão por vir. Procuro levar uma mensagem de superação para as pessoas e dar pelo menos um pingo de esperança por um lugar com mais acolhimento LGBT+. Nem que seja por 5 minutos em um palco. Isso é algo que tenho comigo por ter me aceitado seguindo as canções da Lady Gaga. A maneira que ela acolhe os fãs faz eu querer acolher a todos. Por esse motivo, também sou a atual Madrinha Da Diversidade De Alvorada 2024.

Ivy De La Foxx
Ivy De La Foxx. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Tenho públicos de todas as idades nos meus shows, mas o público que eu mais aprecio é o infantil. Pois, as crianças trazem sentimentos puros e sem maldade. E é por eles que devemos seguir na luta. Por um lugar melhor para eles todos. Por mais que os shows sejam com vestimentas voltadas para o público adulto, ver e sentir a energia das crianças vibrarem com você em um momento é o que me motiva a fazer mais  shows. Quando eu era menor, assistia as drags fazendo shows e sempre quis um dia fazer isso. Então, procuro motivar essas crianças a seguirem os seus sonhos e não desistirem. A se amarem como são. 

Entrevista com Adriana Prates: a Cena King de Salvador

Por: Lorde Lazzarus

Adriana Prates Cena King de Salvador
Adriana Prates como Drag King. Fonte: Arquivo Pessoal

Lorde Lazzarus. Sabemos que você é uma das pessoas responsáveis pelo projeto CABARET DRAG KING (atualmente CENA KING) na cidade de Salvador/BA. Como se deu a ideia de criar esse espaço para o trabalho dos drag kings? Quando foi que tudo começou?

Adriana Prates. Entre outras coisas, tive a ideia do Cabaret Drag King (CDK) porque, basicamente, sentia falta de ver artistas performando masculinidades a partir da linguagem drag e achei que seria legal fazer uma proposta neste sentido. Daí fiz uma chamada e algumas pessoas apareceram se propondo a fazer. Como queria que fosse um show de variedades, convidei também artistas de outras linguagens para criar sobre o tema das masculinidades e montei o espetáculo pela primeira vez em maio de 2013, com a ajuda de Eberth Vinicius e Junior Oliveira, meus parceiros no Coletivo Cena Queer.  Tinha de tudo no CDK, embora os Drag Kings fossem o carro-chefe do espetáculo. A Cena King é um projeto diferente do CDK. Surgiu este ano (2024) e foi concebido como um Drag King Show. É uma proposta do coletivo House of Kings, que tem à frente Karol Senna (Kinn Spada), Ramona Gayão (Tonhão) e eu.

Lorde Lazzarus. Você se monta? Já viveu alguma experiência com a montação? Poderia nos descrever como foi? 

Adriana Prates. Me montei algumas vezes mas geralmente não me monto, só uso alguma roupa referenciada em ideias que temos a respeito do “masculino”. A primeira vez que me montei foi para participar de um show da “Solange tô Aberta”, em 2007, quando me inspirei na capa do disco “The Man Machine”, da banda Kraftwerk. Em algumas edições do CDK tentei fazer umas montações mais elaboradas como Andy Wahrol, Robert Smith e também uma montação inspirada no filme “Parceiros da noite”, mas não fiquei satisfeita com os resultados. Para a estreia do Cena King, este ano, concebi uma montação inspirada pela ideia do ciborgue, que critica formas dicotômicas de pensar e evidencia o papel da tecnologia na constituição do humano. Aproveitei para homenagear o Kraftwerk, os quais, como escrevi naquela postagem do instagram, costumam poetizar a dimensão ciborguiana do cotidiano. Usei como referência a capa de outro disco deles, o Electric Café. Além de uma make, rolou um ensaio fotográfico e uma manipulação digital pra reproduzir a capa do disco. Desta vez eu amei o resultado. Rafael Jones (make), Luciana Brito (fotos) e Andrea May (design gráfico) colaboraram comigo para fazer acontecer minha ideia. Acredito que seguirei fazendo experiências nesse sentido, ainda que eventualmente.

Lorde Lazzarus. Além do Cabaret/Cena King, que outros segmentos artísticos lhe interessam e em quais você se engaja? 

Adriana Prates. Eu me interesso por arte de maneira geral, principalmente por trabalhos de viés alternativo. Mas a minha maior paixão é a música eletrônica, especialmente a House Music. Tenho loucura pelo grave e sou DJ há muitos anos.

 Lorde Lazzarus. Você sente que o trabalho de artistas do Nordeste fica invisibilizado diante de outros trabalhos em outras cenas drag/transformistas brasileiras, especialmente do Sudeste e do Sul do país? Gostaria de falar um pouco mais a respeito desse assunto?

Adriana Prates. Infelizmente, sim. Mas isso ocorre de forma geral, pois a mídia só destaca e dá importância ao que acontece no sudeste do país.

Lorde Lazzarus. Que outros/as/es artistas fizeram e fazem parte do Cabaret/Cena King ao longo de todos esses anos? 

Adriana Prates. No início dos anos 2010 eu integrava o coletivo Cena Queer, junto com Eberth Vinicius e Junior Oliveira. Sob este nome a gente se apresentou em várias partes da cidade, junto com outres artistas que abordavam em seus trabalhos temas como gênero, raça e sexualidade, por exemplo. O Cabaret foi meu projeto pessoal dentro da Cena Queer.  Minha ideia, na época, era que cada edição do CDK tivesse artistas diferentes performando, fazendo a direção, a iluminação, como apresentador (a) etc, mas algumas pessoas acabaram tendo presença constante, como Márcia Andrade, que dirigiu e apresentou várias edições, Isabela Silveira, que também apresentou o espetáculo várias vezes, e Rafael Jones, que encantava o público com números maravilhosos de dança do ventre. Os drag kings foram performados por artistas como Karol Senna, Ingridy Carvalho, Nildes Sena, Mirela Matos Sales, Jack Elesbão, Simone Gonçalves, Ramona Gayão, além de outres que fizeram king de forma mais esporádica. Gostaria de citar aqui o nome de todas as pessoas que participaram, porém passaram pelos palcos do CDK mais de 50 artistas (do teatro, da dança, da cena drag etc). Todas essas presenças estão contempladas no perfil do facebook do projeto (sei que muita gente não tem usado mais o FB porém é lá que tem o registro de todas as edições, além de fotos/bio de todes que participaram. Vale uma visita.) 

A Cena King, por sua vez, é uma proposta do Coletivo House of Kings, do qual faço parte junto com Ramona Gayão e Karol Senna. Por ser um drag show, tivemos unicamente performances de Drag Kings (à exceção de Rainha Loulou, que é Drag Queen). Mapeamos a cena e convidamos todo mundo que fez/faz King em Salvador. Participaram Ivan Bernardino, Mungunzah, Kalunga King, Alexandrite Sativa, Nikolai Molotov, Dimitri e Julian Glover (de Ilhéus, interior do estado), além de Tonhão e Kinn Spada, os anfitriões do projeto. Vale mencionar que alguns kings nasceram nas oficinas que fizemos, como Dom Gatto, Ninfo e Astro, entre outros, e que tivemos a presença de Gilvan, artista que faz cover de Ney Matogrosso e possui mais de 40 anos de carreira na cena drag da cidade. Também propusemos a pessoas que atuam ou atuaram como drag queens que fizessem performances como King, a exemplo de Valerie O’rarah, Desiree Beck, Towanda Verde Frita e Kayokan. Por fim, quero destacar a presença de Rainha Loulou, que participou de edições da Cena Queer, do CDK e esteve agora conosco em todas as edições da Cena King. 

Lorde Lazzarus. Você já sofreu algum preconceito por desenvolver esse projeto por ser uma mulher atuando na cena drag/transformista? O projeto já sofreu algum tipo de preconceito em algum momento? 

 Adriana Prates. Acredito que mulheres cisgênero que fazem drag queen enfrentam mais preconceito pois, para o senso comum, “o certo” é a pessoa performar artisticamente o gênero ao qual não pertence. Com isso acham que mulher “não pode” fazer drag queen mas é ok fazer drag king.  Inclusive, algumas pessoas chegaram a me falar que achavam que eu devia convidar somente mulheres para integrar os elencos do CDK mas minha ideia era ter a participação de pessoas de qualquer gênero, fazendo king (ou queen), justamente para não reforçar essa ideia de gêneros “opostos”. Mas de maneira geral tanto o CDK quanto a Cena King foram muito bem recebidos.

Lorde Lazzarus.  Num texto na sua conta do Instagram você escreveu: “Quando fiz minha primeira montação, em 2007, me inspirei na banda Kraftwerk, que tem mais de 50 anos de carreira e sempre utilizou máquinas e computadores para criar suas músicas, que costumam ter a tecnologia como tema. (…) Cantam sobre o rádio e a radioatividade, máquinas de calcular, medicamentos e meios de transporte, poetizando a dimensão ciborguiana da existência. Eu, como todas as pessoas que vivem neste mundo, sou ciborgue. A frase de (Donna) Haraway também me levou a pensar como a gramática da deusa sempre foi complexa pra mim, que apesar de ser uma mulher cisgênero, nunca consegui expressar uma feminilidade mainstream, enquanto muitos homens cisgêneros, maioria dos que personificam drag queens, conseguem alcançar plenamente um lugar entendido como o da diva.” Poderia nos explicar um pouco mais de onde partiu essa sua reflexão sobre montação, gênero e “feminilidade”? 

Adriana Prates. Questões relacionadas à feminilidade permeiam a minha existência desde cedo. Por ser uma mulher cis, sempre convivi com a cobrança para ter uma performance “adequada” ao gênero que me foi atribuído, ou seja, dentro de padrões normativos de feminilidade. Como diz a letra da música “eu vou sendo como posso”. Inclusive houve (há) momentos em que, quando quis ou por experiência, tentei ser “mais feminina”, mas é fato que, em vez de tentar me adaptar ao padrão mais normativo de gênero, optei por observar, refletir, estudar e, de certa forma, questionar esses padrões. Criar o CDK foi uma forma que encontrei de dividir minhas reflexões sobre esses temas e de congregar pessoas para pensarmos nessas questões de forma coletiva. Quanto ao aspecto da montação, frequentar a noite, de maneira geral, e a cena drag da minha cidade natal (Salvador) enriqueceu o meu olhar e as minhas reflexões em uma medida praticamente equivalente ao tempo que dediquei à minha educação formal. Sou grata e apaixonada pela cena drag de Salvador, uma verdadeira escola de vida, arte e resistência.

Lorde Lazzarus. Que conselho você daria para mulheres cisgênero, em especial, para aproveitarmos esse recorte, que estão começando a se aventurar no mundo da montação (sejam elas kings ou queens)? 

Adriana Prates. Entre muitas outras coisas, acho que, além de tensionar supostas verdades sobre o gênero, Drags são especialistas em tensionar, digamos assim, a diferença entre o real e o imaginário, mostrando a dimensão ficcional do que entendemos como real e envolvendo o público nesse jogo. Acho que vale muito a pena experimentar com isso. Outra coisa que tenho pensado é sobre a relação com a personagem drag, tanto no nível da própria pessoa quanto no nível da convivência etc. A depender do seu envolvimento na cena, muitas vezes a personagem não fica no palco, ela se acopla à vida, de uma forma muito fluida, o que é muito interessante. Se você observar, isso pode nos dizer coisas interessantes sobre gênero, performance e performatividade, na prática.

Lorde Lazzarus. Que futuro você vislumbra para os drag kings brasileiros? 

Adriana Prates. Já ouvi algumas pessoas dizerem que drag king não tem graça, que não favorece a fechação ou que não tem glamour, mas hoje já temos uma certa quantidade de artistas fazendo drag king e mostrando que esse tipo de performance/show pode ser muito rico e divertido. Há um mundo de possibilidades para explorar. Resta ao público se abrir e prestigiar mais nosso trabalho.

Drag punk: rock, fetiche e a quebra dos padrões

Valkiria Montezuma

Para quem não me conhece, prazer sou Valkiria Montezuma, completarei 3 anos de drag agora em 2024.  Faz pouco mais de um ano que eu de fato encontrei meu estilo, meu mundo, a essência de Valkiria. Neste ensaio, compartilho com vocês meu processo.

Valkiria drag punk grafia drag
Valkiria Montezuma. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Desde que conheci a arte drag, sempre gostei de drags que fogem do padrão, com maquiagens mais extravagantes, drags carecas, de barba, que quebram com a estética “feminina”. Quando comecei a assumir a identidade de drag careca, usei de referência artistas como Ikaro Kadoshi e Sasha Velour (que ainda são minhas inspirações). Comecei a performar um estilo que pouco via em palcos, o rock. A partir disso, iniciei a construção da drag alternativa e punk, que tenho hoje.

Atualmente,  eu digo que encontrei a minha essência, juntei vários elementos para compor minha expressão artística para além dos estereótipos banais. Uso muito de inspiração no horror, em personagens de filmes de terror, na estéticas de bandas de rock, em drags como Danny Cowlt, Mary Sunahine (uma drag babadeira da Grécia), Tristan Soledade, Betina Polaroid e, é claro, no mundo fetichista. É em cima disso que eu crio minhas montações e performances,  me jogando no mundo com um olhar atento para o que está além da norma.

Eu sou do meio fetichista e tive oportunidade de levar a Valkiria para performar dentro da Motel Fetish (festa fetichista de Porto Alegre). Como a temática da festa é sobre BDSM e fetiches, eu levei isso para uma performance, que é a que mais gosto, a primeira que fiz, com uma música do Rammstein que faz alusão a fetiches. Minha performance é cheia de elementos fetichistas, como o streaptease, grampos nos mamilos, um spank e, o auge, derramar cera de vela sobre meu corpo. As pessoas vão à loucura e amam o que eu faço. Continuo frequentando a Motel Fetish e sempre levo algo dentro da temática proposta, buscando fazer o público delirar. De certa forma, isso me abriu portas, pois é a segunda vez que estou indo para São Paulo perfomar em uma festa fetichista grande de lá. Já perfomei na Leather Night, no Dominatrix Bar, e estou indo para performar a Lets Play dentro da Spicy Club.

Valkiria Montezuma drag punk
Valkiria Montezuma. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Acredito que drag é sobre arte, criatividade, sem ter um padrão único, todos são livres para se expressar  e experimentar. Eu amo trazer sempre algo diferente, alternativo, e levar para os palcos o meu mundo particular. Claro que nem sempre é fácil, infelizmente há uma certa resistência das casas a chamar drags nessa estilo e pouco espaço em Porto Alegre para isso. Porém, eu jamais vou perder minha essência para agradar alguém. Tudo o que eu quero mostrar para as pessoas é que a arte drag não tem gênero, não tem certo ou errado, não tem padrão estético. Os padrões estão aí para serem quebrados!

NoiteSuja Santa Ceia: Benditas sejam as Themônias!

Matheus Aguiar¹

NoiteSuja Santa Ceia (2018). Fonte: Vimeo.

NoiteSuja é um coletivo de artistas criado em 2013 em Belém (Pará), pelos artistas Matheus Aguiar (S1mone) e Tristan Soledade. Além dos seus fundadores, colaboram ou já colaboraram com a NoiteSuja também Brigitte Liberté, Diel Bentes, Leonardo Botelho e Tarcisio Gabriel. A partir de um núcleo de produção cultural, o grupo já realizou dezenas de festas, espetáculos de teatro, festivais, performances coletivas e individuais, produções audiovisuais, ocupações de espaços públicos, exposições de arte, ensaios fotográficos, produções acadêmicas e inúmeras experiências artísticas na Amazônia paraense e em todo o Brasil, com e sem incentivos financeiros.

O grupo é formado por pessoas com identidades dissidentes, que tem a arte Drag (ou “a arte da montação”) como ponto de partida para suas manifestações, e nunca descansam de romper com tradições/preconceitos impregnados nesse gênero artístico. Procuram, em suas “festas-manifestos” (festas noturnas temáticas, com apresentações de artistas dissidentes de sexo e gênero) e demais propostas inter-relacionais, sobretudo, coletivizar o fazer Themônia, identidade artística genuinamente amazônica, nascida nas NoiteSujas e que se espalha por todo o mundo.

Quando o Facebook ainda era a rede social mais utilizada no Brasil, cada festa-manifesto tinha seu próprio texto poético (publicado, na época, junto a página de divulgação do evento no perfil do Feici) servindo de Bíblia para que o público pudesse montar o seu visual, e para que os artistas que subiriam no palco no dia do evento desenvolvessem a sua performance, editassem suas faixas de música, costurassem suas roupas ou as colassem com cola quente.

Em 2018, o Coletivo NoiteSuja realizou a “NoiteSuja Santa Ceia”, em uma véspera de Natal, na Boate Malícia (antiga boate gay, localizada no Reduto da prostituição em Belém). A fim de gerar imagens para divulgar a festa-manifesto, o grupo abriu um chamamento entre as artistas Themônias para que um ensaio fotográfico fosse realizado, no mês de outubro. É neste mês que religiosamente acontece, em Belém do Pará, o Círio de Nazaré, maior procissão católica do mundo, quando um mar de corpos se imprensa pelas ruas da cidade guiados pela imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Do chamamento feito pela NoiteSuja, quatorze artistas apareceram para o ensaio fotográfico, que aconteceu no bairro central Batista Campos, ao lado do Cemitério Soledade. Elas vinham de diversas regiões afastadas do centro, como o Conjunto Maguari e Pedreira. São elas: Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais. Na produção estavam Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez e Matheus Aguiar. Na época, o homem trans e Drag Themônia Dom Pine – mantido no centro das imagens – estava grávido de poucos meses. Sua presença prenhe aponta para uma mesa farta de vidas trans e travestis, não-binárias, pessoas racializadas, pessoas amazônicas, que celebram-se em comunhão.

Este ensaio visual, sobretudo, convida os olhares e as consciências a adentrarem por mais esta criação do Coletivo NoiteSuja com a presença das Themônias. Histórico entrosamento NoiteSuja–Themônias que resultou no trabalho artístico “Santa Ceia”. Trata-se de uma série fotográfica e uma videoarte feitas por muitas mãos, carregada em detalhes, cores, tecidos e pessoas. Além de uma fotografia “mãe”, repleta de manipulações digitais – inspirada na pintura de Leonardo da Vinci “A ultima ceia” (1495-1497) – o ensaio fotográfico também gerou um vídeo onde as Themônias repartem e comungam o pão (no caso, uma coxinha). No vídeo, são apresentadas as informações textuais que o público, na época, precisaria seguir para chegar até a festa, o sagrado ritual do encontro. 2018 marcou o ano da morte de Matheusa Passareli e Marielle Franco, a prisão de Lula e o prelúdio de um governo fascista. Este ensaio se constrói a partir das experiências e impressões vividas pelo autor do texto, Matheus Aguiar, integrante da NoiteSuja, e quem trabalhou em todas as etapas do nascimento destas imagens. Poucos dias antes de 2019, esses artistas fizeram a sua ultima ceia.

***

NoiteSuja Santa Ceia

E quando estavam reunidos em celebração, como uma família, repartiram o alimento e a bebida. Então, comeu-se o corpo.
O corpo que padece nas esquinas pela madrugada, farto do apedrejamento e cheio de resistência. Corpo político.
E beberam o sangue, o mesmo que está nas mãos dos que nos apedrejam, nos silenciam, nos tiram o direito de ser.
Sangue sagrado.
Cearam e se fartaram.
Celebraram a vida.

Coletivo NoiteSuja, 2018.
NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série/imagem mãe), Fotografia com manipulação digital, 90 ×58cm, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Lembro de andar pelo centro da cidade de Belém (PA) carregando pesadas sacolas, cheias de maçãs, uvas, pêras e mangas. Recordo de um grande tecido marrom aveludado, encontrado por acaso em uma caçamba de lixo, em frente a uma sinagoga, pela maquiadora e modelo Isabella Pamplona. Talvez tivesse sido usada originalmente em uma parokhet, cortina que ornamenta a Arca desses espaços judaicos de culto e encontro. Era novembro de 2018 quando me encontrei com Diel Bentes (Leid), Danyllo Bemerguy (Rudá Urbana) e Lucas Paixão (Luka Cortez) no Pérola Eventos, espaço de recepções ao lado do Parque Soledade, cemitério centenário onde não mais se enterram mortos. Esses quatro artistas e produtores somaram forças para que imagens santas fossem paridas. O clique da câmera, como comumente acontece nas criações do Coletivo NoiteSuja, não foi feito por um só dedo. Diel cedeu o espaço da família de seu marido e as Themônias, atendendo a um chamamento do Coletivo, o adentraram, trazendo cada uma sua própria Amazônia, seu sotaque, seu coração. Muitas de nós, alcunhadas hoje por Themônias, nos criamos em cidades interioranas do Pará, onde brincamos de pira na rua e nos banhamos nos igarapés até os dedos enrugarem – Cametá, Capitão Poço, Nova Esperança do Piriá, Castanhal, Barcarena… As suas diferentes águas nos cortam e sangramos. Não há problema em sermos diferentes, pois nos sentimos iguais nas diferenças. Ao desaguarmos no mesmo rio, depois de viajar igarapés, forças estranhas nos mantém flutuando juntas, em sagração.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série), Fotografia digital, 4356 × 2904 px, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Acima do tecido marrom, posicionamos os elementos da mesa. Uma pequena estátua em gesso de cigano, comprada em uma casa de umbanda. Uma “S1moninha”, uma boneca da S1mone de cabelos vermelhos e barba, o meu eu Themônia. Um Maneki-neko (ou gato das boas-vindas) japonês, dourado, com seu incansável movimento de unhar. Um pilão de madeira e cestas de cipó. Taças, velas e plantas. E a catuaba, ela mesma! Uma birita de vinho e fermentado de maçã e catuaba, onipresente nos encontros do Coletivo, entre as que bebericam. Bebida canônica. Pergunto a Danyllo, Themônia que trabalhou no projeto, qual a lembrança mais chamuscada daquele dia. Rudá (seu nome Drag) responde que a grande novidade “foi juntar todo aquele rolê Drag num rolê que não era festa”. Na NoiteSuja, também chamamos esses eventos de festas-manifesto. “Era uma produção fotográfica. Bem diferente do que rolava. E a Flores Astrais comendo olhos foi tudo pra mim”. Um dos elementos presentes na “Santa Ceia” são os olhos enervados, que boiam sobre o sangue nas taças.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px, Full HD, Belém (PA), 2018. Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

A maioria das coloridas roupas, panos e santos sudários foram levados por Gigi Híbrida, Themônia carnavalesca do bairro da Pedreira. Os adereços de cabeça são de Leonardo Botelho. Produtor da NoiteSuja e figurinista, Botelho ajudou a iluminar feito auréolas os picumãs (“perucas”, no pajubá) das artistas. Correria. Abre mala. Maquia. Ajeita o que errou. Themoniza mais. Decide que o erro é acerto. Espera alguém que se atrasou. Cola com “cola Themônia”² os cílios de papel. “Tu diz que gruda?”, Shayra brinca. Começo o ensaio pedindo que ainda não se comam as frutas da mesa, com o desejo de guardá-las para uma cena de comilança.

Mas ah! Benditas sejam as Themônias! Mordiscaram a cena! O fruto proibido sempre nos foi tentador. Alice, na história Alice no País das Maravilhas (1951), também não obedeceu e avançou nas guloseimas da mesa farta. E não apenas comidas, mas também cogumelos alucinógenos. Cliques de câmera. Posicionamos as quatorze modelos na grande mesa. Clique, clique. Mudávamos as posições. Alguém ia no banheiro. Muita conversa durante a “Santa Ceia”. Será que foi essa algazarra toda com Jesus? “Gente, silêncio!”, pedimos algumas vezes. Conversar muito (hablar, hierogritar) é o que fazem Themônias quando se reúnem. “É um kikiki, kákáká”. Quase ao final do ensaio, filmamos o material que seria a videoarte, usado na divulgação do evento “NoiteSuja Santa Ceia” na rede social Facebook. Na foto, Shayra Brotero segura um beck (cigarro de cannabis). No vídeo, Perséfone de Milo acende – babilônico fogo – o bong. Flores Astrais traga. Bateu a liga! O homem grávido no centro da imagem tem chifres. Exibe a prenhe barriga defronte a suculenta mesa. Consagra e reparte seu pão (coxinha). Entre as Themônias, se reza o provérbio: seu filho crescerá abençoado. Tristan Soledade me contou: “Quando foi que a gente fez um ensaio fotográfico, sabe? Quando que a gente sentiu essa importância de artista? Quando isso aconteceu? Com um mínimo investimento que fosse. O espírito era de ‘vamos aproveitar, porque a gente não tem isso sempre! Esse conforto pra se montar!”.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920, px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

 

2018 foi um ano extremamente difícil para pessoas sexo-dissidentes no Brasil. Os assassinatos de Matheusa Passareli e Marielle Franco esquartejaram, alvejaram e queimaram nossas almas. Também nesse ano, Lula foi preso injustamente, enquanto um governo pautado na necropolítica se aproximava, consentido por 49 milhões de brasileiros que apertaram “17” (espadas contra nosso peito) e “confirma” em urnas eletrônicas. Cada um deve contar sua própria versão e aversão deste 2018 pré coronavirus. As quatorze artistas que fizeram das tripas coração para a construção dessa imagem (Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais) podem contar dos Brasís que só elas sentiram. Brasil em brasa. Como também os produtores que trabalharam na coxia desse ensaio fotográfico (Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez, e eu, que escrevo essas linhas). “A gente tava feliz com a importância daquele momento, nós que estávamos em cena ali”, me contou Tristan Soledade em uma conversa através de áudios de WhatsApp. “Sabíamos que o cansaço que a gente tava sentindo seria por algo maior. É um cansaço que não tava nem perto do que estaria por vir nos próximos anos”.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Não foi fácil realizar essas imagens num contexto tão frágil. Lembro do dia 28 de outubro de 2018, um mês antes do ensaio acontecer. Na noite daquele domingo, sentei em uma roda de manas, em sua maioria pessoas trans e travestis. Sob uma luz fraquinha, lembro das suas feições. Dos nossos medos compartilhados, e do sentimento de que anos trevosos se aproximavam. Pouco antes, a cantora Pabllo Vittar havia lançado seu álbum “Não Para Não”, que escutávamos piamente. Lembro dos versos daquelas canções, gritados por uma amiga trans. E do silêncio da nossa roda. De repente, alguém começou a chorar copiosamente. Choro de morte, de velório. Nos abraçamos. Dali um mês, duas pessoas presentes naquela roda fúnebre participaram das imagens da “Santa Ceia”. Ensaio não. Ritual.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Diel, na época um ativo produtor do Coletivo, foi quem iniciou a edição da imagem, logo após o fim dos trabalhos no Pérola Eventos. Digitalmente, removeu o fundo, aplicou o céu celestial e a textura de pergaminho nas bordas. Em seguida me enviou os arquivos, e dei continuidade ao trabalho de tipografia. Com pincéis, tinta e caneta nanquim, desenhei a próprio punho o título “Santa Ceia” e as informações para a festa. Escaneei e tratei em programas de edição.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (cartaz), Fotografia com manipulação digital, 29,7 x 42 cm, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

Na época, eu estava sem internet em casa. Viviam roubando os cabeamentos dos postes, ou porque não conseguimos pagar naquele mês, não me lembro ao certo. Escolhi músicas que já estavam no meu computador para compor a trilha sonora do vídeo “Santa Ceia”. Decidi por uma música de Alice Coltrane, compositora norte-americana, que ouço quando desejo entrar em estados de transe e foco, geralmente para produzir. E o vídeo finaliza com uma versão acelerada de Tom Zé, esse nordestino que dá vários nós no nosso raciocínio. Gosto de começar pela música, e com ela evoco as imagens, os cortes, as sobreposições. Artista faz mágica. Na época, uma amiga havia me emprestado o DVD do filme “O Livro de Cabeceira” (1996), que assisti no meio de todo esse processo e que mexeu comigo.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

As imagens ficaram prontas e a divulgação começou no Facebook e Instagram: “Convocamos as bruxas, bichas, drag kings, criaturas da mata, alienígenas e toda Belém pra nossa ‘Santa Ceia’ deste sábado (22/12), na Boate Malicia. Uma noite de trocas e partilhas, drag shows, discotecagem e muita grelhação até de manhã. Vem mana!”.

REFERÊNCIAS

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia. Belém, 7 dez. 2018. Facebook: noitesuja. Disponível em: https://www.facebook.com/events/127755988117075/. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia (2018). Vimeo, 11 out. 2019. Disponível em: https://vimeo.com/365870073. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOTAS

¹ Graduando em Licenciatura em Artes Visuais no Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI. Em 2024, integrou o Grupo de Estudos Memórias das Artes Visuais: Arte e Política do Prof. John Fletcher (FAV/PPGPATRI/UFPA). É artista visual, autor, quadrinhista e produtor cultural. Membro-fundador do Coletivo NoiteSuja (2013). E-mail: matheusaguiarrrrr@gmail.com.

² “Cola Themônia” é um nome alternativo para a cola permanente, originalmente utilizada para trabalhos artísticos sobre madeira, papelão, acrílico e outras superfícies. Em Belém (PA), seja pela força da precariedade ou pela alta aderência a pele, o produto foi amplamente utilizado na maquiagem, para dependurar cílios, pedrinhas brilhantes e outros acessórios no rosto e em todo o corpo. É, até hoje, item indispensável no estojo de maquiagem de muitos artistas que já passaram pelos palcos da NoiteSuja. Durante os eventos do coletivo, não raro ouvimos uma artista perguntar para a outra: “Ei mana, tu tem cola Themônia pra emprestar?”.

Grafia Drag, 3º ano: a herança das montações

Profª Luná Maldita (Douglas Ostruca)

São três anos desde a inauguração do Grafia Drag como projeto de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De lá para cá, tornamo-nos um coletivo composto por pessoas de diferentes regiões do Brasil, um grupo atuante na produção escritural de ensaios e entrevistas em conexão com as cenas drag e transformistas. Além de publicar 68 textos, já realizamos três rodas de conversa sobre a arte da montação, incentivando a troca de saberes entre artistas de diferentes gerações.

Neste ano, nosso núcleo de produções foi integrado por: Anubis Blackwood, Bruno Arthur Voss Bernardy, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lady Lazzarus, Marcos Moraes, Mia The Witch, Persephone Ephemera Pepper , Pietro Lamarca, Professora Luná Maldita eTiffany Plazza. Também tivemos contribuições de Dara Deon, Giselle, Christy Moon e Miss Dangerr.

Ao longo dos últimos 12 meses, foram 20 textos, dos quais 15 são ensaios e 5, entrevistas. Também realizamos, em parceria com o espaço Zona Cultural, a primeira exibição pública do registro do espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (1991), dirigido por Zé Adão Barbosa e Mário Maya, seguida por uma roda de conversa com Gloria Crystal, Everton Barreto e Lauro Ramalho.

Dandara Rangel Grafia Drag
Dandara Rangel no espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (Dir. Zé Adão Barbosa e Mario Maya A1991).
Recuperação de imagem com IA: Guilherme Bressan.

Entre as linhas escriturais dos textos publicados entre outubro de 2023 e outubro de 2024, além de seguirmos partilhando os trajetos e as trajetórias dos processos de montação, seguimos comprometidos com a abordagem das gongações críticas e com a consolidação coletiva das memórias da montação. Ademais, localizamos uma nova vertente com textos conectados às pesquisas acadêmicas, dando a ver traços de composição do que se mostra uma ciência drag. A seguir, desdobramos cada um desses tópicos.

Gongação crítica: “a biblioteca está aberta”

Uma das vertentes de escrita que continua presente é aquela que promove problematizações sobre as desigualdades e preconceitos reproduzidos nas próprias cenas drag e transformistas. Nomeamos essa perspectiva de gongação crítica, a qual torna evidentes aspectos que precisam ser transformados para que nossos territórios se tornem mais acolhedores e abertos às expressões artísticas heterogêneas. Por essa via, Lady Lazzarus analisa a primeira edição do reality show Drag Race Brasil, considerando que, embora seja importante para fomentar a cena local, o programa acaba por valorizar as estéticas de montação que tendem a se aproximar dos moldes norte-americanos. Já Lorde Lazzarus discute os desafios enfrentados pelos drag kings na cena drag, ressaltando que a reprodução do machismo nesses territórios é responsável pelo apagamento de tais montações.

Em seus escritos, Anubis Blackwood chama a atenção para a ascensão dos movimentos conservadores que tomam como alvo a censura da arte drag, partilhando a luta travada em sua própria cidade. Também tratando da cena local, Giselle aborda os desafios de se inserir na cena drag de Porto Alegre, afirmando a necessidade de mais espaço e oportunidades para novas artistas. Outro texto que apresenta um olhar crítico contundente é o de Miss Dangerr, que problematiza o consumismo exacerbado tão recorrente nos processos de montação drag. Em alternativa, a artista propõe práticas de reutilização de figurinos, destacando a necessidade de se quebrar com o decoro burguês que sugere não repetir looks.

Uma ciência drag: entre os palcos e a academia

Seguindo os passos da transformista Laura de Vison e da drag queen Rita Von Hunty, as drag professoras e pesquisadoras passam a ocupar cada vez mais espaço nas universidades. Com isso, os saberes drag e transformistas passam a ser produzidos pelas próprias artistas, que deixam de ser mero objeto de pesquisa para tornarem-se vozes ativas, levando para os espaços acadêmicos as potências da gongação crítica. Nesse grupo de textos voltados para o desdobramento de pesquisas, Kam Middle Space reflete sobre como a arte drag funciona como ferramenta de autoconhecimento e expressão corporal

Já Persephone Ephemera Pepper investiga o uso de terminologias de gênero na arte drag, buscando uma desconstrução crítica. Em outro texto, a artista trabalha o que chama de “pedagogias drag”, descrevendo suas oficinas e enfatizando a formação de novas artistas. Bruno Arthur Voss Bernardy retoma seu trabalho de conclusão de curso, em que estuda a trajetória da drag queen Cassandra Calabouço. Em sua contribuição, Douglas Ostruca apresenta o primeiro capítulo de sua tese, a qual investiga a cena transformista de Porto Alegre a partir de uma perspectiva micropolítica das montações.

Trajetos e Trajetórias: os processos de montação 

Os textos que abordam questões sobre os processos de montação são recorrentes no Grafia Drag desde as primeiras publicações. Nessa linha, Christy Moon relata sua jornada na arte drag, destacando a evolução de sua persona e a inspiração que encontra nas fases da lua. Mia The Witch compartilha suas referências para a construção de sua expressão drag, destacando a influência de ícones do punk e do glam rock.

Tiffany Plazza fala de suas inspirações no grotesco para compor-se como uma drag monstra. Em seu ensaio, Dara Deon descreve a criação de sua peça “Eu, Chromática”, a qual apresenta seu início com a montação drag, incluindo as referências musicais e estéticas. Ainda nesse conjunto de textos, Juana Profunda discute a implementação do Registro Profissional (DRT) para artistas drag em Curitiba, sublinhando que esse movimento é um marco na valorização e regulamentação da profissão.

 Entrevistas: a herança das montações

Neste terceiro ciclo do Grafia Drag, houve aumento do número de entrevistas, as quais se mostram relevantes na partilha das trajetórias e experiências de artistas que compõem as cenas drag e transformistas. Essa é uma forma de recompor memórias, criando uma teia de narrativas que funciona como herança coletiva dos saberes da montação que são vivenciados nos corpos.

Entre as entrevistadas esteve Ikaro Kadoshi, que, em conversa com Pietro Lamarca, menciona os desafios e as oportunidades no mercado drag contemporâneo. Já nas respostas de Brigitte Liberté para Lady Lazzarus, a drag themônia de Belém do Pará fala de seu projeto artivista de vertente feminista, ressaltando a luta das mulheres por mais espaço na arte drag. Além disso, Liberté tensiona as cenas drag do Sul e Sudeste por reproduzirem em demasia os modelos norte-americanos.

A professora Maldita também trouxe a público duas entrevistas com artistas da cena drag e transformista gaúcha. A primeira foi com Cassandra Calabouço, na qual a artista trata de sua trajetória artística, considerando as transformações em sua trajetória pessoal a partir do encontro com a arte da montação. A segunda foi com Everton Barreto, que, além de contar como Lady Cibele aconteceu em sua vida, também ressalta a importância de se valorizar a história de artistas que vieram antes.

Por fim, incluímos no conjunto de textos publicados uma tradução da entrevista dada pelo coletivo Grafia Drag para a revista americana Canvas, onde abordamos a importância da coletividade na construção de conhecimento sobre a arte drag.

Um brinde aos porvires

Pelo trajeto realizado coletivamente até aqui, percebemos que se mantêm as propostas de pensar criticamente os contextos em que estamos inserides. A partir de nossas vivências, complexificamos as compreensões sobre o fenômeno drag e transformista. Evidenciamos que, mesmo em territórios majoritariamente compostos por grupos minoritários, ocorrem reproduções de relações de poder, as quais precisam ser tensionadas e transformadas. Além disso, com as partilhas sobre os processos de montação e as entrevistas, jogamos luz sobre as trajetórias artísticas e memórias provindas das experiências drag e transformistas.

Uma das novidades deste último ano é a consolidação de textos que apresentam conexão direta com pesquisas acadêmicas desenvolvidas nas universidades. Essa vertente demonstra a ocupação dos espaços de produção de conhecimento por saberes subalternos que carregam a potência de tensionar os regimes de verdade que imperam no meio acadêmico.

Para o futuro, além de seguir investindo nos olhares críticos e propositivos, desejamos dar continuidade à realização de rodas de conversa públicas, trazendo para o debate artistas de diferentes gerações. Gostaríamos também de estabelecer mais parcerias com drags e transformistas das regiões Norte e Nordeste, buscando pistas e inspirações para decolonizar as montações no Sul. Encerramos com um brinde à herança de nossas ancestrais e com a aposta em uma perspectiva abrangente sobre a arte da montação, aberta às expressões heterogêneas e às possibilidades de montação ainda desconhecidas que habitam o porvir.

Entrevista Brigitte Liberté

Por Lady Lazzarus

Brigitte Liberté compõe a cena drag de Belém do Pará, onde integra o coletivo NoiteSuja e coloca em prática o projeto Manas (En)Cena. No dia 03 de setembro, Lady Lazzarus entrevista a artista via e-mail. Entre os temas abordados estão as referências no processo de montação, o artivismo feminista através de laboratórios drag para mulheres e as lutas pelo protagonismo de mulheres na arte drag.

Brigitte Liberté Grafia Drag
Brigitte Liberté. Foto: Ana Paula Gomes.

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Lady Lazzarus. Como nasceu Brigitte Liberté? Há quanto tempo você se monta e quais foram as suas fontes de inspiração para a criação da sua persona drag queen? 

Brigitte Liberté. Em 2016, tive meus primeiros contatos com a arte drag por vivenciar muito intensamente o processo de inserção na arte drag de uma grande amiga minha da faculdade, Ti Yara, mulher trans, artista da dança, cuja drag se chamava Aracna Swan (este processo se deu antes de sua transição de gênero). Passei admirar e me identificar com o exagero nas formas, nas maquiagens, as roupas extravagantes e principalmente, com as performances. Já sendo artista da dança, das artes cênicas, a questão performática das drags era o que mais me encantava, me imaginava, tal qual esta minha amiga, fazendo performances cheias de textões de teor político e dança. Apesar da identificação e interesse que começava a se instaurar, a falta de protagonismo feminino na arte da montação (especialmente de mulheres cis), me inibia de iniciar meu próprio processo, desta forma, enterrei a vontade de me montar, por mais um tempo. 

Em 2018, assisti pela primeira vez uma performance de Skyssimme, grande artista transmasculino da cena drag Amazônida. Na época, antes de sua transição de gênero, trazia à cena performances que abordavam questões referentes a vivências femininas na sociedade, violências, medos, lutas, etc. Conhecer seu trabalho, foi um divisor de águas na minha vida, pois eu entendi que era exatamente aquilo que eu queria. 

Daí para frente, comecei a pesquisar mais sobre mulheres no cenário drag, entender preconceitos e tabus que deveriam ser quebrados e principalmente, a importância da ocupação destes espaços, por mulheridades. Skyssimme me ajudou muito no início deste processo, me deu apoio e me influenciou a iniciar minha jornada como drag.

No dia 9 de julho de 2019, fiz a primeira edição do meu projeto artístico feminista Manas (En)Cena, que nasceu com o objetivo dar visibilidade e protagonismo para mulheres artistas da Amazônia. A primeira edição, tratou-se de um espetáculo em um teatro da Universidade Federal do Pará, que levou à cena apresentações de artistas mulheres de diversas áreas (teatro, dança, música, circo, drag), e neste dia, também tive meu debut, me montei e performei pela primeira vez, como drag Brigitte Liberté.

Minhas referências sempre foram as drags daqui da Amazônia paraense, a nossa regionalidade, territorialidade, as drags que usam textos e dança em suas performances. Sempre fui uma drag da música popular brasileira, músicas paraenses, dificilmente performo músicas estrangeiras, pois sinto que a minha maior potência permanece no que sai daqui de dentro, não no que vem de fora.

Lady Lazzarus. Sabemos que você é uma grande ativista e militante pelo espaço das mulheres dentro da arte transformista/drag. O que mais lhe move nessa luta? 

Brigitte Liberté. Costumo dizer que minha trajetória é movida por gritos decoloniais, principalmente de mulheres. Sem dúvida, o que sustenta o meu trabalho é o ativismo feminista e LGBTQIA+, a vontade de fazer com que a minha arte, transforme cada vez mais a sociedade em um mundo mais digno para corpos dissidentes viverem. Ao adentrar o cenário da arte drag e entender as questões de machismo e misoginia que refutam corpos com buceta destes espaços, me deparei aí, com mais uma grande luta que eu precisaria abraçar, a luta pelo direito de mulheres de se reconhecerem e se fazerem presentes e ativas nestes ambientes.

Lady Lazzarus. Tem um vídeo seu que gosto bastante, e que inclusive me contempla muito enquanto visão de uma expressão muito comum no Brasil. O vídeo se intitula “E homem que se veste de mulher?”. Você poderia explicar para as pessoas que nos leem qual a diferença entre DRAG e “HOMEM VESTIDO DE MULHER”?

Brigitte Liberté. Sempre parto do princípio de que drag é sobre montação, experimentação pessoal, exploração de possibilidades estéticas, induzidas por motivações pessoais, por vontades de se descobrir de outras formas, de quebrar barreiras impostas pela sociedade e chegar a um estágio de realização pessoal, e isso, não tem nada a ver com gênero. Homem que se veste de mulher no intuito de fazer imitações e chacotas, como ocorre constantemente no carnaval, não passa de uma pessoa se utilizando de seus privilégios sociais, para ridicularizar grupos sociais minoritários e sendo massa de manobra para mais violência com estes grupos, especialmente mulheres trans e travestis, que permanecem sendo vistas como passíveis de humilhação, desprezo e que servem para fazer as pessoas rirem. 

Lady Lazzarus.  Você tem um projeto incrível na Amazônia, que é o MANAS (EN)CENA. Poderia falar um pouco mais sobre este projeto para nós e para as pessoas leitoras do GRAFIA? 

Brigitte Liberté. O Manas (En)Cena é um projeto artístico-cultural que tem como objetivo dar visibilidade à cena artística feminina, no estado do Pará. Teve sua primeira edição em julho de 2019, no Teatro Universitário Cláudio Barradas, em um espetáculo que reuniu trabalhos artísticos de várias mulheres de diversas áreas das artes, em uma noite cheia de artivismo feminista. Sua segunda edição, ocorreu em agosto de 2020, em formato de um show online com transmissão ao vivo de trabalhos em vídeo de várias artistas paraenses, a maioria deles, produzidos durante o isolamento social e com arrecadação solidária para o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará. A terceira edição do Manas (En)Cena, intitulada Joga na Roda, foi um festival premiado pela lei Aldir Blanc Pará, ocorrido nos dias 06 e 07 de março de 2021, com transmissão ao vivo pelo YouTube, que além de exibição de videoperformaces de artistas mulheres paraenses, também contou com rodas de conversas sobre importantes temáticas que tangenciam o universo feminino. Premiado pelo edital FCP de Incentivo à Arte e Cultura, o Manas (En)Cena teve sua quarta edição, em novembro de 2022, em formato de show musical e performático, ocorrido no Espaço Cultural Apoena. E finalmente, o Manas (En)Cena alcançou sua quinta edição com o Laboratório Drag para Mulheres, com patrocínio da emenda parlamentar da deputada federal Vivi Reis, contou com cinco encontros, voltados exclusivamente para mulheres,  compostos por oficinas e vivências em áreas que tangenciam o universo da arte drag, sendo estas, história da montação, maquiagem e performance, sempre mediadas por discussões referentes a padronizações estéticas e comportamentais de corpos feminino na sociedade, tendo como conclusão, um espetáculo, que levou à cena, um pouco do trabalho que foi desenvolvido durante o laboratório, estrelando performances artísticas das mulheres participantes e apresentando a nova geração de mulheres drags da Amazônia. 

Lady Lazzarus. Para onde mais você gostaria que o MANAS (EN)CENA fosse? Onde mais você acha que é necessária essa desconstrução do que é a arte da montação? 

Brigitte Liberté. Ainda estou decidindo quais serão os formatos das próximas edições do Manas (En)Cena, sempre gosto de variar o conteúdo anual do projeto, afim de abranger cada vez mais linguagem artísticas e trazer novidades, também. Agora, falando especificamente sobre o Laboratório Drag para Mulheres, pretendo que este projeto tenha ainda muitos desdobramentos, acredito que a desconstrução da ideia estereotipada de que drag é um homem que se veste de mulher e toda carga machista, misógina, transfóbica, que vem junto, é necessária por todos os cantos do Brasil e do mundo, portanto, tenho buscado novas articulações para fazer uma nova edição do laboratório, aqui no Pará novamente, e para circular com ele, em outros estados do Brasil. Acredito na necessidade maior de discussões como estas serem levadas para estados do Sul e Sudeste, onde a cultura drag ainda bebe muito das referências norteamericanizadas que propagam competitividade nociva, machismo, misoginia, etc. 

Lady Lazzarus. Você já sofreu algum preconceito por ser uma mulher cis atuando como drag queen? O seu projeto MANAS (EN)CENA já sofreu algum tipo de preconceito em algum momento (ao longo das edições que você já fez)? 

Brigitte Liberté. Preconceitos, situações desconfortáveis, medos e inseguranças, são basicamente acessórios a mais, que mulheres drags são obrigadas a carregar. Mãos bobas pelo corpo, pessoas perguntando se sou “mulher de verdade”, pessoas tentando diminuir meu fazer, dizendo que é mais fácil ou até mesmo, nem me considerando drag, são algumas das situações às quais já fui submetida. Até onde eu sei, nunca fui atacada diretamente pelo meu projeto, até porque o Manas (En)Cena sempre esteve bastante protegido pela minha bolha de relações, que fortalecem o rolê.

Lady Lazzarus. A comunidade LGBT também pode ser uma grande opressora das mulheres artistas. Na sua visão, experiência e vivência, por que isso acontece?

Brigitte Liberté. Muitos homens gays ainda sustentam e fortalecem a ideia de que são o centro da comunidade LGBTQIA+ e desta forma seguem propagando machismo e misoginia. É sempre importante lembrar que homens gays não deixam de ser homens, portanto não estão isentos de surfar nos privilégios masculinos e falocêntricos e se somar na opressão de mulheres e outros corpos sexo-dissidentes minoritários, o que enfraquece sobremaneira a ideia de comunidade.

Lady Lazzarus. Você é uma artista da dança que recentemente defendeu sua dissertação de mestrado. Como foi essa experiência para você enquanto mulher, artista e pessoa LGBT? A Academia é mais ou menos receptiva às contribuições de pessoas como você?

Brigitte Liberté. Infelizmente não pude vivenciar o ambiente acadêmico do mestrado como gostaria, por conta da pandemia, fiz o curso todo de forma virtual e sem muita interação e troca com a turma, por conta de toda frustração que carreguei de não ter sido como eu gostaria. Mas do que pude vivenciar, por ser um curso de artes, um Mestrado em Dança, onde a maioria das pessoas são LGBTQIA+, já se torna um ambiente mais tranquilo e agradável de estar, nunca sofri algum tipo de violência de gênero, por exemplo. Minhas questões com a academia, são mais sobre academicismo latente, embates metodológicos, linguagem acessível, que são minhas maiores lutas neste espaço, pois para mim não faz sentido produzir algo que não seja sobre e para as minhas, que parta das minhas semelhantes, do meu movimento cotidiano, das pessoas que constroem política e cultura junto comigo. Descontruir a academia como esse lugar de distanciamento e hierarquia, é uma árdua tarefa, mas de uma maneira geral, consegui dar minhas contribuições sobre isso, na minha dissertação, sem embates tão grandes.

Lady Lazzarus. Quais conselhos você dá para as mulheres que estão iniciando na arte da montação? Você acha que teremos alguma mulher ou pessoa AFAB numa próxima temporada do DRAG RACE BRASIL, por exemplo? 

Brigitte Liberté. Sempre digo que é necessário entender que não é um lugar fácil para nossos corpos adentrarem, que vários obstáculos de colocam no caminho e nos empurram para trás. Entretanto, saliento que é uma das experimentações mais bonitas que corpos como os nossos, que durante a vida inteira, foram colocados em caixas normativas de padronizações estética, podem experimentar. Então digo que se deve começar, sentir vontade e buscar artifícios para dar o pontapé inicial, que ele vai nos levar aos próximos passos. Importante também é buscar rede de apoio, descobrir próximo a você pessoas que podem te abraçar, te acolher e realmente te impulsionar nessa trajetória. Ter apoio e incentivo, principalmente se for de outras mulheres, é uma das coisas mais valiosas que se pode conseguir. É sobre saber que o caminho pode sim ser bastante tortuoso e sempre buscar se proteger, mas lembrar que o lado bom dessa trajetória, todas as possibilidades, realizações, o autoconhecimento e autoestima oriundos dali, podem ser muito mais fortes e superiores a qualquer desavença do caminho e nos tornar mais fortes ainda. Eu sempre digo que a gente tem medo, mas maior do que o nosso medo é o medo deles, de que a gente não tenha mais medo.

Lady Lazzarus. Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço. 

Brigitte Liberté. Gostaria de agradecer este espaço, fico muito feliz com a identificação e interesse com o meu trabalho e também quero parabenizar por este trabalho tão necessário que o Grafia Drag vem fazendo, buscando abrir diálogos urgentes sobre gênero, montação e afins.

Aproveito para indicar que se pesquise e conheça mais sobre o cenário da arte drag aqui da Amazônia, que ainda é tão desvalorizado em perspectiva nacional, mas que tem construído ao longo dos anos, um movimento potente de montação, a partir do trabalho do Coletivo NoiteSuja que deu origem ao movimento das Themônias, onde buscamos descontruir com padrões estereotipados e normativos do fazer drag, colocando em evidência nossos aspectos de regionalidade, identidade, norteados sempre pelas nossas relações de afeto.

O DRT DRAG

Juana Profunda, em colaboração com o SATED PR

Juana DRT DRAG GRAFIA
Juana Profunda. Fonte: Acervo pessoal da artista.


Muitas vezes considerada linha de frente dos movimentos LGBTQIA+, a arte drag ou transformismo se desenvolveu na informalidade e às margens do erudito, criando sua própria narrativa e contextos possíveis.

Partindo do entendimento de que essas artistas são trabalhadoras cênicas, dos segmentos teatro e dança, abre-se um novo capítulo na luta pela garantia de direitos do setor.

O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do estado do Paraná (SATED PR) foi o primeiro sindicato do Brasil a, em julho de 2024, incluir as artistas drag na lista de profissionais habilitados para solicitar o seu registro profissional. 

UM PANORAMA HISTÓRICO SOBRE A REGULAMENTAÇÃO PROFISSIONAL DAS ARTISTAS

A primeira tentativa para regulamentar a profissão de artista foi em 1928. Dezenas de projetos, tanto do Poder Legislativo, quanto de iniciativas da classe artística, transformaram-se em anais de uma categoria profissional marginalizada jurídica e socialmente.

O Decreto Legislativo 5492 de 1928, dispõe sobre a organização das empresas e locação de serviços teatrais. Foi a primeira tentativa de disciplinar a matéria. O Decreto definia os que podiam se considerar artistas e auxiliares de empresas teatrais. Tratava da forma e da celebração dos contratos, além de regular o registro e a cobrança dos direitos autorais.

No dia 19 de agosto de 1939, liderado por Procópio Ferreira, um grupo de artistas com tochas em punho foi até o Palácio do Catete exigindo do Presidente Vargas maiores facilidades para as excursões das companhias teatrais. Este movimento ficou conhecido como a “Marcha Flambeau”, a qual deu origem ao dia nacional do Artista de Teatro.

Em 1943 o Decreto 5452 aprova a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), na qual diversos artigos são dirigidos aos artistas, garantindo o direito à carteira profissional.

Já no ano de 1947, a Lei 101 subordina ao então Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio o registro dos contratos dos trabalhadores em teatro, cinema, rádio, circo, ou casas de espetáculos e também prevê um contrato de trabalho com prazo mínimo de 120 dias.

Em novembro de 1977, um novo documento elaborado pelo Ministério do Trabalho foi submetido à Comissão Executiva Nacional pela Regulamentação. O Presidente Geisel enviou ao Congresso o Projeto de Lei dispondo sobre a regulamentação da categoria. O Projeto de Lei é aprovado pelo Congresso Nacional e recebe a sanção presidencial. Assim, entra em vigor a Lei 6533 de 24 de maio de 1978, que regulamentou a profissão de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões. 

Diante disso, Grande Otelo afirma:

Eu não era. Vocês não eram. Nós não éramos. E hoje finalmente, aqui neste planalto, há poucos instantes, nós começamos a ser, nós começamos a existir. Fazemos parte agora dessa imensa e maravilhosa comunidade brasileira, na qualidade de cidadãos.

Juana Profunda DRT DRAG GRAFIA
Juana Profunda. Fonte: Acervo pessoal.

O DRT DRAG

O Registro Profissional para Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões é regularizado pela Lei 6.533/78, popularmente conhecido pelo seu apelido “DRT”. Cada registro profissional é válido em todo o território nacional, definitivo e vitalício, não precisa ser renovado.

Este é o documento que comprova e legitima a regularidade e atuação formal na área. Pode ser exigido em processos seletivos de diversos editais, contratações via SESC, bem como para produções de televisão, cinema e publicidade, no Brasil e em outros países.

É um símbolo da existência das artistas enquanto trabalhadoras e, nesse sentido, tornou-se ao longo do tempo uma ferramenta simbólica e política de resistência e luta contra o apagamento e invisibilidade de artistas e técnicos que vivem profissionalmente de seu ofício, em especial no caso de segmentos ainda mais marginalizados.

A sindicalização também reforça a luta coletiva por melhores condições de trabalho e por pisos e tabelas de referência para pagamentos. 

A banca específica para a arte drag também é um primeiro passo para que estas profissionais passem a ocupar um espaço mais efetivo no dia a dia do sindicato, de modo que suas pautas tenham acompanhamento jurídico e força institucional da entidade nos momentos de luta por políticas públicas mais amplas e mais diversas.

Além de facilitar o acesso desta categoria aos equipamentos culturais, a formalização do DRT para artistas drag oferece maior possibilidade de diálogo e acesso a instituições públicas e privadas. Com isso, as artes da noite mostram-se em sua proximidade com as artes cênicas, popularizando a arte drag e conferindo-lhe a mesma atenção e legitimidade que as formas mais clássicas de representação cênica.

O DRT drag é opcional e não será obrigatório. As artistas podem continuar trabalhando normalmente sem o registro. O que se busca é contribuir na preparação de novas profissionais para os desafios e particularidades deste ofício, trazendo noções de autoprodução e empreendedorismo para as que almejam seguir carreira.

A artista drag está oficialmente habilitada para exercer diversas funções, como por exemplo: diretora, produtora, atriz, figurante, coreógrafa, bailarina, professora, modelo, figurinista, costureira, visagista, maquiadora, peruqueira.

As possibilidades de desdobramento dessa arte são muitas e o DRT DRAG é uma forma de reconhecer a legitimidade desse trabalho e, também, de organizar a luta por direitos trabalhistas e defender remunerações justas.

Cassandra, do Calabouço ao São Pedro

Julho, 2024.

Bruno Arthur Voss Bernardy

Cassandra Grafia Drag
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.

Cassandra Calabouço é uma das drag queens de Porto Alegre que a mais tempo se monta, desde 1998. Como a própria já contou, antes mesmo de conhecer a arte transformista, ela participou de um grupo de teatro, durante a faculdade, no início da década de 1990, o que a permitiu ser introduzida nas sociabilidades LGBTQIA+. Assim, junto também da dança, o teatro foi fundamental na sua condução para experimentar a arte da montação.

Essa experiência de Cassandra não é singular. Ruby Mascarenhas Neto, em sua dissertação sobre uma etnografia com drag queens de Campinas-SP, salienta que as artistas trazem “a referência a uma formação prévia em teatro ou dança” para “dar um aspecto mais profissional” às suas montações (2018, p. 55). A própria origem de um “travestimento cênico” remonta do teatro da Grécia Antiga e demais experiências como o teatro shakespeariano e o Kabuki, teatro japonês do século XVII. Sem aprofundar muito na historicidade desta expressão artística, o importante é ter em mente que, ao menos desde o século XIX, podemos entender que ela seja oriunda de uma comunidade que hoje podemos chamar de queer.

Assim, teatro e arte drag e transformista nunca estiveram muito distantes, por mais que os ambientes teatrais mais sofisticados, como o Theatro São Pedro, o mais antigo da capital gaúcha, tenha um histórico de ser um espaço de maior abertura para expressões alinhadas à cis-hetero-norma branca e dogmas europeus. Felizmente esse cenário está mudando ao longo das últimas décadas, ao mesmo tempo que é válido reconhecer que isso seja algo de fora para dentro, visto as pautas e demandas por inclusão que a sociedade, de certa forma, vem exigindo e se posicionando com a tal da diversidade. Contudo, como aponta Jan Koch (2020), a arte transformista já estava bastante presente em Porto Alegre desde o final do século XIX e foi muito consumida pela população local.

O ano de 1901 marca a localização do registro mais antigo de uma apresentação transformista no São Pedro. Em suas pesquisas sobre esta arte, Koch (2020) encontrou uma notícia-divulgação sobre a Companhia Arcos, que fez shows na capital gaúcha em meados de junho daquele ano. Faziam parte o “barytono Arcos e o afamado transformista Arcos Filho”, que faziam “representação de pequenas zarzuelas”, sendo “o” transformista “sempre aplaudido, pela nitidez e graça com que executa” os seus trabalhos (A Federação, 21/06/1901, p. 2). Apesar de palavras não tão contemporâneas, nos basta saber que os artistas faziam performances teatrais de gênero musical e dramático.

Outra transformista bastante popular na cidade foi Darwin, que realizou inúmeros shows, em diversos espaços, ao longo da primeira metade do século XX. Seus shows exibiam uma variedade de habilidades artísticas, como canto, encenação e, obviamente, troca de figurinos. Em 1915, Koch (2022) também localizou que Argos e Darwin chegaram a fazer parte de uma mesma programação no Theatro São Pedro.

Muitos anos passaram e a montação passou de grande aceitação do público para ser entendida até como ato obsceno, imoral, coisa para a Delegacia de Costumes. Entre as décadas de 1950 e 1960, as transformistas começaram a migrar dos teatros, que nesse momento já eram os menos tradicionais, para agora serem as principais atrações das boates que surgiam nas cidades mais urbanizadas do país. Mesmo trabalhando em locais não tão visíveis, artistas transformistas, ou travestis, como também eram chamadas, chegaram a ser perseguidas e presas pela ditadura iniciada em 1964.

Nesta linha, o teatro se tornou algo mais distante da realidade de grande parte das transformistas e drags das últimas décadas do século XX, ao mesmo tempo que as possibilidades e a coragem para realizar a montação iam aumentando, se difundindo. Todavia, não podemos ignorar a insurgência artística que foi o grupo teatral Dzi Croquettes, que por conta da androginia e ambiguidade de gêneros, foi alvejado pela ditadura, conseguiram atuar por alguns anos da década de 1970, até acabarem exilades na França, onde conseguiram apresentar com sucesso o que pretendiam no Brasil.

A partir desse período, para algumas sujeitas, trabalhar na noite, com entretenimento, se tornou uma das poucas oportunidades possíveis de sobrevivência para além da prostituição. Não são incomuns trajetórias que encontram no travestimento uma nova possibilidade de existir no mundo, no entanto, sem deixar de distinguir o que é estar montada e o que é identidade.

Cassandra Calabouço, corporificada pelo artista Nilton Gaffrée Jr., contou a sua história no Theatro São Pedro, 123 anos depois dos indícios mais antigos de que transformistas pisaram naquele palco. Não quero dizer que desde a sua abertura, em 1858, o Theatro recebeu pouca arte drag e transformista, ou melhor, travestimento cênico, diante da existência de atores reconhecidos como cis-masculinos performarem em papéis femininos. Como as próprias pesquisas de Jan Koch mostram que outras transformistas seguiram se apresentando lá ao longo do século XX. Mais ao final daquele século, o próprio São Pedro passou por períodos de crise em sua gestão, acabando por fechar as portas durante um pouco mais de uma década. Quando a epidemia do HIV/aids se instaurou e foi ignorada pelas autoridades sanitárias e por grande parte da sociedade foi um momento que não apenas a arte transformista, mas grupos da comunidade LGBTQIA+ estiveram desassistidos, como também tiveram poucas oportunidades de trabalho em espaços de mais prestígio social.

Estigmatizadas, muitas sujeitas ganhavam o pão nas ruas, com trabalho sexual. Com a pandemia, além das já existentes precariedades das rotinas de trabalho, agora também precisavam conviver com um vírus, que no momento de início da pandemia, foi tratado como câncer gay. Histórias como a de Brenda Lee, importante ativista que lutou contra as injustiças cometidas contra pessoas com HIV/aids hoje são contadas também no Theatro São Pedro. Brenda ficou conhecida por gerenciar uma casa de acolhimento para travestis em situação de vulnerabilidade, chegando a receber o título de “anjo da guarda das travestis”. Brenda Lee e o Palácio das Princesas é um [maravilhoso] musical que foi apresentado em Porto Alegre, no São Pedro, em março de 2024. Pouco tempo depois, tivemos outra oportunidade de ver mais uma história sobre a nossa comunidade LGBTQIA+ naquele palco, dessa vez não saída de um palácio, mas de um calabouço.

Ao longo de uma hora, o público tenta descobrir onde Cassandra está, através de uma revisita dos seus 25 anos (ou mais?) de trajetória. A narrativa é composta de situações, impasses, aprendizados, ternura e tesão pelas quais ela/ele passou. Tesão em fazer arte drag e transformista e ternura em aceitar que todo o vivido foi por algum motivo. Além disso, são apresentadas performances já conhecidas de Cassandra e coreografias com mais quatro drags, que também dividem encenações sobre o passado de/no Calabouço.

Cassandra Grafia Drag
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.

Se algum momento do espetáculo merece destaque aqui, é a composição de dublagem de Meu Mundo Caiu, de Maysa, com reproduções de vozes computadorizadas (do Google) que narram momentos não muito felizes, muitas vezes violentos, que Cassandra e Niltinho passaram, em diferentes fases e épocas que aquele corpo e mente viveram.

Além de confissões em cima do palco, Cassandra aproveita o show para homenagear as mulheres de sua vida: sua mãe, irmãs, amigas e suas divas, como a Gretchen, a cantora. Nesta peça, Cassandra remonta momentos únicos de sua trajetória, como o alerta para a plateia que, quando criança, nunca lhe disseram “não brinca com salto, não brinca com maquiagem”, e passando pelo batizado de seu nome, antes mesmo de idealizar se montar.  Perto do fim, a drag queen com um quarto de século de idade não perdeu a oportunidade de fazer o que melhor sabe, interagir com o público e até mesmo ensiná-lo uma coreografia, ensaiada para os últimos atos do show.

Essa apresentação no Theatro São Pedro não foi o debut de Onde está Cassandra?. Nos dias 01 e 02 de fevereiro de 2024 a peça pôde ser prestigiada no Centro Histórico e Cultural da Santa Casa e fez parte da programação Porto Verão Alegre, festival que neste ano também completou 25 anos de existência. Contudo, a estreia oficial ocorreu em novembro de 2023, mais precisamente nos dias 24, 25 e 26, no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana, no coração de Porto Alegre. Todas as sessões sempre com as casas cheias.

O espetáculo Onde está Cassandra? foi apresentado no dia 20 de julho de 2024, às 20h, no Theatro São Pedro, em sessão única, de entrada gratuita, como parte do Festival Movimenta Cena Sul, com plateia lotada. Para contar sua história de vida, Cassandra usou elementos básicos da arte drag e transformista como música, dublagem, atuação e até mesmo coreografia, sendo Nilton um dançarino premiado. Essas habilidades de entretenimento não são muito distantes do que transformistas se propuseram nesse mesmo palco há mais de 100 anos atrás, todavia, dessa vez vimos uma drag queen fazendo uma peça teatral sobre drag queen, sobre ela mesma.

Para finalizar, deixo a pergunta: onde estará Cassandra daqui a 25 anos?

Cassandra Grafia Drag
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.

***

A playlist com algumas músicas que aparecem no show pode ser conferida aqui.

Ficha Técnica de Onde está Cassandra?

Direção, Coreografia e Trilha-Sonora: Cassandra Calabouço e Diego Mac

Texto: Cassandra Calabouço e Gui Malgarizi

Elenco: Alpine, a grande (Aline Karpinski), Cassandra Calabouço (Nilton Gaffrée Jr.), LadyVina, Savanah Queen, Zélia Martínez (Zé Passos)

Vozes: Alexa, Cassandra Calabouço, Dani Dutra, Daniela Aquino, Diego Mac, Gui Malgarizi e Nilton  Gafrée Jr.

Dramaturgia e Iluminação: Gui Malgarizi

Figurino: Antonio Rabadan

Produção e redes sociais: Giulia Baptista Vieira

Produção operacional: Sandra Santos

Design gráfico: Sandro Ka

Assessoria de Imprensa: Bruna Paulin e Miltinho Talaveira

Referências bibliográficas:

BERNARDY, Bruno Arthur Voss. “Ninguém nunca me disse ‘não brinca com salto, não brinca com maquiagem‘”: trajetória, projetos e metamorfoses da drag queen Cassandra Calabouço e de seu criador Nilton Gaffrée Jr. (Porto Alegre, década de 970-década de 2000) . 2021. Porto Alegre, 87p. Monografia de Bacharelado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

KOCH, Jandiro. A Porto Alegre dos transformistas profissionais. Revista Parêntese, on-line, 18 dez. 2020. Disponível em: https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/entrevista/entrevista-jandiro-koch/. Acesso em: 30 jun. 2024

KOCH, Jandiro. Darwin: “imitador do belo sexo” transita pelos teatros brasileiros. Grafia Drag, blog, 7 fev. 2022.Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/darwin-imitador-do-belo-sexo/. Acesso em 30 jun. 2024.

MASCARENHAS NETO, Rubens. Da praça aos palcos: trânsitos e redes de jovens drag queens de Campinas-SP. 2018. 138 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

Drag e as identidades políticas*

Persephone Ephemera Pepper

Persephone identidades políticas
Retrato de Persephone como convidada na roda de conversa intitulada “Corpas Culturais Autoficcionais”, mediada por Giovanna Bittencourt Morastoni no Somos Muitas – Encontro de Artes Cências LGBTQIAPN+, ocorrido em Blumenau/SC em maio de 2024. Foto: Sabrina Marthendal.

Há uma discussão que considero indispensável toda vez que começo a lecionar Drag a uma nova turma, que é sobre o uso das palavras “feminino” e “masculino”. Houve uma época da minha vida que eu tinha horror a essas duas palavras e via que poucas coisas no mundo contribuíam mais à estrutura de dominação de gênero quanto a insistência em utilizá-las. Pensava que em qualquer contexto essas palavras gerariam frases que reforçariam o status quo que desejava mudar. Porém essa posição mudou quanto mais eu me aprofundei no estudo do gênero e da Arte Drag e hoje vejo da seguinte forma: se mantivermos em mente que o que define o significado desses significantes não são características inatas, mas sim o resultado de uma padronização cultural que persistiu até hoje, talvez possamos utilizar estes significantes para destruir essa relação de significação.  Vejo “masculino” como “aos modos dos homens”, ou “seguindo a tradição dos homens” e “feminino” como “aos modos das mulheres”, ou “seguindo a tradição das mulheres”. Não se pode retirar da análise a História, o presente não existe destacado do passado. Se algo é relacionado a um gênero, não é porque esse algo define todas as possibilidades do gênero, mas está relacionado porque historicamente demonstrou incidência nesse gênero. E essa incidência frequentemente foi compulsória e violenta.

Portanto, quando inicio com uma nova turma, explico que “masculino”, por exemplo, a partir dessa conversa significará “culturalmente associado aos homens” e utilizaremos esse vocabulário apenas a fim de evocar imaginários, jamais para regrar o que se deve ser, afinal, não desejo criar nenhuma “Escola de Princesas” (mencionada no subcapítulo Mascaramento). Nós, como dissidentes de gênero, devemos utilizar de nossa visão além da cisgeneridade, além do “teatro do mundo” (PRECIADO, Um Apartamento em Urano: crônicas da travessia, 2020, pp. 206-209), para transgredir, para hackear e para criar um teatro “anti-mundo”. Pelo menos é assim que vejo e é assim que ensino.

Existe mais uma questão sobre esses termos, que é a importância deles para a comunidade dissidente de gênero. Como é que se poderia afirmar-se fora da cisnorma sem eles? Se a cisnorma é um acordo, ora tácito, ora explícito, que associa expressões a genitais, como poderíamos afirmar o que somos (e consequentemente, o que não somos) sem utilizarmos do vocabulário desta norma da qual vivemos sob o julgo?

Curiosamente, o ideário masculino/feminino, visto de forma afirmativa, tem uma história bastante extensa em comunidades queer anglófonas, frequentemente observável como a dicotomia Butch/Femme[1]. Butch e femme, me parecem ter um significado bastante parecido com os discutidos anteriormente para “masculino” e “feminino”, porém há diferenças gritantes: essa dicotomia é utilizada pela própria comunidade queer a fim de reconhecer a multiplicidade de expressões dentro de um mesmo “sexo”, não para reforçar normativas do discurso do sexo. Butch e femme frequentemente, inclusive, são termos utilizados na comunidade ballroom que, uma vez sendo contextos populados por muites dissidentes de gênero, também se referem à performatividade do gênero, em detrimento a qualquer menção a categoria do “sexo”. Em alguns contextos contemporâneos, são termos que são até flexibilizados a fim de representar o gênero como um espectro recheado de recombinações de significantes, não como um ideário binário e fixo, como pode-se observar na imagem abaixo.

escala Futch identidades politicas drag
A “escala futch” apresentada com exemplos de Pokémons em formato de peixe. Fonte: KnowYourMeme,

Ao observar a aplicação de significações de gênero a personagens tão inumanos como Pokémons[3], percebo como o olhar de nossa cultura é viciado em categorizar a partir do que se vê. Mesmo desafiado pela necessidade da pareidolia, o olhar ainda, acostumado com uma sociedade de gêneros, consegue (ou talvez até sente necessidade de) categorizar gênero em desenhos de peixes ficcionais. E é nessa operação do ato de espectar o espetáculo da significação de gênero que a brincadeira do dispositivo Drag mora.

Os lugares do espectro de gênero, porém, não devem ser vistos como simétricos, como dois lados de uma moeda, como um yin-yang. Performar o masculino e o feminino têm significados diferentes. Não creio ser justo imaginar que, ao tratar de montar um plano pedagógico para lecionar Drag, deva-se tratar ambos como se jogassem num jogo de regras justas e equilibradas. Porque o gênero ainda chega a nós como uma instituição colonial de dominação. Porque os homens e as mulheres ainda estão desiguais em uma série de quesitos. Porque até a subversão da norma da cisgeneridade em forma de performance não está equiparada em ambos os gêneros. Porque, por exemplo, os Drag Kings não estão em pé de igualdade com as Drag Queens.

Como pode ainda ser observado tanta segregação baseada em gênero em uma forma de arte que se baseia na subversão das lógicas compulsórias de gênero? E então voltamos às discussões de falta de representatividade discutidas no subcapítulo Caminhos para o conceito contemporâneo. Mas é preciso transgredir para avançar. É preciso reinventar os conceitos de gênero. Retomo à conceituação de Beauvoir (The Second Sex), onde existe o Um e o Outro. Os homens, ocupando historicamente o lugar da filosofia, teorizaram as mulheres, transformando-as em Outros, mas chega a hora, no contemporâneo de inverter tais lógicas: o Um se tornar o Outro e o Outro se tornar o Um. Na performatividade Drag King vemos esse estudo, essa forma de apreensão, no ato de calçar os sapatos deles, de seus opressores. A masculinidade sendo investigada pelas mulheres numa atitude de alteridade.

No filme A Man For A Day (Peters, Man For a Day, 2012)[4], acompanhamos um grupo de mulheres alemãs passando pelo processo pe-drag-ógico de Diane Torr. Vemos como Torr as conduz a fazer uma investigação mimética, de caçar com o olhar gestualidades dos homens transeuntes das ruas para depois, em dinâmica laboratorial, reproduzi-las com o próprio corpo. “Homens são um bom espetáculo, fáceis de estudar porque não estão acostumados a serem espectados, estão acostumados a serem espectadores” (2012) é algo dito pela professora nessa parte do filme.

Em parte da metodologia de Torr, ela traz o conceito de owning and enlarging (“propriedade e crescimento”, tradução livre do subtítulo do trecho do documentário) na atitude masculina, que se concretiza na forma de andar: “Então, quando você andar, há um sentimento de que o seu pé é dono deste pedaço de chão abaixo dele. Essa ideia de propriedade está bastante incluída na identidade masculina, esse senso de propriedade… e de posicionar a si mesmo” (minutagem 42:27 do filme, tradução livre). A pe-drag-oga diz para as alunas no início da oficina: “não é sobre se tornar um homem, nem se tornar uma mulher, é sobre se tornar mais e isso será empoderador para vocês”. Em outro momento, Torr as ensina a não sorrir o tempo todo, não “acenar que sim balançando com a cabeça” em qualquer resposta. Ao mesmo tempo que nessa pedagogia da masculinidade há a ideia de “ser mais”, há um espaço negativo delineado pelo que não se faz.

Sempre me intriga qualquer forma de arte que tenha o conceito de espaço negativo, e o conceito de que o que está em volta de algo é o que define este algo. Então, com a masculinidade é a mesma coisa. É o que está em volta, sabe? É esse.. É sempre a dicotomia: o mover-se para frente e o conter-se, o ser forte e o ser vulnerável e isso é o que é interessante. É o que eu acho que faz qualquer performance boa: paixão.

(Venus Boyz, 2001) (Minutagem 44:12 do filme. Depoimento de Storme Webber[5], tradução minha.)

 A figura de linguagem empregada por Storme Webber em Venus Boyz (BAUR & MAEDER, 2001) é cria uma forma de análise interessante a partir do conceito “espaço negativo”. A partir do que não se é, a partir do que não se faz, a partir do que não se tem etc. O que seria então a masculinidade em espaço negativo? O que é que se pode ser circunscrito a partir do que não pertence à performance masculina? O que sobra? Se tomamos como exemplo instruções que Diane Torr emprega em sua pe-drag-ogia King, há uma questão de poder envolvida. Se a instrução é caminhar pelo espaço como se fosse sua propriedade, isso implica que a feminilidade (como construída social e historicamente) tem a ver com alguma dimensão de insegurança, de perigo, talvez de até ser “estrangeire em sua própria pátria”, não ter propriedade, mas sim ser “a propriedade”. Se a instrução é não sorrir e acenar que sim com a cabeça o tempo todo e a todes, talvez a visão da professora da feminilidade imposta seja algo ligado à complacência, o conformismo e à servidão. Essas características não são ontológicas, mas sim performativas, em conforme a uma história de docilização do grupo oprimido.

Em entrevista a Anthony Padilla[6], Ladon Cider afirma: “cansada de ser uma dama, eu me tornei o homem” (CIDER, MOLASSES, & DYKEY, 2023). Mas no sentido de performance artística, uma vez que a própria artista afirma se sentir confortável sendo uma mulher cisgênero no dia a dia. Landon Cider não passa de um personagem para a artista por trás da máscara, mas embora ela encare dessa forma, também afirma que através do King consegue explorar possibilidades andróginas de sua própria identidade. King Molasses, no mesmo vídeo afirma: “Minha Arte Drag não é sobre me parecer com um homem. Minha arte é sobre me sentir liberado da expectativa das outras pessoas e dos sistemas de opressão” (Idem). A montação de King Molasses, curiosamente, é uma aparição extremamente passável em sua masculinidade que parece cisgênero, o próprio afirma que é frequentemente tratado como homem quando está montado: mas vejo isto como uma contradição produtiva. Por mais que a primeira parte de sua argumentação entre em choque com o que vemos materializado em forma de montação, acontece o efeito performativo descrito no performer e na plateia, de fraturar expectativas e sistemas de opressão.

Outra parte da mesma entrevista é digna de nota:

Mulheres não eram convidadas ou bem-vindas em espaços gays e queers antigamente. Chutavam-nos porta afora. Nós não éramos celebradas, e então frequentemente precisamos achar nossas próprias coisas, e aí é que onde muita coisa evolui. Quando você se sente desgraçada e você tem que achar o seu próprio espaço seguro. Mulheres tiveram que fazer isso nos nossos próprios espaços queer porque, infelizmente, homens muitas vezes não querem mulheres por perto. Na minha vida, eu já fui chutada porta afora de espaços de homens gays, de bares gays. 

(CIDER, MOLASSES, & DYKEY, 2023).

Este trecho ressoou em mim como um determinado conceito utilizado por Judith Butler, emprestado de Luce Irigaray: “economia significante falocêntrica”  (BUTLER, 2021, p. 29). Razoavelmente, sim, estou tirando-a de contexto, mas uma vez que esta sequência de três palavras me moveu a aprofundar minha o meu pesquisar, penso que é relevante trazê-la aqui. Penso que pouca coisa é mais ilustrativa em sua concretude de uma economia significante falocêntrica que um Drag King sendo expulso de um espaço dominado por homens gays. Butler se referia a um questionamento filosófico sobre a (ir)representabilidade do gênero mulher pela linguagem, mas neste exemplo vemos na história do corpo em carne e osso de Landon Cider o efeito de uma cultura falocêntrica em prática. É contraditório que espaços que deveriam ser de aceitação pratiquem esta violência ao corpo dissidente de Landon Cider, o que só mostra que mesmo dentro de um “movimento LGBTQIAPN+”, diversas violências podem ser praticadas por uma fixação genital e pela misoginia encrustada nas operações do desejo e da sexualidade.


Notas de Rodapé

[1] Verbete Butch-femme, escrito por Theresa Theophano, no arquivo da GLBTQ – Encyclopedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture. Disponível em: <http://www.glbtqarchive.com/ssh/butch_femme_ssh_S.pdf>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[2] A “escala futch” (futch sendo um termo gerado a partir da fusão de femme e butch), segundo a enciclopédia virtual de memes KnowYourMeme, aparece pela primeira vez em um post na rede social Tumblr, em que ë autore afirma tê-la encontrado, demonstrando que autoria de sua criação é desconhecida. Representa em forma de diagrama o espectro de gênero que contempla não-binaridades e frequentemente é preenchida com imagéticas pertencentes a um mesmo universo semântico a fim de fazer humor. Fonte: <https://knowyourmeme.com/memes/futch-scale>. Acesso em 29 de outubro de 2023.     

[3] Criaturas-personagem pertencentes ao universo da franquia de mídia Pokémon, que dificilmente necessita de apresentações. O patrimônio líquido da The Pokémon Company é estimado em 2023, com o valor de conversão do dólar, na data que escrevo em R$589.615.710.000,00 (589,6 bilhões de reais). Fonte: <https://mediacoverage.com/the-pokemon-companys-net-worth/>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[4] Disponível na íntegra em: <https://www.youtube.com/watch?v=h54-Dl953ls>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[5] Storme Webber (1959-presente) é ume artista multiartista, curadore negre e indígena, dois-espíritos que atua em Seattle/Washington (EUA). Storme é ume des entrevistades no documentário Venus Boyz sobre Drag King e transmasculinidades.

[6] Um produtor de conteúdo para redes sociais. O vídeo que me refiro reúne momento de entrevista com os Drag Kings: Landon Cider, King Molasses e Spikey Van Dykey. Disponível em: <https://youtu.be/181Bf_ft7WU?si=KpJNTRkpEVBLQwp_>. Acesso em 04 de novembro de 2023.

Referências

BAUR, G., MAEDER, K. (Produtores), & BAUR, G. (Diretor). (2001). Venus Boyz [Filme Cinematográfico]. USA. Fonte: https://vimeo.com/ondemand/venusboyz

BEAUVOIR, S. d. (2011). The Second Sex (1 ed.). (C. Borde, & S. Malovany-Chevallier, Trads.) New York, USA: Vintage Books.

BUTLER, J. (2021). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (21 ed.). (R. Aguiar, Trad.) Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Civilização Brasileira.

CIDER, L., MOLASSES, K., & DYKEY, S. V. (04 de agosto de 2023). I spent a day with DRAG KINGS. (A. Padilla, Entrevistador) YouTube. Acesso em 04 de novembro de 2023, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=181Bf_ft7WU

Peters, K. (Produtor), & Peters, K. (Diretor). (2012). Man For a Day [Filme Cinematográfico]. Alemanha. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=h54-Dl953ls

PRECIADO, P. B. (2020). Um Apartamento em Urano: crônicas da travessia (1ª ed.). (E. AGUIAR, Trad.)

* Subcapítulo I. c) “Drag e as identidades políticas” (p. 46-52) de “UMA ANDANÇA POR PEDAGOGIAS DRAG”, dissertação de mestrado de Persephone Ephemera Pepper (a.k.a. Jeanne Martins Speckart).

Como citar

SPECKART, J. M. Uma Andança Por Pedagogias Drag. Orientador: Vicente Concílio. 2023. 114 páginas. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, UDESC, Florianópolis, 2023. Disponível em: <https://sistemabu.udesc.br/pergamumweb/vinculos/0000c4/0000c495.pdf>. Acesso em 28 de maio de 2024.

Uma conversa com Everton Barreto

Por: Luná Maldita

Everton Barreto é cabeleireiro e artista transformista há mais de 30 anos. Nessa conversa, o artista fala do seu encontro com o teatro na adolescência, passando pela estreia como Lady Cibele nas boates até chegar aos palcos dos teatros de Porto Alegre. Essa entrevista foi realizada em 1 de maio de 2023, na Casa de Cultura Mário Quintana, para a pesquisa “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas”.

Everton Barreto Lady Cibele Grafia Drag
Fonte: acervo do artista

(Luná Maldita) Fico muito feliz em ter essa oportunidade de trocar contigo. Obrigada pela disponibilidade. Pra começar, eu queria te ouvir sobre desde quando você nota o desejo de se montar artisticamente, tem algum momento específico?

(Everton Barreto) Na verdade, eu sempre tive vontade, desde criança, de fazer teatro, meu sonho era ser artista de teatro. […] Meus pais nunca me levaram para assistir uma peça infantil e eu sempre tive vontade. A partir do momento que eu me tornei um pouco mais independente, lá pelos 14 anos, eu ganhava uma mesada, pequena, mas ganhava. E toda vez que eu recebia essa mesada, eu ia ao Teatro de Câmara, ali na República, assistia espetáculos infantis que eu podia ir sozinho de tarde e aquilo se descortinou um mundo novo para mim, né, o palco, a luz… Foi lá que eu vi pela primeira vez um ator vestido de mulher, que era o falecido Fábio Neto. Ele fazia a madrasta da Cinderela. E aquilo me fascinou, aquela figura, aquele homem vestido de mulher, aquele homem fazendo uma mulher que parecia uma mulher realmente. Depois disso, eu fui trabalhar com um cabeleireiro chamado Mauro Bonato, ele fazia shows em boates gays como transformista e me levou pra assistir um show. […] Eu fiquei deslumbrado com aquela possibilidade de ser uma outra pessoa… que eu também me identificava. Assim, ao mesmo tempo que eu era um menino, eu achava que eu era uma menina, né? Tinha essa coisa dúbia na minha vida. E aí eu disse pra ele: “Ai, Mauro, eu queria tanto fazer um show também”. E ele disse: “Ué vamos ensaiar uma música”.

(Luná Maldita) A próxima pergunta era justamente isso, quando e como você se tornou artista transformista?

(Everton Barreto) Eu já estava com meus 19, 20 anos. E aí foi quando ele [Mauro Bonato] me fez a produção toda, eu me montei, fui pra uma boate sem saber o que que era o universo. Entrei, com a cara e a coragem, na boate do Dirnei Messias, que ficava ali na avenida Júlio de Castilhos, num concurso de dublagens. Foi lá que eu fiz minha primeira participação e ganhei o primeiro lugar, […] participando com as feras da noite, as quais eu não conhecia, que já eram as estrelas da noite. Tinham várias artistas muito conhecidas que já faziam espetáculos e a partir dali a minha carreira deslanchou e eu fui correndo atrás e fui fazendo. Foi assim.

Lady Cibele Boate Grafia Drag
Lady Cibele em seu primeiro concurso transformista. Fonte: Acervo do artista

(Luná Maldita) Em relação a isso, eu quero te perguntar como é que você percebe surgir o termo drag queen? Você lembra de alguma coisa sobre como esse termo foi chegando?

(Everton Barreto) As drags, as primeiras foram as americanas, né, que foi lá pelos anos 1980 mesmo, que houve um boom, e pra cá depois dos anos 1990 estourou. Inclusive, houve um evento aqui mesmo, na Casa de Cultura, onde estamos conversando agora, onde foi feito um outro trabalho pra a Ulbra, com a jornalista Juliana Bortoluzzi, que fez uma invasão drag. E como não haviam muitas ainda, elas me chamaram, chamaram a Dandara Rangel, a Gloria Crystal, que nós éramos as transformistas mais conhecidas da época. E nesse momento nós lançamos esse movimento drag e, em seguida, começaram a aparecer. Nessa noite, apareceu a primeira drag que eu vi em Porto Alegre, Esmirrah de Versatti, linda! […] A gente apareceu nos jornais, aparecemos na televisão, então foi uma coisa que… houve o boom.

(Luná Maldita) E você percebe algum traço mais geral de diferença entre as transformistas e as drags?

(Everton Barreto) Aaai a linguagem artística é bem diferente, porque, nós, transformistas, nós tentamos passar a ideia e a imagem de uma mulher de verdade, não essa imagem de exagerada. A gente fazia o menos, tinha que parecer mulher dentro do minimalismo e as drags são mais exuberantes, como o próprio nome diz, é um dragão mesmo, né? […] Tanto é que eu tenho dois filhos, um de 35 anos e o outro de 22, o de 35 anos não me acompanhou, mas o mais novo eu levava nas paradas gays, as quais eu apresentei muitas vezes, da terceira em diante eu participei da Parada Livre. E o meu filho ficava deslumbrado com as drags. Ele gostava mais das drags do que das transformistas e ele, pequenininho, diz assim: “Ai me leva para ver o palhaço bonito”. O palhaço bonito eram as drags (risos). Um amor, ele é muito fofo.

(Luná Maldita) E como você percebe a relação com as drags das novas gerações?

(Everton Barreto) Eu ando um pouco afastada da boate, eu acho que… [pausa prolongada] A gente se sente um pouco que excluído, sabe? Pela idade. Dentro do próprio meio há um preconceito das drags com as transformistas e não vejo das transformistas com as drags. Mas eu também acho que isso é normal na sociedade em geral, né, o tal do que a gente chama agora de etarismo. Eu tenho sofrido alguns ataques de algumas drags no meio, por dizerem que eu já estou velha, que eu já estou passada, mas eu administro isso muito bem. […] Sigo a minha vida, ainda sou chamado, faço muitos eventos e vou levando uma vida normal, não tenho embate com elas. Acho uma lástima, né, porque nós sempre lutamos pela igualdade, pelo respeito e reconhecimento e dentro do meio há essa rixa. A prova está que Porto Alegre tem duas paradas gays, então não preciso te dizer mais nada, né.

(Luná Maldita) Se a gente tem esse território construído e estabelecido, no qual a gente transita e no qual a gente tem a oportunidade de se colocar, né, é porque vocês estiveram…

(Everton Barreto) Porque outros vieram abrindo portas, é o que eu digo. Quando eu sou atacado por essas mais novas, o que eu digo para elas: meu amor, tu não estavas…, tu não eras nem nascida e eu já andava de salto alto, batom, trabalhando nas boates e fugindo da polícia, simplesmente por estar vestido de mulher. Hoje vocês andam de unhas pintadas, de batom, barbas, de saias e não são agredidas fisicamente, nem corridas pela polícia. E eu respeito as que vieram antes de mim também. Como havia a Valéria Del Rio, que era uma travesti maravilhooosa! A Nataly Delon. Então tem muita história por trás, sabe, e eu nunca as desrespeitei por elas serem mais velhas, muito pelo contrário, eu sempre enalteci e respeitei essas pessoas. […] Eu acabei de completar 60 anos de idade e não tenho vontade de parar não, entendeu? Eu ainda vou seguir incomodando sim! Vou seguir botando meu salto alto e elas vão ter que me engolir, porque é a minha história e é a história da gente, entendeu? A história da gente… é a nossa história!

Lady Cibele Mixx Bar Grafia Drag
Lady Cibele no Mixx Bar. Foto: Douglas Ostruca

(Luná Maldita) Eu queria te ouvir um pouquinho sobre as suas expressões transformistas. Como você descreveria a Lady Cibele?

(Everton Barreto) Eu me batizei de Cibele, por causa de um conjunto vocal chamado Quarteto em Cy, que ainda existe. Uma das cantoras era Cybele. E esse nome, eu acho um nome feminino, delicado e eu me identificava muito com esse nome. Eu que me batizei, ninguém me batizou. O Lady veio depois que eu fiz essa participação, a primeira aparição na boate do Dirnei. Tinha um cara chamado Frei Rocha, era um ex-frei que tinha uma boate gay em Porto Alegre. E ele me chamou para apresentar um show na casa dele, eu fui. Os meus figurinos eram sempre clássicos, sempre me vesti mais de senhora, nunca fui garotinha, desde jovem eu sempre tive um comportamento mais clássico. Aí ele que me intitulou de Lady, porque ele achava que eu tinha uma postura muito fina, muito delicada, diferente daquelas transformistas da época, né? Então ficou Lady Cibele por causa do Frei Rocha. E não houve outra, nunca mudei de personalidade, nunca mudei de nome, mantenho esse nome há mais de 30 anos […]. Nessa época da boate do Frei Rocha, normalmente quem apresentava os shows eram os donos das casas noturnas, porque as transformistas não falavam no microfone.

(Luná Maldita) Era sempre dublagem?

(Everton Barreto) Sempre. E ele me entrevistou, eu desenvolvi muito bem o assunto, ele se encantou comigo e a partir daquele momento eu ganhei o axé de fala, como a gente diz, né. E ele já imediatamente me contratou para me tornar apresentadora dos shows da casa dele.

(Luná Maldita) Que legal! E isso foi quando, mais ou menos?

(Everton Barreto) Em 1993, 1994.

(Luná Maldita) Logo no começo também?

(Everton Barreto) Tudo no começo, tudo estourou rapidamente. […]A partir dali comecei a falar, falar, falar e virei a boneca Emília, na verdade, né (risos). Aí comecei de boate em boate. Tinha vezes que eu me apresentava em quatro boates numa noite. Saia de uma para outra e fugindo da polícia, porque não podia andar vestido de mulher, a gente só por estar de mulher já era barrado, já era revistado. Uma coisa horrorosa […].

(Luná Maldita) Mesmo no pós-ditadura ainda tinha uma repressão política?

(Everton Barreto) Total! Total! […]

(Luná Maldita) Nossa, eu fico muito chocado de ouvir essas narrativas e ao mesmo tempo é muito louco, porque a gente tá vivendo agora o período de um levantamento desse conservadorismo que vocês vivenciaram e não imaginávamos que talvez pudéssemos vivenciar de novo, né […]. Eu gostaria de te ouvir sua relação pessoal com a sua persona artística. Existe alguma comunicação entre Everton e Lady Cibele?

(Everton Barreto) Eu acho que é o meu alter ego, né. É a mulher que eu gostaria de ser. Se eu fosse mulher, eu gostaria de ser a Lady Cibele. Não pensaria em ser de uma outra forma. Eu gostaria de ser a Lady Cibele, entendeu?

(Luná Maldita) Ela é esse espaço do se fosse, então? Onde você tem a possibilidade de fantasiar e criar a Lady Cibele?

(Everton Barreto) É o momento em que eu sou. Ali eu posso ser eu. Houve um período da minha época que eu, jovem também, nos anos 90, quando eu comecei a explodir, eu pensei em virar travesti. Cheguei a tomar hormônios. Mas, eu convivia com algumas travestis e percebi a barra pesada que é ser travesti, sabe, não é fácil, é um preconceito muito grande. […] E na verdade, no fundo, no fundo, eu acho que eu não tinha condições de ser travesti, nem financeira, nem psicológica, sabe? Mas cheguei a cogitar. A Cibele é o que eu projetei em mim, é a mulher que eu seria.

(Luná Maldita) E você percebe alguma transformação na sua maneira de se comunicar quando você está montado como Cibele? E quando você tá desmontado, como Everton?

(Everton Barreto) Ahh, desmontado eu sou bem tímido, bem tímido. E de Cibele, eu me coloco melhor. Eu sei me colocar melhor como Cibele. Engraçado, né? Não sei se é a maquiagem, que é a máscara que eu uso, também me ajuda a me proteger. Quanto eu tô de Cibele, o Everton sumiu. Então tem essa coisa aí que eu acho bem forte. […] Eu fui uma das primeiras a ir para as televisões para participar dos programas de debates, montadíssima. Tive embates ferrenhos com um padre da PUC. Não vou citar o nome dele, porque já é falecido […].

(Luná Maldita) Eu gostaria de te ouvir mais sobre sua relação com outras artistas transformistas. Tem alguma que te marcou muito durante a sua trajetória?

(Everton Barreto) O Mauro Antônio Bonato, que era a Karen, foi ele quem me abriu as portas. E de figuras que me inspiraram, claro, que a Rogéria. Rogéria, Astolfo Barroso Pinto, é ícone, né. Lorna Washington, Erick Barreto, que era uma exceleeeente transformista.

(Luná Maldita) Ele fazia a Carmen Miranda né?

(Everton Barreto) Exatamente. Fizemos alguns shows juntos em Porto Alegre. E aqui de Porto Alegre, as minhas amigas queridas, com as quais eu trabalhei, a minha turma que se formou, que é a falecida, Dandara Rangel, a Laurita Leão, a Maria Helena Castanha, Gloria Crystal, esse time que foi me dando força.

(Luná Maldita) Isso foi a partir do Zé Adão Barbosa, né, que também trabalhou com vocês?

(Everton Barreto) O Zé nos mostrou para a sociedade, nos tirou do gueto e levou pro teatro.

(Luná Maldita) Antes disso vocês já se conheciam?

(Everton Barreto) Já, dentro da boate. Depois teve o Gilberto Perim, que é diretor de cinema que também nos levou pro Festival de Cinema de Gramado e fez um curta chamado “Au revoir Shirley”, com a Rebecca McDonald. Um curta metragem maravilhoooso! Tá no YouTube. […].

(Luná Maldita) E em relação as casas noturnas. Quais que você acha hoje que dão mais espaço para as transformistas?

(Everton Barreto) Eu acho que o Vitraux é uma casa que se mantém de portas abertas. O Vitraux é uma casa não tem preconceito mesmo. É uma casa aberta pra drags, transformistas, travestis. Sempre foi assim, sempre houve espaço e abertura para todos os gêneros. Isso é muito legal. Uma outra coisa que eu vou te contar que eu acho que tu vai ficar passado. Eu sou duma época também, que a gente não podia entrar em boate gay montada. Houve um período que não podia, só para fazer show, faz o show e te desmonta. Não pode ficar travesti, boate gay não recebia travesti, tinha algumas aqui em Porto Alegre que não deixavam travesti entrar.

(Luná Maldita) Caramba, durante os anos 90?

(Everton Barreto) Durante os anos 90. […] Acontece que daí começaram a abrir outras casas que foram dando uma pequena abertura para as travestis, ai elas já podiam frequentar e algumas vezes eu ia vestida de mulher sem fazer show.

(Luná Maldita) Que absurdo! Inacreditável…É uma coisa muito esquisita né, porque ao invés da gente se articular…

(Everton Barreto) Na mesma luta. Não, ai não, olha a fulana ali, não vou ficar perto dela, ela é muito afeminada. […] Mas o que mais me deixa triste é entre os gays, tu entendeu? Entre os gays. “Ah, eu não vou sair com fulana, porque fulana chama muita atenção, a fulana é muito afetada”. Uma gay falando da outra?

(Luná Maldita) É uma pena, né, porque isso enfraquece a gente como coletivo. E deixa eu te perguntar ainda sobre esses diferentes espaços casas noturnas, teatro e cinema. Você já teve experiência em todos eles?

(Everton Barreto) Sim. […] Apesar de que muitos atores ainda consideram o trabalho do ator transformista como uma arte menor, sendo que o teatro, nos primórdios, as mulheres… os papéis femininos eram executados, feitos por homens. Mas ainda há preconceito, tanto que numa premiação do Troféu Açorianos, onde a falecida Dandara Rangel recebeu o troféu de melhor atriz coadjuvante, houve um manifesto [pausa] horrível de um certo grupo teatral aí… de preconceito mesmo, entendeu? […]. O historiador Luis Francisco Wasilewski conta essa história perfeitamente bem. Ele tem todos os fatos, ele sabe muito bem. Ele era, inclusive um dos jurados na época. Ele comprou uma briga, uma briga com os outros jurados para poder dar o prêmio pra Dandara. Então, dentro da classe teatral também tem esse preconceito […].

(Luná Maldita) Caramba, é o preconceito explícito entre os próprios artistas! Ainda em relação a essa questão do trabalho, você comenta que você começou a fazer transformismo em paralelo a sua carreira como cabeleireiro.

(Everton Barreto) Exatamente.

(Luná Maldita) Então você sempre teve essas duas profissões em paralelo?

(Everton Barreto) Sim, porque o cabeleireiro é quem sustentava a Cibele, no começo, e depois eu tive um momento que a Cibele começou a se sustentar, porque daí surgiram muitos trabalhos. Aí eu fazia muitos jantares e viajava! […] Imagina, numa cidade do interior, uma travesti, que eu era chamada de travesti, fazendo um show no jantar de dia dos pais. Isso não vai acontecer mais, infelizmente, a gente sabe que não vai.

(Luná Maldita) E…, recentemente você tem investido mais na sua profissão como cabeleireiro?

(Everton Barreto) Sim. E no teatro, porque as boates… [silêncio] aaai, esse horário de fazer show às 03h da manhã, 04h, eu não tenho mais interesse. […] Eu sou do tempo que eu dublava ópera, fiz “Madame Butterfly” numa boate. Quer dizer, era uma outra coisa, as pessoas vibravam, esperavam aquilo para ver a arte mesmo, a arte do transformismo.

(Luná Maldita) […] Everton, muito obrigada pelo seu tempo, pela sua confiança em compartilhar sua história. Eu me sinto honrado pelo privilégio de te ouvir.

(Everton Barreto) Ahh, querido, obrigado. Eu quero te dar um abraço! Porque é importante. Eu queria muito esse encontro viu, porque eu acho importante a gente ter essa troca, né, porque eu não sei quanto tempo eu ainda tenho. Na verdade, tenho 60 anos, daqui para frente a gente sabe que eu tenho mais passado que futuro, então acho legal poder compartilhar, né? Saber que isso vai ficar de alguma forma…

Seres grotescos: corpo, drag e arte

Tiffany Plazza

Há anos atrás, em uma época em que eu era uma artista visual perdida no mundo, que não sabia qual caminho seguir com a minha arte, me deparei com um texto na internet chamado Why contemporary women artists are obsessed with the grotesque? (Por que mulheres artistas contemporâneas são obcecadas com o grotesco), de Tess Thackara. De cara, esse texto já chamou minha atenção e me fez entender porque sempre flertei com a arte grotesca, principalmente considerando toda minha vivência, minhas inseguranças e ideias. Depois que comecei a me montar e que conheci a arte drag alternativa e as drag monstras, me vi cada vez mais dedicada a me tornar uma artista grotesca. Hoje em dia, me vejo como uma drag monstra sempre disposta a atingir formas cada vez mais grandiosas de me tornar um ser grotesco e decidi revisitar esse texto que teve tanto significado na minha trajetória artística.

Tiffany Plazza Seres Grotescos
TIffany Plazza no Halloween da Festa Haus (2022). Foto: Acervo pessoal.

O termo “grotesco” surgiu para caracterizar aquilo que é fora do convencional e do que é familiar para o senso comum. Com o tempo, o termo passou a ser relacionado com o que é repulsivo e que, muitas vezes, pode apresentar algum tipo de ameaça. Não é à toa que o grotesco é tão associado às mulheres, despertando nosso interesse de querer ser uma manifestação do termo. Principalmente como uma mulher pertencente à comunidade LGBT, outro grupo normalmente associado ao que é “grotesco”, existe uma grande provocação e vulnerabilidade em reivindicar o que é usado contra nós, como insulto, em algo que nos fortaleça e nos torna seres mais poderosos do que aqueles que nos machucam.

Você já deve ter assistido a diversos filmes de terror em que o “monstro” era simplesmente uma mulher idosa, uma forma de representação do corpo da mulher fora do padrão como algo grotesco recorrente em filmes de terror. Você também deve ter assistido algum filme com uma figura de uma mulher sedutora, porém perigosa: uma forma de representação da mulher que desperta desejo, mas que ainda assim expressa algum tipo de ameaça para quem ela seduz.  O filme “Raw” (2016) conta a história de duas irmãs que vão morar na faculdade juntas, longe dos pais e descobrem que possuem instintos canibais. Mesmo que a diretora não tenha intenções metafóricas com o filme, não consigo deixar de ver como a imagem de uma mulher descobrindo o “grotesco” dentro de si, seja em relação à sua sexualidade ou apenas à sua identidade.

Seres Grotescos filme raw
“Raw” (2016) dir. Julia Ducournau. Fonte: Reprodução / Exeter Phoenix

Drag queens são seres grotescos por natureza, por sermos arte fora do padrão, ou talvez porque algumas de nós somos repulsivas, mesmo. Vestimos a identidade feminina de forma provocativa e até quando somos apenas belas, somos ameaças. Além disso, não limitamos nossos corpos quando se trata de mutação e expressão, mostrando a arte e a beleza na capacidade de transformação do corpo humano. A arte drag mostra que temos força e capacidade de transformar nosso corpo em fantasias que se tornam realidade, fugindo não só da normalidade, mas também, da naturalidade.

Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte: The Boulet Brothers Dragula (2021)
Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte:The Boulet Brothers Dragula (2021)

Assim como muitas artistas que são apresentadas no texto de Thackara, enxergo o grotesco como uma forma de expressão contra tudo que me foi imposto e negado, durante minha vida como uma mulher LGBT e como artista. Cada vez mais, sinto que minha confiança e meus superpoderes de drag são libertados quando assumo minha forma grotesca, seja com a feminilidade sedutora e mortal ou como um típico monstro grotesco e repulsivo, que foge, não apenas dos padrões de beleza e das normas, mas também do que é considerado humano.

Eu, Chromatica: a montação do espetáculo

Dara Deon

Quando penso no meu caminho até chegar em minha persona drag, vejo uma estrada repleta de memórias. Quando somos crianças, estamos rodeados de brincadeiras e de faz de conta. Pelo menos, para mim, tudo parecia muito mágico. Como eu era muito tímida, passava muito tempo sozinha, vestindo fantasias e desenhando. Eu amava desenhar roupas, acho que por influência da minha dinda Paula, que fazia faculdade de design de moda. Um dia, cheguei a fazer um catálogo de vestidos, com uma capa cheia de glitter. Esse catálogo acabou se perdendo com o tempo, mas lembro da sensação de imaginar meus vestidos coloridos e brilhosos sendo desfilados em uma passarela.

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma

Sempre fui incentivada pela minha mãe a fazer arte. Como ela trabalhava demais, eu precisava passar mais tempo na escola do que devia. Então, meu tempo extra era preenchido por ler quase todos os livros de investigação criminal da biblioteca e teatro. Eu tinha muito problema com a comunicação, falava o mínimo possível, mas, mesmo assim não deixava de ir as aulas de teatro. Eu também assistia muitos clipes de divas pop no YouTube e no canal da MTV. Eu só não sabia se queria ser igual a elas ou beijar elas. Acho que era as duas coisas. O meu hobby passou a ser improvisar visuais com algumas roupas e dublar músicas. Às vezes eu me produzia toda só para gravar vídeos fazendo isso. Na época, nem sabia que tinha toda uma cultura envolvida nisso e que existia um nome para as dublagens: lipsync. Mais tarde, a cultura LGBTQIA+ passou a fazer parte da minha vida e fui apresentada à arte drag.

Pimp My Drag

Mesmo fazendo várias coisas, ainda sentia que faltava algo em mim, que talvez fosse criar a minha persona drag, mas eu sempre tive dificuldade com começos, então eu precisaria de um empurrãozinho pra isso acontecer. Em abril de 2023, tive a oportunidade de fazer o curso Pimp My Drag, ministrado pela Drag Queen Cassandra Calabouço. Foram três meses de aula com uma turma muito querida, pudemos trocar conhecimentos e aprender bastante uns com os outros. Eu amava ir pras aulas, que eram duas vezes por semana, e sair com algo diferente em mim todas as vezes. Parecia que finalmente eu estava encontrando o que faltava em mim, mas eu ainda não tinha um nome. A saga pela busca do nome perfeito me tirou noites de sono e muitas pessoas me ouvindo falar sobre isso. Até que, um dia, depois da aula, eu e alguns colegas fomos para um bar conversar e um dos tópicos foi o meu nome. Eu tinha algumas opções, mas nenhuma me parecia certa o suficiente, até eu comentar que gostava muito da teoria das cores e do círculo cromático. Nesse momento, junto da minha irmã drag Luná Maldita, surgiu um estalo: Cromática! 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

É claro que depois disso, como uma ótima libriana, eu fiquei em dúvida e testei algumas variações e formas escritas. Acabei por deixar o nome em inglês, como o álbum da Lady Gaga: Chromatica. Eu tinha um nome e um sonho, agora faltava brilhar. Em um dos dias que teríamos aula, nos encontramos montadas no bar Workroom, no dia do lipsync aberto. Encarei como se fosse minha estreia, e até Instagram eu já tinha criado para Chromatica. Fui surpreendida pelos meus amigos na porta do bar, que não conseguiram entrar pois já estava lotado, mas foi especial demais ver eles ali, cantando parabéns para mim, como se fosse meu aniversário, ou melhor, renascimento. Eu ganhei uma família drag nesse processo, e agradeço muito a todos que fizeram parte. No dia 02 de julho de 2023 estreamos o Baile de Perucas, no Teatro Bruno Kiefer, como conclusão do curso. Esses meses foram muito importantes para a construção de Chromatica, minha persona drag que finalmente havia nascido. 

A montação do espetáculo

Sempre gostei de ouvir músicas e assistir filmes antigos, e quando eu digo antigos quero dizer música clássica, que eu passava horas tocando no teclado, e filmes musicais da era de ouro de Hollywood e das décadas que seguiram. Passei a me encantar com as músicas e estilos visuais de cada década desde os anos 50, ouvi-las era como viajar no tempo e viver minhas referências na pele. Filmes como O mágico de Oz, Cantando na chuva, Cabaret, Os embalos de sábado à noite e Grease eram os meus preferidos, tanto que na versão final do espetáculo Eu, Chromatica, temos uma cena especialmente dedicada a dançar trechos de músicas desses musicais. Chromatica vai do clássico ao contemporâneo, sempre se experimentando entre lapsos temporais e diferentes estéticas. 

Musicalmente, a peça acabou sendo dominada pelos anos 70 e 80 e pelo Glam Rock, estilo que me encantei. Artistas como Elthon John e David Bowie foram trilha sonora de algumas performances e momentos importantes da minha vida. Algumas semanas antes das apresentações da peça, cheguei a cortar e pintar meu cabelo inspirado no Bowie, para viver completamente aquela fantasia vintage também com meu visual, visto que Chromatica ainda não usa peruca, mas talvez ela passe a usar em algum momento. Avançando alguns anos, os musicais mais atuais também foram muito importantes para mim, como Moulin Rouge, Chicago, Burlesque, O rei do Show, e é claro, High School Musical, que marcou minha infância e teve seu momento na peça com direito a coreografia antes dos trechos clássicos. 

As divas pop me faziam querer ser elas, ao passar horas a fio assistindo seus clipes. Aqui dou destaque para a Lady Gaga, que também acaba sendo homenageada com o nome Chromatica, título de um álbum mais recente, apesar de não ter sido o motivo principal para a escolha do nome, gosto quando fazem menção a ela. Voltando aos filmes clássicos, O Mágico de Oz foi contemplado com um número inteiro da música Goodbye Yellow Brick Road, do Elthon John. A música faz menção à estrada de tijolos amarelos que a personagem Dorothy percorreu em Oz, mas com uma mensagem de despedida de um capítulo e início de outro. Na cena, a mensagem fica no subtexto, enquanto eu abro uma mala cheia de figurinos, alguns de performances já feitas por mim na vida real, e encontro a roupa colorida de Chromatica, finalmente deixando as cores invadirem meu visual e fazendo a persona drag surgir. 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

A cena “Como treinar sua Drag”, em formato de auditório e com interação com o público, trouxe referências do reality show RuPaul´s Drag Race, que acompanhei por muito tempo e acabei conhecendo muitas drags que me inspiro até hoje, como a Sasha Velour. E para finalizar, a última cena da peça teve como trilha sonora “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee, música que também escolhi para dublar quando Chromatica esteve na noite de Lip Sync aberto no bar Workroom com a turma do Pimp My Drag, simbolizando o início de outra estrada, que teria os tijolos coloridos com todas as cores. Essas são algumas das referências que mais utilizo no meu trabalho atualmente, nem todas citadas estão presentes na versão final de “Eu, Chromatica”, mas foram consideradas e muito faladas no processo de criação do espetáculo.

A minha personagem teria uma evolução dentro da narrativa, começando com uma versão de mim mesma, mas mais teatral, e terminaria como Chromatica. Com o texto da primeira cena em mãos, improvisamos algumas vezes para ajustar as falas até ficarmos satisfeitas. A cena começaria comigo entrando nessa loja e organizando o espaço, ouvindo uma música e me divertindo enquanto arrumava tudo. Para ensaiar, usávamos uma arara com algumas roupas como cenário provisório e os dois bustos de manequim. Digo provisório porque a versão final da montagem dispõe de cinco araras e cerca de sessenta peças de roupa, tornando impossível ensaiar com tudo estando presente, mas falarei sobre a escolha de cenário mais para a frente. Quando eu estaria no fim da organização, a personagem de Alycia chegaria nessa loja com o objetivo de encontrar a roupa perfeita para ela, mas em outra cor que não fosse azul, que era a cor preferida e figurino da personagem Alyx Safira. 

Ainda nessa cena, acontece a performance de Goodbye Yellow Brick Road, de Elthon John. É quando minha personagem deixa os medos de lado e abre uma mala que contém vários figurinos e adereços, alguns inclusive que foram utilizados em performances minhas na vida real, me despindo da roupa bege e branca, revelando um body amarelo que é completado com uma calça, botas e luvas vermelhas. Também tiro da mala um espelho, um gel e um pente para dar vida ao cabelo de Chromatica. Ainda tiro um leque da mala, e a última coisa que sai é uma bandeira LGBTQIA+, representando esse momento de aceitar todas as cores que fazem parte de mim.

Eu fiz questão de também trazer uma parte mais séria sobre essa questão e não só glamourosa para a narrativa. Nesse texto, conto uma situação em que uma mulher me questionou sobre isso de uma forma bem inconveniente. Aproveitei também para colocar a questão da expressão de gênero e de sexualidade, que é muito importante para mim, como uma mulher cis, lésbica e de aparência andrógina. Esse trecho também serve para informar que a arte drag é uma expressão artística, e que drag é para todos. Escolhi falar o monólogo direto para o público, com a personagem da Alycia congelada no fundo, quebrando a quarta parede e expressando uma opinião política, tendo como inspiração o efeito de distanciamento, de Bertold Brecht e o teatro épico. 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

Somente no final, surgiram alguns gestos, para realizar a transição entre o texto e a última performance. Com a pose formada e ultima frase dita, que não ironicamente foi “Eu, Chromatica!” revelando o meu nome e o nome da peça, começa a música “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee. Eu já sabia desde o início que gostaria de finalizar a peça com essa música, que também dublei na noite em que Chromatica saiu montada pela primeira vez com a turma do Pimp My Drag, quando fomos na noite de lipsync aberto no bar Workroom. Essa música foi a única em português, então seria entendida por todo o público presente, e representa muito da minha criança interior que ainda sonha dentro de mim.

O Ser Drag: menos competitividade e mais cooperatividade

Giselle

Muito prazer, me chamo Giselle e para os íntimos, Victor! 

Fiz da minha Drag meu escudo, minha escapatória nesse mundo cheio de anti-artistas. Cresci cheio de incompreensões, medos e sonhos, acho que tudo isso fez com que eu nunca parasse de querer chegar até onde eu cheguei; e ainda não cheguei realmente lá, falta bastante. 

Desde pequeno eu sonhava com passarelas, holofotes, mas até então eu não sabia como isso viria a acontecer na minha vida. Inicialmente sonhava com o mundo da moda, ser um estilista famoso com vários looks premiados, porém a vida tratou de me dar outro caminho para chegar até as passarelas, Giselle. 

Giselle grafia drag mais cooperatividade

Sempre fui muito tímido na escola, porém chamava atenção de muitos por ser falante, carismático. Aos 18 anos me mudei para Torres, onde logo em seguida iniciei minha vida noturna, me tornei DJ, contudo a Drag para mim ainda era distante, em uma das festas um dos produtores me trouxe a ideia de eu tocar “montado”, eu prontamente disse: NÃO, nunca, não tenho noção nenhuma do assunto, não sei me maquiar, só não.

Com insistência, ele me entusiasmou com o assunto. Fui atrás de roupas, maquiagem, salto, tudo que uma Drag tem direito e eis que nasceu Giselle, que ainda não se chamava Giselle. Ela já foi: Mellifera Monferno, somente Mellifera, Vic Monferno, até que chegou a tão sonhada identidade: Giselle.

Acredito que hoje em dia, a grande dificuldade de artistas da cena drag é ter o devido reconhecimento em suas cidades. Em Torres eu me tornei conhecido pelo meu trabalho por ser uma cidade pequena e na qual não haviam Drags, logo me destaquei como sendo um dos primeiros a trazer tal arte à tona. Eu era uma “estrela”, tive o gostinho de ser uma estrela justamente por estar em um lugar onde o que eu fazia, era algo novo, inusitado, estranho para alguns, mas que foi bem recebido.

Já em Porto Alegre, tive uma boa recepção de algumas partes, lugares que me cederam o espaço para expressar minha arte e poder mostrar meu trabalho, mas por outro lado existem lugares quase inalcançáveis por vários motivos, um deles, e o mais importante: falta de retorno por parte das casas, bares, espaços culturais e etc.

 Drag queens de outros locais geralmente não tem a mesma recepção e oportunidades que outras que já estão há algum tempo na cena da cidade. Isso impossibilita o crescimento e reconhecimento das novas drags, as quais muitas vezes se mudam, procuram uma profissão paralela ou pior, desistem do seu sonho de ser artista.

Eu por muitas vezes já estando em Porto Alegre, pensei em desistir por conta de perder a força de enfrentar essas barreiras, as quais enfrento há muito tempo, porém acho que não é bem por aí, não podemos e não precisamos deixar nossos sonhos de lado por falta de oportunidade, afinal nós podemos fazer nossas próprias oportunidades.

Não podemos mais deixar com que muitas vozes sejam silenciadas no meio da arte. Acredito que o coração da mãe arte é muito maior do que o modo como ela é representada na indústria. 

Acredito que precisamos de mais força no meio, mais elos no meio artístico, menos competitividade e mais cooperatividade. Acho que mais oportunidades por parte das casas noturnas, mais abertura para novas Drags, assim novas personas se apresentam.

Giselle grafia drag mais cooperatividade

Acredito que uma saída seria promover eventos de rua, com artistas da cena que não tem o devido reconhecimento. Trazendo essas pessoas para a rua, fazendo com que as pessoas vejam, apreciem, se encantem com elas é uma saída.

Vamos mudar a indústria e fazer dela um lugar para todos, todas e todes os artistas. Vamos fazer com que a arte seja um fator de  encorajar, engajar, aproximar as pessoas, e não afastar como é feito muitas vezes. 

Acho que a competitividade que existe no meio, acaba fazendo com que não se criem laços, vínculos, é cada um por sí e Deus por todos, e todos nós sabemos que não é assim que funciona, em algum momento sempre precisamos de um contato, um elo, um vínculo, um amigo.

Um beijo de uma Galáxia não tão distante.

Giselle 💋

Entrevista Ikaro Kadoshi

Por: Pietro Lamarca

Em um mercado moldado pelos reality shows, ser artista drag pode ser um grande desafio. Os padrões estabelecidos, os recortes de gênero exigidos e os estilos de performance cada vez mais reproduzidos acabam por ser fonte de frustração para artistas que não se encaixam nas caixas abertas por um público cada vez mais homogêneo em relação à arte transformista. Pensando nisso, o Grafia Drag traz uma entrevista com uma das maiores e mais bem-sucedidas artistas drags do cenário nacional – apresentadora, comunicadora, fomentadora cultural e performer – Ikaro Kadoshi, para mostrar que o caminho do sucesso não só pode, como deve, ser baseado na sua identidade. 

Entrevista Ikaro Kadoshi
Ikaro Kadoshi. Fonte: Instagram do artista.

***

PL: Ikaro, é uma alegria sem tamanho poder mostrar uma parte da sua linda trajetória. Vamos lá no comecinho? Qual foi seu primeiro contato com a arte drag?

IK: É um prazer falar sobre a minha arte e as discussões que a permeiam há muito tempo. Meu primeiro contato com a arte drag foi aos 16 anos, com um RG falso – como todos os adolescentes faziam –, fui ao primeiro bar LGBTQIAPN+ que existiu na minha cidade, o Divina Ciência. Vi um show da drag da Amanda Di Poli – que já trazia uma arte diferenciada por ser, durante o dia, a drag queen do carro da pamonha. O show mexeu muito comigo, pois vim de uma vivência dolorosa e violenta que fez com que eu fosse um menino extremamente tímido, acanhado. Quando olhei aquela artista, vi nuances de liberdade que eu julgava inimagináveis. Naquela época, as drag queens eram a “cola” que mantinham a noite unida, apresentando pessoas, unindo quem não conseguia se enturmar.

PL: Quando você descobriu que precisava expressar-se por meio dessa arte? Existiu esse momento específico na sua vida? 

IK: Daquele dia em diante, passei a ir semanalmente ao bar para conversar com as drag queens no camarim e acompanhar os processos. E ali conheci Romana Rose, e dividimos nosso amor por mitologia greco-romana, nos encontrávamos para falar sobre o assunto com frequência. Um dia, ela me disse: você vai ser drag queen e seu nome vai ser Ikaro, por causa da mitologia. A minha resposta foi defensiva, negativa, pois eu percebia como as drag queens eram tratadas na noite e socialmente,então, eu  julgava o preço da arte muito alto. Um ano depois, já não podia mais conter minha vontade de estar naquele palco que eu tanto acompanhava. Em 1999, decidi que ia me montar. Após um ano de pesquisa e planejamento, no dia do meu aniversário, eu ganho a terceira edição de um concurso chamado Stars on Stage, produzido por Morgana Loren, e nasce Ikaro Kadoshi.

PL: Há anos, enfrentamos uma certa padronização de como uma drag queen deve parecer visualmente, e há um imaginário de performance no senso comum. Como foi o processo de descoberta da sua identidade artística, e como foi perceber que ela não correspondia ao esperado pelo mercado? 

IK: Para muita gente que foi educada de uma maneira X, descobrir que existe um alfabeto de A a Z é desconstruir ou fazê-la admitir que o mundo é muito maior do que ela pensava. A arte tem o papel de trazer esses questionamentos ao status quo e de movimentar a alma para lugares diferentes. Quando comecei, o andrógino era visto como horror, trabalhava-se muito, mas só no halloween. Fui o primeiro a fazer música lenta, foi um impacto que gerou um misto de reações. Ser alguém que sai dos padrões é fazer o papel principal da arte: questionar. No meu caso, só o fato de ser uma drag queen de nome Ikaro já provoca um questionamento sobre gênero. Para mim, a arte drag é a mais liberta e infinita, e todos têm o direito de escolher a estética e o estilo que quiserem. O que não é um direito é diminuir a estética de um artista por não pertencer ao padrão vigente.

PL: Ser fiel à própria identidade artística pode trazer dificuldades no mercado drag, como aceitação, prospecção de trabalhos etc. Isso aconteceu com você? Ouviu muitos “nãos” antes da sua ascensão? Pode nos dar um exemplo marcante?

IK: Já vivi várias situações. Um bom exemplo foi em uma participação em um concurso, em que entreguei meu CD com a minha música para o DJ, e ele questionou sobre ela ser lenta, que era “estranho” “coragem”. Mas o mais marcante de todos foi quando uma drag residente de uma casa onde eu faria shows virou para o diretor artístico e disse, na minha frente: “Essa drag vai ganhar o mesmo cachê que eu? Careca? Ela não tem esse direito”. Ouvi muitos nãos, muitas vezes a gente questiona se vale a pena, se nossa arte é compreensível, se é “errada”. O segredo foi acreditar em mim quando ninguém mais acreditou, e seguir o meu fazer com toda a verdade que habita dentro de mim.

PL: Em algum momento da sua carreira, você pensou em adotar uma identidade que “venderia mais”? Como foi a sua inserção na cena paulistana?

IK: Cheguei em SP em 2002, mas já frequentava a Parada desde 1999. Eu tive sorte, acho, pois cheguei em uma cena muito plural, muito diversa. Então, não só não passou pela minha cabeça, como não faria sentido para mim, pois deixaria de ser eu. No final das contas, debate-se tanto a estética drag e esquece-se do debate sobre a estrutura do mercado, sobre a marginalização do artista.  

PL: O Drag Brunch Brasil é um projeto que reúne e fomenta diversos tipos de arte drag, tornando-se referência de evento da cena nacional. Para além deste projeto, você já trabalhou de modo coletivo com outros artistas? Como foi? 

IK: A arte drag, pela premissa da sua formação, é uma arte coletiva. Já fiz muitos shows com várias drag queens que ficavam em cartaz por meses. Hoje, com o Drag Brunch, tenho o prazer de reunir uma pluralidade de artistas, para um público que muitas vezes nem tem noção do quanto arte drag pode ser diversa. Isso proporciona trocas muito ricas entre os próprios artistas e deles com o público.

PL: Ikaro Kadoshi é referência de performance de dublagem que emociona, que traz o drama e a interpretação à flor da pele. Como foi o processo de descoberta dos seus pontos fortes e o caminho para transformá-los em potência?

IK: Meu caminho foi experimentar. Eu fiz todo tipo de show, e é um processo que demanda muita autoconsciência, autoanálise, autocrítica e pé no chão, ainda mais hoje, que a internet traz tanto críticas como elogios vazios. O frio na barriga é vital, porque ele faz a gente dar nosso melhor, se ele acabar, acabou a arte, a motivação, o desafio. No fim das contas, Ikaro fez-se dramático, teatral e forte porque em cima de um palco eu só quero lembrar que estamos vivos, que precisamos viver todas as emoções, para entender o que é passar por essa existência.

PL: Hoje, ainda que o mercado da arte drag esteja muito mais diverso do que foi há algumas décadas, ainda temos alguns gargalos, como o preconceito com algumas formas de expressão, até mesmo com o gênero dos artistas. Como você percebe a aceitação de drags “fora do padrão” hoje, em relação ao início da sua carreira? Quais seriam boas alternativas para uma cena drag mais inclusiva e rentável? 

IK: Tenho uma leve sensação – talvez até um pouco saudosista – de que antes da internet, havia uma pluralidade artística um pouco maior, no sentido do fazer artístico. Hoje, graças a Deus, temos uma diversidade de corpos maior também. Mas é uma questão difícil, pois para melhorar o cenário, é preciso mudar a educação. É preciso que seja ensinado que arte drag é uma das mais belas e difíceis artes que existem. E isso é desde o público consumidor até o mercado contratante. Os espaços de trabalho estão cada vez mais escassos, e para onde vão esses artistas? A comunidade que ama a arte drag fomenta trabalhos também, por mais simples que sejam? É uma resposta complexa quando nos deparamos com a realidade.

PL: Como grande exemplo de artista drag queen que alçou voos inimagináveis, como apresentar as Olimpíadas, painéis em eventos geek e programas em grandes serviços de streaming, qual é o seu conselho para artistas que temem ser “muito diferentes” para o mercado transformista, sejam iniciantes ou com muitos anos de carreira?

IK: Se você quer viver da arte drag, sua arte e seu corpo são uma empresa. Então, qual é o seu planejamento? Já colocou as suas metas no papel? O que é preciso estudar para atingir as suas metas? O que você precisa adquirir de expertise para oferecer um trabalho de qualidade do seu estilo/estética? O resumo para mim de fazer drag é isso: estudar, estudar e agregar conhecimento. E nunca esquecer que esse processo é preciso ser feito com paciência, resiliência e amor à arte.

Pietro Lamarca e Ikaro Kadoshi. Foto: Mônica Lachman

Terapia Revolucionária ou Fantasia Perigosa? Explorando os limites da arte Drag

Kam Middle Space

Quando você encontra uma drag queen, o que você vê?

Kam Middle Space Grafia Drag arte revolucionária

Mais do que simplesmente entretenimento, a arte Drag tem a capacidade de tratar a mente humana! Como? Não faço a mínima ideia… mas te convido a explorar o poder dessa expressão artística como ferramenta terapêutica.

Sabe-se que a arte é um importante canal de expressão da subjetividade humana, que permite ao indivíduo/grupo acessar conteúdos emocionais, analisá-los e retrabalhá-los através da própria atividade artística. A arteterapia é um recurso utilizado por profissionais da Psicologia, Enfermagem, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, sendo definida como “uma prática terapêutica com saber e metodologia própria […] Propicia a imaginação e a vivência simbólica. Facilita a ressignificação de conflitos internos e externos (mentais, emocionais e relacionais)” (UBAAT, 2023). Este recurso terapêutico não apenas aumenta a consciência individual, mas também facilita a autoexpressão e a resolução de conflitos emocionais, resultando em benefícios terapêuticos, conforme apontado por Reis (2014).

Desde os tempos do teatro grego, por meio de diversos níveis de identificação, os artistas organizam seu mundo interno e o representam através de uma simbolização na obra de arte produzida (CAPUCHO, 2020). No século XX, o neurologista Sigmund Freud demonstrou interesse pela arte e propôs que o inconsciente se revela por meio de imagens, possibilitando que artistas representem e expressem conteúdos psicológicos em suas obras, de maneira similar ao uso de palavras (FREUD, 1901). O psiquiatra Carl Jung foi pioneiro no uso da arteterapia em seu consultório, argumentando que a simbolização do consciente coletivo e individual ocorre através da arte (JUNG, 1922). Assim, em qualquer nível de participação em um evento artístico, os indivíduos podem encontrar benefícios terapêuticos. A arte é essencial para a compreensão e transformação do mundo pelo ser humano, fornecendo um meio de se posicionar e se envolver com sua natureza mágica inerente.

Diante disso, é importante destacar a diversidade de formas artísticas que podem ser empregadas para promover a saúde mental e emocional. A arte, incluindo a arte Drag, auxilia o sujeito a se autoconhecer e a se comunicar de uma maneira não verbal, que muitas vezes é mais efetivo do que a comunicação verbal sozinha (CIASCA, 2017). Em certos momentos, expressar sentimentos através de palavras pode ser limitado, e é aí que a criação artística, como a arte Drag, desempenha um papel importante. Ela oferece um meio de expressão que transcende as limitações da linguagem verbal, permitindo que os artistas Drag e seus espectadores explorem e comuniquem seus mundos internos de uma maneira mais completa e autêntica.

Kam Middle Space Grafia Drag arte revolucionária

Nós, artistas Drag, não apenas desafiamos as normas convencionais de gênero, mas também oferecemos um espelho reflexivo para explorarmos aspectos essenciais da nossa própria identidade e experiência emocional.

Confesso que optei por vasculhar esse tema durante as férias em minha cidade natal, Aracaju. Embora a cidade seja conhecida pelas lindas praias e turismo de visitantes que apreciam a tranquilidade, a população aracajuana carece de conhecimento sobre a arte de seu estado (Sergipe), refletindo na desvalorização de manifestações artísticas locais. No que concerne a arte Drag aracajuana, nomes como Alessandra Herreras e Markíbia Mazort se destacam, não só pelo pioneirismo na elaboração de espetáculos Drag, como também pelo esforço em trazer enaltecimento a essa expressão artística na capital sergipana. Apesar disso, a atualidade do cenário Drag de Aracaju muito se assemelha a outras cidades que visitei: ausência de rede de apoio que fortaleça a união entre artistas Drags.

E digo mais… testemunhar essa dinâmica entre cidades como Paris/FR, Milão/IT, Roma/IT, Recife/PE, Aracaju/SE, Salvador/BA, Brasília/DF, Belo Horizonte/MG, Uberlândia/MG, São Paulo/SP e Ribeirão Preto/SP, onde resido, despertou em mim um profundo desejo de explorar a arte Drag como uma ferramenta de arteterapia para a promoção do autoconhecimento do sujeito, investigando a relação entre uma sólida rede de apoio e o fortalecimento da comunidade Drag. Ao mergulhar nesse campo, busco não apenas compreender melhor os mecanismos pelos quais essa expressão artística pode ser aplicada na saúde mental, instituições sociais e escolas, mas também compartilhar esse conhecimento com outros profissionais de saúde e indivíduos interessados ​​em utilizar a arte Drag para desenvolver a autonomia de forma criativa. 

Concluo este texto incentivando uma reflexão, te convidando a ir além do delineado preto e explorar as complexidades e significados subjacentes à arte Drag.

Afinal, quando você encontra uma drag queen, o que você vê?

Referências:

CAPUCHO, M.G. Arteterapia: a arte como recurso terapêutico para a expressão de conteúdos inconscientes. Monografia (graduação) – Universidade de Taubaté, Departamento de Psicologia, 2020. 65f.

CIASCA, E.C. Arteterapia e depressão: efeitos da arteterapia como terapia complementar no tratamento da depressão em idosos. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina, 2017. 108f.

FREUD, S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1901.

JUNG, C.G. Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética. In: C. G. Jung. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 1922.

REIS, A.C. Arteterapia: a Arte como Instrumento no Trabalho do Psicólogo. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 34, n. 1, p. 142-157, 2014.

UBAAT. União Brasileira de Associações de Arteterapia. Nota técnica 001/2023 UBAAT: Recomendações sobre a Arteterapia, a formação e o exercício da profissão do arteterapeuta. 2013. Disponível em: <https://www.ubaat.com.br/assets/downloads/NOTA_TECNICA_UBAAT_2023.pdf>

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Prazer! Eu me chamo Kam Middle Space, sou uma drag queen cujo trabalho orbita entre as esferas da ciência, saúde e arte Drag. Em setembro de 2023, tive o privilégio de explorar a interseção entre essas áreas por meio de uma pauta publicada aqui mesmo no Grafia Drag. Na jornada entre o jaleco e o batom, mergulhei nas profundezas da arte Drag, investigando não apenas sua importância cultural e social, mas também a junção dessa expressão artística, os ambientes acadêmicos e o papel do profissional de saúde.

Vida longa às rainhas: processos criativos e início da carreira drag

Mia The Witch

Quem acompanha o Grafia há algum tempo e gosta dos meus ensaios, já me conhece e sabe que eu sou drag queen há mais de seis anos. Mas se você está chegando agora, muito prazer! Meu nome é Mia The Witch e eu sou uma queen de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O caminho para construir minha persona não foi tão simples. Por isso, neste ensaio irei divagar sobre o processo de criação drag, contarei relatos pessoais e darei alternativas para pensar em um possível começo de montação, tendo em vista o desejo de ajudar as manas que estão iniciando e precisam de um norte para começar a sua montaria.

Mia The Witch processos criativos
Mia The Witch na Workroom em 14/01/2024. Foto: Profª Luná Maldita

Primeiramente, acho de bom tom relembrarmos que drag é arte. Portanto, liberte o seu potencial artístico, não o limite. Mesmo que você busque uma estética específica, não feche tanto suas barreiras criativas. É importante que o resultado do seu trabalho tenha sua marca, mas historicamente artistas do entretenimento tem se reinventado aos olhos do público. Podemos pensar em Madonna que, com uma carreira de mais de 40 anos, passou por diversas eras e mudanças de visuais para envolver seu público em novas versões de sua imagem, permanecendo relevante na indústria da arte. Uma das forças de uma drag queen é essa  capacidade de ser várias e, ao mesmo tempo, uma só, criando  montações versáteis. Sendo assim, esteja sempre receptiva a novas perspectivas do seu trabalho. Até porque, a experimentação é um ótimo caminho para que você entenda que artista você é.

Comecei meu processo de montação através dos experimentos de maquiagem em casa. Não tive família ou amigas drags nesse começo, o que diverge com as histórias de muitas queens, mas pode se aproximar de tantas outras. Por isso, o que me guiou para que eu começasse a me montar foram os tutoriais na Internet. Passei a procurar, cada vez mais, por vídeos que ensinassem a maquiagem drag. Não acredito que haja apenas um processo correto dentro da maquiagem artística, mas caso você não conheça nenhum, os tutoriais podem te ajudar até que você encontre o seu próprio. Além disso, você não precisa ter acesso a maquiagens caras para conseguir um bom resultado, mesmo que os tutoriais que você esteja utilizando mostrem tais produtos. Busque, nestes casos, substituir os produtos demonstrados por outros que caibam no seu orçamento. 

A experimentação da maquiagem drag é um começo necessário. Você precisa ter em mente que seus resultados iniciais nem sempre serão aqueles que você pretendia atingir. Aliás, na maior parte das vezes não serão. Maquiagem é algo que se aprende exercitando e, quanto mais você treinar, melhor irá lapidando as suas habilidades. É muito comum vermos queens que admiramos tanto pela mug perfeita relembrando seus anos iniciais de drag, num resultado que demonstra ter passado por uma jornada de aprendizado até chegar no ponto atual. Treinar e não desistir. Durante esses treinos, busque perceber o que está funcionando para você e quais são as suas preferências como artista. Acredito que assim você irá conhecendo aos poucos a drag que habita dentro de você e poderá aperfeiçoar a sua estética.

Quando eu comecei a minha montaria, eu tinha como referência a drag queen Adore Delano. Além de tutoriais da gatinha, eu costumava buscar fotos dela de vários ângulos para que eu pudesse analisar todos os seus traços de maquiagem e ir emulando o que eu conseguia no meu próprio rosto. Não apenas ela, mas a drag brasileira Pandora Yume também era uma referência dos tutoriais que eu utilizava. Aos poucos, realmente fui me percebendo como uma queen alternativa e punk, como elas. Foi só então que eu comecei a pensar em um nome drag. Eu precisava de algo que ressaltasse essa energia gótica e violenta que minha drag evocava em mim. Um dos meus filmes favoritos é o “Pulp Fiction” do Tarantino. Sempre que assisto ele, as cenas de Mia Wallace me deixam intrigada. Uma Thurman, atriz que a interpreta, criou uma atmosfera misteriosa, alternativa e cheia de revolta para essa personagem. De certa forma, sempre busquei ser alguém como ela – por mais caótica que essa afirmação possa parecer. É assim que Mia tornou-se meu nome.

Ainda pensando em Adore Delano como uma das minhas referências, que costumava se intitular como uma drag sereia, meu primeiro sobrenome foi “Acquagurl”. Com o tempo, fui refinando minha persona e entendendo quem eu realmente era como artista. Então, esse sobrenome não refletia mais quem eu era. Por isso, o substituí pelo meu sobrenome atual, “The Witch”, que na verdade nem é um sobrenome, mas sim um título. Adentro esse fato para também te lembrar que nada é imutável. Você pode – e deve – remoldar sua drag em todos os sentidos que quiser, quantas vezes quiser e forem necessárias. O importante é que você se sinta completa como artista e que seu trabalho, como um todo, represente o que você busca expressar no mundo.

É necessário buscar referências concretas  para que possamos nortear nossas criações. Entretanto, cuidado com as projeções. Assim como eu tive Adore, Pandora e Mia Wallace como inspirações, é evidente que eu sou uma pessoa diferente delas: tenho um corpo diferente, condições socioeconômicas diferentes, mente diferente. Não utilize suas referências como uma cópia, buscando tornar-se um clone delas. Em muitos casos, não será possível e você apenas irá se frustrar. Tente extrair das suas referências aquilo que você considera de mais interessante e criar algo novo e único a partir delas, lembrando e inventando quem você é.

Tendo isso em mente, além de buscar referências em outros artistas, sejam drags ou não, meu processo criativo utiliza também músicas, filmes e peças artísticas. Você é uma artista, encare o mundo a partir desse ponto de vista. Tudo pode ser transformado a partir do olhar de um artista. Mas se você ainda está iniciando no processo, o que me ajuda sempre que tenho um bloqueio criativo é dar uma olhada na minha galeria do Pinterest. Artistas de vários segmentos utilizam a ferramenta como material referencial. Procure por palavras chave que expressem o que você busca com a sua criação e tente construir algo novo a partir desses resultados. 

Não há uma receita de bolo para criar uma drag queen. Arte é subjetiva e vem da individualidade de cada artista. Por isso, não há regras na montação drag. Você não é menos artista por ter opções diferentes das que estão num catálogo estipulado para o drag. Não apenas isso, mas a sua individualidade como artista nasce justamente das coisas que ninguém mais está fazendo, apenas você. Busque se expressar através da sua arte da maneira que você entender melhor, respeitando a todes.

Por fim, quero ressaltar que este ensaio não busca ser um guia normativo de como fazer drag. Quero, a partir dele, traçar possibilidades de um começo para artistas iniciantes que possam se sentir perdidas e, muitas vezes, sem saber como se introduzir no rolê. Contando um pouco da minha história, tento ilustrar uma possibilidade de entrada na carreira artística. Porém, você é livre para experimentar outros processos e, inclusive, eu lhe encorajo a fazer isso. 

O importante é que você comece. A montaria drag é um ato político e precisamos cada vez mais resistir e existir. 

Vida longa às rainhas!

O Calabouço de Cassandra: percursos e processos do ofício drag queen

Em 1998 nasce a drag queen Cassandra Calabouço, um acontecimento na vida de Nilton Júnior, artista que dá corpo à essa expressão artística. Em busca de conhecer a trajetória do artista, realizamos uma entrevista no dia 5 de maio de 2023, na Casa de Cultura Mário Quintana. Nesse encontro, conversamos sobre o percurso artístico da drag queen, considerando seus processos de criação, as transformações produzidas em sua vida pessoal, além das delícias e dos desafios dessa profissão.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Pedro Karg

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(Luná Maldita) Pra começar, eu quero te perguntar como você prefere que eu te chame em termos de nome?

(Cassandra Calabouço) Eu realmente estou muito acostumado às pessoas que me conhecem como drag me chamarem de Cassandra, eu estando de peruca ou não. Então fique bem à vontade, por mim, pode me chamar de Cassandra. Mesmo eu estando sem peruca [risos].

(Luná Maldita) Combinado. Cassandra, desde quando vem o seu desejo de se montar? Você percebe, algum momento em que se manifesta esse desejo?

(Cassandra Calabouço) Olha, essa pergunta não é nova pra mim [risos], muitas pessoas já me fizeram e eu mesmo já me fiz. A resposta inicial que eu encontro, de uma consciência, de um desejo dessa figura da drag, isso teve a sua aparição na minha vida ali nos anos 90, depois que eu assisti ao filme Priscilla Rainha do Deserto. E quando eu estava numa boate, passei pela experiência de ver três drag queens, enooormes, muito coloridas, lindas, eu nunca vou esquecer. Eu ainda tenho essa mesma sensação cada vez que estou frente a uma drag, é algo que mexe comigo de muitas maneiras. Mas eu não acho que foi aí que eu comecei a ter esse desejo de me montar, acho que eu comecei a ter esse desejo desde a minha mais tenra infância. Eu sempre curti me vestir e flertar no universo do que a gente considera vestuário feminino, sempre gostei de figurinos, a coisa da arte sempre esteve presente para mim. (…) Nas roupas da minha mãe, nas roupas das minhas irmãs, que era onde eu comecei a brincar, onde eu comecei sozinho a… [silêncio], eu vou usar a palavra me montar, mas entenda bem que eu era uma criança e eu não tinha a menor noção, mas lá eu acho que foi onde surgiu.

(Luná Maldita) No ato de brincar?

(Cassandra Calabouço) É, a coisa da drag, pra mim, ela surgiu mesmo como uma brincadeira.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Pedro Karg.

(Luná Maldita) E esse show que você falou, que te tocou de uma maneira intensa, foi aqui em Porto Alegre? Você lembra de quem era o show?

(Cassandra Calabouço) Não foi um show, na época não havia espaço pra performance, elas estavam circulando, estavam dando close na rave, que era o DJ Eduardo Herreira que promovia. Essa rave estava acontecendo no Armazém do Cais do Porto e apareceram três entidades, as três muito influenciadas pela estética e pela visualidade do filme Priscilla, com perucas enormes de flores, plataformas imensas, bem diferente do que hoje a gente vê. Mas, naquela época foi isso, era como se eu tivesse vendo ao vivo aquilo que eu já tinha visto no cinema. E uma dessas artistas era um grande amigo de adolescência, que eu nem sabia que se montava de drag, era a Charlene Voluntaire.

(Luná Maldita) A Charlene? Que legal! Admiro bastante o trabalho dela também. [Pausa] Bom, a próxima questão é como e quando você passa a se reconhecer como uma artista drag queen, como foi esse processo?

(Cassandra Calabouço) O que deu esse gatilho pra mim de [estalo de dedos], “sou uma artista drag, sou uma drag queen”, foi quando eu comecei a trabalhar com isso, quando eu comecei a ser remunerado por isso. Porque isso vem pra mim de um lugar de desfrute, de deleite, eu experimentava muuuito a Cassandra, eu brincava muito com essa figura fora da norma, tem a ver com o meu outing e a minha sexualidade. Eu fui muito reprimido, tive uma infância e uma adolescência muito religiosa. Eu não queria ser gay, eu tinha medo, eu achava que eu ia pro inferno, eu acreditava em Deus e diabo [risos]. E eu não queria, eu achava que era errado, sabe? Eu rezava pra não ser gay. E aí, quando eu consigo assumir que eu sou gay e começo a conviver com outros gays, que foi na dança, eu achei que eu poderia ser mais livre. Não sofria mais bullying, mas eu sofria um julgamento muito grande, porque o meu corpo era muito queer, eu era muito afeminado e isso nos anos 1990, na companhia de dança que eu fazia parte, era proibido. Eu fui ensinado, eu fui orientado, eu fui cobrado a me comportar como um heterossexual em cena. Então, a Cassandra surgiu pra mim como uma possibilidade de explorar um corpo que ninguém queria ver. E aí eu vi que podia (…) fazer com gana aquilo que ninguém queria ver que eu era, entende? Era mais do que uma liberdade, era também um lugar de fantasia. Eu brincava com a Cassandra com muita frequência, com muita frequência, mas somente no meu círculo de amigos. (…) Em 1998 surge uma possibilidade de trabalho, eu fui fazer parte do casting de uma casa noturna em Cachoeirinha e começo a trabalhar toda sexta e sábado como drag queen. Era Século XV a boate, foi aí que eu me entendi como artista drag queen. Eu já me apresentava como artista bailarino e a partir de 1998, quando eu publico isso pro mundo, tiro isso da minha zona de conforto, de uma rede de proteção só dos amigos ali no meu núcleo mais próximo, quando eu começo a trabalhar mesmo com isso, fazer para o público em geral, daí eu considero que é o nascimento da Cassandra.

(Luná Maldita) E como você descreve a Cassandra Calabouço?

(Cassandra Calabouço) Eu já tive experiência como ator de teatro adulto e teatro infantil, e danço, esse ano completa 30 anos que eu danço. Então, também na dança já interpretei personagens. No que a Cassandra difere desses personagens? Eu acho que outros personagens que eu fiz e outras experiências que eu tive não eram drag, não chegaram nesse lugar. Porque realmente acho que a Cassandra é feita a partir de uma parte de mim e essa parte não está presente quando eu estou em outras coisas, é só quando estou na Cassandra.

(Luná Maldita) E quais características seriam essa parte?

(Cassandra Calabouço) A caracterização, a minha aparência, a Cassandra ela está presente na minha montaria, ela depende disso, ela depende muito do encontro com o outro. Não é a mesma coisa se eu me montar e ficar em casa só eu. Eu não tenho a experiência da Cassandra se me montar pra ficar em casa tomando um vinho, eu posso ter que me montar pra ficar em casa e gravar um vídeo, é a Cassandra, eu acesso esse lugar. Acho que eu exerço com a Cassandra um lugar onde eu extravaso, ainda hoje, coisas que eu não consigo extravasar quando estou, por exemplo, dançando como um bailarino. Eu atuando como bailarino é maravilhoso, eu amo dançar, mas, é diferente, é diferente.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Giovanni Ceconello.

(Luná Maldita) Eu queria entender um pouquinho melhor como você percebe essa parte, esse território. Que forças que têm esse lugar que você acessa? Como que ela se caracteriza?

(Cassandra Calabouço) Ai, é difícil Luná! Que maravilha, eu adoro pergunta difícil, que forças são essas Luná? É uma força de… capacidade, eu tenho a impressão de que eu posso, me dá a sensação de…, por mais medo que eu tenha, é sempre um medo meu consciente. Se eu estou na persona, se deixo a onda me levar, eu faço. A coisa é a energia da Cassandra, eu acho a Cassandra, por exemplo, ela é mais ágil que eu, acho que o meu raciocínio, quando eu estou montado, ele é mais…, as minhas sinapses nervosas são diferentes. Eu acesso um lugar de improviso, de presença com a drag que eu não tenho desmontado. (…) É um estado de cena, é um estado de presença, de atuação? Mas não é exatamente uma atuação, é uma possibilidade de vivência. Eu não acho que a Cassandra esteja interpretando, não me sinto assim, que ela está vivendo uma coisa falsa. Não, ela existe, a Cassandra existe, ela tem uma vida e tem coisas que só acontecem quando eu estou daquele jeito, quando é naquele papel e que nesse daqui não funciona pra mim, é lá que eu vivo assim. É algo que eu acesso, quase como uma sintonia fina, sabe?

(Luná Maldita) Eu gosto muito de trocar sobre isso, porque pra mim também passa um pouco por aí, sinto que a Luná é um estado que compõe o corpo e que embora seja diferente de Douglas também faz parte desse corpo. Pra mim também não é uma atuação, mas um estado de corpo que pode estar mais ou menos presente dependendo das circunstâncias. [Pausa] Bom, a próxima questão é sobre as relações entre diferentes gerações de artistas, como é isso pra você?

(Cassandra Calabouço) No meio drag, eu procuro ter boas relações, procuro reverenciar e aprender de todas as formas possíveis com pessoas que vieram antes de mim, com as pessoas que lá na época eu nem sabia, mas elas estavam sendo sim uma referência pra mim. As pessoas que abriram as portas, o Lauro Ramalho, o João Carlos Castanha, a Gloria Crystal, são artistas muito fodas, muito fodas, pelo tanto que fizeram e que ainda fazem, são muito fodas. Então eu procuro tratar bem, com o respeito que eles merecem. Se foi difícil pra mim, o que dirá eles, os preconceitos que eu enfrentei e que porventura ainda enfrento por fazer essa escolha artística são muitos. A gente, como homem gay, não sei tu, mas eu sofri bastante assim, de pessoas que não entendiam, tipo, levavam a coisa pra outros lugares, sexualizavam demais. (…) Eu posso dizer que eu vi a mudança acontecer, Luná, eu vi direitinho, tudo! Desde quando era muito feio ser drag, até agora que é tipo, “uau! É drag, ai que legal!”, eu vi isso acontecer. E das novas gerações, eu procuro relevar algumas coisas.

(Luná Maldita) Você tem alguma percepção de um período onde essa transição acontece mais ou menos?

(Cassandra Calabouço) Uhum, de 2015 pra cá, quando RuPaul populariza. Antes disso, não, a partir de 2012, 2013, aí a coisa já começou a melhorar, mas ainda assim não era tanto. E aí com Pabllo Vittar, muito mais, Glória Groove, muito mais.

(Luná Maldita) Cassandra, a próxima pergunta é como você percebe a sua relação pessoal com a sua persona artística. Existe alguma comunicação entre esses lugares?

(Cassandra Calabouço) Existe muita comunicação, existe. Pra minha saúde mental eu gosto de exercitar a Cassandra como objeto artístico, porque daí quando eu recebo alguma crítica, fica pra persona. A gente que é drag, é o nosso corpo, é a nossa pele que está ali [batidas no corpo], é a gente que recebe o tapa, é a gente que ouve a coisa ruim. (…) Eu preciso de um lugar seguro pra conseguir me relacionar com o meu trabalho artístico, porque eu já sou o meu trabalho artístico. E aí, se eu não me afasto um pouquinho, é muito difícil, por exemplo, lidar com crítica. (…) Então, eu delimitei alguns espaços e com o tempo isso vai ficando mais elaborado, cada vez eu consigo determinar mais, isso é meu, do Nilton, isso é da Cassandra, também tem as coisas que são nossas [risos], que a gente partilha. (…) É uma associação e uma desassociação que eu vou lidando, eu acho muito difícil, Luná, essa coisa de entender o que é meu e o que é da Cassandra. É o meu gosto, são as minhas…, imagina! (…) Tudo o que a Cassandra está falando, toda a construção do discurso, eu estou por trás, ou eu vivi, ou eu estou pensando no que eu quero dizer. O formato de exibição é a Cassandra que dá, mas às vezes tem isso, eu que pensei, eu que elaborei, eu que desejei aquilo. Mas e daí, é o Nilton ou é a Cassandra?

(Luná Maldita) Acho que no final das contas talvez seja até impossível localizar modo definitivo, em aula você já comentou que a persona se transforma e a gente também se transforma nesse processo. Então, nessa relação, acho que essa negociação, essa zona intermediária vai se transformando…

(Cassandra Calabouço) Isso, isso. Eles mudam ao longo do tempo, exatamente. E eu acho que muito, pelo seguinte, quando a gente se monta, eu acho que eu nunca volto igual, eu sempre aprendo alguma coisa que muda em mim. E aí, a próxima da Cassandra, já não vai ser o mesmo eu que vai dar lugar pra ela, porque ela também vai ter vivido.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Fonte: Acervo pessoal da artista.

(Luná Maldita) E você percebe alguma transformação no seu modo de se comunicar quando está montado?

(Cassandra Calabouço) Ah, com certeza, com certeza. Eu acho que eu fico mais rápido, eu improviso melhor. A Cassandra fala. O Nilton bailarino, por exemplo, aprendeu a falar em cena a partir da experiência da Cassandra. A minha capacidade de improviso, de humor, ela vem muito mais do feeling que é a Cassandra que me exercita, é o que eu aprendo com ela. (…) Tem coisas que às vezes eu nem acredito que eu disse, que eu fiz, e digo e faço sim, porque pra mim a drag tem esse lugar da potência. É engraçado porque é como se a Cassandra não tivesse filtro, tem muito filtro, mas eu tenho um zilhão de vezes mais. Então, essa experiência com a Cassandra sem filtro, que é com muito filtro, ela, pra mim, é absolutamente libertária. Tipo assim, “meu, eu não acredito que eu fiz isso, eu fiz isso? Eu falei isso?”. Eu falei…, e acabo rindo, achando graça de mim, eu fico feliz com as coisas que eu consigo fazer com a Cassandra. É pra mim um lugar de prazer, um lugar de liberdade, de exercício criativo, no melhor sentido da palavra, CRIAÇÃO. Criação em tempo real, porque tem isso do improviso.

(Luná Maldita) Cassandra, você já participou de algum grupo de drags?

(Cassandra Calabouço) Já, chamava “Teatro de Loucas”, foi ali entre 2006 e 2008, talvez, eu acho que foram três anos e foram anos muito legais. Eu trabalhei com Mad Blush, com a Blush na época e sua ex-namorada Swan, que era ex-namorado já da Blush, éramos sempre nós três e a gente chamava outras drags pra fazer parte de especiais. A gente tinha um processo criativo muito legal, super colaborativo, a gente produzia um especial por mês e apresentávamos no Venezianos. Era o TV Luxo, onde aconteciam coisas gravadas antes que a gente passava lá no telão e ainda fazíamos um esquete na hora, ao vivo, os especiais. (…) Foi um período lindo. Hoje eu vejo a riqueza disso tudo que a gente fez, pensando nossa, que legal.

(Luná Maldita) E além trabalhar com transformismo, você tem outra profissão?

(Cassandra Calabouço) Na verdade, eu sou uma pessoa de muitas atividades profissionais, além da drag, sou bailarino, esse ano fecho 30 anos, 5 a mais do que como drag. A minha formação é em biblioteconomia, então, eu trabalhei como bibliotecário, como bailarino e drag queen. E, também, desde 2001 eu atuo como massoterapeuta. (…) Já tive diferentes momentos na minha vida, onde a Cassandra sempre teve uma importância muito grande para mim, mas isso nunca foi meu sustento. Eu investi em figurino, eu investi em muita coisa. (…) Até 2015 eu nunca vivi de arte, foi em 2015 que eu decidi sair do meu emprego formal e olhar pra drag, o que é que eu podia fazer com isso? De 2015 até março de 2020, eu trabalhei como drag, eu me sustentava dos meus trabalhos artísticos. Eu trabalhava muito, num final de semana, dois, três eventos. E aí vem a pandemia e muda tudo, muda tudo…

(Luná Maldita) Uma coisa que eu fiquei aqui me perguntando é se essa autonomia financeira da Cassandra aconteceu no mesmo momento em que surge o Pimp my Drag.

(Cassandra Calabouço) Exatamente, daí eu largo o emprego formal como bibliotecário e ofereço um workshop que tem três alunos na primeira turma. Veja bem, não é o Pimp que me sustenta, o Pimp demorou até engrenar, o que me garantia eram os eventos e eu não fazia muito casas noturnas, era mais evento do que casa noturna, porque casa noturna tu depende do cachê que a casa tem a oferecer. E aí a minha oportunidade de ganho mais interessante era em eventos, em casamento, em formatura.

(Luná Maldita) Vamos pra última pergunta então. Você tem em mente alguns espaços que do seu ponto de vista tem dado mais visibilidade pra arte drag?

(Cassandra Calabouço) Ahhh, com certeza. O Vitraux, é inegável o trabalho de resistência secular [risos], eles estão lá desde o século passado, desde o final de 1990. Acho que vão completar 40 anos, ou já tem, o Vitraux em primeiro lugar. A Workroom, numa segunda posição, bem mais nova, com seis anos, mas eu acho que o trabalho que vem sendo feito lá dá essa constância que é muito importante pra gente como artista. No meu processo artístico, eu me descubro quando começo a performar com regularidade, eu sei quem eu sou, eu começo a pensar: O que eu quero? O que é que funciona para mim? Eu poder manter uma apresentação por mês na Workroom faz toda a diferença pra mim. Mas eu também já trabalhei durante muito tempo com o Blush, nas festas da Off Centre. Trabalhei de 2006 até 2008, com o Teatro de Loucas, foi muito importante também, porque era onde eu tinha oportunidade de trabalhar todo sábado. O Vitraux também foi um espaço que já me ofereceu muita oportunidade de trabalho, hoje, não mais. Então, eu procuro cavar outros espaços, construir novas oportunidades onde eu possa me apresentar, porque eu adoraria voltar a me sustentar com meu trabalho artístico, é muito gratificante, mas no momento o que eu quero ainda é produzir, eu quero me apresentar, eu tenho essa sede, eu tenho esse desejo de me comunicar com o público. E enquanto eu não virar produtor de conteúdo no Tik Tok, o meu jeito de me comunicar com o público é na cena.

(Luná Maldita) Cassandra, essas eram as perguntas. Te agradeço muito pela oportunidade de te ouvir, de trocar contigo, de aprender contigo. Eu entendo que é nas relações que a gente se constrói, sabe? Então, tem sido muito precioso vivenciar essas relações. Obrigada.

As fases e facetas de Christy Moon

Christy Moon

Comecei a fazer drag em 2018, aos 20 anos, indo para festas. No início o nome era Blanca, usava maquiagens de doações de amigas e quem me apresentou o mundo Drag foi a Methila Sparks (minha mãe drag). Hallyson que era o estilista da Methila, e hoje tem trabalhos com Lexa, Pocah, Lia Clark e RBD, passou a fazer os meus looks que a Karollainy, minha amiga de infância, desenhava para mim. Durante minha faculdade de fotografia, meus trabalhos geralmente tinham uma vertente voltada para assuntos de extrema importância social, o que resultou no meu TCC sobre Drag e Arte.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @renanjesus94. Figurino: @hallymachado

Para o TCC eu tinha a proposta de fazer releituras de famosas pinturas e fazer colagem digital, fotografando pessoas LGBTQIA+, juntando duas artes que são super desvalorizadas, pintura e fotografia. Conversei bastante com as meninas que aceitaram participar, falando que infelizmente eu não conseguiria pagar cachê, ou transporte, e não queria desvalorizar o trabalho delas. Todas toparam me ajudar, e foi uma experiência incrível! Eu acompanhava elas se maquiando no banheiro da minha faculdade, e foi um dos melhores momentos, a gente batia papo, trocava dicas  de maquiagem, e sou muito grato por elas compreenderem e  aceitarem  essa loucura.  Foi um trabalho árduo e difícil. Apresentei meu tcc montado, acompanhado de algumas amigas drags presentes, e ganhei nota máxima. Tenho muito orgulho desse projeto. 

No início da montação costumava usar peruca emprestada, sempre feminina, mas não me identificava tanto. Como eu tinha certo fascínio pela estética andrógina resolvi arriscar e acabou dando certo. Com isso, senti a necessidade de trocar meu nome drag de Blanca para Christy, por ser parecido com meu nome, assim minha drag passa a ser uma extensão de mim. Isso tudo ocorreu no início da Pandemia. O sobrenome Moon é porque sou apaixonado pela lua, e desde criança, eu ficava sentada no meu quintal de casa observando-a, durante horas. Como ela tem várias fases, trago isso para a estética da minha drag que também tem fases (feminina, andrógina, street…). 

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto:@gusttavogelik. Figurino: @halllymachado

No período da pandemia eu fazia lives no Instagram, participei de competições de lipsync online. Eu tinha uma câmera fotográfica e junto com meu irmão Renan, formado em Artes, criei vários trabalhos audiovisuais. Fazia alguns vídeos em casa, saía montada pelas ruas, museus, shoppings, ônibus, tudo para gravar clipes e fazer sessão de fotos. Era cansativo, mas muito satisfatório. Arriscado? Sim, mas também uma necessidade porque sempre gostei de expandir o drag para além das casas noturnas, indo para o cotidiano das pessoas. Sempre busquei aperfeiçoar minha arte, mostrando às pessoas minha identidade, tanto como pessoa, quanto em drag. 

Houve um período em que dei uma pausa, pois era uma montação quase diária, isso me desgastou. Foi até bom, assim me entendi como gênero fluído e passei a  compreender mais sobre minha arte. Cheguei a ser criticada pelas pessoas do meio por não usar peruca em drag, por questões financeiras. Mas isso nunca me abalou, só fortaleceu! Afinal, foi seguindo dentro da minha proposta que fui entrevistada pela Pheno TV para falar sobre minha trajetória como pessoa queer e drag.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @paimgb. Figurino: @hallymachado

Somente em 2023 é que comecei a participar de concursos presenciais, pois antes era só online devido à Pandemia. O primeiro deles foi o DRAGSTAR, famoso e tradicional concurso drag da noite carioca que acontece no Teatro Rival. Todo mês eu apresentava um look diferente assinado pelo Hallyson, com croquis desenhados digitalmente pelo Luke, um seguidor do Instagram que fechou parceria comigo. Também levava fashion vídeos e photoshoots feitos pelos meus amigos fotógrafos Gustavo Gonçalves e Gabriel Paim, foi assim que ganhei seguidores, fãs e conheci outras grandes drags. No concurso, infelizmente não cheguei na final, mas ganhei visibilidade, respeito e com a consciência de que entreguei ótimas performances de sensualidade, sentimentais, libras, e mostrando toda essa sensibilidade que gosto de levar para o palco.

Número “Azul da Cor do Mar” de Christy Moon no concurso The Queens

O segundo concurso que participei foi o tradicional ‘’Queens: O concurso’’, que estava voltando após um hiato, que ocorria todos os domingos durante um mês na Boate Substation em Copacabana. Aprendi muito participando desses concursos, além de fazer várias amizades. Drags que eu sempre via nas baladas e na internet, hoje em dia, eu converso com elas, e tenho alguma proximidade. Estou realizado com tudo o que conquistei até aqui, páginas de Drag Race e outras do meio estão compartilhando minhas fotos e entrevistas, além dos concursos online que seguem aparecendo.

Não vou parar por aqui! Assim como a lua tem suas fases, há muitas outras facetas da Christy Moon ainda por vir.

Como citar este texto

MOON, Christy. As fases e facetas de Christy Moon. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/as-fases-e-facetas-de-christy-moon/>. Acesso em: 27. Nov. 2023.

Consumismo na arte drag

Miss Dangerr

Eu sou Miss Dangerr, uma drag queen vampira instalada atualmente na cidade de Campo Limpo Paulista, em São Paulo. Algumas das coisas que me inspiram são a música gótica, a música industrial e o horror. Recentemente, me tornei compositora de músicas trevosas e é assim que pretendo dar continuidade à minha carreira como transformista. Além de artista drag, sou professor de inglês (puramente como profissão) e escritor de horror.

Desde que iniciei o planejamento de Miss Dangerr, me preocupei em idealizar roupas e acessórios feitos de material reciclável, pois tenho preocupação ambiental e gostaria de trazer essa pauta com minha drag. O que descobri com o passar da minha jornada foi que fazer reciclagem não seria o suficiente para ser uma drag ecológica. Eu teria, também, que aproveitar mais minhas roupas e com isso viria mais um desafio, o de não ser básica.

Miss Dangerr arte drag
Miss Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Em 2019, fiz uma guitarra de papelão, lata e isopor para uma de minhas apresentações. Ficou maravilhosa. No entanto, com o passar do tempo, descobri que reciclar não é tão simples assim. No final das contas, nossos acessórios feitos de reciclagem vão parar no lixo do mesmo jeito que os outros lixos, tendo seu descarte apenas um pouco atrasado. Todos os meus acessórios de material reciclado ou reutilizado foram parar no lixo mais cedo ou mais tarde, porque em algum momento já não precisei mais deles. Ou seja, a reciclagem torna-se um placebo.

Então, o que um transformista precisa fazer para, ao mesmo tempo, ter looks arrasadores e gerar menos impacto ambiental? Bom… Pode continuar fazendo seus acessórios e roupas a partir de lixo, com certeza; mas isso não adiantará muito se a montação durar apenas um dia. Sendo assim, uma das respostas que achei para meus questionamentos foi: repita os looks, aproveite-os mais. A fast fashion é um dos mercados que mais poluem no mundo;  não deveríamos colaborar com ele juntamente às grandes marcas de roupas.

Looks especiais feitos para um único show são comuns na cena drag. Eu mesma já passei horas costurando roupas que usei apenas uma vez, feitas apenas para aquela ocasião especial, aquele vídeo, aquela festa. Note também que RuPaul nunca repetiu um look em seu programa. Eu considero que isso seja um consumismo inerente à arte drag e estou há quase dois anos tentando evitá-lo. Jurei para mim mesma que nunca mais faria  uma roupa de uma noite só. Me sinto livre para repetir minhas imagens extravagantes quantas vezes quiser.

É claro que fazer isso sem parecer repetitiva e básica não é uma tarefa fácil. Agora, meu plano é ter algumas camisas, algumas saias e alguns casacos para combiná-los de maneiras diferentes. Assim, não é necessário fazer algo novo para cada ocasião. Mudar a peruca, o penteado e a maquiagem também ajudam a transformar o mesmo em algo novo. Eu poderia muito bem usar no Halloween a  roupa que usei no Réveillon  mudando somente a peruca e a maquiagem. Por que não? 

Miss Dangerr arte drag
Mis Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Outra estratégia que uso para aproveitar mais as roupas é fazer peças que sirvam tanto para mim, em meu dia-a-dia, quanto para minha persona drag queen, sejam elas unissex ou femininas, já que sou um homem cisgênero que usa vestido, saia e espartilho. Fazer uma roupa cotidiana parecer um figurino de drag queen não é tão difícil, você pode encher sua calça de correntes e alfinetes de segurança tamanho 6 ou colocar quase toda sua energia em fazer um casaco bem chamativo que vá até o chão; dessa forma, ninguém perceberá que você está usando a calça skinny preta que usa para ir trabalhar. Além disso, uma customização e um bom do it yourself podem te ajudar bastante nessas situações. 

Acredito que este trabalho de me vestir para arrasar sem ser consumista e sem desperdiçar material ainda demorará algum tempo para se consolidar. Estou apenas no início de minha adaptação para uma drag queen não-consumista e econômica,  inclusive, começo a pensar  em quais materiais devo ou não usar em minhas confecções. Sei que toda pessoa que se aventura na arte do transformismo é diferente, mas gostaria de convidar outras a refletirem sobre essa questão do consumismo . Você não precisa fazer um look diferente para cada música, para cada show e depois deixá-lo jogado no fundo do guarda-roupas; faça com que o show se adapte a você e ao que você tem. Quando for repetir uma roupa, mude a maquiagem, a peruca e a proposta da performance; as pessoas não têm que se importar. Se achar que está tudo básico e repetitivo demais, lance mão dos acessórios de reciclagem e use sua criatividade.

Todos nós podemos arrasar consumindo menos!

Como citar este texto

DANGERR, Miss. Consumismo na arte drag. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/consumismo-na-arte-drag/>. Acesso em: 13. Nov. 2023.

Feminilidade disruptiva na arte drag: notas de uma mulher-monstra.

Tiffany Plazza

Desde criança, meu sonho sempre foi estar em palcos. Chamava minha família e amigos para assistir performances que criava sozinha no meu quarto, me empolgava com peças de colégio e shows de talentos, em qualquer oportunidade que eu tinha, eu fazia alguma apresentação artística para me expressar e me divertir. O meu questionamento durante grande parte da minha vida foi: como eu quero me apresentar nessas performances? Que tipo de roupas eu quero vestir? Como quero me maquiar? Que tipo de acessórios quero usar?

Eu sempre fui muito feminina, sempre escolhia tudo da cor rosa, adorava brincar de bonecas e brincar com roupas e maquiagens, mas mesmo me identificando com outras meninas em vários aspectos, sempre soube que algo me fazia diferente da maioria delas. Com o tempo eu senti que a feminilidade foi sendo tirada de mim, não só por vontade própria, mas porque senti que precisava me distanciar do que as outras meninas eram, já que eu não era como elas. Isso não significa que eu não me identifique com nenhum tipo de masculinidade e que ser menos feminina me deixou em desconforto, mas também não me sinto satisfeita com apenas uma coisa ou outra.

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Tiffany Plazza.
Fonte: Arquivo Pessoal

“Garota, essa não é você, mas é o que te cabe, logo você vai se acostumar.”

Itziar Ziga, “Devir Cachorra”

Quando conheci a arte drag, senti que encontrei a arte que me representava por completo. Na época, eu não tinha muito conhecimento sobre o assunto, então acreditava que não era uma possibilidade para pessoas como eu, isso porque sempre senti que me identificava mais com a estética de drag queens do que de drag kings, e qual o sentido de uma mulher se montar de mulher? Hoje em dia, não só acho que faz muito sentido, mas percebo que é o sentido que eu estava procurando para subir no palco.

Comecei a fazer drag me inspirando em queens da moda e do glamour e senti que toda a feminilidade que eu sentia que não cabia para a Fernanda, cabia para Tiffany, então pude explorar todos os elementos que eu queria sem medo de exageros e tendo a liberdade de poder me transformar em algo que eu não sou, sem sentir que estou escondendo quem eu sou para fazer isso, pois quando me transformo, ainda represento meus gostos, minhas vontades e minha personalidade.

Foi quando conheci o programa The Boulet Brothers’ Dragula e comecei a inserir elementos de terror no meu drag que senti que encontrei a feminilidade que realmente me representa. Comecei a expressar minha feminilidade incorporando também aspectos que antes eu sentia que me distanciavam dela, como o meu lado mais masculino, e também minhas esquisitices e minha vontade de me montar como um monstro. Eu sinto uma potência muito grande quando nós, pessoas LGBTQIA+ incorporamos essa persona assustadora em frente a uma sociedade que nos coloca num lugar de tanto medo, ao mesmo tempo que nos enxerga como uma aberração. Enxergo como uma apropriação de algo que sempre usaram para me diminuir. Sim, eu sou assustadora, sou esquisita e é por isso que sou incrível!

mulher-monstra
Tiffany Plazza.
Fonte: Arquivo Pessoal

No final do ensino médio, fiz um trabalho de curta-metragem e convenci meu grupo a fazermos um curta de terror. Obviamente me escolhi para interpretar o monstro do filme e lembro que foi a primeira vez que olhei para mim em um vídeo que foi apresentado para todos meus colegas e me senti bem comigo mesma e de estar sendo vista. Até hoje lembro da satisfação que foi ouvir os gritos de terror de meus colegas quando apareci na tela. Naquele momento eu me senti celebrada por ser quem eu sou como nunca antes e é essa celebração que eu sinto até hoje como uma mulher-monstra.

Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQIAPN+

Entrevista por: Douglas Ostruca

Além de atuar como transformista há mais de 36 anos, Gloria Crystal é funcionária pública e participa ativamente na política. Em 2023 assumiu o cargo de chefe da SJCDH (Divisão de Diversidade e de Combate à Intolerância da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos). Em 2022, recebeu do Governo do Rio Grande do Sul, a Medalha Simões Lopes Neto, como forma de reconhecimento pelas suas contribuições para a cultura e para a sociedade de modo mais amplo.  Trazemos a seguir alguns trechos de uma conversa com a artista que aconteceu no dia 24 de julho de 2021, através da plataforma Jitsi. Entre os assuntos em destaque estão questões relativas ao movimento LGBTQIAPN+ e a cena transformista, tendo em vista aspetos da trajetória pessoal de Crystal nesses âmbitos.

Gloria Crystal
Foto: Gerson Roldo

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(Douglas) Gloria, para mim é um prazer estar trocando contigo, sinto que o encontro com esse espaço do transformismo é também um gesto de reavivar e criar outras memórias. Fico muito feliz pela oportunidade.

(Gloria) Também fico feliz, conte comigo pra compartilhar um pouquinho da minha história e da história de uma população.

(Douglas) Gloria, pra começar, você pode falar um pouco sobre sua atuação no movimento LGBTQIA+?

(Gloria) Acho que pra mim tudo aconteceu, assim, por curiosidade, curiosidades que me levaram longe. Entrei pra política, fui uma das primeiras travestis a conquistar um cargo público no Brasil dentro de uma gestão, principalmente em Porto Alegre. Fiquei duas vezes como diretora de inclusão social na Bienal do Mercosul, como trans, negra e periférica. Pra algumas pessoas isso pode ser porra nenhuma, mas acho que isso não é uma luta minha, uma conquista minha, mas de uma população como um todo.

(Gloria) Hoje, eu continuo acolhendo, continuo dando a cara a tapa como qualquer outra militante, isso é uma coisa que tá na alma, no sangue, é uma coisa que tu não deixa. Sinto, às vezes, que a minha parte enquanto militante eu já fiz, por exemplo, eu trabalho num lugar onde convivo com a população como um todo, população que se encontra em situação de vulnerabilidade. Essa não é a realidade de todas as trans no Brasil, não é a realidade de todos LGBTs que às vezes também não tem oportunidade de emprego.

(Gloria) Na política, se tu é de esquerda tu é comunista, se tu é de direita tu é fascista. Tanta gente que fala em democracia, mas tu não pode exercer a palavra. Quando a gente fala do vírus HIV, teve uma luta que não foi partidária, nem partido de esquerda, nem de direita, foram as travestis que tiveram que ir no palácio Guanabara pedir por medicação, não só pelas travestis, mas também pros gays. Quem ganhou muito com isso foi a população gay. O que me incomoda é a falta de memória, parece que o importante é só sair na rua de mão dada com o namorado. Aí é complicado. Com toda essa luta que a gente fez, nós trans ainda passamos por preconceitos. Isso é uma coisa que ainda existe entre nós.

(Douglas) Acho importante esse ponto que você toca Gloria, porque às vezes a gente não reconhece os preconceitos na nossa própria comunidade LGBTQIAPN+, isso precisa ser discutido pra que a gente possa avançar. Também compartilho desse seu estranhamento com as novas gerações, uma coisa que percebo é que acabamos dando mais visibilidade para personalidades americanas e deixamos de conhecer as histórias das pessoas que fazem parte e construíram nossos próprios territórios de vida.  

(Gloria) Depende da gente também fazer com que alguma coisa mude. Eu acho que a primeira coisa é se politizar mais, ficamos muito nas redes sociais e não aproveitamos coisas saudáveis e trocas onde possamos compartilhar ensinamentos, sinto um pouco falta disso. A gente não consegue de forma alguma avançar se não for unido. É como se você estivesse concentrado num QG e fosse pra guerra, no momento em que você está concentrado você está te armando, está te preparando psicologicamente. Por exemplo, a gente tem em Porto Alegre duas Paradas LGBTs, o que é um absurdo, como a gente vai querer união se a gente não se une nem como movimento social pra realizar um evento único, político-cultural. Eu vejo que a gente está perdendo tempo sem querer trocar com outras pessoas e, ao mesmo tempo, em algum momento a gente pode ser chamado pra essa guerra e aí a gente não vai ter armas para se defender. Aí o que acontece, colocam lá um presidente homofóbico, a gente não sabe o que vai acontecer daqui para frente, a gente só sabe que quem é mais vulnerável está perdendo espaço.

(Gloria) Então, quando a gente fala de movimento social, de política pública, de querer avanço no Brasil que é completamente machista, sexista, homofóbico, transfóbico, as conversas, as trocas são extremamente necessárias, porque são armas que a gente tem. E aí independe da idade da pessoa, independe da geração que a pessoa veio, acho que cada uma tem alguma coisa pra acrescentar a outra, entendeu? Eu acho que complementa, a minha experiência pode te trazer alguma coisa de boa e a tua experiência de vida também pode me trazer alguma coisa.

(Douglas) Também acredito nesses encontros, acho que as conversas são um espaço de construção de subjetividade, onde a gente tem a oportunidade de se construir. Gloria, quanto ao transformismo, pra mim essa não é uma cena que já foi, algo anterior ao drag, acho que o transformismo permanece em acontecimento. Eu aposto no transformismo como espaço de conexão, talvez existam aí caminhos para ir além dessas dificuldades de articulação que estávamos falando. Em relação a isso, como você percebe o transformismo?

(Gloria) Na verdade, lá pelos anos 80, era tudo muito tava lá, o palco tava, as boates estavam lá. Tinha que ter três coisas primordiais para tu se destacar, talento, coragem e visual. Porque não adianta você ter talento e não ter coragem pra isso, em uma época em que todo mundo tava muito dentro do armário e o preconceito entre as tribos era maior ainda. Quem fazia show não era da tribo das gays, sabe. Travesti pouco entrava em boate, entrava e as pessoas ficavam com medo, os próprios gays. É bem complicado isso, mas ao mesmo tempo era um espaço bem aberto, bem democrático.

(Gloria) O transformismo é um ato político, artístico, político-cultural. Eu, durante muito tempo, trabalhei em dois lugares. Foi o trabalho da noite, com espetáculos, que me ajudou a sobreviver, e hoje, de vez em quando, é o que me alimenta na hora do aperto, porque todo mundo tem seus apertos. Naquela época era contraditório, entendeu, era contraditório, muitas pessoas chegavam, eu chegava de menininho me produzia na boate que fazia show, tirava a maquiagem e ia embora, se saísse produzida era presa. Aí era complicado, lá a gente limpava a delegacia, transava com pessoas que a gente não queria, era muito complicado, muito difícil. Tu tinha que gostar mesmo, eu tinha que continuar no armário, como muitas continuavam.

(Douglas) É um absurdo que as pessoas sejam presas e violentadas por se expressarem publicamente fora das normas heterossexuais!

(Douglas) Ainda sobre a cena transformista dos anos 1980, naquela participação que você fez no evento Poa in Drag de 2021, você chegou a comentar que no início participava mais da cena que acontecia no gueto e, em algum momento, você teve a oportunidade de fazer shows e espetáculos para a alta sociedade de Porto Alegre, como foi isso?

(Gloria) Você perguntou como é que foi a transição de quando eu saí do gueto. Eu conheci uma pessoa na época, já pelo início dos anos 90, ele começou a me levar pra festas, desfiles, enfim, pra participar de coisas fora gueto. Foi muito bom, Miltinho Talaveira, a gente se vê até hoje. Ele era uma pessoa que me levava, ele levava o novo. Como eu, muitas outras se projetaram na época, como a Carla que era uma travesti maravilhosa, ela era bem voltada ao público familiar, era muito difícil agradar esse povo, era muito complicado. Eu ia fazer festa, jantar de associações conhecidas, eu chegava nos lugares e os maridos ficavam apavorados, mas aí quando eu ia pro camarim eles iam lá me tentiar, entendeu.

Foto: Acervo Alex Cascalho

(Douglas) E como foi que Gloria Crystal aconteceu, como você foi levada até os palcos?

(Gloria) Eu ia muito numa boate que se chamava L’entourage. Era eu e uma turminha, na época, Rebecca McDonald, que foi uma grande artista, Dandara Rangel. A gente não era nada, assim, eu era Miguel, a Dandara era a Jair, o Ronaldo era Rebecca, aliás a Rebecca era o Ronaldo, enfim. Então a gente ficava dançando num canto. Tinha um produtor que os shows eram maravilhosos, ele viu a gente cantando e dublando as músicas, bichinhas né, num canto, as menos bichas não ficavam perto da gente, olha o preconceito desde da época.  Aí, aquele cara chegou e disse assim: tu lembra muito uma amiga minha que é atriz, ela se chama Gloria Cristal. Então ele me chamou para fazer um show, inspirada na figura dela. Enfim, eu achei que era bobagem aquilo, e daqui a pouco eu me dei conta que ele já estava vendo eu cantando lá embaixo, dublando lá embaixo há tempo. Aí comecei a ensaiar Rita Pavoni com ele e ele me lançou num sábado lotadíssimo, que era noite nobre na casa, eu arrasei, foi muito bom!

(Gloria) Partiu dali e eu comecei a fazer show. Participei de um concurso, que na época os concursos eram ótimos. Festival internacional da canção, que era todo o Rio Grande do Sul, e ali eu fiquei conhecida. Aí eu comecei a viajar, sair para fazer festas. Dali pro teatro foi um pulo. Parece um pulo, mas não é não, foram décadas (risos). Então, hoje, eu convivo com essa sociedade como um todo, com teatro, com cinema, eu sempre brinco que a Gloria Crystal não é uma travesti e não é uma transformista, ela é uma instituição (risos).

(Douglas) Ainda na conversa que você participou no Poa in Drag, você mencionou o espetáculo Mulheres do Pau-Brasil como sendo o espetáculo onde você foi da noite para o teatro, né? Como foi essa adaptação das performances feitas em casas noturnas para os palcos dos teatros?

(Gloria) A gente já fazia nas boates shows montados, com diretores, tipo Gaiola das loucas. Era assim, estilo diretor que montava um show pra fulana, pra ciclana, pra várias atrizes, várias transformistas. E aquilo ali ficava semanas em cartaz. Eu lembro que na época o Zé Adão Barbosa, que é meu diretor até hoje, viu vários espetáculos em boates e chamou essas pessoas, dentre elas eu estava junto, que eu sou muito talentosa. Aloka! (Risos). Aí ele montou um espetáculo chamado Mulheres do Pau-Brasil, só que ele não queria fazer aquilo dentro de uma boate, ele queria fazer no teatro. Então, ele levou pro teatro, foi o espetáculo que mais bombou, entende? A partir dali o teatro se abriu pro transformismo, pras travestis. Às vezes eu tenho saudade disso, eu acho que era tudo muito, tudo muito, intenso. Tudo muito bom. Me sinto saudosa às vezes, sabe. Sinto falta das meninas que caíram no meio da batalha.

(Gloria) Na época eu era totalmente transformista, eu ia de neguinho e saia de neguinha, né. Mas eu gostava, comecei a fazer teatro ali. O Lauro Ramalho já fazia teatro, o Everton Barreto. Já o Castanha fez o caminho inverso, ele saiu do teatro pra dentro das boates. Ficamos 10 anos em cartaz com um espetáculo que se chamava O Bordel Das Irmãs Metralha. Mas claro que tem muita diferença. Um show de boate tu não dá texto, tu dubla, pouco texto tu dá. O teatro é texto, texto, texto, texto e texto. Ahh, mas é muito gostoso, porque a gente não faz só pra gay, a gente faz pra um público como um todo.

(Gloria) Eu tô há 10 anos dentro do projeto Porto Verão Alegre. Sempre entro com um espetáculo dentro do projeto, isso é muito bom. Trabalho já há 36 anos como transformista. Hoje eu participo de um grupo, uma companhia de teatro que se chama Companhia Ridícula de Teatro. Eu, o Lauro Ramalho, Everton Barreto e João Carlos Castanha. A gente tá com o espetáculo Rainhas da Noite há 2 anos, ele fala da nossa carreira, são números solos.

(Douglas) Gloria, como você percebeu a chegada da cena drag no Brasil?

(Gloria). Começou ali justamente com RuPaul, por volta dos anos 2000, isso trouxe uma nova imagem, né, de drag. Eu não era drag, eu era transformista. Tenho um amigo meu que mora em Londres que se chama Eduardo Herrera que é DJ, na época ele tinha um contato na Warner, que era a gravadora da RuPaul. Ele comentou que o CD dela seria lançado no mundo inteiro e em alguns lugares teria covers de RuPaul, ele me convidou pra fazer um desses covers. Eu achava que não tinha nada a ver, mas ele me produziu, aí eu comecei. Em Porto Alegre eu fui uma das primeiras a interpretar RuPaul, eu tinha quase dois metros de altura com uma peruca loira, as pessoas compraram aquela ideia. Foi bem legal, porque a gente fez um trabalho que trouxe ao mesmo tempo um novo movimento.

Foto: Acervo pessoal de Gloria

(Douglas) Você comentou agora pouco que Gloria é uma instituição. Sobre isso, como você percebe essa expressão transformista, a Gloria surgiu como uma persona transformista e depois foi se transformando? Como você entende essa separação entre a Gloria do cotidiano, no âmbito pessoal, e a Gloria instituição?

(Gloria) Ahh, legal a pergunta! Na verdade, assim ó, tudo foi um crescimento, eu continuo sendo Miguel, que também é meu nome, eu continuo sendo ele. Eu acho que toda essa mudança, a transição de transformista para trans, eu não me considero trans, eu sou uma louca, eu continuo sendo eu, não sei explicar isso. Colocar seios, mudar o rosto, enfim, na época eu lembro que comecei a fazer essas mudanças pra ficar com rosto mais feminino, pra poder fazer show, isso se exigia muito. Às vezes se estava no palco e as pessoas falavam: olha lá aquela cara de cavalo. Então era melhor você atualizar o rosto. E aí eu comecei todos esses procedimentos.

(Gloria) Mas eu nunca deixei de ser a pessoa que eu sou até hoje, eu olho pra trás no meio dessa história toda, a minha essência sempre foi a mesma, eu sempre fui Miguel. Uma pessoa que tem que batalhar, eu sou por mim mesma e não tem o que fazer. Eu transformei o meu corpo, essa transição teve um motivo, não que eu quisesse hoje ser uma mulher, eu não quero ser mulher, também não quero ser trans. Mas, como aquilo que me dava dinheiro poderia me dar mais, se eu mudasse a minha identidade de gênero, digamos assim, eu tive que optar por isso, e fiz isso.

Foto: Acervo pessoal de Gloria

(Gloria) É claro que tu paga um preço, tu paga um preço, eu não, porque eu sou uma pessoa conhecida, eu sou uma pessoa bem-vinda em qualquer lugar, graças a Deus. Qualquer lugar que eu entrar as pessoas sabem quem eu sou, então eu tenho isso, é legal dá aquele up [movimento do rosto pra cima]. Nesse sentido valeu super a pena, porque todo artista é exibido quer aparecer e eu, como artista, é óbvio que sempre quis e quero, até hoje, aparecer. Então, se eu vou a algum lugar, eu gosto de ser notada, gosto de tirar foto, isso é o carinho verdadeiro. Mas, por exemplo, na sua vida particular você perde muito, tu perde, para ter alguém do teu lado, é complicado, porque as pessoas olham e pensam, é uma trans, então tem que ter um macho do lado. Não é assim, para mim não funciona desse jeito, ter que casar, assim, ah é muito complicado…

(Gloria) Eu moro com uns amigos e aqui todo mundo me chama de Gloria, eu sou a Gloria, mas eu sei quem eu sou nesse universo, entendeu? Eu sei quem eu sou, é comum de repente tu vestir um personagem e… Não que eu vista hoje em dia, eu não, na minha intimidade não, as pessoas que me conhecem e vem me conhecendo elas já, ahh é a Gloria, com o tempo as pessoas percebem como é que funciona isso, que eu não estou 24 horas por dia produzida, sabe? Por isso, antes de falar contigo eu disse, olha não vou me produzir, até para que tu conheça e saiba como é que funciona a coisa da minha cabeça, pra tu poder contar essa história com um pouco mais de verdade, né?

(Gloria) A minha história é única, não é de todas as outras guerreiras da época, porque cada uma pensava de uma maneira, umas viravam travesti porque tavam afim de virar mesmo. Eu virei travesti porque queria ganhar um pouco mais de dinheiro, como eu te disse, em relação à shows, não a programas, nunca fiz, nunca tive talento pra isso. Aloka! (risos). São essas coisas assim, tu perde, por um lado, e ganha, por outro. Mas essa não é a realidade de todas as trans no Brasil né.

(Douglas) Me chama a atenção que não é só você que fala sobre esse espaço do transformismo como um lugar onde as fronteiras entre expressão artística e identidade são fluidas, a própria Rogéria também falava isso né.

(Gloria) Eu e Rogéria éramos amigas, eu ia pro Rio e ficava na casa dela, já viajei com ela pra fazer o Gatos e Leopardos, estivemos um bom tempo juntas. Ela era uma pessoa assim, quando ela falava da tradicional família brasileira, eu aprendi muito com isso, é o valor de estar inserida e ser vista com carinho e não de maneira marginal. Ela separava muito Astolfo, era como eu assim, eu sei quem eu sou. Mas aquela fantasia que as pessoas fazem em relação a mim, isso é problema delas, não meu. Eu já não me preocupo mais com isso.

(Douglas) Sobre isso que você falou, que nem sempre é tudo muito claro e bem demarcado como as vezes parece. Isso me atravessa de algum modo, é também o que me atrai para o transformismo. Eu tenho me afirmado estrategicamente como uma bixa não-binária, mas, ao mesmo tempo, eu sinto que é tão mais do que isso, sabe? Tenho impressão que no transformismo existe espaço pra ir além das delimitações identitárias, encontrar coisas sobre nós que nem imaginamos ainda, sabe?

(Gloria) Eu vou te dizer uma coisa, o que é muito legal, que nos diferencia das outras pessoas, e eu acho que as pessoas deveriam ser mais assim, um pouco mais curiosas. A curiosidade, ela te tira do lugar comum, né, a curiosidade faz com que tu saia da tua zona de conforto. É muito fácil a gente ficar na nossa zona de conforto e não ousar. Eu acho que a partir do momento que tu sai da tua zona de conforto e começa a ousar, tu começa a crescer como pessoa, tu começa a crescer espiritualmente, tu começa a ver o que que tu quer. Então, são coisas que acontecem se tu conseguir sair da tua zona de conforto.

Gloria Crystal no Mixx Bar em 06/09/2022
Foto: Douglas Ostruca

(Gloria) Às vezes as pessoas me perguntam como é envelhecer, pra mim, a grande luta é que minha cabeça não acompanha meu corpo, entendeu. Porque vai indo, a tua idade vai aumentando e tu vai puxando aquilo que tá caindo, eu já puxei muito não sei mais de onde vou puxar (risos). Mas tem um momento que o teu corpo não acompanha mais a tua cabeça. Eu tenho uma cabeça muito louca. Às vezes eu acho que eu tenho 18, 19, 20, 21 anos, e continuo sendo completamente contraditória. Eu contradigo muitas coisas que eu digo e faço, falo de uma maneira e faço de outra completamente diferente. Eu estou sempre saindo da minha zona de conforto, eu não me acomodei. Eu vejo pessoas da minha idade, da minha geração, eu digo: ai bixa, como tu tá velha que horror. Aliás eu pouco converso com bixa velha. Velha que eu falo é no sentido assim, tu pode ter 20 anos e ser velho, entendeu. E tu pode ter 56 anos e tu não ser velha, você é ativa, está querendo produzir. As pessoas cansam muito rápido, então a coisa mais maravilhosa que tem para mim é viver, né, é viver. É fazer alguma coisa, sair da tua zona de conforto, ousar, crescer, aprender, escutar, ouvir, falar. Eu acho que tudo isso faz parte da vida da gente, isso é um conteúdo que a gente leva em primeiro lugar e que acrescenta para ti como pessoa.

(Douglas) É inspirador te ouvir Gloria, através da sua fala e da sua história da pra perceber sua força de vida, isso é algo que me toca, acho necessário afirmar a vida e parece que você faz isso, você afirma a vida. Muito obrigada por compartilhar parte da sua história, foi um prazer estar com você e aprender contigo.

(Gloria) Ahh, brigada, as vezes é bom escutar essas coisas. Eu acho que, acho não, eu tenho certeza, que a única maneira da gente aprender é conversando, lendo, interagindo. Ganhei minha tarde, porque eu tô passando conhecimento, isso é muito bom, nem todo mundo tá interessado em escutar. Às vezes eu tenho essa pretensão de querer deixar algo para uma geração, mas tem um momento que tu cuida e tem um momento que tu quer ser cuidada, eu tô numa fase da minha vida que eu quero ser cuidada por amigos. Eu levanto às 5 horas para fazer meu tik tok, vou trabalhar feliz da vida, pego um bom ônibus lotado, linda, bem cheirosa, vou trabalhar empoderada. Isso é o que me faz feliz no momento.

Como citar este texto

CRYSTAL, Gloria. Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQUIAPN+. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/gloria-crystal/>. Acesso em: 10. Jun. 2023.

*Entrevista publicada anteriormente na edição de maio de 2023 da Revista Parêntese (Grupo Matinal Jornalismo), com curadoria de Jandiro Koch e edição de Nathallia Protazio.

As drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+

Podcast Grafia Drag #2

Podcast Grafia Drag

No segundo episódio do podcast Grafia Drag, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita falam sobre o mês do Orgulho, com destaque para o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+.

orgulho e luta lgbtquiapn+
Foto: Tugce Eerten Barrett
Fonte: Pexels CC

A partir dessa temática, Luná lembra que na revolta de Stonewall que aconteceu nos EUA em 28 de junho de 69, as drag queens assumiram linha de frente na luta. Já Ptera puxa o gancho do orgulho e da autoafirmação, para ela a arte drag ajuda as pessoas a se expressaram,

“(…) tem muita gente que se descobre trans com a drag, né? E eu acho que isso é uma coisa dessa questão, da importância pro orgulho. A drag (…) tem muito dessa questão de empoderamento, de lacre. É muito bom pra gente se conhecer. A gente pega nossas características boas e exalta elas, ou pegamos coisas que queremos ser e exageramos isso”.

Ptera no orgulho e na luta
Ptera Dactyla.
Fonte: Arquivo Pessoal

Ao pensar sobre o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+, Mia lembra de um vídeo de Lorelay Fox, no qual a youtuber sugere que a drag queen é uma porta voz da comunidade. Nesse sentido, Mia entende que “a drag queen, através desse encantamento ou dessa curiosidade que ela provoca nos outros através da arte, ela se torna uma comunicadora em prol da comunidade”.

A partir das falas de Ptera e Mia, Luná diz perceber na arte drag estratégias de sobrevivência, isso porque para ela o processo de montação carrega em si uma potência para “deslocar inseguranças e medos, de se reencontrar a partir de um outro lugar (…)”. Quanto a essas inseguranças, a professora defende que, em parte, são efeitos da imposição compulsória do sistema de sexo-gênero binário a todos os corpos, o qual gera traumas já desde a infância. Esses traumas reforçam bloqueios promovendo o envenenamento do corpo por afetos tristes, por vezes, isso ocorre nos primeiros espaços de socialização e formação de uma pessoa, como a família e a escola. Para Luná, isso é uma questão política, mais precisamente de uma micropolítica do desejo.

Luná no orgulho e na luta
Profª Luná Maldita.
Foto: Henrique Cardoso.

Em relação a essas articulações entre arte drag e política, Mia menciona que “só o fato das manas drags encararem esse local de arte que desafia papéis de gênero, muitas vezes indo contra o que a norma diz que a gente deve fazer, usar, vestir, se portar, só aí, já dá todo um cerne do ato político da drag queen também”. Ptera complementa afirmando que a arte drag produz entranhamentos e desconfortos, seja para chocar, para se divertir, ou só para ser bonita mesmo, existe aí um deslocamento do olhar do outro.

Para situar algumas variações nas montações efetuadas no contexto da revolta de Stonewall, Luná recorre ao livro “Mother Camp”, de Esther Newton, publicado em 1972 como resultado de uma pesquisa realizada no final da década de 60. Newton localiza naquelas circunstâncias dois padrões de comportamento entre as artistas female impersonators (imitadoras da feminilidade) da época.

Por um lado, as stage impersonators (imitadoras de palco) tendiam a se restringir aos limites do palco, essa era uma vertente mais profissional, onde havia demarcação rígida entre esse espaço do profissional da arte e da vida pessoal. Então, fora dos palcos, Newton sugere que essas artistas elas nem se comunicavam entre si. Por outro lado, as street impersonators (imitadoras de rua) andavam montadas nas ruas montadas, disputando o espaço público. Assim sendo, Newton menciona que provavelmente quem tomou a frente daquele movimento lá de Stonewall não foram as stage impersonators que eram as artistas mais estabelecidas no momento, mas, sim, as street impersonators que eram mais ousadas e ocupavam um espaço público.

Em vista disso, Mia lembra da roda de conversa com as Rainhas da Noite, realizada pelo Grafia Drag na Casa de Cultura Mário Quintana em 10 de junho de 2023.  Nesse encontro, entre outros tópicos, Laurita Leão e Lady Cibele falaram sobre diferenças de tratamento entre atores que performavam feminilidade apenas no palco e pessoas travestis que não estavam atuando, esse era seu modo de vida, então se colocavam assim publicamente também. Nesse contexto, Cibele comenta que a polícia enquadrava as drags, as atrizes, mas elas eram liberadas, porque performar a feminilidade no teatro, dentro dos limites do palco, era autorizado. Mas, afirmar no espaço público um modo de vida que desloca o sistema de gênero binário, como no caso das travestis, então elas eram presas e passavam por violências.

Mia ainda sublinha que é importante “(..) pensar que, de fato, essa transformação, essa revolução. Ela nunca aconteceu num local pacífico e muita gente teve que realmente e literalmente dar o sangue, sabe? (…) Durante a roda [de conversa] elas falavam muito sobre o quanto elas tiveram que passar para que hoje a gente consiga sair na rua e pegar o nosso uberzinho, como elas falaram, toda montada. E é muito sobre isso, muito sobre a contribuição que elas deram no passado para que a gente consiga hoje fazer esse tipo de coisa e nos sentiremos orgulhosas, sabe? É uma geração dando força para a outra, abrindo caminho para outra”.

Mia no orgulho e na luta
Mia The Witch.
Fonte: Arquivo pessoal

Ptera lembra que embora tenhamos avançado muito nas lutas, ainda tem muito a ser feito, especialmente em um momento político de ascensão de um movimento conservador que reafirma os valores do sistema de gênero binário e se coloca, entre outras coisas, como anti-trans e anti-drag. Nas palavras da artista, “Eu acho que, claro, a gente ainda tem muito chão para correr, né? Essa questão de imagina, de ser crime ser trans, de não poder ser travesti, não poder simplesmente viver, viver como tu é. E é muito louco, né?”.

Como saída para enfrentar essa situação Ptera situa a necessidade de falarmos por nós próprias de “(…) captar a fala, de retornar o poder da nossa própria narrativa na nossa mão e poder escrever”. Além disso, a drag reforça que precisamos valorizar as artistas que estão ao nosso lado, compondo a cena com a gente, em relação com a gente. Diante disso, professora Maldita também diz considerar importante essa dimensão do coletivo, das articulações coletivas,

“Eu estava comentando com a Mia esses tempos que durante o período em que eu estava mais nessa experiência individual, na montação, ficava muito presa em ciladas de inseguranças. E a partir do momento em que eu comecei a me vincular mais com coletivos, com outras pessoas, o próprio coletivo do Grafia Drag. Nossa, isso me ajudou muito, porque a gente passa a estar conectada com as nossas, né? A gente consegue ir além de armadilhas que sozinhas, às vezes a gente não consegue”.

orgulho e luta lgbtquiapn+
Foto: Tarek Mahammed
Fonte: Pexels CC

Em conexão com isso, Luná também afirma que considera a relação com as artistas transformistas e drag mais experientes num vínculo de ancestralidade. Em suas palavras, “(…) acredito que nessa ideia de uma ancestralidade transformista, uma ancestralidade LGBTQIAPN+, isso também tem relação com a fala, são forças que nos atravessa agora, no presente em ato. Então, o que a gente fala, o que a gente vive também é atravessado por essas vivências e experiencias que vieram antes, né?”.

Além desses tópicos as três artistas abordaram outros aspectos do contexto brasileiro, mapeando alguns movimentos e expressões de resistência que se proliferaram pelos subterrâneos da ditadura militar. Esse é o caso da própria arte transformista que por algum tempo foi autorizada pela censura nos limites do teatro, ainda que proibidas de outras mídias como rádios, jornais, revistas e televisão.

Com esse segundo episódio do podcast, Mia The Witch, Ptera Dactyla e professora Luná Maldita deixam suas contribuições para as discussões sobre as conexões e curtos-circuitos entre os movimentos sociais e as drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+.

Drag: expressão artística transformadora

Ruby Catuaba

Aos poucos, passam a ser mais recorrentes nas mídias as representações na mídia de pessoas trans, não binárias e GNC (Gender Non-Conforming), o que escancara as centenas de possibilidades da expressão humana em relação a arte e cultura. Através do contato com a internet pude entender muito mais sobre a comunidade LGBTQIAPN+ e perceber o espaço coletivo que construímos juntes a partir dos distintos caminhos que trilhamos. 

Assim como na vida de modo geral, na arte drag encontra-se manifestações da diversidade humana, pessoas de todos os tipos e lugares com suas contribuições e perspectivas únicas. Cada drag traz consigo suas vivências, experiências e conhecimentos acumulados ao longo do tempo. São fantásticas as formas de abordagem que encontramos para compartilhar conteúdos e conhecimentos sobre os mais diversos temas, como, moda, arte, música, dança, design e marketing.

É partindo da etapa de explorar possibilidades que nos vemos transformados em drag queens, drag kings e drag queers. Quebramos as barreiras que nos limitam e nos excluem, usando a arte de maneira transformadora para criar espaços e oportunidades onde cada pessoa possa expressar-se livremente. 

expressão artistica transformadora
Foto: Kamaji Ogino
Fonte: CC Pexels

Por meio da arte pude me conectar com pessoas de diferentes expressões de gênero e de diversos modos de se fazer drags. Os exemplos que eu vi em hyperkings, hyperqueens, transformistas, drag queens, drag queers e drag queens foram fundamentais durante a formação da minha persona que está em constante expressão e transformação. 

Tive inspirações com drags como Lady Lazzarus, Venus Envy, Travis Fiero, John Ferri Venti, Naomi Smalls, Miss Fame, Violet Chachki, Dallas De Vil, Marcia Pantera, Vlada Vitrova, Danny Ma Fanny, Desmond is Amazing, Dima Arrest, Sugar and Spice, Manuel Fenty, Shea Couleé,  Sasha Velour, Manny Dingo, Magna Stone, TJ MAXXX, Rogue, Don Valentim, King Baba Moon, Rud Fiamino, Milo de Mix, Donatellu,  Richard Energy, Arrietty, Targét, Dollya Black, Graveyardvomit, Aurah Sin e Divo Ariel. Destaco ainda artistas como Candy Boom, Inn Sonya, Stella Puzzle Pride e Toxy Petrova que me acolheram e formaram uma família que me incentivou sempre a buscar novas ideias e a pensar fora das caixinhas binárias do padrão cisheteronormativo. Além desses citados, há sempre a inspiração através do contato com maquiadores, designers e artistas de todos os tipos. 

Foi a partir do experimento de possibilidades que surgem com a arte drag queen, que eu, Ruby Catuaba, pude expandir minha expressão de gênero e explodir a categoria binária que me impuseram. É a partir dessas vivências artísticas que me descobri novamente enquanto pessoa e artista. Isso me deu base durante minha transição de gênero e durante meu início na arte drag king. 

Drag king expressão artistica transformadora
Foto: Fernando Capetillo.
Fonte: CC Pexels

De maneira sincera, digo que através da arte drag queen e da arte drag king encontrei um espaço transformativo. Passei a construir e a inventar meu próprio caminho, que em diversos aspectos se choca contra os padrões cisheteronormativos de comportamento e expressão que me foram impostos. Atualmente me afirmo e vivo como uma pessoa trans, não binária e GNC e através das minhas descobertas artísticas permito-me expressar livremente de maneiras libertadoras. 

Pensando no quão importante foi, para mim, ter contato com diversas pessoas através da internet, opto por fazer das minhas mídias sociais (Instagram e Twitter) um lugar onde compartilho minhas vivências e abro espaço para que outras pessoas se inspirem e passem a experimentar novas possibilidades de expressão. Embarcar nessa jornada artística pode ser o seu caminho para a autenticidade, permita-se questionar, explorar o desconhecido e testar sua expressão de gênero.

Quem tem medo de drag queen? Da subversão ambivalente de gênero às potências do Fantasiar*

Luná Maldita

A partir do dia 1° de abril de 2023, apresentações públicas de drag queens passarão a ser proibidas em Tennessee (EUA). O projeto de lei (HB9) foi proposto à Assembleia Geral do estado em 23 de fevereiro de 2023, sendo aprovado por 74 votos favoráveis e apenas 19 contrários. A proposta foi encaminhada ao governador Bill Lee que prontamente a ratificou como lei. Existem projetos similares em tramitação em outros 13 estados do mesmo país, como Texas, Kansas e Arizona (G1, 2023; QUEER IG, 2023). 

Segundo o site Queer IG (2023), a nova lei proíbe as apresentações de cabarés em espaços onde menores de 18 anos estejam presentes. Dentre tais espetáculos são inclusos aqueles com “dançarinos em topless, dançarinos exóticos, strippers, imitadores masculinos ou femininos que oferecem entretenimento que apela para um interesse lascivo“.  Aos infratores dessa nova lei, a penalização será uma multa de até US$ 2,5 mil e até um ano de prisão. 

Na citação do projeto indicada acima, notamos que as práticas de se imitar performances de gênero opostas ao sexo designado no nascimento são associadas à lascividade, ou seja, são tidas como um atentado ao pudor, sendo até mesmo vinculadas com práticas sexuais. Como justificava, os proponentes recorrem ao já batido argumento de que é preciso proteger as crianças e os jovens de serem expostos a tais shows. Sabemos que, na verdade, quem tem medo de drag queens não são as crianças, mas as famílias conservadoras que ficam paralisadas diante da fluidez dos códigos de gênero evidente através das montações drag. 

Slaytina medo de drag queen
Foto: Slaytina.
Fonte: Pexels

Não é de hoje que, ao mesmo tempo, essas montações e espetáculos são um sucesso estrondoso, provocando a curiosidade da população e, também, alvos de controle e censura. Conforme demonstra Jandiro Koch (2021; 2022) em seus estudos, as transformistas enchiam os teatros no Brasil já no início do século XX. Nesse mesmo contexto, durante a ditadura Vargas, essas artistas precisavam da autorização da censura para realizarem seus shows. Posteriormente, na ditadura militar, outra vez essas artistas foram alvo, sendo banidas das mídias sociais como televisão, jornais e revistas. Contudo, ainda assim os espetáculos teatrais eram um sucesso e foram até mesmo autorizados pelos militares em alguns casos. 

O que essas proibições e tentativas de controle das artistas drag e transformistas demonstram é que o pânico moral coexiste com a curiosidade e o desejo pelo proibido. Vemos, hoje, uma reascensão das camadas conservadoras da sociedade, as quais trazem consigo o apego aos padrões de gênero binários e estanques que cada vez mais se demonstram insustentáveis como norma hegemônica. Ao mesmo tempo, essa grande preocupação com as experiências que implicam trânsitos de gênero é um indicador que existe aí potência disruptiva. Ao proibirem essas montações nos mostram que elas, de fato, ainda são instrumentos eficazes de luta, mesmo já tendo sido apropriadas pelas lógicas capitalistas. 

***

Partindo do estudo antropológico de Esther Newton (1972), uma das autoras responsáveis por transformar as queens em personagens conceituais, povoando seu pensamento filosófico com essas figuras deslumbrantes, é Judith Butler (2004, 2015, 2019). O primeiro aspecto que a filósofa não-binária destaca nas montações drag queen é precisamente a lógica de funcionamento do gênero de forma mais ampla. Para Butler, as montações drag demonstram que os códigos e atos de gênero não são efeitos de uma substância imutável, isso porque ao imitar esses códigos as drags evidenciam seu caráter flexível. Com base nessa observação, a autora sugere que as montações drag indicam que qualquer performance de gênero é uma imitação de uma imitação, onde o original perde seu lugar mostrando-se como cópia desde o princípio. 

Na continuidade de suas indagações, Butler (2015; 2019) nota que essa a subversão das normas binárias de gênero não é uma garantia nas montações drag. Isso porque, ao mesmo passo em que elas demonstram a flexibilidade desses códigos, essas montações igualmente podem acabar por reafirmar os modelos de feminilidade estereotipados e os padrões de beleza a eles associados. Em princípio, isso parece enfraquecer um pouco o potencial disruptivo das queens. Contudo, mais adiante em suas reflexões, a autora muda de enfoque e passa a considerar nas montações drag o potencial implicado no ato de fantasiar (BUTLER, 2004).

drag monstra além da binariedade de gênero
Foto: Slaytina.
Fonte: Pexels

O termo que Butler (idem) usa é fantasy e não costume, isso aponta que é um fantasiar não reduzido a usar uma roupa diferente. Para a filósofa, a fantasia está envolvida na estruturação das relações sociais e na organização da vida material, através dela podemos imaginar nós mesmas e os outros de outras formas. Assim, a fantasia demarca o âmbito do possível como aquilo que excede o que é estabelecido enquanto realidade num determinado contexto. Quando essas possibilidades outras são corporificadas, elas tensionam e podem alterar os parâmetros de delimitação do que é legitimado como realidade. 

Nas palavras de Butler,

(…) O que deve ser enfatizado aqui não é que a drag é uma subversão das normas de gênero, mas, que nós vivemos, mais ou menos implicitamente, com noções de realidade que nos são dadas, as quais envolvem uma ontologia especifica que é responsável por determinar quais corpos e sexualidades serão considerados reais e verdadeiros em detrimento de quais não o serão. (…) Essas diferenças produzidas como efeito das pressuposições ontológicas que determinam a corporificação da vida têm consequências. Nesse caso, o que a drag evidencia é que (1) esse conjunto de pressuposições ontológicas é processual, e (2) está aberto para rearticulações.

(BUTLER, 2004, p.214, tradução nossa).

Portanto, nessa articulação da figura da drag queen no pensamento de Butler notamos que ela propõe levar adiante a discussão, indo além das questões sobre a subversão das normas de gênero postas anteriormente nos livros “Problemas de Gênero” (2015) e “Corpos que importam” (2019). Assim, nessa variação da montação drag em relação ao conceito de fantasia, a autora está propondo que essas práticas dão a ver os parâmetros ontológicos de realidade que delimitam quais corpos, gênero e sexualidades são legitimados como verdadeiros em dado contexto. Mas, além disso, para a filósofa, essas montações também tem o potencial de agir diretamente nesses parâmetros, levando a deslocamentos e rearticulações, o que também aponta para o caráter processual e aberto de tais fundamentos ontológicos. 

***

A partir dessa pista oferecida por Butler, podemos retomar a questão, “Quem tem medo de drag queen?”. Nos parece que os grupos que buscam banir essas montações da sociabilidade pública procuram retomar forçosamente a hegemonia dos limites binários e heterocentrados de produção do gênero no campo social. Em outros termos, trata-se de uma disputa pelos próprios parâmetros de delimitação do que é legitimado como realidade. Portanto, os grupos conservadores tem medo de drag queens porque essas montações carregam em si, não só a capacidade de desestabilizar as normas de gênero (as quais inclusive podem ser reafirmadas por essas artistas), mas, também a força de agir na própria rearticulação dos fundamentos ontológicos que estabilizam os limites do que é dado como realidade.  

drag além do gênero binário
Foto: Jairo David Arboleda.
Fonte: Pexels

Em vista disso, acreditamos que nós, artistas drag e transformistas, também precisamos passar a considerar as potências de nossas montações para além da performativização de códigos binários de gênero. Nesse sentido, se o que está sendo proibido são “imitadores masculinos ou femininos que oferecem entretenimento que apela para um interesse lascivo”, então, está posto o desafio: que outras formas de expressão podemos corporear para além do gênero binário? 

Podemos partir dessa provocação para levar ao limite nossa capacidade de agir nos parâmetros de rearticulação do que é reconhecido como um corpo possível. Assim, através do ato de fantasiar, demos corpo ao impossível! Isso envolve radicalizar nossas expressões artísticas para além das formas humanas, assim como já fazem as drag monstras que visitam as forças aberrantes do cosmos; as drag Themônias de Belém que estilhaçam os padrões de beleza e os modelos estereotipados de montação; as drags da mata, como Uyrá Sodoma que corporea em sua montação os saberes ancestrais dos povos indígenas. 

medo de drag queen
Foto: Anya Juárez Tenorio.
Fonte: Pexels

Se querem nos banir desse mundo para retomar o controle sobre a produção do gênero dentro dos parâmetros de uma realidade que já se encontra arruinada, usemos nossa potência criativa para intensificar a insurgência micropolítica através de nossas montações. Com isso, recolocamos a questão: O que pode um corpo transformista para além da imitação do masculino e/ou do feminino? 

Transformistas do mundo, com seus leques gigantes em punho, fantasiai outros mundos possíveis! 

Referências

BUTLER, Judith. Corpos que importam: Os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.

_____. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

_____. Undoing Gender. New York; London: Routledge, 2004.

EUA: lei proíbe drag queens de se apresentarem em público e para crianças no Tennessee. G1, [S/I], 10, mar. 2023. Bom dia Brasil. Disponível em: <https://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2023/03/10/eua-lei-proibe-drag-queens-de-se-apresentarem-em-publico-e-para-criancas-no-tennessee.ghtml>.  Acesso em: 21 mar. 2023.  

KOCH, Jandiro. A Porto Alegre dos transformistas profissionais. Grafia Drag, 2021. Disponível em: < https://www.ufrgs.br/grafiadrag/a-porto-alegre-dos-transformistas-profissionais/>. Acesso em: 06 Jan. 2023. 

_____. Darwin: “Imitador do belo sexo” transita pelos teatros brasileiros. Grafia Drag, 2022a. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/darwin-imitador-do-belo-sexo/>. Acesso em: 06 Jan. 2023. 

NEWTON, Esther. Mother camp: female impersonators in America. Chicago; London: The University of Chicago Press, 1972.

TENNESSEE proíbe show de drags e afirmação de gênero para menores. IG, [S/I], 08 mar. 2023. Queer. Disponível em: <https://queer.ig.com.br/2023-03-08/tennessee-proibe-show-de-drags-e-afirmacao-de-genero-para-menores.html>. Acesso em: 22 mar. 2023.

Como citar este texto

MALDITA, Luná. Quem tem medo de drag queen? Da subversão ambivalente de gênero às potências do fantasiar. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <>. Acesso em: 22. Mai. 2023

*Texto publicado anteriormente, em 03 de abr. de 2023, no site Corporalidades: <https://www.ufrgs.br/corporalidades/quem-tem-medo-de-drag-queen-da-subversao-ambivalente-de-genero-as-potencias-do-fantasiar/> .

Para mais informações sobre o tema ouça ep “Caça às drags” no podcast do Grafia Drag:

Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta

Anubis Blackwood

Elke Maravilha uma vez disse: 

“Eu não me contento em ser bonita, isso muita gente é. Uma vez um homem me perguntou: ‘Por que tanto?’ e eu respondi: ‘Por que tão pouco?'”. 

Elke Maravilha

Eu não poderia concordar mais com essa afirmação de uma das minhas musas… por que somos tão podados e limitados pela forma que nos expressamos? Ou, pior que isso: por que passamos tanto tempo considerando essa maneira de pensar ao invés de nos deixar confortáveis com quem somos? Comigo não demorou muito até perceber que o usual, o quadrado, não me pertenceria e que para eu deitar minha cabeça no travesseiro, tranquila, precisaria ignorar tudo o que me foi dito sobre quem eu deveria ser até então.  

Anubis lugar de revolta
Anubis.
Foto: PHJUNIORG

Se descobrir uma artista drag aos 16 anos, foi libertador, mas também foi um teste para tudo que estaria por vir. Eu havia acabado de conhecer conceitos feministas, ativismo LGBTI+, nunca tinha feito parte de companhia de teatro e não tinha nenhuma certeza concreta sobre como me identificava. Eu era bissexual, pansexual? E sobre identidade de gênero? Eu era não-binária? Que tipo de artista eu era? Passava horas pensando nisso tudo, pois na época sentia que ser uma menina cisgênero que mal sabia sobre sua sexualidade não era o suficiente para ser como RuPaul, Dimmy Kieer e Vera Verão, ainda mais por se tratar de 2015, onde ao procurar ‘drag queen mulher’ no Google apareciam poucos resultados que de fato me levassem a compreender e me relacionar com o que estava vivendo internamente. 

Eu procurei tanto, e tudo que me aparecia eram termos como ‘faux queen’, e ao pesquisar mais via que a palavra ‘faux’ significava ‘falsa’ …mas o que eu sentia era tão verdadeiro! Eu podia não compreender muito quem eu era, mas o que tinha certeza é que eu não me encaixava nesses termos excludentes. Ao passar o tempo treinando a arte, via que as similaridades que buscava entre Dimmy e Vera eram muito maiores que as diferenças. Parei de procurar por imagens de ‘sucesso’ semelhantes a mim, e comecei a traçar meu futuro da forma que achava certo. 

Assim compreendi que, sim, ao decorrer do tempo teriam muitos questionamentos em volta da minha identidade enquanto mulher cisgênero, que essas questões viriam interna e externamente, mas por mais complexo que fosse para uma jovem se entender e se identificar no meio desse turbilhão de ideias, esse, era o caminho que me dava uma razão para viver. 

O tempo muda, e com ele os modos como nos entendemos, mas ainda sinto que a arte drag me salva… a diferença é que, hoje, eu racionalizo o motivo de me salvar. A sociedade misógina do jeito que é pode ser muito agressiva para uma mulher em formação, e para mim não foi diferente. O direito de ir e vir é colocado em cheque, até mesmo os mínimos detalhes do que se faz.  Tudo isso pode ainda piorar, dependendo da roupa que se usa e do que se fala. 

Ser relembrada, todos os dias que certas coisas não são tão possíveis, simplesmente por se ser mulher, deixa qualquer uma de nós desgostosa. Ora, então como poderia eu, com uma mente artística tão livre, me contentar com essas limitações? Mas também, como poderia eu, tão jovem, sozinha, ir contra um monstro tão grande desses? 

Anubis lugar de revolta
Anubis
Foto: PHJUNIORG

Agora entendo que Anubis Blackwood surgiu de um lugar de revolta,  ela foi meu próprio mecanismo para me tornar mais forte e inatingível. Ela veio me levar para um lugar fantástico onde é possível me sentir completa, absoluta e assumidamente eu. Onde não sou rotulada, onde crio minhas próprias regras, onde tenho minha deusa pessoal para me auxiliar quando a realidade sufocante faz com que sinta que não sou artista ou alguém o suficiente. 

Eu tentei por muitos anos não pensar na Anna Clara enquanto reinada por Anubis, mas em algum momento entendi que por mais que minha drag fosse minha armadura, meu porto seguro, existiam motivações e referências que vinham de mim, um indivíduo cheio de inseguranças e cicatrizes. Ao entender esse elo, essa junção de seres e quereres que sou, consegui aos poucos achar amor próprio, auto compreensão e entender que Anubis, Anna Clara e todas mais que virão são uma só. Por esse fator busco hoje inspiração nessas cicatrizes encontradas em mim num todo, e o que antes entendia como rótulo hoje entendo como identidade. 

Apesar das expectativas, minhas performances não são e nunca serão iguais às performances feitas por artistas drag de outros recortes sociais. Isso porque o nosso ‘eu’ não é igual e muitas vezes sequer é parecido: nossa vivência é diferente e assim nos molda enquanto artistas. O assédio, a violência contra a mulher, a invisibilidade de pessoas bissexuais e demais problemáticas que me atingem são questões que influenciarão diretamente cada escolha de música, de figurino, de mensagem. 

É óbvio que a motivação vai além do fato da arte drag ser para mim terapêutica, reabeliante e cicatrizante, afinal, estamos falando de uma das artes mais vivazes que poderíamos imaginar. Idealizar um projeto inteiramente seu e que será instalado em você mesme, no seu corpo, é revolucionário! O processo de criação, de autodescobrimento é, no mínimo, excitante, e traz uma sensação de graça, desenfadamento na vida que só acontece no ato de se montar. 

Anubis processo criação
Anubis
Foto: Bernardo Pfaff

E quando mostramos ao mundo o que secretamente preparamos por dias, meses, anos? Ah, nesse momento o feeling é exatamente o que Gloria Groove diz em ‘Gloriosa’: “no caminho até o bar, o mundo para pra ver a rainha passar”. Se todos param mesmo, aí eu não sei, já que frequentemente o brilho do alter ego é tão forte que chega a cegar, mas acreditar que por algumas horas nosso magnetismo é capaz de mudar a energia de um ambiente inteiro, causar alternâncias na respiração de quem nos olha, trazer um pouco de fantasia, utopia para quem nos assiste é divino, e depois de tantos anos fazendo isso diria que chega a se tornar sagrado. 

O fato é que todo mundo busca fazer algo que dê sentido a essa louca jornada, algo que nos dê a impressão que fizemos nossa parte no fim do dia, e ao decorrer do tempo compreendi que por mais que nem sempre me deem palco, cachê ou condições para exercer minha função, ainda assim encontro afago e autossatisfação ao causar esse impacto em quem está disponível para  senti-lo. 

Encontrei no meu caminho pedras, mas também encontrei alívio, reparação, mil e uma versões de mim, e posso dizer que vi beleza até nos piores momentos. Bem-aventurados são aqueles que não aceitam o que é atribuído a si de primeira, que procuram formas de se redescobrir a cada dia, que vasculham cada fração do ‘eu’ em busca de se compreender, e logo ser feliz ao se afirmar no mundo.  

Afinal, Elke tinha razão, pois nessa revolução estética que é cada montação, as ideias vão surgindo de simples questionamentos como: Por que não? Por que tão pouco? E eu, não conformada, aceito com alegria cada desafio que a mente e o mundo quiser me dar, e no meio de tanta alienação e incerteza: eu vou é me jogar!

Como citar este texto

BLACKWOOD, Anubis. Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/por-que-tao-pouco-arte-drag-como-lugar-de-revolta/ . Acesso em: 10. Abr. 2023.

Para sair da zona de conforto: uma boa competição

Tiffany Plazza

No final do ano de 2021, recebi uma mensagem no Instagram de uma drag queen chamada Victoria Blossom, me convidando para participar de sua competição de drag online, SuperQueen. No início pensei “uma drag queen iniciante como eu, que mal tem figurinos e nunca performou em público terá condições de já participar de uma competição?”. Resolvi então consultar amigos que me fizeram olhar para essa oportunidade de outra forma: e se essa competição me ajudasse a ter essa evolução que eu precisava? Por que esperar me sentir pronta ao invés de usar essa oportunidade como um mecanismo para evoluir? 

Por ter começado a fazer drag na pandemia, sem shows e eventos para ir, acabei sem muita motivação de me desafiar, afinal, meu grande sonho sempre foi performar em público e a vida de criar conteúdos para o Instagram e para o YouTube estava monótona e desmotivante para mim.  Resolvi, então, participar da competição com essa motivação: independente do meu nível perto das minhas competidoras, eu entrei para me desafiar e aprender. Cada desafio que viesse eu sabia que seria trabalhoso para mim, porque meu armário drag era muito limitado e, para realmente entregar algum trabalho que eu me orgulhasse, eu teria que criar peças e figurinos novos sozinha, algo que eu não estava tão habituada a fazer, ainda mais em um curto período de tempo.  

uma boa competição Tiffany Plazza Vitraux
Tiffany Plazza no concurso The Queens 2023 do Vitraux.
Foto: Ptera Dactyla

Para a minha surpresa, a experiência no SuperQueen não só me ajudou a construir meu armário drag que eu tanto queria, mas também me fez descobrir uma verdadeira paixão pelo processo de fazer os meus looks. Desde então, esse processo me motivou a aceitar mais desafios que vieram pela frente, inclusive outras  competições. Acabei descobrindo também novas possibilidades para trabalhar no meu desenvolvimento e versatilidade como artista. Em toda competição se encontra desafios que serão mais fáceis ou mais difíceis, dependendo das habilidades de cada artista, assim como desafios que nos tiram da nossa zona de conforto de diversas  maneiras, como, por exemplo, a necessidade de trazer referências, estéticas ou práticas , que não aplicaríamos em nossa arte se não fosse por aquele desafio, naquela competição específica. Então, o mais importante é: como trazer esses elementos que fogem da nossa zona de conforto sem perder a nossa essência diferencial? É esse meu principal foco quando participo de competições porque, afinal, em uma competição é preciso agradar, principalmente, aos jurados com os mais variados gostos e opiniões. 

uma boa competição Tiffany Plazza Workroom
Scarlet Bloom, Myah Michelle, Tiffany Plazza e Ptera Dactyla no concurso “Copa do mundo das Drags” da Workroom.
Foto: Carla Menna Barreto

Isso não significa que eu acredite que participar de competições é a melhor ou única maneira de evoluir a própria arte. Cada drag possui sua trajetória e seus  objetivos. O que eu busco nesse texto é trazer um olhar diferente para nossos objetivos dentro de competições, um olhar a partir de uma perspectiva que não seja de ganhar ou de perder, mas de evolução e de aprendizado. Nem sempre o que é requisitado  em determinada competição precisa ser  realmente aplicado no nosso trabalho, é sempre saudável analisarmos nossos próprios objetivos para saber que críticas levar em consideração e quais não te interessam fora da competição. Por isso, acho perfeita a famosa frase dos Boulet Brothers (donos do reality show de competição de drag alternativo, “The Boulet Brothers Dragula”) que é dita antes dos jurados falarem suas críticas: 

“Nós não estamos aqui para julgar seu drag. Drag é arte e arte é subjetiva. O que nós vamos julgar é seu drag em relação a essa competição e aos desafios que lhes são dados” 

Boulet Brothers.

Pra mim, isso quer dizer que uma vitória não significa alcançar a perfeição, assim como uma derrota não significa que existem apenas erros numa montação. Como uma drag queen que ainda é iniciante, gosto de pensar que minha maior competição é sempre comigo mesma, pois o meu verdadeiro objetivo ao me inscrever numa competição é me superar e sentir cada vez mais orgulho do meu trabalho.  Quando  olho para a drag que eu era quando comecei a participar do SuperQueens, minha primeira competição e olho para a drag que sou hoje e para o trabalho que apresentei no concurso The Queens, do Vitraux, última competição que participei,  me sinto uma verdadeira vencedora em toda essa trajetória. 

Como citar este texto

PLAZZA, Tiffany. Para sair da zona de conforto: uma boa competição. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/uma-boa-competicao . Acesso em: 14. Fev. 2023.

Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag

Candy Boom

Olá, confetes de chocolate. Essa é a forma como chamo meus leitores, seguidores, ouvintes, espectadores e afins. Acho interessante chamar assim porque são coloridos, diversos, e por dentro temos muitas semelhanças, sabores e dissabores.

Sou a drag queen Candy Boom, feita, pensada, vivida, experienciada e (des)construída pela Michelle, uma mulher cisgênero (Até onde sei), gorda, professora de geografia, catarinense, de São José, cidade ao lado de Florianópolis, nascida em 23/12/1990 e que finalmente colocou pra fora a persona drag em setembro de 2018, na parada da diversidade de Florianópolis. 

Candy Boom desafios da arte drag
Candy Boom
Fonte: Arquivo pessoal

Acho importante colocar esses recortes para entenderem os lugares de onde minhas percepções sobre a cena drag partem. Fui encantada por personagens desde criança. Eu assistia as transformistas na TV, os Shows de Calouro, imitava a Britney Spears na escola. Minhas memórias me falam que eu era a única pessoa mais voltada a esse estilo de pop no fundamental II. Participava de teatrinhos na escola como personagem principal e depois no ensino médio, no terceirão, lembro da minha turma não querer performar no final de ano e eu me “enfiei” com a turma do segundo ano para poder participar de alguma forma. 

No primeiro ano do ensino médio também participei de teatrinho na escola. Eu estava sempre empolgada com danças e divas pop, mas por ser gorda o balé não foi um caminho que se abriu pra mim, tive que me contentar com o Kung Fu na escola, isso no fundamental II ainda. 

Foi somente quando entrei na faculdade que o mundo das baladas LGBTs se abriu pra mim, as festas alternativas do centro de Floripa não eram necessariamente exclusivas para gays. Foi lá, em 2009, que pela primeira vez acharam que eu era hostess da balada e adorei, mesmo sem receber um tostão. Tive grandes referências de mulheres cis a frente das baladas, Fernanda Almeida e Samantha Daus foram figuras emblemáticas que me faziam nem sequer cogitar que mulher não poderia estar onde estavam. Aqui na grande Florianópolis isso nunca foi uma questão pra mim. 

Mas durante a pandemia, recebi hater misógino por fazer drag, por ser drag. Claro que não posso afirmar que não tenha perdido oportunidades por ser mulher, mas isso nunca foi evidente. Diferentemente da gordofobia, que é extremamente escancarada. As pessoas duvidam do que eu posso fazer em palcos, do quanto aguento, do quanto consigo entregar em arte. 

Nesse sentido, há também toda a questão envolvida com a manutenção do padrão corporal, especialmente por ser uma cidade litorânea, o “corpo do verão” é muito cobrado por aqui. Quem não se encaixa no meio, ou corre pelas beiradas, ou acaba largando em busca das tais “profissões mais sérias”. O corpo gordo está muito em exposição para julgamentos e nas baladas e pubs que frequento são raros os corpos gordos. Esperam a comicidade como única fonte, traçam vilania como a gente pode perceber nas representações de vilões de filmes/desenhos infantis. Na própria Divine, inspiração pra Ursula, nós vemos a comicidade e vilania presentes. Claro que esse também é um caminho louvável, mas há outros. A arte drag é múltipla. 

Candy Boom desafios da arte drag
Candy Boom
Fonte: Arquivo Pessoal

Em quais lugares, em quais espaços, em quais corpos a arte drag pode estar? 

Em todos! Seja uma celebração de casamento, um aniversário, uma festa temática, um open bar, um show… Na maioria dos lugares que frequento eu levo minha drag, inclusive na própria sala de aula que já consegui levar em rodas de conversa e palestras. 

Reafirmo, a arte é pra geral! Qualquer pessoa pode ser artista, ou mesmo produzir algum tipo de arte. No mundo drag temos uma grande barreira midiática, há reforços do conceito de que quem começou a fazer arte drag foram homens gregos que precisavam atuar como mulheres já que as mulheres eram subjugadas e negavam o palco a elas. Contudo, temos outras vertentes dessa história, temos travestis e mulheres trans à frente da arte drag, temos histórias fora do eurocentrismo que mostram rituais de montação sendo feitos por mulheres. Temos muitas inspirações. No Brasil dos últimos tempos temos Elke Maravilha, por exemplo, que é uma explosão de referências e trejeitos drags. Temos em nível internacional a própria Lady Gaga, Stefani Germanotta, que criou e dá vida à persona Lady Gaga. 

Quando frequento baladas e me apresento para pessoas, algumas delas perguntam se sou mulher e falam que não sabiam que mulheres poderiam fazer drag. Então minha didática é colocada em cheque e explico sobre podermos estar em quaisquer espaços. Sabemos que o salto alto foi criado para um corpo masculino padrão do século XVII, porém há registros até mais antigos de saltos. As próprias convenções de cores que atualmente tanto reforçam que rosa é de menina, na verdade, sendo o rosa um vermelho enfraquecido, ele era utilizado pelos filhos homens da nobreza, cujos homens ostentavam vestes vermelhas. 

As questões de vestuário de gênero foram construídas, desconstruídas, misturadas, ressignificadas com o passar dos séculos, e hoje, novamente estamos nesse processo. Processo no qual é completamente habitual mulheres usarem calça, contudo, no ocidente, um homem de saia ainda causa estranheza ou até repúdio. Falar que mulher pode ou não ser ou fazer algo é complicado demais. Existem ainda pessoas que falam para mim que deve ser mais fácil eu enquanto mulher fazer drag. E não, não é mais ou menos fácil. Como mulher cis não preciso aquendar, mas quem disse que toda drag feita por homem cis ou mulher trans ou ainda não- binário precisa? Temos opções de vestuário em que não aparece volume de órgão geniral, como as saias, os tutu de bailarina, e mesmo quando aparece, qual é o problema?. 

Outra questão é a valorização financeira da arte drag, que é urgente! O público e os próprios clientes querem ver glamour, mas o glamour é caro e o cachê não acompanha essas expectativas . É muito difícil manter a arte drag viva no saldo positivo, no lucro. Perucas, penteados, roupas, pedrarias, sapatos, ornamentos personalizados, objetos cênicos para as performances… Além de uma maquiagem minimamente saudável que não precise retomar o carvão que muitas drags usavam. Eu como professora que moro com minha família ainda consigo me manter, conheço pessoas que entre um bico aqui outro ali entregam/vendem panfletos com seus desenhos ou/e suas poesias para assim sustentar um pouco das suas artes drag. 

A arte no Brasil é dispendiosa, muitas vezes elitista, quem tem dinheiro consegue mantê-la, quem não tem dificilmente alcança palco, são obstáculos a mais, e a barreira de morar em uma região provinciana, mais conservadora torna ainda mais complicado. Existem escalas de artistas, acredito que seja uma das profissões que isso mais acontece, essa divisão hierarquizada, mesmo com uma mesma função uns ganham mais outros menos de acordo com os investimentos, com os interesses dos investidores. Nós, professores, sabemos que recebemos pouco, mas há certo piso, certo controle nisso. Um artista é muito difícil ter esse controle. Os Jobs surgem aqui e ali, oferecem cachês que às vezes nem o transporte paga, quanto mais todos os apetrechos que mencionei anteriormente que um artista transformista precisa para se apresentar. 

É difícil manter a criatividade em cima quando muito do que pensamos para formar uma performance tem valores acima do cachê que será recebido após a performance. Aqui no Brasil não temos a cultura do público colocar dinheiro na roupa da drag. Quem sabe com um reforço assim conseguiríamos retroalimentar performances nesse sistema. Enquanto borbulham ideias para deixar a arte viva, vamos fazendo como o bom brasileiro “na gambiarra” mesmo, com várias adaptações, cortes, recortes, cola quente e muita, muita explosão doce e amorosa.

O que quero destacar nesse texto é que qualquer pessoa, independente de gênero, altura, comprimento, largura, peso, tamanho de pé, tamanho seja lá do que for, pode performar, pode ser drag. Nós já estamos falando de uma arte que rompe caixinhas da heteronormatividade, não vamos somente trocar de caixas né?! Além disso, não há facilidade ou dificuldade em termos biológicos para mulheres ou homens fazerem/serem drags. O que há é a dificuldade  financeira, certamente, e social. Os olhares julgadores para o corpo feminino são intensos, as restrições do que mulher pode ou não fazer são imensas.  O que podemos fazer para mudar esse contexto? Continuarmos lutando contra preconceitos e conquistarmos mais e mais mulheres para entrarem na arte drag, rompendo os próprios receios do que “pode e não pode” e outros empecilhos desse mundo.

Como citar este texto

BOOM, Candy. Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/desafios-da-arte-drag/. Acesso em: 16. Fev. 2023.

A arte drag queen para além dos padrões de feminilidade

Grottesca

Precisei desconstruir muitos conceitos até me reconhecer como uma drag queen. Quando descobri minha persona, Grottesca, percebi que sempre a tive dentro de mim. Isso porque, mesmo antes de conhecer a arte drag eu já queria fazer algo além do cover de Marilyn Manson,  artista que influenciou bastante minha expressão artística. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Me lembro da primeira vez  que tive contato com mulheres fazendo drag, foi através de um grupo no Facebook onde elas estavam divulgando suas artes. Até então, me parece que essas  páginas dedicadas a reality shows eram usadas mais exclusivamente por homens gays cis. 

Entre tantas questões que surgem das minhas vivências como drag e como  mulher cis, enfrentei muita intolerância e preconceito fora e dentro da comunidade LGBTQIA+. Além disso, quando se é asiático, esperam de você uma submissão, um comportamento generalizado e reprimido que precisa atender as necessidades de quem colocou esses rótulos em cima de toda uma etnia. 

Também me recordo do momento em que surgiram as declarações da RuPaul sobre mulheres trans e cis não serem legítimas ao fazer drag. Essas afirmações foram ainda mais fortes  por terem sido feitas por uma pessoa que representava a comunidade LGBTQIA+. Falas como essa partem de um lugar de quem não entende a dor de ser uma mulher numa sociedade extremamente patriarcal e machista, tampouco a força que precisamos ter em muitas áreas da nossa vida para lidar com tudo ao mesmo tempo. 

Os ataques foram totalmente gratuitos, os comentários misóginos eram relacionados com nossas partes íntimas, além do argumento de que teríamos “vantagem” por ter partes do corpo que não precisavam utilizar enchimentos ou serem escondidos. Essas afirmações ignoram totalmente corpos trans e desrespeitam toda a luta e sacrifício feitos por essas pessoas para que a comunidade LGBTQIA+ esteja onde está hoje. Felizmente, depois dessas polêmicas o reality show RuPaul’s Drag Race acabou abrindo portas para pessoas trans e mulheres cis participarem, porém elas foram  por muito tempo rechaçadas e tratadas como piada nesse espaço. 

Parece que havia uma obsessão em exigir feminilidade das mulheres cis e trans como se esse fosse um pré-quesito para serem aceitas nesse meio.  Minha drag  representa um lado alternativo  relacionado com a subcultura gótica, a qual também não é uma performance de feminino dentro dos padrões estabelecidos socialmente. Nós, as drags alternativas, recorremos aos nossos próprios espaços e comunidades como forma de encorajamento e apoio do que consideramos belo, profundo e cheio de significado. Trabalhamos  com os horrores de modo mais visceral e contamos  de forma lúdica tudo aquilo que a sociedade fecha os olhos. Além disso, também produzimos performances com experiências de vida que são intensas e introspectivas.

Considerando a historicidade de submissão de mulheres na sociedade, quando falamos em performar feminilidade estamos tentando alcançar o maior número possível de mulheres espalhadas no país . É quando em nossas performances celebramos a multiplicidade de corpos e expressões de gêneros que dançamos uma sinfonia de celebração da vida em suas infinitas possibilidades. Por isso pergunto, por que limitar nossa  visão a apenas uma forma ou outra? É pensando nisso que nunca compreendi as padronizações em uma arte que desestabiliza os padrões sociais e que desafia as expectativas que a sociedade espera de indivíduos LGBTQIA+.

Em relação a isso, existem muitas variações de feminilidades. Em minha vivência como mulher cis e asiática, saliento que temos também outras referências para a arte  drag. Na cultura do Japão, a performance da feminilidade aparece no famoso “Kabuki”, criado por uma mulher chamada Okuni que representava tanto papéis femininos quanto masculinos, com encenações sobre a vida cotidiana de forma cômica. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Meu avô também praticou essa arte.  Em minha percepção como artista, eu não pensava em atrelar essa cultura à minha identidade drag, porém, vejo o quão necessário isso se tornou pra mim com o passar dos anos. Isso porque é uma forma de empoderamento pessoal e de me sentir mais autoconfiante em representar algo que me traz orgulho e me conecta com a cultura dos meus familiares.

Quando fui convidada para participar de um concurso online durante a pandemia, chamado Balbúrdia, essa experiência mudou tudo para mim e pude explorar muitas outras facetas da Grottesca, a qual mesmo após três anos de vida ainda tinha zonas de conforto enraizadas. Toda essa interação me fez desmontar a compreensão  de que a personalidade drag precisa ser pautada em um padrão enrijecido para ser válida, muito pelo contrário. Com isso, os meus processos criativos mudaram a ponto de poder me divertir em contar histórias com terror e humor ácido. A experiência nesse  concurso também me levou a criar Ghaspar, meu alter ego  Drag King, o qual me permite  explorar mais esse lado das masculinidades que até então era um território desconhecido. 

No momento em que compreendi que poderia ser uma representatividade apenas sendo eu mesma, a visão que tinha de arte mudou totalmente. Passei a entender que a arte  não pode ser medida ou classificada, cada expressão tem sua particularidade, seu brilho e é justamente isso que as faz únicas e belas. Não acredito que a arte tenha sido criada unicamente para um tipo de pessoa ou para destruir, mas para expressar aquilo que não podia ser dito em momentos de censura. 

A arte drag nos faz entrar em contato com nossa criatividade e com um mundo introspectivo. Embora no Brasil a cena local seja pouco valorizada, nos fortalecemos como comunidade quando levantamos nossa bandeira repleta de lutas e vivências, representando toda a nossa existência que não será apagada por intolerantes e conservadores. 

Quando grupos de minorias discriminam outras minorias, estão dando um tiro no nosso próprio pé. É exatamente isso o que o conservadorismo quer, nossa desarticulação, já que assim é mais fácil para nos demonizar e deslegitimar qualquer luta e liberdade que temos conquistado.

“As trevas que habitam em mim, saúdam vocês.” 

                                                          Grottesca.

Antes que a noite acabe

Sandro Ka*

Numa das esquinas da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), na intersecção da Travessa dos Cataventos com a Sete de Setembro, o reflexo colorido e iluminado rebate nomes nas fachadas e vidraças da rua, invadindo a noite e os olhares curiosos dos sujeitos passantes. Tomando de assalto e de surpresas um dos espaços culturais mais populares da cidade, um ser feito de perucas, uma mão de cristal rodeada de brilhos e um totem luminoso chamam a atenção para aquele espaço, nem sempre avistado. Fora da vista. Uma quina, um lugar de intersecções e encontros. Aqui e acolá, nem aqui, nem lá: um espaço perfeito para tal presentificação. Nessa zona, instalou-se a exposição Antes que a noite acabe, uma homenagem à parte significativa de nossa produção cultural: a cena drag e transformista da cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (RS), Brasil. 

Antes que a noite acabe 
Casa de Cultura Mário Quintana
CCMQ – Antes que a Noite Acabe
Foto: Cristyelen Ambrozio

Rebecca McDonald, Cassandra Calabouço, Gloria Crystal, Dandara Rangel, Charlene Voluntaire, Laurita Leão, Maria Helena Castanha, Lady Cibele, Suzzy B. Artistas drags e transformistas de ontem e de hoje. Nomes tão representativos para uma classe artística que enfrenta dilemas e dificuldades para se manter viva e presente. Um fazer que forma e informa sobre tal produção simbólica que vem elaborando-se, atravessando tempos e lugares, como uma forma de reinvenção e, sobretudo, como uma forma de resistência a processos de violência contra sujeitos LGBTQIA+ que se manifestam no apagamento de suas memórias e elementos culturais.

A partir dessas premissas, foi instaurada a exposição Antes que a noite acabe, realizada de junho a agosto de 2022, no Espaço Marilene Bertoncheli (CCMQ), em Porto Alegre. Nesse contexto, como uma manifestação artístico-cultural produzida por artistas e performers, a arte drag e transformista é evocada como um fenômeno que atravessa campos e linguagens do conhecimento na cultura contemporânea, evidenciando binarismos, trânsitos, fronteiras e performatividade das identidades e do gênero (LOURO, 2013).

Como visualidade e conceito, elabora-se a partir da mistura/reunião/montagem de elementos advindos dos mais variados contextos e significados, articulados na performance e no corpo de artistas, independentemente da identidade de gênero ou orientação sexual. Podendo manifestar-se por meio de performances diversas assim como desejarem seus agentes artistas, por meio de trânsitos e deslocamentos identitários e culturais que produzem estranhamentos na constituição de suas personas, a arte drag e transformista afirma contradições e rupturas de padrões estabelecidos tanto na Arte, quanto na sociedade. Nesse sentido, como um fazer que é tanto artístico quanto social, afirma-se como um modo de afirmação política. 

Proposta como uma ação celebrativa ao Mês de Junho, alusivo ao Orgulho LGBTQIA+, a CCMQ me fez um convite que fora prontamente aceito e, de forma provocativa, teve como resposta trazer à luz do dia, como uma efeméride urgente, a diversidade da arte transformista e da arte drag, manifestações artísticas identitárias e produtoras de significados para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queers, intersexuais, ou de gênero fluido, que tanto se produzem na noite, no palco, da cena como lugares de excelência. Zona de breu, face oculta que esconde/revela tantas existências possíveis e dissidentes ao se abrirem as cortinas. Sua presença no espaço cultural, assim, colocou-se como um grito, uma forma de pôr em evidência identidades e práticas culturais que refletem modos de ser e de viver de uma diversidade de expressões de gênero e sexualidade que foge às normas e regras convencionadas socialmente. Modos de ser e existir que, como personas, na noite, assumem outros corpos, outras formas e outras vidas. 

Composta por um conjunto de obras inéditas, a exposição celebrou a Cultura LGBTQIA+ que se expressa no universo da noite, das saunas, pubs, boates e inferninhos que, nesse circuito que se desenvolve à margem do circuito normativo de festas, diversões e prazeres, constitui identidades, valores e muitos de seus elementos culturais. Na forma de um totem luminoso, elemento marcante da noite, da festa e da alegria, a três metros de altura, a instalação Antes que noite acabe (2022) dava corpo à memória como uma provisória caligrafia escrita em luz de led, destacando nomes de artistas transformistas e drag queens da cena cultural LGBTQIA+ gaúcha. Entre esses nomes, in memoriam, personalidades como Dandara e Rebecca, estrelas que brilham em outros lugares, fixam-se na retina de quem vê. Como, também, nos afetos e na memória do artista que vê nesses nomes, lugares de pertencimento e constituição identitária enquanto um sujeito cis gay que teve suas subjetividades atravessadas por um circuito guetificado e, em sua juventude, um lugar seguro para a performance de sua sexualidade.

Antes que a noite acabe 
Sandro Ka
CCMQ – Antes Que A Noite Acabe
Foto: @ocorre.lab

Surgindo no lusco-fusco, iluminado da manhã à noite, 24h por dia, a instalação homônima à exposição revela uma constelação de estrelas que insistem em se inscrever na história cultural do estado. Uma caligrafia afetiva, na contramão dos borramentos e apagamentos da memória, reflexos de violência contra sujeitos que fogem às expectativas da cisheteronormatividade compulsória que também se expressa na produção cultural.

Mais ao centro da sala, a obra Dois apartamentos no Montserrat (2022) se apresenta na forma de assemblagem composta por uma mão de acrílico cravejada de anéis e emergida em brincos, pulseiras e outras jóias, protegida por uma cúpula de acrílico, ladeada por quatro cadeados metálicos. Falsos brilhantes que materializam a ironia e o deboche sobre as verdades inventadas e sobre o verdadeiro valor das coisas. Afinal, quanto vale a magia possível do faz de conta, da transformação?  

Antes que a noite acabe 
Sandro Ka
CCMQ Antes Que A Noite Acabe
Foto: Cristyelen Ambrozio
Antes que a noite acabe 
Sandro Ka
CCMQ Antes Que A Noite Acabe
Foto: @ocorre.lab

Acerca do fascínio e das transformações que estão no centro da arte drag e transformista e da sua capacidade de vir a ser, a escultura Monstra (2022) coloca-se no espaço expositivo como uma entidade mágica, uma aparição. Multicolorida e volumosa, composta por uma vasta cabeleira formada por dezenas de perucas lisas, crespas e onduladas, corporifica um dos adereços mais característicos das personas drag, parte fundamente da montaria. A monstra encara os espectadores no ambiente e não há como não ser arrebatado por tal presença. 

Pensada como um happening, na vernissage da exposição, à noite, quatro artistas homenageadas ocuparam o espaço com performances embaladas por um set dançante criado pelo DJ ricktocadisco, inspirado na noite dos anos 90/2000. Gloria Crystal, Laurita Leão, Charlene Voluntaire e Cassandra Calabouço evocaram suas personas para interagir com o público e a partir do espaço expositivo que se faz palco, questionando os lugares e os limites da arte drag e transformista. Afinal, qual o lugar possível para essas manifestações artísticas? Em sua continuidade, a exposição desdobrou-se em outra atividade, o Matinê Drag, num sábado à tarde, uma roda de bate-papo trazendo histórias de bastidores da cena, ampliando a presença de artistas como Suzzy B. e Maria Helena Castanha, outros nomes celebrados. Noite ou dia, qual o lugar da arte?

Antes que a noite acabe
CCMQ – Antes Que A Noite Acabe
Foto: @ocorre.lab

A arte contemporânea afirma-se como um lugar incontestável de possibilidades, seja como práticas ou discursos. No borramento entre vida e arte, drag queens e transformistas evidenciam práticas artísticas que não só perguntam, mas que passam a inscrever outras narrativas sobre as narrativas hegemônicas que, por sua vez, perpetuam formas de violências estruturais, como o esquecimento. Noite ou dia, na boate ou na galeria de arte, tratam-se de manifestações artísticas que trazem em si, narrativas dissidentes e marginais em toda sua potencialidade, pois, “à medida que afirmamos a margem como lugar, também a reconhecemos como uma medida possível para olhar o mundo” (KA, 2021). 

Assim, de forma festiva e política, a exposição Antes que a noite acabe, ao celebrar a arte drag e transformista, lança reflexões acerca da Cultura LGBTQI+ implicadas no reconhecimento da existência de uma produção simbólica e estética que, contrariando as lógicas e processos de violência, produz elementos de identidade e afirmação de existências, que produz novos significados a partir da representação artística. Antes que a noite acabe: ao instalar-se na CCMQ, lança mão das alegorias da luz, da montaria e do humor, propondo-se a iluminar parte da nossa produção cultural e da nossa memória, na contramão do abandono e esquecimento. Se presentifica, assim, como luta e valorização da arte e das possibilidades inventivas de nossos corpos, identidades, pertenças e fazeres. Como valorização de nossas existências, para que essa noite de celebração nunca se acabe.

Referências:

BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um preconceito. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010. 

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomás Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2020.

KA. Sandro. Sujeitos LGBTI+: direitos, culturas e identidades. In: GUELMAN, L.; KUTASSY, M.; GRADELLA, P. (Org). Territórios da Arte. UFF/Funarte. Rio de Janeiro: Mundo das Ideias Produtora e Editora Ltda, 2018.

KA, Sandro. A partir da margem se faz lugar. In: Associação Chico Lisboa (Org.). Catálogo da Exposição Fora da Margem. Porto Alegre: Elisa Moog, 2021.

LOURO, Guacira Lopes (Org.). Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

* Sandro Ka é artista visual, professor e pesquisador na Escola de Belas Artes da UFMG. Doutor e mestre em Artes Visuais (PPGAV/UFRGS). Desde 2003, realiza exposições individuais e participa de mostras coletivas em diversas cidades, desenvolvendo produções nas linguagens de desenho, escultura, instalação e intervenção urbana. Em âmbito de pesquisa, possui interesse na área de Poéticas Visuais e nas articulações entre Arte Contemporânea e Produção Cultural, bem como nas relações entre Arte, Política e Sexualidade.

O coletivo na montação: eu, quando me monto e olho no espelho, vejo outros

Olga Devana

Eu me chamo Olga Devana, moro em Natal-RN mas sou de Sorocaba/SP, sou arte-educadora, percussionista e professora de música. Iniciei a carreira artística na música ao 11 anos e aos 24 decidi me aventurar na arte drag. Os motivos que me levaram até o transformismo me renderiam um outro texto mas vamos nos atentar para esse que resolvi escrever: eu, quando me monto e olho no espelho, vejo outros.

O coletivo na montação Olga Devana
Gargalhada. Maio de 2021
Foto: Felipe Mendes, edição: Tiago Rodrigues

Quando penso na arte drag, pelo menos em minha vivência, penso no coletivo. Eu penso no artista independente, que na verdade é o artista que mais depende do outro. Do público, dos grandes produtores e das oportunidades.

Eu comecei me montar num formato de dupla/irmãs gêmeas, tipo as Deendjers. Mas Franchesca e eu não entendíamos nada de maquiagem, mas como Franchesca fazia parte de um grupo de teatro, ela conseguiu que o maquiador do grupo de teatro maquiasse a gente, que aliás é ex-drag da extinta cena de Sorocaba e Marcelo acabou nos adotando como “filhas”.  Ao me montar pela primeira vez, quando olhei no espelho, eu vi o Marcelo, que nos ensinou muitas coisas.

Com o passar do tempo, eu decidi comprar alguns itens de maquiagem pra ir praticando minha própria maquiagem, pra não ter que pedir toda vez pro Marcelo. Quase um ano de vivência transformista e  eu ainda estava engatinhando com a maquiagem. Via muitos tutoriais e todo mês separava uma graninha para comprar um produto novo. Ganhava um batom daqui, um glitter dali e, aos poucos, minha nécessaire foi ficando equipada.

Nessa época, eu ainda escondia da minha família. Minha mãe, Valdirene, quando soube não gostou muito e isso só parou de incomoda-la quando comecei a namorar e, então, meu namorado Tiago, mostrou uma performance que fiz para homenageá-la. Tempos depois, ela me deu um batom e uma saia. 

O coletivo na montação Olga Devana
Fundo infinito. Dezembro de 2021
Foto: Vennuz MC

Depois de dez meses de namoro, eu fui morar com o Tiago que, aliás,  me apoiava, me encorajava e me ajudava muito com a drag. Me ajudava com figurinos, colava meus cílios, fazia fotos e, inclusive, era praticamente meu motorista particular para os eventos. Logo quando me olhava no espelho montado, eu também via a minha mãe e o Tiago.

Voltando um pouco no tempo, eu lembro que logo após começar a me montar, em um rolê de Carnaval, encontrei com uma conhecida, ela me abraçou e disse assim: “Vi que você começou se montar, se um dia você precisar de algo, fala comigo que eu te ajudo. Roupa, sapato, maquiagem, o que for”.

Agradeci, mas achei estranho, pois não éramos tão próximos assim… mas nas vésperas de um evento, um imprevisto fez com que eu recorresse a essa conhecida: a Grazi. E como prometido, ela me ajudou. 

Desde então, a nossa amizade nunca mais foi a mesma, hoje somos irmãos. Nesses anos, ela me presenteou com maquiagens, roupas, sapatos, me ajudou com produções de vídeos, fotos, logística e, além de uma irmã, a Grazi virou minha fã número um. Toda vez que eu me monto e olho no espelho, eu vejo a Grazi.

Obviamente que eu não vou citar todas as pessoas que já me ajudaram, pois são muitas, mas eu quero que esse texto seja uma carta aberta de agradecimento para todas essa pessoas que me ajudam, que acreditam no meu trabalho e contribuem para o meu progresso.

Hoje eu moro longe de todo mundo que um dia já me ajudou, numa cidade com uma cena drag incerta, onde não estou inserida ainda. Apesar das incertezas, o desejo de se transformar segue comigo. Ainda me maquio ao menos duas vezes por mês ou mais, quando a ansiedade ataca, e toda vez que eu me monto e olho no espelho, eu vejo outros.

Todos estes outros que já me ajudaram, que me presentearam, que me fotografaram, que me emprestaram, que em mim acreditaram, que me aplaudiram. 

Eu sou um artista independente, o tipo de artista que mais depende do outro, e sou muito grato por saber que posso contar com muitos outros. E assim sigo, me montando e sempre me olhando no espelho, pois sempre há um novo outro pra eu enxergar e me reconhecer.

O coletivo na montação Olga Devana
Harness. Setembro de 2022
Foto: Acervo pessoal

Atlas Drag

Régis Amora

Tenho por prática artística primordial borrar fronteiras. Esse é meu gesto mais genuíno. Meu compromisso. Desestabilizar  o olhar a partir de um fazer cultural contra-hegemônico. Há 10 anos me entendo fotógrafo enquanto LGBT inserido no meio da fotografia majoritariamente heterossexual cearense. Nesse tempo pude seguir, vezes com minha parceira de Descoletivo Marília Oliveira, vezes sozinho, realizando (insistindo) em possibilidades de criar e contar nossas próprias narrativas.

Em 2021 lanço Atlas Drag, primeiro fotolivro o qual assino individualmente, pela editora {lp} press. Nele, exercito (des)organizar minha pesquisa  em Arte drag, com enfoque nas escolhas estéticas destes artistas nas últimas décadas. Na publicação, avançamos um pouco mais ou retrocedemos um pouco mais: chegamos ao surgimento do teatro e suas máscaras como referência visual para falar de montação. A linha tênue entre verdade e simulacro e o que está exatamente entre.

Atlas Drag Régis Amora
Livro Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

A escolha do nome “Atlas” subverte o que se espera de um: enorme, pesado e catalográfico. Um jogo com o leitor que terá em mãos um livro pequeno, delicado e com aplicação de paetês em sua capa. O design gráfico performa o tempo todo a catarse, o erro, o improviso, a precariedade. A liberdade editorial, inspirada na estética dos zines, exala frames de vídeos do youtube e imagens em baixa definição no passar das páginas.

As possibilidades que se tem em mãos com o suporte livro são infinitas. A mais divertida, por hora, é desafiar o fetiche burguês de entregar um livro caro e de edição luxuosa. O que deve importar, no fim de tudo, é a conexão da obra com o leitor. Borremos mais uma fronteira.

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Atlas drag: um fotolivro-montação das cenas transformistas

Luná Maldita e Tiffany Plazza

Régis Amora convidou a equipe do Grafia Drag para participar de um diálogo sobre o livro Atlas Drag, o qual ocorreu no dia 11 de agosto de 2022, no X Seminário Internacional Curta o Gênero. Em nome do Grafia, estavam presentes Tiffany Plazza e Luná Maldita. É a partir dessa conversa que escrevemos as linhas que se seguem.

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Lançado em 2021, o fotolivro “Atlas Drag” de Régis Amora, apresenta um mapa dos territórios drag e transformistas. Esse livro promove uma imersão nas processualidades drag, mostrando não só montações em cena, como também, incorporando os movimentos simultâneos de montação-desmontação em sua própria forma. Podemos dizer que se trata de um fotolivro-montação, já que essa obra se constrói através da metalinguagem das montações. 

Atlas Drag Régis Amora
Livro Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Ao percorrer as páginas desse fotolivro-montação, passamos por camadas e fragmentos de territórios passados, os quais através do próprio livro são justapostos gerando outras formas de expressão no presente. É nesse sentido que o Atlas-drag não organiza memórias linearmente, mas intervém sobre elas, deixando em aberto rotas de fuga, caminhos que transbordam a própria cena drag mainstream contemporânea. 

Atlas Drag Régis Amora
Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Em meio aos fragmentos das distintas cenas, percebemos aspectos da cena drag local de Fortaleza (CE), do transformismo latino, das female impersonators americanas, as quais se afirmavam antes mesmo da ascensão da estética drag que vemos hoje nas mídias. Assim, através dessa cartografia podemos ser levadas a (re)construir laços de ancestralidade, os quais se estabelecem na medida em que nosso olhar direcionado aos fragmentos do passado também é atravessado por eles. Nesse percurso proposto pelo livro, encontramos olhares, gestos, corpos granulares que persistem no tempo e passam a viver  em relação a nós. 

Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Junto aos distintos espaços-tempo, o Atlas-Drag trabalha com diferentes materialidades como, frames de vídeos do YouTube, materiais de arquivo (documentos e fotografias), fotografias feitas pelo próprio artista, esculturas, rastros de performances, corpos (des)enquadrados, croquis, texturas de tecidos… e é articulando esses elementos que o próprio fotolivro-montação se monta enquanto tal.

A transitoriedade artística da drag queer Alma Negrot

Maí Yandara

“Eu poderia estar pintando um quadro, mas estou pintando a mim mesma”

Alma Negrot
Alma Negrot Denissitta Fotografias
Alma Negrot
Fonte: Denissitta fotografias

As questões referentes às experiências estéticas que causam tensionamentos sobre os diferentes espaços que ocupamos no mundo, desde muito cedo, me atraíram.

Sempre fui fascinada por manifestações culturais que deslocassem o meu olhar para lugares ainda não habitados por mim: experimentações que causam desconforto estético; que propõem tensionamentos políticos, culturais e sociais; que expõem as feridas e deixam-as sangrar; que nos fazem pensar sobre o papel da arte na contemporaneidade.

Face a estas reflexões, há muito tempo tenho me debruçado a observar variadas manifestações artísticas que diluem as fronteiras entre arte e vida, considerando a forma como o artista se impõe sobre o mundo revelando  sua maneira de descortinar a realidade e o modo como compartilha sua subjetividade com a sociedade.

Quando observamos um artista operando artisticamente, a curiosidade vem à tona: Quem é a pessoa por trás daquele artista? Quem é o artista por trás daquela pessoa? É o que costumeiramente questiono.

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Em uma deriva pelo YouTube – entre os vídeos da Björk e do Sigur Rós – cheguei até o canal DRAG-SE e me deparei com o Crisálida Especial com Alma Negrot, um filme de Oasis.

ALMA | Um filme de OASIS | CRISÁLIDA ESPECIAL com Alma Negrot
Fonte: Canal Drag-se / YouTube

Fascinada por esse acontecimento artístico, comecei a me instigar pela arte e pela vida de Alma. Foi aí que, em uma entrevista ao canal da Regina Volpato, a drag queer, como ela mesma se intitula, diz: “A Alma é a mistura de todas as coisas que eu sinto, que gostaria de ser e coloco em prática a partir da performance, da pintura. É uma expressão minha. Eu poderia estar pintando um quadro, mas estou pintando a mim mesma. Eu sou artista”.

Vale destacar, aqui, que o artista por trás de Alma Negrot é Raphael Jacques, nascido em Gramado, no Rio Grande do Sul, de onde saiu cedo para se permitir explorar  sua arte. Ao descrever o processo de transformação que sucedeu com Raphael, poderíamos dizer que havia um menino queer que queria ser artista. É a partir da diáspora, causada pela intolerância e pelo conservadorismo familiar de sua  própria cidade de origem, que o artista se encontrou com a criação de uma Alma. Esse processo  o permitiu a transfiguração do lugar comum de artista interiorano em um lugar no mundo intergalático, atravessado pelas  temporalidades evanescentes do ser queer.

Alma Negrot Monstermovie
Alma Negrot
Fonte: Monstermovie

Como drag, ela permite se reinventar a cada momento, buscando uma liberdade como alguém de gêneros transitórios, não se afirmando nem como masculino, nem como feminino.

De modo bem elementar, pode-se dizer que Alma Negrot é queer sendo como é e o que é. Ela transita por entre as composições  “lésbixa”, “lesbigay”, “vodoo”, “cyborg”, “queen”,“tranimal”, “anarcopunk”, “ecodrag”, “guerrilheira”, “terrorista”, “não-humana”, “porn-drag”, “viado”, produzindo uma expressão própria em seu processo

Aqui, arte e vida, criador e obra, são traçados no mesmo fio condutor da transitoriedade artística drag. A expressão drag se coloca como processo de encontrar-se a si mesmo, mas já a partir de outro lugar.

O delírio de fazer drag

Juana Profunda

Ao longo da minha trajetória como artista drag, fui me deparando com momentos de identificação e validação do que eu estava produzindo. Eram as famosas fichas caindo, muitas vezes positivamente e, em algumas, de forma a me questionar. 

O fato é que estes momentos me levaram a entender que, enquanto montada, eu podia assumir um corpo não cotidiano, over, e entrar no que eu gosto de chamar de ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA e que, dentro dela, havia uma liberdade incrivelmente sedutora. 

Juana Profunda o delírio de fazer drag
Juana Profunda – Arquivo pessoal
Foto: Mônica Lachman

Em algum lugar das artes cênicas eu já havia ouvido falar do ÊXTASE CABARETEIRO e parece que foi na montação que eu comecei a entendê-lo e a vibrar com ele. E o melhor e mais difícil disso tudo, é perceber que este certo poder, também estava disponível fora dessa zona, no Daniel desmontado.

Daí surge a motivação para este ensaio: fazer drag é um DELÍRIO!

Muito se fala sobre como drag é um ato artístico, político e existencialista. Essas artistas camaleônicas são um potente instrumento de “provocação, blasfêmia, divertimento e um fator de estranhamento, em que o masculino e o feminino se fundem na construção de uma personagem e de uma linguagem cênica particular” (AMANAJÁS, 2015, p.20). A transformista, termo que também uso bastante, geralmente, usa de uma indumentária exagerada e estilizada e carrega um discurso crítico e transformador. 

Mas para isso, eu entendo que a artista tem que se conhecer e se permitir algumas ousadias, livre preconceitos ou dúvidas. É um processo de autoconhecimento único que leva em conta particularidades de cada corpo, história e cultura. Drag não muda o que você é, mas revela o que está aí dentro, já diria a grande RuPaul.

Durante esse processo, foi muito marcante entender que a minha vontade de montação era muito maior do que os receios, para então conseguir deixar que a Juana passasse a habitar o meu corpo. É mágico perceber o momento em que a personagem se instala. O processo de se montar pode levar horas e cada etapa traz um pedacinho dela. Pra mim, a peruca e os cílios (que eu digo que são as asas da drag) são primordiais para que a personalidade Profunda se acentue. 

Eu sinto que a montação vem de dentro, do coração e está muito ligada a questões íntimas e urgentes. Ela faz com que enxerguemos o mundo através de outros lugares de reconhecimento.

Realmente era tudo muito maior do que apenas aprender a me maquiar! Aliás, esse é um assunto que me interessa: o cuidado com a busca incessante pela beleza e a perfeição. Pode ser um caminho traiçoeiro e com grande risco de reprodução de estereótipos negativos. Tem mais camadas e assuntos a serem explorados na arte drag. Eu prefiro focar na honestidade da montação e no comprometimento com a proposta.

Nas minhas andanças por aí, eu sempre busquei me montar e experimentar as novidades em ambientes acolhedores, onde eu me sentisse respeitado e seguro. E é isso que eu continuo passando às baby drags: que encontrem as suas redes de apoio, que comecem o quanto antes e que se cuidem.

Ok Juana, mas onde está a parte do delírio?

Haha vamos lá: tudo começou a se potencializar quando eu percebi que a Juana estava reunindo muitos assuntos e interesses que estavam soltos e até proibidos pra mim desde a infância. As bonecas, as super heroínas, as músicas, a moda, as roupas de mamãe, o perfume, os cabelos compridos, as danças, o microfone, a emoção, a magia, o teatro, a fantasia, os grandes ícones, os limites, o deboche, o questionamento, o entretenimento. Tudo isso se conectou e passou a fazer sentido dentro dessa expressão artística múltipla que hoje me representa.

Juana Profunda o delírio de fazer drag
Juana Profunda – Arquivo pessoal
Foto: Mônica Lachman

E a partir do momento em que eu entendi e aceitei como iria funcionar, eu me joguei com afinco na experiência e a festa começou de verdade. Foi como se eu tivesse aprendido a dominar os meus super poderes. E um dos maiores truques que eu aprendi foi o de burlar, piratear, subverter o pré estabelecido e criar estratégias para entregar o meu discurso de uma forma que tenha tudo a ver comigo. É aí que eu vejo a drag em estado de êxtase e delírio, que eu vejo a sua essência, a que veio essa artista. 

Como toda linguagem, a drag é uma forma e precisa de conteúdo e técnica. Por conta da profissão, hoje eu sei das minhas ferramentas, tenho as minhas chaves de acesso já mapeadas, mas a arte sempre nos reserva surpresas e novos mundos cheios de gozo e possibilidades de extravasar, transmutar. 

Quando me perguntam o que eu diria para uma jovem aspirante a artista drag, eu não hesito em parafrasear um dos meus arcanos maiores. Fernanda Montenegro diria: NÃO COMECE! E não é que eu esteja desencorajando, mas é que para ocupar este lugar, é preciso muita dedicação, estudo e trabalho. Se precisar mesmo disso, se estiver perdendo o sono por que está louca de vontade de viver tudo isso, aí venha, aí você está no lugar certo… senão pode procurar outra coisa pra fazer.

A experiência drag deve ser para qualquer um, mas a profissão não. Porque tem que ser bem feito. Mas esse é um assunto para uma próxima reflexão. Por enquanto, sigamos navegando nas águas profundas do delírio e, na medida do possível, tentando responder à pergunta de cabeceira da transformista sonhadora: QUE DRAG SOU EU?

Referências

AMANAJÁS, Igor. Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas. Revista Belas Artes. In: Revista Belas Artes, n. 17. 2015 Disponível em <
http://www.belasartes.br/revistabelasartes/?pagina=player&slug=drag-queen-um-
percurso-historico-pela-artedos-atores-transformistas

Saturna: um retorno da ópera às composições drag

Essa entrevista, concedida por Saturna ao Grafia Drag, foi realizada via e-mail no dia 06 de junho de 2022. As questões abordam desde as inspirações para a composição da drag queen, passando pelas transformações percebidas no corpo a partir das montações, até o retorno da ópera às composições drag na vivência da artista.

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Saturna da ópera às composição drag
Arquivo pessoal da artista
Fonte: @saturnaqueen

(Grafia Drag) Desde quando vem seu desejo de se montar? Quando e como você começou?

(Saturna) Primeiramente, quero agradecer o convite de colaborar com vocês aqui no Grafia Drag, é um prazer enorme. Bom, eu sempre fui uma criança muito artística e performática! Durante minha infância, eu sempre amei cantar e nas festas de final de ano da minha família, eu sempre preparava algumas músicas para apresentar para a família. Com o passar dos anos fui me descobrindo como artista e fui exposto a várias maneiras de expressão correlacionadas ao canto, então durante a pandemia, me permiti experimentar mais com maquiagem e tudo aquilo que envolve a montação! E foi assim que a Saturna nasceu no meu quarto, em Bagé, em agosto de 2020.

(Grafia Drag) Como surgiu o nome Saturna Queen?

(Saturna) Eu sou uma drag queen capricorniana! Me sinto muito ligada a Saturno – planeta regente de capricórnio. Sou uma pessoa que preza muito pelo tempo das coisas, acredito que tudo acontece na hora certa em nossa vida, e Saturno é o Deus do Tempo! Haha Também valorizo muito os processos da vida, não apenas o resultado, sabe? E isso também é muito do meu signo. O “Queen” veio apenas por uma comodidade de user do instagram, assim me identifico mais apenas como Saturna.

(Grafia Drag) Quais são suas inspirações para compor suas performances e onde você costuma se apresentar? 

(Saturna) Minhas inspirações e referências são muito diversas! Sou apaixonada por grandes divas Pop como Lady Gaga, Britney Spears, rainhas do Jazz como Ella Fitzgerald, Etta James… Além de obviamente várias “Primas Donnas” da Ópera! Maria Callas é um ícone que mora no meu coração. Costumo me apresentar desde em Recitais Líricos e Teatros como na noite também! Tudo muda conforme o repertório e a proposta, alguns lugares que já tive a oportunidade de cantar: Theatro São Pedro, Instituto Ling, Teatro da SCAR, Workroom Bar, In.fame bar, Bibah POA, Vitraux… e entre outros.

(Grafia Drag) Você participa de alguma Casa drag? Como são suas relações com outras drags?

(Saturna) Não participo! Minh jornada com a arte drag até o atual momento tem sido muito individual e pessoal. Procuro sempre manter uma relação de amizade com todas artistas que convivem no mesmo meio que eu em POA, sempre estou aberta a conhecer novas maneiras de se fazer drag e aprender com as manas.

(Grafia Drag) Você percebe diferenças quando está montado como Saturna e quando está desmontado enquanto Gonzalo? Essas posições se comunicam entre si?

(Saturna) Definitivamente! Eu sempre digo que o Gonzalo e a Saturna não são dois seres que coexistem em um mesmo corpo, eu sou a Saturna e o Gonzalo o tempo inteiro. A questão é, quando estou montada de Saturna, sinto como se eu fosse uma versão 2.0 e melhorada de tudo aquilo que eu não percebo no Gonzalo desmontado. Me sinto mais bonita, confiante, sinto que até canto melhor! É uma experiência de gênero para mim.

(Grafia Drag) Fazer drag produz deslocamentos no seu modo de estar no mundo?

(Saturna) Com certeza, como falei anteriormente, a arte drag para mim é uma experiência de gênero. Com isso quero dizer que, quanto mais me percebo enquanto Drag Queen mais tenho descoberto sobre mim mesmo. Cada montação, cada show, entendo mais e mais como gosto de ser percebido pelas pessoas.

(Grafia Drag) Você já se sentiu capaz de fazer coisas montado que não faria desmontado?

(Saturna) Acho que montado ou não, eu ainda sou uma pessoa muito “cara de pau”, sabe? Hahaha Sempre fui de dar a cara a tapa para tudo, então com a Saturna parece que agora eu tenho ainda mais poder em tudo que eu faço! Não sou uma pessoa introvertida e nunca fui, mas a montação insere em nós mesmos uma força interior que nos torna ainda mais capazes de qualquer coisa.

Saturna da ópera às composição drag
Arquivo pessoal da artista
Fonte: @saturnaqueen

(Grafia Drag) Na sua vivência o que veio primeiro a montação drag ou o interesse pelo canto? Como esses universos se cruzaram?

(Saturna) O interesse pelo canto! Esses universos se encontraram a partir do momento que eu percebi que a minha persona artística no palco era uma persona feminina. No começo da minha drag, eu jamais pensava em cantar, até então eu estava apenas brincando com maquiagem e preocupado em entender essa feminilidade em mim. Até que chegou um momento que resolvi gravar uma prova da faculdade em que eu precisava cantar, completamente montada. Naquele dia eu percebi que o que eu sentia falta no meu canto, eu tinha encontrado ali, expressando o meu feminino no meu ato de cantar, isso fala muito sobre minha essência artística.

(Grafia Drag) Além de Saturna, você já transitou por outras expressões drag? Quando você cantou desmontado no FEMUSC, havia ali uma outra composição drag ou você se colocou como Gonzalo mesmo?

(Saturna) Até o atual momento não e me sinto muito realizado onde minha Drag está hoje, me identifico muito com minha estética e minha performance. Era o Gonzalo mesmo e foi caótico! Eu tive vários momentos de destaque no FEMUSC como Saturna, estes foram incríveis, mas ainda sim houveram momentos que eu precisei representar o Gonzalo e para mim foi bem difícil subir no palco novamente como Gonzalo, considerando que atualmente não pretendo desenvolver carreira de Cantor Lírico como Gonzalo.

(Grafia Drag) Como você percebe a relação com as drags e transformistas de outras gerações? Você usa ou já usou a nominação transformista?

(Saturna) Eu acredito que é essencial conhecermos nossa história e aprender com as artistas que vieram antes da minha geração. A arte do transformismo é milenar e principalmente se você busca se apropriar desta arte e vivência-lá, é importantíssimo observar que o que você faz hoje não é nada de novo, e sim apenas uma reeleitura de expressões que existem há muito tempo. Eu nunca usei o termo transformismo.

(Grafia Drag) Além das perguntas feitas, existe mais alguma coisa que você gostaria de comentar?

(Saturna) Quero elogiar o trabalho de vocês em representar a arte drag com tanta profundidade a partir do trabalho que vocês tem desenvolvido em conjunto com várias drags da comunidade! Aproveito para agradecer também a oportunidade novamente e deixar uma frase de alguém que já conhecemos bem, que faz muito sentido para o meu viver artístico: “O ato mais poderoso que você pode fazer é se tornar a imagem da sua própria imaginação.” – RuPaul. ?

Uma pandemia + Um processo de criação = uma drag?

Encontros entre a arte drag e a literatura na pandemia

Ivan Nunes

And he works his body just to be somebody

There’s a woman in the mirror looking like a dream

And he works his body and he feels somebody

And the working boy becomes a dancing queen

Cyndi Lauper, Ballad of Cleo & Joe

Me chamo Ivan e o trabalho que desenvolvo no âmbito do doutorado (PPGLetras/UFRGS) triangula literatura, crítica e teatro. Vejo a literatura como material riquíssimo para o ator, material que o nutre, material inspirador. Antes que esqueça – como se fosse possível –, também sou ator, além de professor de inglês e tradutor, um apaixonado por livros, leitura e literatura. 

A crítica me parece ter um papel PERFORMATIVO. Dito de outro modo, caso fiquemos sabendo por intermédio de um crítico que determinado romance ou peça de teatro é pobre ou ruim, acabamos também (influenciáveis que somos) achando que tal romance ou peça é pobre ou ruim. Nesse sentido, a crítica PERFORMA EM NÓS, em nossas mentes, nos atinge e nos molda. Enfim, a crítica forma opiniões.

Acredito piamente que o teatro só tem a se beneficiar quando casado com a literatura. Por um lado, fala-se muito da primazia do texto, o qual sobreporia o ator; por outro, posição que assumo, não temo o texto, acredito que o ator inteligente muda o texto quando necessário para o papel (Boleslawski deixou isso registrado). Além disso, convenhamos que, do ponto de vista do espectador, às vezes é mais fácil recordar de um espetáculo intitulado Romeu e Julieta do que de um espetáculo autoral, moderníssimo, sem texto.

Essa realidade dói e, em boa medida, desmerece/desvaloriza o artista teatral contemporâneo? Fato. Porém, ter um espetáculo teatral atrelado ao título Romeu e Julieta (e por extensão a Shakespeare) pode vir a despertar com maior potência o interesse (pelo teatro) daquele espectador que está em formação, começando a ver teatro, ou até que nunca presenciou teatro. Talvez a perspectiva seja radical, mas Shakespeare também é literatura, e não um patrimônio exclusivo do campo do teatro. E talvez eu aqui esteja privilegiando a literatura, afinal de contas sou doutorando em letras. São escolhas, recortes, vieses, olhares.

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a arte drag e a literatura Ivan Nunes
Fonte: arquivo pessoal

Este texto é um olhar. 

No contexto da pesquisa, estou em processo de criação do monólogo Senhorme, livremente inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles (1918-2022), escritora paulistana que simplesmente aprecio (e recomendo) sem moderação (fala clichê, bem sei). A personagem que desempenho é uma mulher na casa dos sessenta anos, uma professora como eu. Eis que o Grafia Drag me convida para escrever sobre esse processo de criação, sobre essa busca de uma mulher no palco. Eis que surgem questões: como se faz uma pesquisa que envolve teatro em plena pandemia? De que maneiras eu venho tentando encontrar/criar essa mulher? Diante do convite, estou desempenhando um drag?

a arte drag e a literatura Ivan Nunes
Fonte: arquivo pessoal

Este texto é um olhar e busca respostas para essas questões.

A pesquisa teve percalços no princípio. Era inviável ensaiar de modo presencial. Medo pairando no ar. Assim, decidi colocar alguns testes de figurinos/maquiagens e esboços de cenas nas redes sociais (Ig: iv_teacher; TikTok: iv.poison). Até acredito que foi assim que o Grafia Drag me encontrou. Recordo que era uma dublagem de Fighter, da Christina Aguilera.

Inicialmente, eu abria UMA MALA contendo figurinos de espetáculos anteriores e, de algum modo milagroso, criava atmosferas e criaturas associadas a um suposto universo da mulher. O processo era (e ainda é) bastante divertido: unhas pintadas, salto alto, perucas, dublagens, elementos que, mesmo eu sendo ator, raramente havia acionado na plenitude (ou com competência artística, com comprometimento para a elaboração de um papel).

a arte drag e a literatura Ivan Nunes
Fonte: arquivo pessoal

E do limão fiz uma limonada. A impossibilidade de ensaiar presencialmente me forçou a usar as redes sociais de outro modo (talvez modo mais útil). E as redes sociais trouxeram uma resposta surpreendente e sensível. 

Desde que comecei a dispor ao público as performances, vários espectadores registraram que o trabalho é muito criativo, que ele transforma o lixo em luxo (e de fato recolho muita coisa na rua, pelas andanças na cidade agora que a pandemia arrefeceu), e que ele (o trabalho) alegra o dia desses espectadores, traz um respiro no nosso cotidiano tão árduo.

Ao mesmo tempo, vários desconhecidos começaram a se engajar no projeto. Bom exemplo disso é a mala, a qual já se tornou duas, as doações de figurinos são muitas e não param. Ademais, a resposta de mulheres tem sido intensa: sentem-se empoderadas pelo que venho fazendo. Crianças dançam ao som das canções que dublo. E isso é apenas o topo do iceberg, há muito mais, mas não vou me alongar.

Passando para a última das perguntas: estou desempenhando uma drag? Confesso que não sei. Como disse, mesmo sendo ator, sou novo neste nicho de criação. Mesmo assim, quero registrar o seguinte: caso ser drag signifique buscar por uma mulher extracotidiana, dona de voz própria, livre de amarras, uma mulher que não se enquadra em padrões preestabelecidos, em discursos prontos, que se expressa com total e absoluta liberdade, daí sim afirmo com convicção que sou drag. 

Em suma, a arte drag para mim é sinônimo de total liberdade, na vida e na criação. E o poder é tanto que há drags com barba, aprendi recentemente. Sou desses ou, melhor dizendo, sou dessas. E, desse modo, o universo drag se amplia, não há jeitos preestabelecidos de ser ou de se comportar. Não há julgamentos, e talvez seja esse o aspecto mais belo da arte. Sim, ser drag é uma arte, tão arte quanto fazer teatro ou receber o título de ator, ou o título de doutor.

a arte drag e a literatura Ivan Nunes
Fonte: arquivo pessoal

Engana-se quem pensa que a maior conquista do processo seja a evolução da pesquisa ou do espetáculo em si. A maior conquista é, na realidade, tudo que venho aprendendo, as diferenças, os amigos que tenho feito. São tantos: Manu (minha diretora), Carlos, Marília, Renan (drag babadeira que me emprestou perucas). Mais recentemente, Diego (me emprestou dinheiro de mentira para a performance de Legal tender, do B52’s) e Luná Maldita, que de maldita não tem nada, pois me cedeu espaço aqui para falar, falar de criar, escrever sobre o escrever.

Repito: não sei se sei o que é ser drag ou se sou uma drag, só sei que gosto, que sinto, pressinto. A arte é libertadora, e a arte drag não fica de fora.

Este texto é um olhar, a busca de respostas para certas questões, a celebração da amizade.

Alguém se arrisca a me batizar?

Escrituras transformistas em montação

Luná Maldita

Em 2016 me montei pela primeira vez em coletivo na ocupação estudantil do Centro de Artes da UFPEL. Naquele momento ainda não sabia que essa vivência tomaria conta deste corpo desdobrando-se em distintas montações. É daí que me sinto convocado, arrastado, intensamente afetado e transformado pelo desconhecido que há nessas composições. Forçando os limites disso que percebo como eu, as montações vêm se esboçando em mim como espécie de escrituras transformistas, as quais operam enquanto expressão artística e, ao mesmo tempo, como produção de subjetividade.

Percebo as montações acontecendo em mim enquanto criança, gesto de brincar por meio da fuga de comportamentos impostos. É através das montações que se manifestam o abrilhantar duma noivinha enclausurada em seu vestido bufante; uma mulher-gato que na ilusão do imitar abre portas para o imprevisto ainda latente; uma figura estranha, s(c)em-caras fazendo perder os traços do rosto socialmente reconhecido. Há ainda um conjunto de intensidades implicadas no jogo dos ventos, corpos suspensos pairam entre as correntes de ar. Embora proibidas, castigadas, censuradas, vividas como algo privado a ser escondido, essas populações insistem em se afirmar.

É a partir da cena vivenciada em matilha na ocupação de 2016 que essas variações intensivas passam a ganhar corpo, expressando-se junto das transformistas montações. Por meio dessas experiências noto a potência de criar vínculos e conexões num espaço comum. As montações coletivas permitem criar relações, estabelecer alianças provisórias onde são compartilhados saberes e estratégias de sobrevida. É aí que juntas inventamos formas para transmutar e ressignificar as violências impostas em nossas trajetórias. Por isso, além da camada representativa de construir e encenar um personagem, as montações transformistas me atraem em sua potência de arrastar o sujeito e seu corpo próprio por caminhos imprevistos, forçando-os a se transformar.

 Em mim, Luná Maldita foi a primeira a ser nomeada. Ela surge da relação com a transitoriedade da Lua, permanente impermanência, a mesma, mas sempre outra a depender do ângulo do olhar. Maldita se faz como a força da mulher guerreira, amazona, imbatível na postura. Potência de vida frutificada das fragilidades decorrentes de tóxicas relações. Maldita é o sobrenome que recebi de Degenerik Maldita, drag queen que me iniciou no ritual coletivo da montação.

Luná Maldita Escrituras Transformistas
Profª Luná Maldita
Fonte: Arquivo Pessoal

A princípio era só Luna Maldita, a qual em meio aos desentendidos de pronúncia tornou-se Luná Maldita, movimento de diferença afirmado através da repetição. As intensidades que se esboçam nessa forma de expressão são o que há de forte em mim, casca grossa quando preciso. Maldita promove a ressignificação, ou melhor, reprogramação de violentas cenas. Ela que já esteve nos tribunais de inquisição, acusada de ser bruxa, bixa, oblíqua, descabida e descabelada, acaba por tirar a juíza para escanteio tornando-se dona do seu próprio jogo.

Luná Maldita abre as portas e janelas, daí fulguram outras estranhas expressões. Lalola Nebulosa aparece num entre que é ao mesmo tempo uma coisa e outra, força que movimenta as demais expressões. Seu nome surge da ambiguidade presente na articulação de Lalo-Lola, nome de novela mexicana que sugere circulação entre masculino e feminino. É na conexão com Nebulosa que essa própria circulação vacila, gagueja, abrindo-se na espreita do que passa despercebido aos binários dos gêneros. Lalola parece um pulo indeciso que ao tocar o chão já não está mais onde estava antes. Diferente de Luná que já tem forma expressa num território em formação, Lalola mais confunde do que se deixa ver no plano de organização.

Avizinhando Luná Maldita e Lalola Nebulosa está Leander Magrão. Magrão demarca a posição frágil da masculinidade heterossexual, implica reconhecer os fantasmas da heterossexualidade que habitam uma homossexualidade coerente e vice-versa. Embora ainda não nomeado, era Magrão quem tomava a frente quando interpelado a ocupar a posição de homem heterossexual. Tais cobranças levaram a composição de um corpo retraído, silencioso e medroso, por vezes, atravessado imprevisivelmente por malditas forças nebulosas, explosivas e descontroladas, em ação.

A partir da aparição de Luná Maldita é Magrão quem permaneceu nas sombras, oculto, descartado, passando a aparecer sem ser chamado. Magrão é nomeado em tal forma a partir dos encontros com o conceito de Devir King de Paul-Beatriz Preciado, e, com a personagem conceitual da drag queen melancólica de Judith Butler. Na relação com o devir-king, Magrão retorna junto a um movimento de reprogramação dos códigos de masculinidade através da experimentação.

Já na relação com a drag queen melancólica de Judith Butler, é a própria afirmação de uma posição identitária coerente que é posta em questão, já que ao excluir outra posição como possibilidade, tal posição perdida é assimilada como identificação melancólica passando a operar como fantasma. Por esse caminho, a identidade heterossexual coerente implica em si uma homossexualidade melancólica e a identidade homossexual coerente implica em si uma heterossexualidade melancólica. Magrão retorna a partir da nomeação de tais movimentos paradoxais.

De tais montações transformistas, a única que ganha forma concreta enquanto drag queen é a Professora Luná Maldita que além de ministrar esporadicamente aulas de Teoria Queer na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, as vezes sai pelas noites montada. Nesse caso, é inevitável que Luná se componha também como personagem, ganhando corpo através de traços ficcionais, contudo, o que mais me interessa aí são as transformações subjetivas que acontecem no corpo e nos territórios para além de uma suposta encenação.

Luná Maldita e Xandelly Mixx Bar Porto Alegre
Xandelly; Luná Maldita e ??? no Mixx Bar
Fonte: Arquivo Pessoal

Nesses processos, a encenação e a própria montação drag concreta, são secundárias em relação às transformações subjetivas que decorrem do transformismo. Os aspectos visíveis de Luná só são possíveis devido aos movimentos intensivos que produzem esse corpo como efeito. Por esse caminho, ao falar de escrituras transformistas damos a ver outras dimensões do próprio transformismo. Afinal, para além de serem personagens, as montações que povoam o presente ensaio são, em si, o que movimentam a escrita do texto e, também, produzem subjetividade, deslocando os limites disso que entendo por mim mesmo.

Do planejado ao improviso: montação drag como estratégia para enfrentar inseguranças

Tiffany Plazza

“Creep”.
Fonte: canal Tiffany Plazza (YouTube)

Por muito tempo, minha principal maneira de compartilhar meu trabalho  como musicista foi gravando vídeos sozinha em casa cantando com meu violão. Com o tempo, vendo gravações mais elaboradas que as minhas, passei a acreditar que meus vídeos não eram bem trabalhados o suficiente e que não valia a pena continuar produzindo-os. Com o drag, passei a dar mais valor para essa forma de gravar vídeo, pois a montação acompanha  a intensidade da minha voz e, com o violão, eu vi uma forma de dar  leveza e simplicidade para a performance. 

Então, senti vontade de gravar em vídeo  uma música autoral minha para postar nos meus perfis na internet, sabendo que isso seria um grande desafio para mim, já que eu era extremamente crítica com meu trabalho. Eu já tinha postado vídeos de músicas autorais minhas antes e costumava compartilhar elas com amigos, mas a pandemia mudou muito a relação que tenho com  minhas próprias composições. Por ter passado um bom tempo sozinha, foi fácil me perder em pensamentos negativos e sentir vontade de esconder meu trabalho.  Com o incentivo de professores, colegas e amigos, que recebi durante esses semestres de pandemia, resolvi ignorar minha mentalidade extremamente julgadora e decidi gravar um vídeo de voz e violão da minha música “Creep”, composta no final do ano passado. 

Iniciei os ensaios da música com antecedência para  performar da melhor maneira possível quando estivesse montada na frente das câmeras. Nessa música, eu me desafiei a criar um riff no violão, algo que  não imaginaria que eu fosse capaz de executar. Certa vez, depois de um show meu, conversei com um homem que me disse para abandonar meu violão e focar somente em cantar, porque eu não sabia tocar bem e o violão atrapalhava minha performance. Esse comentário ficou na minha cabeça enquanto eu ensaiava, toda vez que eu errava algum acorde, a posição dos dedos, ou quando algo soava esquisito, mas segui ensaiando e pensando em executar o melhor que eu podia. 

Senti que precisava ensaiar bastante essa música somente por causa do violão, o vocal estava confortável, mas como eu normalmente não me desafio no violão, ensaiei por vários dias. Eu já sabia a música inteira de cor, então procurei ensaiar poucas vezes por dia para não ficar muito apegada em detalhes, principalmente em relação ao violão.  No final,  decidi que essa experiência deveria ser algo divertido para servir como  prática, isso para eu não me cobrar tanto e não criar tantas expectativas em relação ao resultado final. Durante o ensaio, procurei também treinar a interpretação que eu queria dar à música, uma dica que escutei durante um workshop de performances e que me ajudou na hora de interpretar durante a apresentação é para não ter medo de errar ou desafinar.

Para a parte do drag, pensei em interpretar uma personagem maluca e transtornada, inspirada no filme de terror que inspirou a música, também chamado “Creep 2” (Patrick Brice, 2017). Queria que a minha personagem mostrasse a sua identidade no seu olhar. Para procurar minhas referências, utilizei uma pasta no Pinterest onde eu reúno todos os looks que vejo nas minhas recomendações com algum aspecto interessante (seja na maquiagem, no cabelo, ou na roupa). Essa pasta me poupa muito tempo na hora de montar um look, com ela posso sempre procurar referências que gosto com segurança quando estou sem uma ideia inicial. Me inspirei em maquiagens onde os olhos tivessem um destaque perturbador e estranho com sangue e compus o look ao redor dessa ideia.  Escolhi minha peruca laranja, que normalmente associo a uma personagem intensa pela cor forte e quente dela.

Tiffany Plazza montação drag como estratégia
Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo Pessoal

Na hora da montação, cada drag entra no seu próprio mundo e tem seu próprio processo. Mesmo que tutoriais sejam muito úteis e seja comum  as drags  compartilhem dicas de maquiagem umas com as outras, cada processo e cada montação é muito pessoal e deixa de lado muitas ideias de “certo” ou “errado”, normalmente associadas com o processo de maquiagem. Eu me desapeguei de tutoriais quando comecei a fazer make drag e passei a praticar da forma que eu queria para descobrir sozinha o que funciona melhor para mim e para meu rosto. 

Eu demoro em torno de 2 ou 3 horas para me montar normalmente, mas dependendo da montação, reservo o dia todo para esse processo, caso imprevistos ocorram, como foi o caso dessa performance que estava preparando para o vídeo. Minha ideia inicial era fazer dois olhos vermelhos com sangue escorrendo, mas ao colocar uma das minhas lentes vermelhas, senti muito desconforto e vi que estava com defeito. Por sorte, resolvi colocar as lentes antes de começar a maquiagem, então acabei planejando algo novo que ficou até mais interessante do que a ideia original.

Muitas vezes eu penso que imprevistos deveriam ser bem-vindos e nos causar menos estresse, dependendo de como podemos lidar com eles. Acredito que a prática de saber lidar com imprevistos e de saber como resolvê-los é importante. 

Durante a gravação, voltaram a surgir várias inseguranças que ignorei nos  ensaios, pois na hora de preparar o produto final é possível ver com mais clareza e detalhes como ele ficará. Se esse produto final não ficar tão semelhante com as minhas expectativas, minha resposta automática é pensar que não está tão bom quanto poderia. Com isso, pensei na hora que não tinha ensaiado o suficiente, que eu não escolhi a melhor maneira de gravar e até mesmo que eu não deveria ter me desafiado no violão, porque  não sabia tocar e não estava pronta para executar o que eu queria. 

Todos os pensamentos negativos que  ignorei vieram na minha cabeça no momento dessa gravação. Lembrei, então, da minha decisão de fazer desse projeto algo divertido e com a finalidade de prática e não procurar alcançar a perfeição. Depois de diversas tentativas de gravar, resolvi focar na minha performance e no que a música significa pra mim  e não no quão perfeita a música soaria. Na hora de assistir com calma, vi que o vídeo ficou exatamente como eu planejava: algo simples, íntimo e divertido. 

Percebi nessa experiência como o medo da minha resposta e da resposta dos outros ao meu trabalho é muito mais paralisante do que essas respostas acabam sendo. Uma vez falei com um amigo sobre esse medo de compartilhar minhas composições e meu drag e ele me perguntou do que exatamente eu tinha tanto medo. No fim eu não soube o que responder para ele, porque eu sei que, como artista, é impossível agradar todo mundo e nós não devemos fazer arte com a finalidade de agradar todo mundo. Também sei que, se não é possível agradar todo mundo, é igualmente impossível não agradar alguém, afinal, existe gosto para tudo. 

Não é uma surpresa pra ninguém que convive comigo que eu cobro muito de mim mesma e da minha própria arte, isso me levou a ser esforçada e a evoluir muito em pouco tempo. Mas as vezes eu me cobro de uma maneira que jamais cobraria outro artista e, assim, acabo sendo incoerente com o que eu acredito. No final, me incentivo todos os dias a olhar apenas para toda dedicação e sentimento que coloco no meu trabalho, olhar para o que ele significa para mim e enxergar a qualidade na paixão que  sinto enquanto faço minha arte, e não na cobrança excessiva.

Nasce uma drag monstra

Mia The Witch

Eu não me recordo a idade exata que eu tinha quando eu conheci uma drag queen, mas certamente foi ainda na infância. Aqui, vale ressaltar que fui uma criança dos anos 1990, sabemos que a época dos fatos tem certo peso sobre eles ao orientar perspectivas sociais. As primeiras drags que conheci foram pela televisão: Vera Verão e Nany People. Lembro de achá-las muito divertidas, sempre sorrindo e fazendo sorrir quem contracenava com elas nas esquetes dos programas que faziam parte. Ao mesmo tempo, eu não entendia muitas das piadas e nem tinha ideia do porquê as pessoas com quem eu convivia (família, colegas de escola, professores, etc.) não gostavam ou tiravam sarro delas. Fui condicionada pelo meio social a esconder meu interesse pelo trabalho delas, mesmo sendo elas tão encantadoras à minha criança. Não era tido como de bom tom gostar de uma drag queen naquele contexto.

Anos mais tarde, por volta de 2014, descobri o trabalho de Lorelay Fox no YouTube. Essa descoberta coincidiu com o período em que eu tinha me assumido como uma pessoa LGBTQIAP+ aos meus pais e amigos. Os vídeos didáticos de Lorelay foram me fazendo entender mais sobre assuntos queers e me dando orgulho de ser quem eu sou – orgulho esse que não existia antes em mim e era ocupado por um sentimento terrível de inferioridade. Lembro que em um de seus vídeos, Fox disse que a drag queen é como uma porta-voz da comunidade LGBTQIAP+; que, através da arte e do encantamento proporcionado pela  drag  ao público, ela se torna hábil de ser uma comunicadora eficaz e abre espaços de diálogo com o objetivo diminuir a exclusão social de pessoas queers. Acho que foi assistindo a  esse vídeo que um estalo se deu em mim e me fez pensar: “Eu quero ser uma drag queen!”.

Aliado a isso, comecei a consumir cada vez mais conteúdos drags e descobri meu amor por RuPaul’s Drag Race. A partir do programa, meu deslumbramento pela arte drag tomou uma proporção ainda maior. Eu via no trabalho daquelas participantes uma ligação muito forte com o que eu queria fazer, mas que desde a infância fui ensinada a abafar em mim. O universo de Drag Race era muito viciante, me cativava de uma forma que eu me pegava em vários momentos do dia me imaginando em vestidos que vi na passarela do programa ou em como eu dublaria músicas que apareceram no show.

Drag Race moldou a ideia da primeira drag queen que eu queria me tornar. Arrisco a dizer que não só a mim, mas como a maioria das drag queens da nova geração. A ideia desse reality show, em teoria, me parecia fabulosa: pegar uma arte marginalizada, dar umas boas modeladas nela e a transformar em uma arte de entretenimento mainstream. Entretanto,

na prática, acredito que a disputa acirrada apresentada por RuPaul acabou criando regras e limitações demais para uma arte que era sobre ser livre para se expressar da forma que sentimos ser a nossa melhor versão.

É necessário reconhecer que o público teve acesso e aprendeu sobre a arte drag a partir desse show, o que evidencia sua relevância para a cena drag contemporânea. Contudo, ao mesmo tempo, esse reality elenca hierarquicamente um tipo específico (ou tipos específicos) de artistas e todos que destoam desse padrão “racer” passaram a ser comparados e inferiorizados por parcela dos fãs do programa, incluindo aí algumas drags que reproduzem esses padrões. 

Por esse caminho, uma drag queen só teria seu valor reconhecido pelo público, mesmo na cidade em que se apresenta, quando se assemelha com o que é visto sobre drag na competição televisiva.  Vejo nesse pensamento um ato de redução das expressões drag, mesmo depois de mais de uma década de programa e suas discretas tentativas de se tornar  um show com linguagens diversas. Isso me incomoda, não me interessa ser uma artista padrão “racer”. 

Mia The Witch drag monstra
Mia The Witch
Fonte: Arquivo Pessoal

Minha estética drag é bem diferente do que habitualmente aparece no show. Enxergo a minha arte como uma forma política de contestar imposições de gênero que me aborrecem desde a minha infância.

Eu sou uma pessoa não-binária. A vida inteira tentaram me encaixar em um lugar duro, desconfortável e cruel em relação ao meu gênero. A Mia nasceu como uma forma de o Patrick explodir essas caixas. Sendo assim, minha drag nunca foi feminina de um modo patriarcal. Enxergo que minhas escolhas estéticas – que são, sobretudo, escolhas políticas – incomodam e tiram o conforto de alguns espectadores. Eu ser uma drag queen com pelos em todo o corpo, que não usa enchimentos corporais e não aquenda faz com que muitos nem me considerem uma drag queen de verdade. Acredito que esse também seja o papel do artista: incomodar; fazer sentir desconforto; tirar a pessoa de um lugar de certezas imutáveis e acolhedoras. 

Apesar de ter uma paixão imensa por referências glamourosas, como a Old Hollywood ou o cenário pop atual com divas como Lady Gaga e Pabllo Vittar, enxergo minha arte como uma expressão de contra-revolta. Tento quebrar essas regras que foram impostas aos artistas drag. Por isso, eu me considero uma drag monstra. 

O dicionário Oxford traz para o verbete “monstro”:

  1. ser disforme, fantástico e ameaçador, ger. descomunal, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia.
  2. qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade.

Eu sou a monstra das drags. Sou uma drag que, do seu próprio modo, aprendeu a se incluir como artista num espaço que não se sentia bem-vinda por não se encaixar às “normalidades” próprias a esses lugares. Depois de 4 anos de montaria, estou encontrando quem sou enquanto artista e encorajo a todes que, assim como eu, se incomodam com essas regras, a se rebelarem. A arte é livre. E nós também devemos nos sentir assim. 

Vamos quebrar o CIStema!

A liberdade da arte drag para a escrita criativa

Tiffany Plazza

Eu sempre gostei de escrever, principalmente quando preciso expressar meus sentimentos e quando guardo muitos pensamentos comigo. O melhor que posso fazer nesse tipo de situação é sentar e escrever para conseguir entender,  processar melhor o que eu sinto, mas não tenho facilidade para expressar ou compartilhar esses sentimentos. Era muito difícil para mim começar uma música e continuar trabalhando nela até o fim, sem interromper o processo inúmeras vezes. A falta de confiança no que eu escrevia me deixava paralisada, sem motivação para continuar a composição até o fim.

Sempre notei um medo gigantesco em mim quando se trata de criar músicas.  Constantemente sentia que as músicas de outros artistas que gosto eram muito melhores que as músicas que eu mesma compunha – algo que  parece natural entre músicos e artistas, pelos relatos que ouvi na faculdade. Uma hora o problema era a melodia, outra hora era a letra, e às vezes até sentia um vazio na música, como se ela não me dissesse nada. 

Sei que essa confiança que  busco só se conquista através da prática, então nunca quis deixar de lado o exercício de compor, mesmo que não ficasse satisfeita com o resultado.  Então, percebi que não adiantaria mudar melodias, nem letras, nem nada específico de uma música, mas precisaria mudar o processo, já que essa maneira de compor não estava funcionando.  Desde que comecei a me montar, nunca mais tive vontade de me apresentar no palco desmontada,  entendi que precisava inventar uma forma de compor para a Tiffany e não para a Fernanda. 

Tiffany  surge de personagens de filmes, séries,  livros e até de outras músicas. Deixei de compor sobre o que a Fernanda sente, sobre seu próprio dia-a-dia, e comecei a compor sobre o que a Tiffany sente em relação a essas múltiplas referências que a constroem. O caminho foi escrever como Tiffany, sem pensar se  Fernanda faria ou sente o que estava ali escrito.

Passei a não desconsiderar uma ideia porque não é o que  Fernanda, seus amigos e família fariam ou diriam. Resolvi não  censurar, nas minhas músicas, o universo ficcional que sempre existiu na minha cabeça e que também expresso como drag.

Tiffany Plazza arte drag para a escrita criativa
Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo pessoal

Muitas vezes esse universo é assustador, estranho e perturbador, mas Tiffany me dá liberdade para agir e pensar de uma forma irrealista. Quando estou montada eu não me preocupo em ser estranha, nem com a desaprovação alheia. Recentemente assisti muitos filmes de terror e passei um bom tempo pensando sobre eles, então escolhi escrever sobre o filme que mais me marcou. Enquanto escrevia, várias vezes eu ficava receosa do conteúdo que  estava escrevendo, são as mesmas inseguranças que me consomem durante o processo criativo.  Decidi  imaginar uma performance para a música, da mesma forma que faço com músicas de outros artistas que eu gostaria de performar em lipsync. Pensei em como Tiffany performaria para o público, sem ter medo de apresentar o conteúdo da letra da forma mais sincera possível. 

Imaginar a performance de uma música inteiramente feita sobre a Tiffany me fez ver uma beleza em minha própria composição musical, algo que eu nunca tinha enxergado antes. Acho que finalmente consegui criar algo que não representava a Fernanda, mas que representava a Tiffany e era exatamente isso que eu queria!

O que eu acho mais fascinante no drag é como se torna uma espécie de escudo para fazer tudo que temos vontade, sem deixar de fazer por medo ou insegurança.

No momento em que  imaginava a Tiffany performando, a música ganhava mais forma, eu me sentia mais livre para me expressar e para formar a estrutura da música. O processo fluiu tanto que eu acabei não demorando uma hora para terminar de compor. Ela ficou curta, mas ficou do tamanho perfeito, achei que a história foi bem contada e  que eu disse tudo o que precisava dizer, sem nenhuma censura.

Letra da música “Creep” / Composição: Tiffany Plazza
Fonte: Arquivo pessoal

Incluir a Tiffany no meu processo de composição foi essencial para encontrar não só a confiança que eu precisava, mas, também,  motivação. Antes disso, eu acreditava que o meu drag me distraía do trabalho como musicista, que eu não sentia vontade de compor porque queria sempre fazer drag. Agora, acredito que o drag é o que mais me dá motivação para compor, até porque, quando se trata de arte, o que é da Tiffany me empolga mais do que o que é da Fernanda. Não é à toa que a música preferida, que eu compus até agora, foi para Tiffany.

Música Creep
Fonte: Canal Tiffany Plazza (YouTube)