Tô de Drag: o coletivo é revolucionário

Anubis Blackwood

Este ano faço dez anos enquanto artista drag e, em outros ensaios literários como RuPaul’s Drag Race é o bastante para uma drag sonhar? (2024), onde  enfatizei minha jornada inicial solo. Ao longo da minha trajetória participei da criação do coletivo Tô de Drag, que hoje será o foco dessa conversa.

Tô de Drag
Primeira formação do coletivo em 2023. Fonte: acervo fotográfico do coletivo.

Aquela história tão recorrente entre as novas gerações de drag também aconteceu para mim: uma drag de banheiro. Para quem experienciou essa jornada sabe que os conhecimentos ao redor da montação giram em torno da internet, e muitas vezes quando colocamos em prática e nos montamos, não há na maioria das vezes sequer perspectiva de sair de casa, ou do banheiro em si. Falta de companhia, repressão familiar, vergonha, falta de confiança e medo da reação pública são alguns fatores que moldam esse estudo em reclusão.

Acontece que somente uma pequena parte dessa arte envolve teoria. A meu ver, sua maior dimensão se constrói no campo social e em exposição pública, e isso se dá por uma herança histórica. Nossa jornada foi escrita em comunidade, onde até nos momentos em que as artistas ficavam dentro de seus espaços de criação, faziam isso em companhia de sua família drag. Por isso, passei mais da metade da minha carreira me sentindo incompleta: por mais que tivessem amigues para sair, esses ocupavam um lugar de suporte na minha vida enquanto comunidade LGBTQIAPN+, mas não podiam ocupar o espaço de suporte artístico e político, e era justamente essa ausência que reverberava em mim.

Assim, ao mudar da capital para o interior de São Paulo,mais especificamente Jundiaí, pude encontrar uma comunidade mais íntima e pouco tempo depois fazer parte da criação do primeiro coletivo drag da região. Meu coração foi finalmente tomado por uma sensação de completude. Hoje, somos 12 integrantes e não possuímos nenhum processo seletivo: queremos que todo mundo agregue e se sinta bem, amparade por nossa família. Dentre muitas entradas e saídas, conseguimos assegurar que somos um grande mecanismo de mudança, tanto no âmbito interno de cada pessoa, uma vez que nossa abordagem serve de apoio para o processo de autoconhecimento,  quanto no âmbito externo, uma vez que nos posicionamos socialmente como grupo. 

Nossa história é, de certa forma, recente, já que iniciamos nossas projeções em 2022, mas a trajetória tem sido extremamente rica e cheia de altos e baixos. Esse é o ponto desse ensaio: registrar nossa jornada para que possamos mitigar as incansáveis tentativas de nos apagar enquanto forças artísticas. Não sei dizer o quanto nosso coletivo vai durar, mas quero hoje, agora, deixar toda nossa graciosa experiência registrada, a fim de evidenciar a importância da organização coletiva e inspirar futuros coletivos drag.

Embora frequentemente enfatize o fato de sermos o primeiro coletivo drag da nossa área, jamais posso afirmar que criamos uma cultura drag aqui. Antes de nós tivemos Divinna Synik, Karol Della Lastra, Kauara Laffity e tantas outras que viveram momentos de glória nas décadas anteriores. 

Tô de Drag
Espetáculo “Drag Através do Tempo”, pela Lei Paulo Gustavo, Campo Limpo Paulista, Sp. Foto: Nala Vizion.

A primeira versão do coletivo Tô de Drag veio em 2022, em uma oficina drag organizada pela própria Divinna Synik. Essa oficina é uma tradição da nossa comunidade em Jundiaí, ocorrendo há mais de dez anos, em setembro, tendo Karol Della Lastra como idealizadora (nossa avó, como ela mesma gosta de ser chamada). Essa oficina culminava em um concurso que elegia a Miss Drag da Parada LGBTQIA+ de Jundiaí, e nós, na época cinco, não conseguimos tratar de forma tão competitiva umas às outras. No fim daquele dia, criamos um certo carinho, por mais que nunca tivéssemos nos visto antes. 

Após esse evento, continuávamos a conversar no grupo do Whatsapp. Tudo começou com um tom despretensioso como: “vocês sabem de algum rolê drag aqui?” ou “onde posso comprar uma lace?”. E não demorou muito para que começássemos a perceber que não havia esses rolês drag, ou que não tínhamos dinheiro para comprar laces e looks caros, o que nos fez conversar sobre emprestar coisas umas para as outras. Desse modo, transformar aquele grupo do Whatsapp em um coletivo foi nada burocrático: foi simplesmente natural, quase inevitável, diante das dificuldades que atravessávamos enquanto indivíduos.

O capítulo seguinte foi cheio de descobertas, ternura e amizade. Havia ali uma ideia simplória: queríamos ocupar palcos e faríamos isso de forma gratuita ou não. Havia um ímpeto em se montar e performar, nada tão longe disso. O que primordialmente queríamos era criar laços emocionais umas com as outras e termos companhia quando saímos por aí, pelas noites de Jundiaí. Era o que precisávamos na época. 

Quando olho para trás, percebo que o Tô de Drag desempenhou um papel vital para cada integrante que passou pelo coletivo. Não possuíamos perspectiva de que poderíamos perseverar na arte drag. Parecia algo impossível no interior, uma vez que não nos contratávam, chamávam ou sequer aparecia uma viva alma para nos dar a possibilidade de ter uma carreira profissional. Drags do coletivo me confessaram que, se não fosse pela força da nossa união, certamente já teriam desistido dessa área de atuação. Isso se dá, pois se manter em regiões interioranas é um desafio avassalador para qualquer artista, ainda mais para artistas drag, que enfrentam, até mesmo em grandes cidades, enormes dificuldades em não só capitalizar, mas tornar a execução do que fazemos viável.

Além disso, desde seu primeiro dia o coletivo é mecanismo direto de autoconhecimento e expressão. Sempre dialogamos sobre o livre-arbítrio de cada pessoa e para onde cada uma direcionaria a arte. Tínhamos drag DJ, drag cantora, drag dançarina de vogue, drag teatral…cada uma em seu nicho, mas sempre compartilhando vivências, dores e delícias. Para essas cinco (me incluindo nesse número), isso foi suficiente até certo ponto. Em 2024 tivemos a saída de uma integrante e, no ano seguinte, perdemos mais duas. Não porque o coletivo não era bom, mas porque cada uma, dentro de toda a liberdade que sempre demos umas às outras, não se viam mais na abordagem que tínhamos como coletivo ou na arte drag em si. Assim, em 2025 seguimos com um plano que tínhamos desde nossa fundação oficial, em 2023: abrir o coletivo para outres integrantes. 

Tô de Drag Brasil
Noves integrantes do coletivo, 2025. Foto: Alex Balbino.

Ao abrirmos, fomos agraciadas com uma gama diversa e pudemos amparar as novas drags que apareceram na região. Se antes tínhamos uma sensação de que todas estavam no mesmo barco, dessa vez o cenário mudou um pouco. O coletivo já tinha uma história prévia, assim como as drags fundadoras que continuavam nele. Já tínhamos executado eventos de grande porte com auxílio de editais culturais, já tínhamos entrosamento entre nós e, acima de tudo, tínhamos experiência enquanto grupo. Em decorrência disso, passamos por momentos de educação e compartilhamento de causa, ao mesmo tempo que aprendemos com quem chegava. Encontramos a necessidade de fazer mais encontros, oficinas e até mesmo criar um grupo adjacente apenas para compartilhar estudos e referências drag. O coletivo que sempre prezou por educar, e o novo grupo trouxe ainda mais fortemente essa função, e isso mudou tudo.

O nível de complexidade aumentou exponencialmente se compararmos ao período de  fundação do Tô de Drag. O tom despretensioso de se montar e ocupar qualquer palco que nos deixassem subir deu lugar para uma instituição educacional e de apoio para quem está iniciando a jornada drag. Hoje, o coletivo continua com um tom afetuoso, mas devido à demanda interna e externa, ele também necessita que tenhamos uma abordagem quase empresarial. Nós intermediamos negócios com contratantes, fazemos eventos abertos ao público e frequentemente somos convidadas para agregarmos a iniciativas de cunho político e social. O coletivo desempenha um papel muito mais rebuscado na comunidade LGBTQIAPN+, e isso nos força a tratar a arte drag de forma extremamente séria e profissional.

De maneira transparente, posso afirmar que ao longo dos anos percebemos que as demandas não giram em torno apenas de performar no palco. Movimentos sociais precisam de nós, assim como o cenário cultural da região. Em aspecto profissional também, já que nas intermediações com contratantes percebemos que precisamos de um amparo maior, uma vez que já enfrentamos problemas ao redor de remuneração justa e do olhar externo que o mundo tem perante nossa arte. Não nos levam tão a sério como levam demais artistas como musicistas e atuantes de arte visual, o que nos obriga a nos fortalecer enquanto instituição. É como se hoje tivéssemos uma responsabilidade que exacerba nossas necessidades de forma que não as torna mais individuais. Uma vez que nossa região nos avalia como grupo, precisamos coletivamente  nos posicionar como tal. 

Referente ao posicionamento, posso dizer que isso também se ampliou em ação. Encontramos uma ampla gama de objetivos artísticos como sessões de desenho com modelo vivo drag, colaborações fotográficas com fotógrafos, além de ministrar oficinas. Antes, queríamos só um lugar para performar, já hoje queremos nos desafiar a nos inserir em qualquer lugar que queiramos agregar.

Por isso, vejo um futuro brilhante para o Tô de Drag. Sem pseudo-pioneirismo, tampouco menosprezo, vejo a realidade através dos meus olhos: nos organizamos de forma que raramente visualizo no cenário nacional e atuamos com tanta multidisciplinaridade que também compreendo o quão raro é fazer tal feito. Por isso, afirmo que o coletivo Tô de Drag é revolucionário, ao menos nas vidas de quem participa e é atravessado por ele. 

Tô de Drag Brasil
Drag Vibes, festival de performances drag feito anualmente pelo coletivo. 2025. Foto: Ju Tafarelo.

Devido à dificuldade de resistir em uma cidade historicamente ultraconservadora, coletivos são essenciais para Jundiaí. Temos coletivos que trabalham em prol do meio ambiente, dos direitos da mulher, de populações racializadas e me enche o coração perceber que o Tô de Drag se encontra, atualmente, em estado de igualdade em relação a todos esses. Sabemos com toda a certeza do mundo que, mesmo que algo aconteça um dia e tenhamos que finalizar os trabalhos, por muitos anos a cidade se lembrará de nós. Criamos um legado inegável, e dentre tantas oficinas e iniciativas de que já participamos, mudamos a perspectiva de vida de muitas pessoas. O que mais esperamos é que as drags (pelo menos as que estão ao nosso redor) compreendam seu poder artístico e político além do profissional, e nunca aceitem menos do que merecem. Torcemos para que ao longo do tempo possamos atuar tal qual um sindicato e assim possamos remar contra a maré, maré essa que tende a nos inferiorizar. Não é à toa que estamos em processo de nos tornarmos ‘ponto de cultura’ na cidade. 

Em cidades que nos ensinam de forma explícita a reduzir a nossa existência, organizar-se coletivamente é um gesto radical de insubordinação.Depois de anos de experiência compreendo que o Tô de Drag nunca foi apenas sobre performance. Foi e continua sendo sobre permanência. Ocupamos espaços com seriedade, os quais por muito tempo nos foram negados. Transformamos ,a cada ato, a ausência em presença organizada.

Mais uma vez, afirmo que  nossa duração é incerta, mas há algo que já não pode ser desfeito: uma vez que nos vimos em conjunto, uma vez que entendemos a potência de existir em grupo, torna-se impossível desaprender esse gesto.

E eu não sou mais uma drag enclausurada entre quatro paredes, negociando meu reflexo com a possibilidade de existir. Minha imagem não é mais sustentada de forma solitária. Ao olhar meu reflexo, não vejo mais somente eu: meu espelho reflete muitas, em toda sua gama. 

Talvez o Tô de Drag não tenha resolvido todas as lacunas que atravessam a experiência de ser uma artista drag no interior, e nem poderia. Mas ele fez algo que, para mim, parece ainda mais rebeliante: ele tornou impossível voltar à solidão como um estado natural.

A primeira noite de um king

Catharina Conte

A pandemia já se anunciava, como o céu nos segundos que antecedem a tempestade, quando me montei de drag pela primeira vez. Eu estava em Londres, início de 2022, e, quase por instinto, me inscrevi para performar em uma noite drag no TRAMSHED, um espaço cultural no sul da cidade coordenado pelo brasileiro André Pink. A proposta era uma scratch night (em português, uma noite de rascunhos), ou seja, um espaço para apresentar números ainda em processo. Mal sabia eu que quem estava em processo era eu.

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Reynado. Fonte: Acervo pessoal da artista,

Eu não fazia ideia do que exatamente queria apresentar. Só sabia que queria me montar e subir ao palco. Sabia que dublaria, dançaria, seduziria e viveria, ainda que por uma noite, meu sonho de diva pop.

Performances drag me emocionam desde pequena. Filha de atores, cresci entre as coxias dos teatros de Porto Alegre; os camarins eram extensão da minha casa, e minha família se estendia na classe artística. Foi ali que aprendi a me encantar com o que acontecia no palco. Desde cedo eu assistia a João Carlos Castanha, com seu estilo ousado e debochado. Nunca esqueci dele tirando um peixe de dentro da roupa enquanto dublava, à sua maneira particular, My Heart Will Go On, de Celine Dion. Também me fascinava com Dandara Rangel, que me ensinou a amar Alcione através de seus números. Heinz Limaverde fazia uma Kelly Key irreverente; Laurita Leão me encantava com sua beleza e doçura; Caio Prates me arrancava risadas com seu Fábio Júnior e sua Julie Andrews.

Com as drags, aprendi desde cedo que, com uma dose de magia, posso ser quem eu quiser. Mais do que o teatro que eu já conhecia, o drag me mostrou como celebrar com o glamour possível, como se cada gesto tivesse o brilho de um milhão de dólares.

Foi assim, sentada nos ombros de gigantes, que decidi performar pela primeira vez. Comecei pela música: Try a Little Tenderness, de Otis Redding, na voz da minha crush de infância, Cássia Eller. Os gritos de Cássia, o staccato da canção, a batida cheia de violência necessária fizeram surgir em mim uma figura masculina.

Vesti um terno roxo com rosas amarelas, cortei o cabelo e desenhei um bigode. Meu cabelo curto na época ajudava a compor, diante do espelho, uma versão de mim vinda de outro multiverso. Uma versão vigorosa, que não pedia desculpas, que transbordava confiança.

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Reynaldo. Fonte: Acervo pessoal da artista.

A confiança de um homem hétero.

Preparei meu número com o auxílio de Fernanda Mandagará, Ramiro Silveira, Nicole Cerato e León Franz, porque mesmo sozinha, eu estava acompanhada.
Ao entrar em cena, entendi: a autorização que o masculino carrega para existir no mundo atravessava meu corpo no palco. Ao ser ele, eu me tornava uma versão mais potente de mim. Eu era mais forte do que eu mesma.

No fim daquela noite, voltando de metrô para casa, eu sabia que um sonho tinha se realizado. Eu podia não compreender tudo sobre meu drag naquele dia, mas ele havia nascido. Ainda mamava no meu peito — e eu estava feliz de ter parido.

Explorar Mr. Raba me sustentou durante a pandemia. Preencheu tardes tediosas, deu cor a dias repetidos. Ele foi crescendo: apareceu em participações como MC em noites de drag e burlesco, em vídeos para internet, e até em conversas de bar, quando surgia de repente entre uma cerveja e outra.

O tempo passou. Mudei-me para São Paulo e criei uma amizade com Maíra de Grandi, atriz que também tinha seu king: Cauê. Nossas trocas nos fortaleceram até que decidimos escrever Brodagem, uma peça onde nossos kings pudessem interagir e inventar uma relação.

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Reynado e Cauê. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Foi nesse processo que senti a necessidade de entender quem era Mr. Raba para além da performance. E aí nasceu Reynaldo: um homem aparentemente confiante, mas cheio de fissuras na personalidade — como eu. Um adorável detestável que mora dentro de mim.

A peça parte da amizade desses dois homens para discutir, com humor e deboche, temas como masculinidade tóxica, amizade masculina, sensibilidade e poder. Misturamos linguagem de podcast ao vivo, improviso e participação do público, criando um espaço onde o ridículo da masculinidade hegemônica se expõe sozinho. E finalmente, chegamos em maio de 2025, quando realizamos nossa primeira temporada em São Paulo, na Casa de Artes. A cada noite, a plateia se tornava cúmplice do jogo e alimentava o improviso. Criamos BRODAGEM também como um convite ao riso e à reflexão.

Reynaldo, meu drag king, é um projeto infinito como eu. Como diria minha colega de cena, Maíra, depois que se coloca um bigode, não se pode voltar atrás.

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Reynado. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Cada dia que passa, entendo que, no meu corpo, a pesquisa de drag king permeia a performance de gênero, cria uma lente para experienciar o mundo, inverter a lógica, estar no lugar de poder da sociedade, ser o monstro que vos fala que eu tanto temo e amo ao mesmo tempo.

Ao descobrir em mim Reynaldo, descobri um tipo novo de coragem. Se no começo eu só queria dublar, dançar e viver um sonho de diva pop, hoje entendo que o drag king é muito mais do que uma performance: é uma prática de liberdade. É a chance de habitar o impossível e de seguir criando mundos onde eu possa ser quem eu quiser.

Arte drag: conexões consigo e com signos de gênero

Anubis Blackwood

O que significa sentir-se pertencente? O que nos reconecta ao mundo quando a vida nos descola de nós mesmos? 

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

É impressionante como podemos nos perder ao longo da nossa trajetória, mesmo habitando o próprio corpo e pensamento. Ainda assim, é possível experimentar um abismo entre quem somos e aquilo que nos tornamos. Este ensaio não se propõe a uma análise sociológica abrangente, mas a um mergulho íntimo: uma narrativa sobre divergências, desencontros e tentativas incessantes de reconexão consigo.

O desfecho, adianto, é que encontrei na arte drag um ponto de inflexão — a ferramenta simbólica e estética que me permitiu atar-me novamente a mim mesma e, por consequência, ao mundo.

Desde cedo, percebo que revisitar memórias de infância é um exercício revelador: nelas residem fragmentos que ajudam a compreender quem somos hoje. Carrego a impressão de que sempre houve atrito entre mim e os padrões de gênero, sobretudo na forma como são performados socialmente. Na infância, embora me encaixasse em muitos aspectos do estereótipo de uma menina cisgênero — apaixonada por Barbies e por criar vestidos improvisados com retalhos  —, havia um distanciamento silencioso. Gostava dos signos femininos, mas não do que vinha acoplado a eles: a maneira como eram mediados por outras meninas e pela sociedade ao redor.

Recordo-me de um episódio específico para exemplificar. Ao assistir, em um programa de domingo, imagens censuradas de Helen Ganzarolli em uma revista famosa, minha reação inicial foi de fascínio: parecia-me uma mulher que detinha pleno domínio de si, exuberante, admirável. Cheguei a me imaginar adulta naquele arquétipo — não necessariamente na exposição, mas na confiança. Contudo, bastou ver as reações masculinas jocosas de convidados do programa, os olhares velados das senhoras da plateia e o desconforto explícito de minha própria família para que esse desejo se apagasse.

Não posso mapear exatamente quando e como essa percepção se sedimentou, mas compreendo hoje que experiências assim moldaram minha relação com a performatividade de gênero. Aprendi a amar e a temer simultaneamente aquilo que sou. Temia, sobretudo, o tratamento social que receberia conforme a forma de me apresentar ao mundo.

Na adolescência, minha mentalidade já era outra. Se aos dez anos eu desejava ser como Helen Ganzarolli, aos quinze eu rejeitava ostensivamente qualquer referência próxima a mulheres como ela. Evitava símbolos ultrafemininos e julgava quem os adotava. Por trás dessa postura, havia a consciência dolorosa de que tudo ligado ao feminino era invariavelmente sexualizado, desvalorizado e maltratado. Também havia feridas deixadas por meninas que personificavam a cartilha tradicional da feminilidade e que, de algum modo, me excluíram. Era a narrativa comum da bissexual que não encontra seu lugar.

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

À época, desconfiava de minha orientação sexual, mas ainda não me compreendia como parte da comunidade LGBTQIAP+. Essa indefinição, somada ao desconforto em relação à performatividade de gênero e às turbulências hormonais, intensificava o sentimento de vazio. Buscando pertencimento, transitei por diferentes identidades culturais: fui kpopper, roqueira, adepta da cultura medieval, mas nada preenchia a lacuna.

Até que, aos dezoito anos, assisti ao meu primeiro show drag ao vivo. Ao longo daquela performance, tive a sensação de que minha mente se expandia. Pensei: E se eu pudesse vestir o que quisesse no palco? E se pudesse manipular a plasticidade do gênero de acordo com minha própria narrativa? E se não tivesse medo de encarar a mim mesma, meus traumas, e o mundo ao meu redor? Ali, encontrei a ferramenta de conexão que tanto buscava.

Ao criar minha persona, Anubis, canalizei energia e atenção para mim mesma, e isso me auxiliou a me inserir no mundo. Com ela, desmontei conceitos pré-estabelecidos sobre quem eu deveria ser, criando espaço para me olhar sob outras perspectivas. O medo do julgamento — de ser lida como um determinado “tipo” de mulher — dissipou-se. A aflição diante da interação com signos masculinos e femininos também.

Essa desconstrução impactou minha vivência sexual. Não que tenha havido uma explosão de experiências, mas passei a reconhecer-me como um ser sexual, desejável e dotado de agência — fosse usando camiseta e calça larga como ser humano ou vestido e salto alto como entidade artística. A autoestima, descobri, é uma dádiva que a arte drag me ajudou a cultivar.

Dentro desse percurso, compreendi como as intenções e motivações de drags AFAB (assigned female at birth) diferem, em muitos casos, das drags nascidas resignadamente homens. Para estes, a performatividade do feminino pode funcionar como libertação diante de algo que lhes foi negado; para nós, AFABs, pode significar outro processo: o de reconciliação com signos que, apesar de familiares, foram carregados de ambivalência, dor e falta de autonomia.

Anubis Blackwood
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Na minha experiência, abraçar símbolos femininos por meio da drag é ato simultâneo de subversão e reparação. Não que, quando jovem, eu não considerasse belos o brilho e os vestidos; apenas não queria ser socialmente associada a eles. Ao perceber que a drag me permitia caricaturar e amplificar esses elementos até torná-los plásticos, evidenciando sua artificialidade, senti-me mais confortável em me apropriar deles. Reclamar tais atributos para si, exagerando-os até o limite, é — para mim — um gesto radical.

A sociedade espera que eu tenha cabelos longos, mas não espera que eu use uma peruca de um metro. Espera que eu vista saias e vestidos, mas não que sejam os mais curtos e reluzentes que se possa imaginar. Espera que eu use maquiagem, mas não que a manipule como o faço. Ao reivindicar esses signos, utilizo-os segundo meus próprios critérios, transformando-os em ferramentas de narrativa política e pessoal.

Minhas escolhas estéticas, assim, tornaram-se mecanismos de cura e reparação de traumas inerentes à experiência de ser mulher. A cada montação, reencontro fragmentos meus que antes permaneciam silenciados.

Hoje, percebo que a arte drag não apenas me reconectou com o mundo, mas também me devolveu a minha própria voz. Recuperou minha relação com a sexualidade, permitindo-me habitá-la com autonomia e prazer. E, talvez o mais comovente, resgatou minha criança — aquela que costurava vestidos de tecido improvisado e sonhava com o glamour da TV, mas que um dia se calou diante do olhar alheio por medo. Encontrá-la novamente, livre e risonha sob a luz do palco, é a prova de que a reconciliação consigo mesma é possível — e que, por curiosas vezes, ela vem vestida de couro e paetê.

A primeira drag: abertura de caminhos na arte e na academia

Kam Middle Space

Pioneiro (adj. s.m.) […] aquele que desbrava caminhos e faz a exploração de uma região desconhecida; desbravador.

“[…] Kam Middle é a primeira ‘drag’ a ser homenageada por turma de farmácia da USP” – Jornal da USP – 01/11/2024.

Kam Middle Space abertura de caminhos Grafia Drag
Kam Middle Space é homenageada pela 95ª turma de farmácia da USP. Fonte: Acervo pessoal da artista.

É um reconhecimento enorme receber o título de ser o primeiro em algum lugar. Primeiro lugar na Billboard HOT 100, na universidade, no concurso público, no pódio das Olimpíadas ou até mesmo nas eleições presidenciais. O termo “pioneirismo” mais recentemente me fez refletir sobre seu peso simbólico ao quebrar barreiras e abrir espaço para um universo novo e desconhecido. 

Neste 3º ensaio ao Grafia Drag, proponho uma reflexão acerca do significado de pioneirismo na comunidade drag: quem é a primeira drag?

Quando recebi a notícia de que seria o farmacêutico homenageado, a primeira drag, da 95ª turma de Farmácia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – USP, confesso que fiquei surpreso. É um reconhecimento que carrega consigo a coragem de ser visível em ambientes que historicamente não nos abraçaram. Conquistas como essa abrem caminho para que outras pessoas LGBTQIAPN+ também se sintam autorizadas a ocupar os mais diversos espaços. 

Nesse contexto, nada disso seria possível sem o apoio daquela que me emprestou a primeira peruca: minha mãe Drag. Falar de famílias drag é falar de um universo tão diverso quanto as pessoas que nele habitam. É tentar definir algo que, por natureza, escapa às definições rígidas e aos padrões convencionais. Não existem certidões, heranças ou laços de sangue — e, no entanto, esses vínculos podem ser mais profundos e transformadores do que heranças genéticas. 

No dia a dia, as mães e pais drags compartilham mais do que conselhos: dividem figurinos, perucas, sapatos e acessórios que ajudam novas drags a subir no palco com confiança. Esses itens, muitas vezes inacessíveis financeiramente para quem está começando, tornam-se símbolos de apoio e pertencimento. Quando uma mãe empresta sua bolsa ou um pai ajusta um salto para a filha, eles não estão apenas fornecendo ferramentas; estão dizendo: “Você faz parte disso. O palco também é seu.”

Essas relações se moldam e se transformam continuamente, refletindo o espírito de uma comunidade que vive da reinvenção. Conforme o relato de Speckart (2023), em sua dissertação de mestrado, para que uma família drag exista, tudo o que se precisa é de um acordo — às vezes explícito, às vezes implícito — sobre quem ocupa cada papel. Não há regras, e isso é libertador. Mas também há a incerteza: o que acontece quando uma das partes deixa de se montar? O que diferencia a maternidade drag de outros tipos de vínculos? 

Talvez seja a espontaneidade. Não há contratos, nem prazos ou horários determinados. Adotar filhes drag é um ato que simplesmente acontece, muitas vezes sem palavras, em um olhar ou em um momento de apoio inesperado. Nesse sentido, Speckart (2013) também pontua sua experiência pessoal ao desempenhar o papel de mãe e por vezes professora. Segundo a pesquisadora, ao contrário do papel de professora, ser mãe drag não é um trabalho, não envolve uma divisão de tempo calculada ou remuneração. É uma entrega que surge do desejo de ver outra pessoa crescer e florescer na arte.

Quando esse vínculo é saudável e genuíno, é algo mágico de se ver. Algumas famílias carregam o nome de uma casa ou haus/house com orgulho, mesmo sem papéis definidos, unidas pelo desejo comum de criar e celebrar a arte drag. Essas casas, surgem por diferentes motivos e se adaptam aos contextos em que estão inseridas. Muitas vezes, a necessidade que une essas pessoas não é material, mas criativa e emocional. É a busca por um espaço onde se possa experimentar, errar e crescer. Onde a curiosidade e o desejo artístico sejam alimentados. Em alguns lugares, essas casas se organizam como coletivos artísticos estruturados; em outros, são apenas grupos fluidos que se encontram e se reconhecem.

Minha própria trajetória na drag carrega esse senso de comunidade. Aprendi com minha mãe drag que a arte de se montar é tanto sobre autodescoberta quanto sobre conexão. O pioneirismo que me trouxe à posição de homenageado acadêmico também foi moldado pelas lições que vieram dessas trocas. A maquiagem, os saltos e os aplausos são apenas a ponta do iceberg; o que sustenta tudo isso é a solidariedade entre nós.

Hoje, enquanto reflito sobre o pioneirismo que me foi atribuído, penso no peso simbólico que ele carrega. Não se trata apenas de ser o primeiro, mas de garantir que eu não seja o último. O pioneirismo não é apenas sobre quem chega ao topo, mas sobre abrir portas para que outros sigam pelo mesmo caminho. No palco ou no laboratório, na arte ou na ciência, continuo levando comigo as lições que aprendi com minhas famílias drag e acadêmica. E, mais do que nunca, carrego o compromisso de fazer com que minha visibilidade sirva como uma ponte para que outras pessoas também brilhem. Seja com um salto alto ou com um jaleco, seguimos construindo espaços onde todas as identidades possam ser celebradas.

REFERÊNCIAS:

SPECKART, Jeanne Martins. Uma andança por pedagogias drag. Dissertação de Mestrado (Especialização em Artes Cênicas). Centro de Artes, Design e Moda, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2023, 114f.

RuPaul’s Drag Race é o bastante para uma drag sonhar?

Anubis Blackwood

Anubis Blacwood para uma drag sonhar
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Ano que vem completarei dez anos como artista drag e como boa saudosista olho com frequência para aquela baby drag que se montava no banheiro e, após quatro horas, ali mesmo me desmontava. Obviamente almejava ir para as baladas me encontrar com amigues semelhantes, mas sendo bem sincera, o mais vital para mim era assistir Rupaul’s Drag Race no conforto do meu lar, sozinha. Parecia que, justamente por não conhecer outras drags e por não ter idade para sair e madrugar, era naquele reality show que encontrava a tão desejada sensação de pertencimento. A Mama Ru era a mãe drag que nunca tive, a Michelle Visage era a madrinha que só te critica e faz isso porque te ama,  além das participantes de cada temporada, que eram minhas amigas ou inimigas.

Não entenda mal – eu me orgulhava de aprender tudo sozinha, de conseguir persistir na ideia de fazer o que gosto – mesmo sem ter muitas pessoas ao redor que me entendessem. Acontece que para uma artista dessa área, existe um universo de situações que você só pode vivenciar saindo e há um exibicionismo que não é possível ser feito e sentido dentro da sua casa. Hoje, sei que sou uma exibicionista nata, mas também sei que por mais que encontre atualmente minha solitude com facilidade, não era algo fácil de trabalhar quando se está no terceiro ano do ensino médio e dentre colegas do bairro e da escola, você é a única pessoa interessada em arte performática.

Esse tópico da solidão é intenso para mim em meu histórico na cena artística. Lembro-me de iniciar minha carreira em grupos drag do Facebook e lá até fiz boas amizades virtuais (que se perderam no tempo), mas o que mais lembro é do dia que recebi uma mensagem de uma estudante de sociologia à procura de queens paulistanas AFABs (assigned female at born, ou seja, assinaladas como fêmea ao nascer) para participar do seu documentário de TCC, um filme com o título ‘They Can Do It’. Por sorte, em poucas semanas eu iria performar pela primeira vez, no show de talentos da minha escola. A estudante foi para minha casa e lá gravamos o processo de montação. Depois disso, ela me acompanhou até a porta da escola e essa foi minha participação no documentário. Aguardei bons meses até que o doc saiu e pude assistir, tomada por olhos marejados, satisfação e euforia. Nesse documentário, havia figuras que ao passar do tempo se tornaram muito importantes para a cena drag atual, como, Ginger Moon e demais integrantes do coletivo Riot Queens. Como fiquei contente ao ver outras mulheres e pessoas não-binárias que estavam, assim como eu, tentando fazer acontecer apesar das adversidades de se identificar com um gênero que até hoje não é preferível para entusiastas da arte drag.

Documentário THEY CAN DO IT. Direção e roteiro: Kelviane Lima

O documentário intercala minhas cenas e cenas des outres artistes. As minhas cenas eram de mim sozinha, na minha sala, respondendo às perguntas com bom humor. As cenas delus eram do coletivo unido, se montando ume ao lado de outre, rindo e conversando entre si. Entendia racionalmente que talvez eu não estivesse lá porque era ainda muito jovem, mas tudo que me perguntava era se algum dia eu teria aquela vivência, se algum dia eu teria a minha galera que me fizesse sentir parte de algo maior. É por essas sensações de isolamento que eu frequentemente usava Rupaul’s Drag Race como a parceria que tanto queria ter.

O tempo se passou, fiz dezoito anos. Finalmente pude clamar pela minha liberdade e autoexpressão, ao som de divas pop nas madrugadas da República e Barra Funda, bairros de São Paulo. Consegui fazer amizade e tive um grupo grande de amigues que me acompanhavam, até mesmo criei filhas drag durante esses anos. Não consegui trabalho algum de forma remunerada, afinal, minha turma não era do meio drag e nunca fui de ter contatos, mas fui feliz até certo ponto. Acho que não necessariamente fui feliz enquanto drag, mas fui enquanto pessoa jovem. Nessa época, ainda fantasiava sobre o dia que não só Rupaul expandiria a franquia para o Brasil, mas também aceitaria mulheres cisgênero no programa. Para mim, o maior sucesso que uma drag poderia ter seria participar do reality. 

Aos vinte, me mudei de cidade, cheguei já ansiosa para conhecer a cena drag da região. Na época, eram poucas artistas nas noites não tão badaladas de Jundiaí, não demorou muito para que as pessoas me conhecessem e, assim, fiz novas amizades. Fui a única drag AFAB por muitos anos, inclusive, a primeira Drag da Parada Jundiaí a assim se identificar, então acredito ter tido mais oportunidades, não só pela escassez, mas também por trazer algo novo para a região. Assim fui entendendo como é a vivência drag dessa nova cidade na prática e, consequentemente, passei a entender os desafios drag de forma mais crua e realista. Era como se, em São Paulo, as luzes e o som alto o tempo todo não me permitisse entender as fraquezas de minhes companheires, mas agora, em Jundiaí, mesmo que elas quisessem esconder não conseguiriam, pela proximidade que uma pessoa tem com a outra. Dessa forma, fui amadurecendo minha ideia do que arte drag é nacionalmente e passei a entender muito mais quando iniciei minha carreira organizando e produzindo eventos LGBTQIAPN+ pela região interiorana de São Paulo. Gradualmente, fui me interessando menos por Rupaul’s Drag Race, fui entendendo que, na prática, pouco poderia me identificar ao assistir ao programa que por tanto tempo foi a única família drag que conheci.

Antes, assistia ao reality para sonhar, mas hoje vejo que as motivações não são mais as mesmas. Antes, eu queria ser uma popstar e ter 1 ano de produtos Anastasia Beverlly Hills, hoje, quero bares e espaços públicos no interior de São Paulo que aceitem eventos e pessoas LGBTQIAPN+. O meu sonho atual é ter muito sucesso para conseguir promover eventos drag, poder contratar artistas locais que, não só sou fã, como também sou próxima ao ponto de conhecer a família dessas pessoas. Outro sonho é fazer entenderem, nem que seja uma pequena região, que sou artista e tenho o direito de ocupar qualquer outro evento artístico não categorizado como drag. Aos poucos, percebi que vencer uma competição e ganhar uma coroa não é tão satisfatório assim, não para mim. Para ser sincera, nem mais o estrelato pelo estrelato me apetece, pois hoje sei que se eu tiver palco e as minhas continuarem não tendo, não consigo clamar vitória de fato. 

Anubis Blacwood para uma drag sonhar
Anubis Blackwood. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Para além dessa discrepância de aspirações, vejo também que os desafios e a cultura de onde vivo estão longe de serem parecidos com o que aparece em Rupaul’s Drag Race,  também por isso fui me interessando menos pelo programa. É desconfortável para mim assistir drags e jurados do programa falando tantas vezes com tom de superioridade que isso ou aquilo não é muito drag, por exemplo, quando criticam a falta de enchimento. Essa cobrança e essa forma de se fazer a arte drag acontecer se dá devido a vivência que é completamente incomparável com a de onde vivo. Aqui, o suor é um fator de preocupação por questões climáticas, mesmo sem usar gramas de espuma e meia dúzia de meias-calças. Outra questão que exemplifica bem é a preocupação pela peruca lace-front, que é um produto que pessoas de classe média-baixa conseguem comprar facilmente nos EUA enquanto, aqui, vale uma fortuna. Até nós, artistas do meio, entendermos que as críticas estéticas e comportamentais oriundas de pessoas norte-americanas não nos cabe, vai muito sentimento de invalidez e muita frustração. São micro-agressividades que nos limitam e nos colocam em um lugar irreal.

Pois, então, posso assistir a esse reality drag como um programa qualquer de ficção ou coisa do tipo, certo? Até tentei, porque realmente é um programa divertido e posso resgatar muitas inspirações, mas sinto uma resistência muito grande. Minha alma ativista também me leva a lembrar o quão injusto é o histórico do programa em relação a minha subcategoria enquanto mulher atuante na arte, ou me lembro do quão desinformado o fandom do reality pode ser com artistas reais. 

O que se perdeu durante minha jornada foi Rupaul’s Drag Race como mecanismo de sonho. Vivendo vi que nada adianta sonhar com algo tão fora da minha vivência quando ela, aqui e agora, pede sonhos mais fundamentais, já que nem o essencial temos. Não temos as devidas condições de trabalho dos contratantes; não temos condições de comprar um figurino sem nos endividarmos; muitas vezes, não há entendimento geral do que fazemos; não temos nem mesmo maneiras de transitar em transportes e espaços em segurança quando estamos montades. Rupaul’s Drag Race é um sonho americano de vida.

No meu caso, percebi que é preciso se reinventar enquanto artista. É necessário para minha existência que eu não deposite todas minhas fantasias do que minha arte pode ser e para onde ela pode me levar apenas em um reality show que pouco consigo me assemelhar. Para além das frustrações, que é de bom proveito nos libertarmos, é sobre criar novas rotas de sonhos que façam sentido com o nosso mapa pessoal. Assim, se faz de diferentes formas: é importante traçar sonhos possíveis de se realizar, para que tenhamos possibilidades menos engessadas do que podemos fazer com nossa arte; para que tenhamos mais chances de nos redescobrirmos ao longo dos anos. Esse é o processo de aceitar que nossas motivações, nossos sonhos, mudam e continuarão a mudar.

Com este ensaio, a minha intenção não é dizer que Rupaul’s Drag Race não é uma válida fonte de inspiração, de sonhos e de metas para artistas drag. Quero trazer uma reflexão de alguém que já viveu muitas coisas na arte drag e que, justamente por causa disso, não consegue usar mais esse reality como fonte única para sonhar. Trata-se de um processo de entender como a arte amadurece enquanto nós, pessoas físicas, amadurecemos. 

Para que possamos fazer nossa arte prevalecer, é necessário atualizar nossas formas de sonhar!

“Quem tem medo de DRAG KING?”: Uma conversa (difícil) sobre representatividade e oportunidade

Lorde Lazzarus

drag king Egon LaSand
Egon LaSand recebendo a coroa das mãos de Lorde Lazzarus, no Concurso King of Kings – 2023. (Carla Carniel/Reuters)

A origem da arte transformista/arte drag é controversa, mas a maioria das pessoas que apresentou ensaios e estudos até aqui concorda que o transformismo nasceu no teatro, que é filho das artes cênicas. É possível que ele não tenha nascido somente no teatro. O outro progenitor do transformismo certamente é a expressão de gênero que, sendo ditada por uma sociedade que precisava ser organizada e dominada, gerou essa “mutação” no código do gênero, esse hackeamento das expressões ditas masculinas e femininas. Judith Butler, por exemplo, se sentiu provocada pela visão da drag queen Divine ao pensar no que definiria uma mulher na nossa sociedade. Bem, ainda há muito a se investigar sobre a ofício das drag queens, mas… e os drag kings? Surgiram antes das drag queens? Depois? Muito depois? Muito antes? É bastante provável que as pessoas que vão ler esse texto sequer sabem o que são drag kings e como eles se manifestam.

Conforme o website Drag King History, criado pelos drag kings estadunidenses Mo B. Dick e Ken Vegas, que iniciaram uma longa pesquisa sobre a arte dos então denominados male impersonators (pessoas que “imitam” homens), há registros desses artistas já no ano 600 d.C, mais especificamente 618 d.C, na China, durante a Dinastia Tang. O início do que seria a Ópera Chinesa, um dos berços do transformismo – assim como o teatro elisabetano, mas tendo sua história pouco difundida e bastante apagada por se tratar de cultura asiática – uma arte que combinava folclore, dança e música já trazia mulheres interpretando papeis masculinos no palco. Até a iminência do ano 1280 existem registros que mostram que a presença de mulheres nos palcos da Ópera Chinesa.

Inclusive, ainda trazendo referências asiáticas, até hoje permanece vivo e potente o Takarazuka Revue no Japão, um teatro que produz espetáculos musicais e cujo elenco é composto exclusivamente por mulheres. Elas fazem os papeis femininos e masculinos. Criado em 1914 por Kobayashi Ichizō, sua primeira apresentação se deu no dia 1º de abril de 1914, com um elenco composto somente por meninas e adolescentes entre 12 e 17 anos. O objetivo de seu fundador era manter uma companhia teatral que fizesse produções capazes de ser assistidas por todas “as pessoas da família”. O grupo se apresentou no Brasil em 1978, em ocasião do 70 º aniversário da Imigração Japonesa no Brasil.

Atrizes do Takarazuka Revue (Instagram/Divulgação)

A partir do ano de 1600, as representações masculinas feitas por mulheres e pessoas AFAB¹ começam a ocupar o espaço do teatro europeu, mais especificamente na Suécia. Um nome desta época é Elisabet Forsellius. Devido à sua aparência delicada, Elisabet conseguia, com muita frequência, os papeis de jovens meninos no Teatro Real Sueco. Era comum que adolescentes pobres estudassem teatro, pois era a única forma de que uma mulher pudesse receber alguma educação formal nessa situação. Elisabet atuou entre 1785 e 1850, sendo um dos nomes mais prolíficos do teatro real.

A atriz e escritora Colette (1873-1954), autora de peças teatrais como “Gigi” e livros como “Chéri”, atuou como male impersonator ao lado de seu parceiro, “Max” DeMorny, uma pessoa transmasculina, chocando a sociedade com seus atos que envolviam sensualidade e comicidade. Recentemente, por conta de uma cinebiografia lançada tendo por protagonista a atriz Keira Knightley, a vida de Colette ganhou popularidade entre a comunidade LGBT mais jovem, e trouxa à tona os feitos de uma mulher bissexual em época de extremo conservadorismo sexual.

Colette e Max DeMorny em cena (Arquivo Best France/Internet)

E a história dos drag kings não se resume somente às mulheres, como vimos acima a participação de uma pessoa transmasculina² num cabaré de variedades ao lado de sua parceira. Claude Cahun (1894-1954) foi um artista surrealista que se definia como pessoa de gênero neutro. Sem assumir nem o feminino e nem o masculino, Claude registrava em suas fotografias a fluidez de sua persona artística, e pode ser considerado um dos primeiros artistas assumidamente não binários que se tem registro. Hoje vemos muitas pessoas trans não binárias também se expressando através arte drag king e enriquecendo sua história, criando novas estéticas e práticas performáticas.

Claude Cahun (Jersey Heritage Collections).

Até aqui vimos que a história dos drag kings não começou com a estética andrógina que se viu popularizada nas décadas de 1970 e 1980, mas muito antes do que se imaginava. E isso que foi apresentado aqui é até onde a história foi até agora, logo sabemos que podem haver registros de manifestação drag king ainda por serem descobertos.

É importante registrar que um drag king estava presente em um momento histórico, que foi o Stonewall Riot, em 28 de junho de 1969, data que se tornou o marco da representação do Orgulho LGBT+ através de Marchas e Paradas da Diversidade no mundo todo. Stormé DeLarverie, um dos mais populares drag kings de sua época, estava ao lado de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante o confronto em Stonewall. Sendo mulher, lésbica e negra, sua figura em um momento tão importante da história foi apagada aos poucos, a ponto de raramente ser lembrada quando a história de Stonewall é contada. Stormé atuou em espetáculos e cabarés, sendo o único drag king negro a ocupar o palco do Jewel Box Revue. Ela também inspirou muitas outras jovens mulheres a “se vestir como homem”.

Stormé Delaverie e drag queens (Schomburg Center for Research in Black Culture, NYC – GQ Magazine/Reprodução)

A partir de Stormé, vários drag kings tomaram lugar em palcos importantes da noite estadunidense, conforme a linha do tempo estudada por Mo B. Dick em seu Drag King History. No ano de 2019, o drag king Landon Cider vence o reality show “Boulet Brother’s Dragula”, sendo assim o primeiro artista do gênero a alcançar projeção internacional por conta da popularidade televisiva. Kristine Bellaluna, a artista por trás de Landon Cider, tem hoje quase 260 mil seguidores em sua conta de Instagram, e se tornou referência para várias pessoas que querem atuar como drag kings.

Landon Cider (Instagram/Reprodução)

Antes disso, já havia no Brasil uma forte movimentação drag king se desenvolvendo e lutando por espaço. Lorde Lazzarus iniciou sua trajetória na arte da montação em 2001, em Santa Catarina, e desde então vem desenvolvendo ações e eventos para o fomento da arte drag king no Brasil. Criou o CENSO DRAG KING, pesquisa que já contou com a participação de mais de oitenta pessoas, e em 2021 criou também o primeiro concurso de drag kings do Brasil, o Concurso King of Kings, que já conta com duas edições, uma online em 2021 (por conta da pandemia de Covid-19) e uma presencial em 2023, que ganhou um grande destaque na mídia nesta sua última edição. No ano de 2013 nasce o Cabaret Drag King, criado por Adriana Prates na Bahia, e por onde passaram kings pioneiros como Tonhão, Kinn Spada e Caio Belsetto. O coletivo Drags do Maktub de Ilhéus também conta com pesquisa drag king e tem como protagonista o king Julian J. Glover. No Norte, Príncipe Negro, persona artística de Cedric Ramos, é um drag king pioneiro em sua região (por muito tempo foi o único drag king do Pará). Em 2017, Don Valentim, persona artística do artista trans Valentim Dias, nasce na cidade de São Paulo. Consegue muito destaque na mídia e participa do documentário All that Drag em 2022. No sul do país (Curitiba/PR), em 2018, nasce o Coletivo Kings of the Night, da artista Rubia Romani. Vários drag kings já passaram pelo coletivo e ainda fazem parte dele, como: David Grelow, Juanz Bordello, Wal di Nylon, Netto, Kristo, Lucifernandes, dentre outros. Em 2019, no Rio de Janeiro, um coletivo de artistas composto por Renat Ferrer e Juca criou a experimentação Piratas de Gênero, que consistia em fazer montações de drag king com as mais variadas coisas, tais quais: os próprios cabelos, pelos do corpo, alimentos como macarrão e plantas. Juca se sentiu inspirado por Paul B. Preciado, filósofo transgênero, a promover essas oficinas de montação de onde saíram posteriormente muitos drag kings.

drag king Lorde Lazzarus
Lorde Lazzarus em 2003, em Camboriú/SC (Arquivo pessoal)

Mas, agora vem uma outra pergunta: se os drag kings estão aí há tanto tempo e há uma cena forte se desenvolvendo em quase todo o Brasil, por que não os vemos nas festas e nos diversos eventos LGBT+ que acontecem na noite e fora dela (como os drag brunches, que estão se tornando cada vez mais populares)? A resposta: misoginia e transfobia. E o que é mais decepcionante: isso vem de dentro da comunidade LGBT na grande maioria das vezes.

Por ser uma arte AFAB – que agora avança e abraça também homens cis – a arte dos drag kings é desenvolvida por mulheres, pessoas trans não binárias AFAB e pessoas transmasculinas, grupo que por si só já sofre bastante preconceito quando encontra a cisnormatividade da letra “G” da sigla. Muitos homens cis homossexuais, mesmo os adeptos da arte da montação, com anos de atividade e expressividade, não aceitam dividir seus espaços e palcos com pessoas AFAB. Isso já gerou muita discussão quando pessoas AFAB começaram a aparecer mais e mais na cena atuando como drag queens. A comunidade LGBT entendia que: AFABs poderiam se expressar como drag kings e AMABs³ poderiam se expressar como drag queens, e isso não poderia ser mudado. O apego ao status de female impersonator, ainda muito comum dentro da arte transformista/drag, disseminada massivamente pelo reality show RuPaul’s Drag Race, impunha que mulheres, por exemplo, não poderiam se montar como drag queens por já estarem dentro do espectro de gênero “correspondente” a elas. E o que acontece com os drag kings?

Por trazer em sua estética e em seus números artísticos uma sátira da masculinidade hegemônica, machista, refém do patriarcado e geralmente tóxica, a arte drag king incomoda muito os homens cis de dentro da sigla LGBT. Também se concebeu a ideia – errada – de que drag kings são artistas demasiado “politizados” (como se isso fosse algo pejorativo) e que seus shows se resumem a ridicularizar os homens e o status quo. Também há um forte consenso que kings não usam figurinos ou caracterizações tão elaboradas como as drag queens. Mas, se uma pesquisa simples for feita nos buscadores da Internet, o que se vê é exatamente o contrário. Drag kings são artistas que apresentam o mesmo refinamento que as drag queens, e exploram seus talentos das mais variadas maneiras: dublando, dançando, cantando, atuando na comicidade, dominando habilidades circenses e mais uma miríade de coisas diferentes. Os kings também celebram masculinidades não tóxicas, feminilidades, homenagens a grandes ídolos e uma variedade de performances que merece espaço e palco em todo e qualquer lugar.

Vemos que é difícil para homens cisgênero da comunidade LGBT assumirem que são, essencialmente, misóginos. Por serem pessoas que se relacionam com seus iguais, ver uma mulher dentro dos de seus espaços pode ser considerado uma ameaça. Os homens cis tomaram para si o protagonismo da comunidade LGBT, esquecendo que, nas vertentes artísticas, pessoas transgênero ainda foram e são pioneiras na grande maioria dos segmentos. A arte transformista latino-americana e a brasileira são artes paridas por pessoas trans e travestis. O gráfico da violência aponta para os homens cis porque estes podem estar mais presentes na vida noturna e nas ruas do que as mulheres lésbicas, bissexuais e trans, por exemplo (sem esquecer das demais pessoas AFAB). Obviamente que a violência vai atingir as pessoas que estão expostas, e por conta da vulnerabilidade social e da prostituição, muitas vidas de mulheres trans e travestis são ceifadas todos os anos. Homens cis também sofrem com as violências, algumas fatais, mas que se dão também por exposição.

“Os dois grupos que sofreram mais violência, reunindo 90,5% dos casos, foram os homens gays (45,89%), com um total de 145 mortes; e as travestis e mulheres trans (44,62%), com 141 mortes. As mulheres lésbicas representam 3,80% das mortes (12 casos); os homens trans e pessoas transmasculinas somam 2,53% dos casos (oito mortes).”

(Agência Brasil de Comunicação, 2022).

Para as pessoas que socializaram como mulheres (AFABs), sair de casa e se expor ainda é um tabu. A “boa menina”, a “boa mulher”, a “futura mãe” não pode se “andar pelas ruas”. Sem contar o medo que essas pessoas têm de serem abordadas, roubadas e o pior: serem violentadas. Por esse motivo, as violências das quais elas são vítimas ocorrem dentro de casa (abusos sexuais, agressões físicas e psicológicas, dentre outras violências), e algumas das mortes se dão por suicídio (no caso dos homens trans). Só neste ano, o IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) já noticiou a morte de, pelo menos, quatro homens trans. Pessoas AFAB vivem situações de agressão e violência caladas – ou são silenciadas. Também existe muita subnotificação da quantidade de suicídios que acontecem todos os anos, além da falta de denúncia dos agressores por parte das vítimas, por puro medo de fazê-lo e sofrer ainda com as consequências. Precisamos, infelizmente, tocar nesse assunto delicado para seguir esboçando como a misoginia (e agora a transfobia, considerando as pessoas transmasculinas, por exemplo) impede que manifestações como a da arte drag king sejam celebradas e tenham o mesmo espaço que a arte das drag queens.

Neste ano ocorre a terceira edição do Festival Realness, na cidade de São Paulo, famoso por trazer participantes do reality show RuPaul’s Drag Race para o Brasil, e mesclar a participação dessas artistas com artistas locais. Estamos em 2024, terceira edição do festival, e é a primeira vez que um drag king vai se apresentar neste evento tão grande. No flyer de divulgação, parece simbólico o espaço que os kings ocupam dentro desse segmento: o nome de Pietro Lamarca é o último no line de atrações.

fesival Realness
Flyer de divulgação do Festival Realness de São Paulo (Instagram/Reprodução)

Que as mulheres artistas da comunidade LGBT sofrem com a misoginia é algo bastante óbvio, conforme relatos que recentemente elas têm trazido para suas redes sociais, no formato de cards ou vídeos, questionando as atitudes dos homens cis que atuam como drag queens e até do público masculino dos eventos que frequentam. Mas, e quanto à comunidade trans não binária AFAB e transmasculina? Conforme Ian Habib, pessoa pesquisadora e fundadora do MUTHA BRASIL – Museu Transgênero de História e de Arte, não é errado dizer que o que é praticado contra essas pessoas também possa ser categorizado como misoginia, pois ainda não temos um termo cunhado como mais adequado. E como a misoginia se dá? De formas sutis e não sutis como: acreditar que o trabalho de pessoas AFAB careça de pesquisa, polidez e tem apresentação inferior comparada aos demais artistas da comunidade LGBT, que o corpo AFAB seja objeto de vergonha e cause repulsa quando exibido da mesma forma que homens cis expõem seus corpos na arte transformista/drag, do assédio que também acontece em ambientes de ensaio, camarins e lugares não públicos, quando pessoas AFAB são tocadas sem sua permissão ou precisam responder perguntas invasivas acerca de sua vida pessoal,  identidade de gênero ou orientação sexual.

A falta de drag kings ativos no meio artístico se dá, essencialmente, por misoginia. O público não chega a conhecer e experimentar a diversidade dessa arte porque é privado disso, com produtores fazendo com que kings se apresentem somente em eventos específicos ou ainda colocando-os como atração pela cobrança de representatividade, e não por acreditarem que drag kings possam entregar números artísticos até melhores que as drag queens. Infelizmente, ainda são poucos os drag kings que se arriscam a participar de concursos não exclusivos, a enfrentar um line up composto quase que totalmente de drag queens – em sua maioria homens cis – ou tolerar ver sua arte encaixotada como “colocar um terno e um bigode e imitar qualquer coisa parecida com um homem”.

Tenderoni fez história ao ser o primeiro drag king a vencer o concurso Drag Queen of the Year em 2021, produzido por uma das vencedoras de RuPaul’s Drag Race, Alaska Thunderfuck. Apesar de estar construindo uma carreira sólida com seus shows e com sua presença nas redes sociais, Tenderoni engrossou uma polêmica que tomou conta do microblog X (antigo Twitter), quando a drag queen Naysha Lopez falou em uma viewing party que não acha pertinente que kings se unam às queens na competição televisiva de RuPaul Charles. O fandom do Drag Race não se mostra nada empático às lutas de kings do mundo todo para participarem do programa, e o comportamento de colegas drag queens como Naysha Lopez não faz com que as coisas evoluam positivamente. Ela expressou publicamente algo que muitas delas pensam e falam entre si. A grande maioria dos homens tem medo de competir com pessoas AFAB. E por que? Porque sabem que elas podem ser tão boas ou melhores do que eles.

Tenderoni (Evan Jenkins/New York Times)

Só aqui foi possível reunir muito acerca dos drag kings. Agora imagine que: cada pessoa que se interessa por drag queens fizesse a sua pesquisa sobre essa arte que fica tão precarizada de atenção e valorização? Drag kings também merecem e devem estar na TV, nos concursos – sendo tratados da forma correta e pelos pronomes corretos – nos mais variados eventos, nas grandes festas e nos festivais. E que seus nomes, em algum momento, possam encabeçar o topo da lista das atrações e sejam responsáveis por levar o público a todos esses lugares.

***

  1. AFAB: “Assigned Female At Birth” – pessoas designadas como mulher ao nascer
  2. Max DeMorny usava trajes masculinos e referia-se a si no masculino, usando pronomes masculinos e vivendo como homem
  3. AMAB: “Assigned Male At Birth” – pessoas designadas como homem ao nascer

Referências

https://dragkinghistory.com

https://kageki.hankyu.co.jp/english/index.html

https://www.culturajaponesa.com.br/index.php/tag/teatro-takarazuka

https://www.bbc.com/culture/article/20230125-colette-the-most-beloved-french-writer-of-all-time

https://www.imdb.com/title/tt25364172

https://gamarevista.uol.com.br/sociedade/quando-a-masculinidade-se-desmonta

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2022-05/numero-de-mortes-violentas-de-pessoas-lgbti-subiu-333-em-um-ano

https://www.bustle.com/entertainment/tenderoni-pride-yearbook-favorite-drag-kings-anti-drag-laws

https://www.instagram.com/p/C4jPL_OPolI/?img_index=1

https://www.instagram.com/transmascstudies

Terapia Revolucionária ou Fantasia Perigosa? Explorando os limites da arte Drag

Kam Middle Space

Quando você encontra uma drag queen, o que você vê?

Kam Middle Space Grafia Drag arte revolucionária

Mais do que simplesmente entretenimento, a arte Drag tem a capacidade de tratar a mente humana! Como? Não faço a mínima ideia… mas te convido a explorar o poder dessa expressão artística como ferramenta terapêutica.

Sabe-se que a arte é um importante canal de expressão da subjetividade humana, que permite ao indivíduo/grupo acessar conteúdos emocionais, analisá-los e retrabalhá-los através da própria atividade artística. A arteterapia é um recurso utilizado por profissionais da Psicologia, Enfermagem, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, sendo definida como “uma prática terapêutica com saber e metodologia própria […] Propicia a imaginação e a vivência simbólica. Facilita a ressignificação de conflitos internos e externos (mentais, emocionais e relacionais)” (UBAAT, 2023). Este recurso terapêutico não apenas aumenta a consciência individual, mas também facilita a autoexpressão e a resolução de conflitos emocionais, resultando em benefícios terapêuticos, conforme apontado por Reis (2014).

Desde os tempos do teatro grego, por meio de diversos níveis de identificação, os artistas organizam seu mundo interno e o representam através de uma simbolização na obra de arte produzida (CAPUCHO, 2020). No século XX, o neurologista Sigmund Freud demonstrou interesse pela arte e propôs que o inconsciente se revela por meio de imagens, possibilitando que artistas representem e expressem conteúdos psicológicos em suas obras, de maneira similar ao uso de palavras (FREUD, 1901). O psiquiatra Carl Jung foi pioneiro no uso da arteterapia em seu consultório, argumentando que a simbolização do consciente coletivo e individual ocorre através da arte (JUNG, 1922). Assim, em qualquer nível de participação em um evento artístico, os indivíduos podem encontrar benefícios terapêuticos. A arte é essencial para a compreensão e transformação do mundo pelo ser humano, fornecendo um meio de se posicionar e se envolver com sua natureza mágica inerente.

Diante disso, é importante destacar a diversidade de formas artísticas que podem ser empregadas para promover a saúde mental e emocional. A arte, incluindo a arte Drag, auxilia o sujeito a se autoconhecer e a se comunicar de uma maneira não verbal, que muitas vezes é mais efetivo do que a comunicação verbal sozinha (CIASCA, 2017). Em certos momentos, expressar sentimentos através de palavras pode ser limitado, e é aí que a criação artística, como a arte Drag, desempenha um papel importante. Ela oferece um meio de expressão que transcende as limitações da linguagem verbal, permitindo que os artistas Drag e seus espectadores explorem e comuniquem seus mundos internos de uma maneira mais completa e autêntica.

Kam Middle Space Grafia Drag arte revolucionária

Nós, artistas Drag, não apenas desafiamos as normas convencionais de gênero, mas também oferecemos um espelho reflexivo para explorarmos aspectos essenciais da nossa própria identidade e experiência emocional.

Confesso que optei por vasculhar esse tema durante as férias em minha cidade natal, Aracaju. Embora a cidade seja conhecida pelas lindas praias e turismo de visitantes que apreciam a tranquilidade, a população aracajuana carece de conhecimento sobre a arte de seu estado (Sergipe), refletindo na desvalorização de manifestações artísticas locais. No que concerne a arte Drag aracajuana, nomes como Alessandra Herreras e Markíbia Mazort se destacam, não só pelo pioneirismo na elaboração de espetáculos Drag, como também pelo esforço em trazer enaltecimento a essa expressão artística na capital sergipana. Apesar disso, a atualidade do cenário Drag de Aracaju muito se assemelha a outras cidades que visitei: ausência de rede de apoio que fortaleça a união entre artistas Drags.

E digo mais… testemunhar essa dinâmica entre cidades como Paris/FR, Milão/IT, Roma/IT, Recife/PE, Aracaju/SE, Salvador/BA, Brasília/DF, Belo Horizonte/MG, Uberlândia/MG, São Paulo/SP e Ribeirão Preto/SP, onde resido, despertou em mim um profundo desejo de explorar a arte Drag como uma ferramenta de arteterapia para a promoção do autoconhecimento do sujeito, investigando a relação entre uma sólida rede de apoio e o fortalecimento da comunidade Drag. Ao mergulhar nesse campo, busco não apenas compreender melhor os mecanismos pelos quais essa expressão artística pode ser aplicada na saúde mental, instituições sociais e escolas, mas também compartilhar esse conhecimento com outros profissionais de saúde e indivíduos interessados ​​em utilizar a arte Drag para desenvolver a autonomia de forma criativa. 

Concluo este texto incentivando uma reflexão, te convidando a ir além do delineado preto e explorar as complexidades e significados subjacentes à arte Drag.

Afinal, quando você encontra uma drag queen, o que você vê?

Referências:

CAPUCHO, M.G. Arteterapia: a arte como recurso terapêutico para a expressão de conteúdos inconscientes. Monografia (graduação) – Universidade de Taubaté, Departamento de Psicologia, 2020. 65f.

CIASCA, E.C. Arteterapia e depressão: efeitos da arteterapia como terapia complementar no tratamento da depressão em idosos. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina, 2017. 108f.

FREUD, S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1901.

JUNG, C.G. Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética. In: C. G. Jung. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 1922.

REIS, A.C. Arteterapia: a Arte como Instrumento no Trabalho do Psicólogo. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 34, n. 1, p. 142-157, 2014.

UBAAT. União Brasileira de Associações de Arteterapia. Nota técnica 001/2023 UBAAT: Recomendações sobre a Arteterapia, a formação e o exercício da profissão do arteterapeuta. 2013. Disponível em: <https://www.ubaat.com.br/assets/downloads/NOTA_TECNICA_UBAAT_2023.pdf>

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Prazer! Eu me chamo Kam Middle Space, sou uma drag queen cujo trabalho orbita entre as esferas da ciência, saúde e arte Drag. Em setembro de 2023, tive o privilégio de explorar a interseção entre essas áreas por meio de uma pauta publicada aqui mesmo no Grafia Drag. Na jornada entre o jaleco e o batom, mergulhei nas profundezas da arte Drag, investigando não apenas sua importância cultural e social, mas também a junção dessa expressão artística, os ambientes acadêmicos e o papel do profissional de saúde.

Drag é arte sim! Diante da censura, a autoafirmação

Anubis Blackwood

Inquieta, me peguei questionando, matutando sobre a arte transformista e drag, ao que surgiram essas perguntas:

Em quantos espaços nossos corpos cabem dentro da arte? A quais áreas artísticas estamos atrelades? Onde temos nossa arte reconhecida e por quem? Será que somos respeitades em pé de igualdade com as demais classes artísticas? 

Anubis Blackwood Grafia Drag

Essas questões surgiram depois que Val Freitas, um vereador da cidade de Jundiaí moveu a moção de repúdio Nº 570/2023 na Câmara de Vereadores de Jundiaí contra projetos de arte drag dos quais fiz parte e que aconteceram no Sesc da cidade. A proposição foi protocolada em 22 de outubro de 2023, tendo sido quase aprovada antes da retirada pelo autor no dia 28 de novembro de 2023. Foi a oitava iniciativa contra a população LGBTQIAP+ no ano. O ato covarde adentrou em minha vida quando vi tudo isso por meio do portal de notícias Jundiaí. Em momento algum esse homem e seu time sequer presenciaram esses eventos ao vivo ou nos contataram, moveram essa moção sem nenhuma ideia concreta do que ali aconteceu. Pelo visto fui enquadrada, como se estivesse participando de projetos  escandalosos, de mau gosto! 

As atividades colocadas em prática foram essas: uma oficina drag onde ensinei conceitos de maquiagem, dei dicas para achar o alterego dentro de si e, junto de um professor de dança, fizemos exercícios de noção corporal, similar àqueles que se vê em aulas de teatro; também produzimos uma festa de classificação livre, o queridíssimo Baile das Gayrotas que, além de  expor um acervo de montação,  visava abrir o palco para quem quisesse performar com músicas previamente estipuladas, atividade essa também de classificação livre (aliás um projeto extremamente acessível, ordenado e inspirador); além disso, tivemos uma roda de conversa sobre vivências drag, onde estavam presentes Divinna Synik e Icona Pink, drags da antiga e nova geração dividindo suas alegrias e desafios ao longo de suas carreiras. Parecem eventos escandalosos, dignos de horas de pauta que duraram meses em uma Câmara? É evidente que não!  Mas esse foi o meu pensamento, não o dele. Segundo a moção de repúdio, esses projetos dos quais  fiz parte “não se enquadram como expressão cultural teatral, cinematográfica, musical, literária ou exposição artística”, portanto, não deveriam ocupar espaços como o Sesc. “Como pode haver tamanha ignorância?”, pergunto  eu.

Anubis Blackwood Grafia Drag

Tudo o que ele disse que não cabia na arte drag era justamente TUDO o que a arte drag significa para mim e para muitos outres artistas. É muito óbvio que esse não foi inicialmente um ato de não compreensão sobre o que é e onde cabe a arte drag. Aquele homem, aqueles demais políticos foram primordialmente LGBTQfóbicos e ponto. Queriam, mais uma vez, nos tirar do spotlight, nos silenciar, nos criminalizar, nos banir dos espaço públicos, queriam nos ver mesmo é sem um emprego, longe de ambientes culturais sérios como o Sesc. A verdade é que se doeram ao ver um corpo LGBTQIAP+ num banner na frente daquele espaço público, não suportam ver nossas existências e práticas culturais sendo afirmadas e valorizadas como arte. Essa não foi a primeira vez que não entenderam o que faço e sei que não será a última. A desinformação misturada com a LGBTfobia gera esse desprazer de ter nossos trabalhos e nossas vidas deturpadas.

Não me surpreendeu que ele se incomodasse, afinal, é um pastor de idade e direitista. Eu já esperava essa reação de alguém como ele, mas será que o não reconhecimento termina aí? Nessas ondas de questionar o ambiente que estou inserida, analisando até mesmo quem está mais perto de mim, um gosto amargo veio à boca quando percebi que, talvez, a maneira que essas pessoas veem a arte transformista e drag não seja tão distinta assim desses indivíduos fora das bolhas que pertenço, pelo menos não se focarmos na insciência e no desmerecimeto. A drag no Brasil nunca é levada a sério, não é levada a sério nem por quem esperamos que levasse, a própria classe artística, que pode ir de atores de teatro a dançarinos contemporâneos, de pintores a maquiadores de passarela. Nesse baque, entendi e afirmei mentalmente que a arte drag é um pouco de cada uma dessas classes e muito mais.Mas por que é tão difícil nos sentir pertencentes a elas genuinamente? E por que é tão dissociável àqueles que veem nossa expressão de fora? 

Antes de me descobrir drag, já havia me descoberto artista visual e sonhava em ser pintora, diretora criativa, estilista…na verdade, queria mesmo era ser reconhecida como artista, acima de tudo. Talvez, devido a isso, sempre procurei no meu eu criativo formas diferentes de encarar e compreender a arte drag, afinal queria que esses outros interesses criativos conversassem entre si. Isso era mesmo o que eu almejava, porém, os anos se passaram, as experiências foram batendo em minha porta e percebi que no mundo onde sou inserida, provavelmente nunca conseguiria ter esse “reconhecimento como artista acima de tudo”. Hoje, analisando o quanto tive minha arte podada dói, como dói!. Me machuca perceber que ainda esperam que eu habite as baladas (e apenas elas), mas nunca as galerias de arte. Ainda esperam que minha arte percorra por um Reels do Instagram de maquiagem, mas não uma peça de teatro ou fazendo uma intervenção artística digna de um centro cultural renomado. 

Sempre vão querer impor onde devemos estar ou não estar, o que deveríamos ser ou não ser, e pensando bem, é assim em qualquer área da vida, com nossa bolha queer não seria diferente. Já ouvi dizerem tantas ideias carregadas de irrealidade perante a arte drag…poderia ser pela popular confusão em achar que nossa estética tem que seguir os padrões estrangeiros, daqueles que se vê em reality shows drag. Há quem nos veja como maquiadores, e isso é raso. Há quem nos categorize apenas como performers de vida noturna, e isso é um ponto de vista preconceituoso. Há quem não tenha um pingo de conhecimento da nossa história e luta, e isso é ignorante.O irônico é que muitas vezes começamos a nos montar e fazemos o que fazemos justamente para nos sentirmos ilimitades e livres.

Como já sugeri, alguns desses dizeres absurdos podem partir até mesmo de outres profissionais da área, pessoas próximas ou até mesmo de nós! Nessa crítica não aponto o dedo para aqueles que repassam esses pensamentos em frente, pelo contrário: entendo que todes fazemos parte do mesmo sistema tantas vezes tóxico. Dentro disso, podemos ter todos esses preceitos marcados em nosso DNA criativo por não termos sido convidades a pensar diferente. Já pensei de muitas maneiras que, hoje, vejo o quanto são superficiais, dentre elas já me fizeram acreditar que drags são como as palhaças do mundo LGBTQIAP+. Depois de passar anos imersa nos devaneios misturados com vivências, refleti se esse tipo de afirmação é o suficiente para nós…obviamente não é, e nem sei se algum dia foi. 

Afunilando os pensamentos críticos para o meio artístico, costumo sentir, por meio de  certos comentários e tons, que para outros  artistas o que exerço beira o exótico, o supérfluo e o infundado. É desapontante perceber o quanto nós, drags, bebemos de tantas outras fontes criativas, pesquisamos, enquanto existem colegas que também trabalham com arte e cultura que não fazem ideia do que fazemos, ou veem o mínimo e passam a generalizar e achar que já viram tudo.

Anubis Blackwood Grafia drag

Ao tentar realizar o sonho de mesclar a arte drag com demais expressões artísticas, passei a procurar intensamente formas de existir  além da balada, que embora ame, sempre soube que minha drag não cabia apenas ali. Saindo dela, vi a quantidade de diálogos que perdi para o som abafado e alto, percebi que passei anos rodeada de pessoas que achava que conhecia, mas não havia construído tantas ideias conjuntas assim. Passei a buscar formas de, junto do meu coletivo drag, criar espaços para conversar com as pessoas, levar a arte drag para um lado afetuoso que nunca havia sentido. Aliás, criar um coletivo drag também foi um ato de união e amor: todes participamos do mesmo concurso para eleger a drag da Parada de Jundiaí e percebemos que juntes seríamos mais fortes. Pois bem, por meio de uma competição construímos uma base de fraternidade, afinal, aquela disputa ferrenha entre drags está se tornando démodé. Graças a Deusa!

Demorei para achar artistas (que muitas vezes não são drag) que buscavam algo parecido com o que busco, mas esse momento veio e hoje entendo o quanto precisamos dessas outras pessoas para que todas nossas metas sejam alcançadas, e é preciso ajudar para ser ajudade. Em conclusão, uma andorinha só não faz verão! É no coletivo que encontramos forças para continuar nossos projetos apesar das dificuldades e das censuras políticas aos nossos trabalhos e existências.  Nossa arte é ilimitada, pode ter a forma que quisermos, novos caminhos podem ser traçados do jeito que escolhermos. Pensemos para  além das imposições e deixemos que os faladores vivam suas contradições!

“Disseram que voltei americanizada”: Será que o transformismo brasileiro resistirá à franquia RuPaul’s Drag Race?

Lady Lazzarus

Ru Pauls Drag Race Brasil Disseram que voltei americanizada
Elenco do Drag Race Brasil, spin-off brasileiro de RuPaul’s Drag Race. Foto: Divulgação

Em 30 de agosto de 2023, o país assistiu à grande estreia do Drag Race Brasil, a versão brasileira do reality show RuPaul’s Drag Race, que tem apresentado, divulgado e enaltecido a arte da montação em todo o mundo. Foram anos de espera por uma “franquia para chamar de nossa”, uma vez que o Brasil tem um histórico fortíssimo de grandes artistas transformistas, drag queens e também drag kings. Esses grupos específicos de artistas esperavam ansiosamente que isso ajudasse a popularizar ainda mais esse segmento de arte no país, e com isso, levá-la ainda mais longe, e consequentemente gerar mais empregabilidade e chamar atenção às pautas da comunidade LGBTQIA+. Mas, a provocação que fazemos diante deste fato é: será que a franquia brasileira do Drag Race vai realmente valorizar a nossa forma de fazer transformismo/arte drag ou vai fazer com que nossas/os/es artistas se rendam à cultura estadunidense de uma vez?

A arte do transformismo brasileiro é bastante diferente da arte drag dos Estados Unidos. As nossas transformistas, como eram chamadas as drag queens brasileiras antes da popularização de RuPaul’s Drag Race, ficaram conhecidas pelos grandes concursos de beleza como o Miss Gay, onde tomam parte usando figurinos suntuosos, com muito paetê, pedrarias e plumas, que em muito lembram as grandes divas do cinema clássico e do cabaré internacional. Outra grande inspiração é o Carnaval, e isso se mostra pelos adereços de cabeça e pelas performances sensuais que exploram o corpo e os ritmos musicais brasileiros. A maquiagem, sempre muito polida e requintada, é para se aproximar do female impersonator, característica essa muito forte no transformismo latino americano como um todo. No palco, nossas artistas tem na comicidade um ponto altíssimo, sendo célebres contadoras de piada e de interações cômicas com a plateia. Elas próprias se definem como “caricatas”, usando às vezes de uma caracterização mais exagerada, e fazendo uso de técnicas que vão de encontro à palhaçaria para apresentar um show de humor único, muito típico do fazer teatral brasileiro. Nesse segmento, temos grandes nomes como: Suzy Brasil, Karina Karão, Silvetty Montilla, Gina de Mascar e Maria Helena Castanha. 

Ainda explorando as múltiplas facetas do transformismo brasileiro, temos as divas do teatro. Mulheres trans e travestis em sua maioria, Rogeria, Jane Di Castro, Divina Nubia, Divina Valeria e outras tantas encenavam esquetes de Teatro de Revista e outros espetáculos, numa época onde o transformismo não era uma arte tão marginalizada no Brasil. A elite brasileira era frequentadora de grandes casas de shows e teatros que eram referência desse tipo de atração, como o Teatro Rival, no Rio de Janeiro. O show de Impersonator também é algo que artistas transformistas brasileiras – e latino americanas – se especializaram em fazer. A imitação de grandes celebridades, especialmente cantoras e outras artistas de palco, sempre foi um dos carros-chefes dos eventos com elenco de transformistas. Luiza Gasparelli, por exemplo, foi impersonator de Madonna por muitos anos, junto de seu colega Erick Barreto/Diana Finsk, uma das maiores referências do nosso transformismo, que atuava como impersonator de Carmen Miranda, chegando a encená-la num filme. Ambas ficaram famosas concorrendo no “Show de Calouros” do Programa Silvio Santos, exibidos aos domingos no SBT, entre as décadas de 1980 e 1990. Por fim, temos um tipo de número artístico tipicamente nosso: o “bate cabelo”. “Bater cabelo” é algo que representa 100% a arte transformista/drag brasileira. Com precursoras como Marcia Pantera, Stripperella e Robytt Moon, um show drag brasileiro não está completo se não houver uma performance de bate cabelo.

Carregado de requinte, sempre bastante pautado na feminilidade, no humor e no glamour da arte cabareteira, a arte transformista brasileira passa longe dos figurinos futuristas ou que fazem referência ao bondage, como é comum vermos em RuPaul’s Drag Race. Enquanto aqui tínhamos Walerio Araújo assinando o guarda-roupa de Elke Maravilha, que sem ser drag já era “muito drag”, as participantes do reality show de RuPaul Charles, em sua maioria, exibem peças feitas por artistas que ainda não são tão conhecidos no mundo da moda, mas pautam suas criações no high fashion por influência do próprio RuPaul, que foi a primeira drag queen a representar grandes marcas de cosméticos nos Estados Unidos (como a MAC) e usar peças de estilistas renomados (como Bob Mackie). RuPaul cunhou o conceito de supermodel para as drag queens, e faz questão que seu programa tenha uma passarela de alta moda, além de exigir das participantes um vasto conhecimento sobre o assunto.

Não que o transformismo brasileiro não represente a alta moda, muito pelo contrário. Sempre tendo como referência o que é grandioso para sua época, a arte da montação brasileira sempre foi maxi, onde “mais é melhor”, e nunca representou a moda de forma minimalista. Nossa arte tem como marca registrada o brilho, os penteados imensos e pomposos, acessórios que imitam uma grande quantidade de joias, e adereços coloridos e festivos. O nosso Carnaval, talvez o mais emblemático do mundo, faz com que nossas artistas sempre vejam o conceito de “mais é melhor” como o ponto de partida da montação. Para ser uma grande transformista/drag queen brasileira, você precisa brilhar, estar envolta de uma atmosfera de fantasia, ser aquela pessoa fácil de ser avistada na multidão, diferente e única. O transformismo latino americano passa longe de ser neutro, conciso, e até mesmo, básico. Ele é sempre hiperbólico. E, quando colocamos frente a frente a nossa arte com a arte norte americana vimos como elas são diversas, têm origens diferentes e como caminham para lados opostos na grande maioria das vezes.

Em RuPaul’s Drag Race podemos ver desafios de comicidade onde a caricatura é protagonista. Também sabemos que muitas das participantes do programa foram Misses, e elas nos lembram muito as nossas transformistas, ao desfilar seus longos vestidos cravejados de pedras brilhantes ou ainda usando alguma vestimenta burlesca que lembra o nosso Carnaval. Também é possível ver desafios de atuação e canto, algo que nossas veteranas não apenas dominavam, mas são referência até hoje. Mas, também vemos grandes divergências quando se trata de humor politicamente incorreto, algo que o Brasil já pode dizer que deixou para trás, além da exigência de um minimalismo no visagismo e na produção dos figurinos das participantes, que definitivamente não é algo que compartilhamos por aqui.

Quando da estreia e ao longo dos episódios da franquia brasileira, vimos drag queens que apresentaram visuais muito próximos à franquia estadunidense saindo à frente no favoritismo, como Organzza, que foi a grande vencedora desta primeira edição, Betina Polaroid e Naza. Os looks apresentados por essas drag queens na promo do Drag Race Brasil poderiam nos fazer confundi-las com participantes da franquia original. Ali estavam presentes as linhas modernas do high fashion, o minimalismo, e maquiagens que iam da abordagem clássica, mais “feminina”, como as feitas por Organzza e Hellena Malditta, ao gráfico contemporâneo muito comum das queens dos Estados Unidos, como aquelas de Betina Polaroid e Dallas DeVil. Aliás, essas duas últimas queens poderiam facilmente estar numa temporada de RuPaul’s Drag Race, tamanha era a semelhança de suas abordagens drag com as participantes deste programa.

Shannon Disseram que voltei americanizada
Shannon Skarlett representou com excelência o transformismo brasileiro. Foto: Drag Race Brasil/ Divulgação.

Isso não deveria representar problema algum para a nossa arte, se este padrão não estivesse começando a vigorar como predominante na cena transformista/drag de todo o país. Por mais que o Brasil, de Norte a Sul, ainda se mantenha fiel de alguma forma às referências brasileiras, muitas pessoas jovens que estão ingressando agora na arte da montação, têm apenas o Drag Race como inspiração e “espelho” da arte. Cada vez mais esse molde avança para dominar o segmento, fazendo uma espécie de “pasteurização” de estilo, e colocando a estética brasileira e latino americana na categoria de old school, e num sentido pejorativo: como algo carregado e ultrapassado.

Shannon e Hellena Disseram que voltei americanizada
Shannon Skarlett e Hellena Malditta sofreram críticas no Drag Race Brasil por representarem a cena transformista brasileira. Fotos: Divulgação.

Os desafios do Drag Race Brasil mesclaram uma visão completamente estereotipada do país (trazendo referências fortes ao Carnaval e ao futebol, por exemplo) com o humor controverso da franquia original, aliados às passarelas onde o high fashion foi uma prioridade. A drag queen Shannon Skarlett, uma das poucas a trazer o transformismo brasileiro como protagonista das suas produções, foi criticada pelo painel de jurados por fazer algo “datado”. Hellena Malditta, que também trouxe fortes referências ao nosso fazer transformista em seu visual e figurinos, e mais especificamente da cena de Salvador, na Bahia, que tem uma característica marcante – e talvez única de seus artistas, que é um misto de glamour e monstruosidade, de caricatura e cabaré – também foi criticada ao exibir uma maquiagem e uma produção típica local. E não podemos esquecer, obviamente, de Tristan Soledade. Sendo talvez a participante que mais se distancie do padrão binário de gênero imposto ao transformismo e à arte drag, Tristan foi duramente criticada por usar barba e por apresentar figurinos característicos do movimento das Themônias da Amazônia, grupo de transformistas/drag queens/kings do Pará, que tem por base a dissidência de gênero e a mitologia amazônica, e que incorpora novas figuras e novas tendências ao fazer drag brasileiro. Shannon, Hellena e Tristan representaram com honras o transformismo brasileiro, mas foram “penalizadas” na competição justamente por isso. Seriam essas penalidades uma mensagem de que nossa forma de fazer transformismo/drag não seja pertinente na Workroom do Drag Race?

No desenrolar da competição, acompanhando as participantes por sua passagem em eventos de divulgação e outros tantos que tomaram parte por estarem dentro da primeira franquia Drag Race brasileira, foi possível observar que os figurinos, as maquiagens e os penteados das artistas ficaram cada vez mais parecidos com aqueles das norte-americanas. Podíamos ver as linhas geométricas nos figurinos, as perucas em formato de esculturas, a maquiagem mais suave e delicada, e até uma supressão de nossas expressões de pajubá, para a adoção de um linguajar mais próximo do inglês (shade, runway, challenge, etc). Devido às agendas lotadas de compromissos, algumas das artistas levaram consigo seus maquiadores, peruqueiros e até assistentes de produção, mostrando a evolução da arte transformista/drag no mercado, conquistando um espaço próprio, e demonstrando a necessidade de toda uma equipe para se manter um/a único/a artista em movimento. O Drag Race traz consigo um impacto fortíssimo na arte como expressão a ser vendida e comprada, e por um valor considerável, trazendo uma valorização que artistas brasileiros talvez nunca experimentaram antes. Mas, traz também um novo padrão de artista: o da celebridade, da supermodelo, e com aquele toque “americanizado”, que é demasiado “polido” e higienizado, típico de produtos pensados para o consumo de massa. A mensagem é clara: você adere esse modelo para que a sua arte seja aceita, e consequentemente, vendida de forma mais eficaz. Mas será que é isso mesmo que queremos?

Tristan Soledade
Tristan Soledade foi a participante que mais representou a ruptura de padrões que a arte transformista/drag deveria ter e manter como estandarte. Foto: Drag Race Brasil/Divulgação.

A arte transformista/drag brasileira por si só não pode ser consumida de forma a ser bem paga? Não pode ocupar os mesmos espaços que as participantes do Drag Race Brasil ocuparam? Ela precisa de algum tipo de “adequação”? Será que a arte transformista/drag, enquanto conceito, consegue caminhar ao lado do capitalismo intacta em sua ideologia? O transformismo/arte drag, enquanto manifestação subversiva, deveria se encaixar totalmente num padrão mercadológico? São muitas as questões que permeiam esse debate, e muitas as respostas possíveis. O artista é um profissional como qualquer outro, que padece da romantização do seu ofício. Todo o mundo nos diz para “viver pela arte” ou “fazer arte por amor”, enquanto temos necessidades como qualquer outra pessoa, e merecemos respeito e remuneração adequada por nosso trabalho como qualquer profissional. Partindo daí, assistir ao sucesso do fenômeno de RuPaul’s Drag Race e vê-lo movimentar todo um nicho de mercado em nosso país é completamente válido. Mas, isso pode implicar no apagamento de importantes características das cenas regionais, além de uma padronização que foge ao conceito dessa arte em particular em detrimento de um modelo de artista com maior adesão, e mais fácil de ser “consumido” por todos os públicos. Em resumo: quanto mais próximo do modelo norte-americano, mais “vendável”. É como se estivéssemos vivendo uma fase de “democratização” da arte, mas ao mesmo tempo, sofremos com uma “regulamentação” que passa muito longe de conversar e coexistir com a nossa história.

Podemos encontrar um meio-termo para seguir fazendo aquilo que melhor nos representa, respeitando àqueles/as que vieram antes de nós, aliando o que é tradicional sem colocar isso no lugar de retrógrado, e ainda buscar por uma valorização da classe – neste caso, da artística e cultural, mais especificamente do segmento do transformismo. Podemos usar a visibilidade e a força que o Drag Race traz para colocar em destaque aquilo que fazemos de melhor, sem seguir a “receita” de um produto americanizado e moldado para consumo de massa. Usar essa máquina de publicidade da franquia pode, sim, ajudar a alavancar muitos talentos, fazê-los ser bem sucedidos como profissionais da arte e da cultura e ainda fomentar projetos que são nossos e têm a cara da cultura brasileira. Podemos desenvolver e manter outros reality shows voltados para a nossa realidade, desde que observadas as questões de diversidade e pluralidade na seleção do elenco. O que não é prudente é se deixar absorver de todo pela tendência de RuPaul’s Drag Race, seja na concepção de um visual, seja na execução de um concurso ou evento. A realidade do/a artista transformista/drag brasileiro/a/e é: manter a maquiagem intacta em um clima tropical, permeado pelo sol ardente e pelas chuvas intensas de verão, é adaptar um brunch para um festejo junino, é saber que somos um combo completo de diversão e entretenimento, e que não precisamos nos pautar em nada que o programa faça ou venda para que sejamos melhor remunerados. A arte brasileira é preciosíssima e forte. Sobrevivemos a uma ditadura e agora enfrentamos com garra o conservadorismo. É direito nosso resistir e exigir que sejamos tratados com o respeito que qualquer outro trabalhador mereça, sem ter a régua do americanismo medindo nossos esforços. Esmorecer diante da tentação que um produto de caráter globalizado oferece pode fazer com percamos ainda mais o domínio sobre coisas que naturalmente já escapam de nossas mãos.

Recentemente, por conta da explosão da série POSE, também estadunidense, vimos a popularização da cultura Ballroom no Brasil. Porém, a cultura Ballroom não é algo nosso. É mais uma manifestação que, por mais que represente pessoas negras e não brancas, transgênero, periféricas e marginalizadas, ela tem berço em outro país e num outro contexto. Ela pode ser adotada por pessoas brasileiras e pode se desenvolver aqui? Sim, mas não quer dizer que isso mude a história das pessoas LGBTQIA+ e racializadas do país, que é bastante diferente dessa outra realidade. A comunidade de pessoas negras e não brancas, periféricas e marginalizadas no Brasil sempre encontrou muita representatividade no Carnaval, por exemplo. O Carnaval sempre foi a festa “da favela” em nosso país. Aos poucos, o capitalismo e a branquitude conseguiram tomar um bocado desse território do Carnaval, transformando-o numa festa cara e onde, muitas vezes, as pessoas que escreveram a sua história se veem apagadas e negligenciadas. Por quanto tempo o Ballroom no Brasil se manterá negro e transgênero, por exemplo? A tendência de algo que se populariza é a adesão de um maior número de pessoas, e assim, uma maioria de indivíduos brancos e cisgênero pode se apropriar disso, como fizeram com o transformismo. Como consequência, teremos mais um desvirtuamento cultural, que vai priorizar a maioria e apagar a história da minoria, que por muito tempo resistiu nessas manifestações culturais e artísticas como formas de protesto político e sobrevivência.

O Drag Race Brasil pode (e deve) permanecer entre nós, mas que ele não seja nossa única fonte de inspiração e nem de manutenção da nossa arte. Podemos ter uma temporada ou várias da franquia, mas que ela sirva para mostrar ao mundo quem somos e como sobrevivemos em um país que foi colonizado e expropriado de tantas de suas riquezas. Que sigamos servindo a nossa arte com as cores, aromas e sabores da nossa terra, assim como na música de Carmen Miranda que dá título a este ensaio, e que ela seja permeada pelas nossas demandas, que são muitas, e que siga a provocar e a invadir espaços cisnormativos. Que a arte do transformismo esteja sempre a serviço dos corpos dissidentes, e não do capitalismo. Você sabia que RuPaul’s Drag Race teve por inspiração os balls nova-iorquinos? Que as passarelas são, na verdade, uma competição como o Ballroom era? E que por isso existe uma “categoria” de apresentação de figurino e vence quem melhor impressionar o painel de jurados naquela categoria? O maior programa de arte drag do mundo tem um histórico de inspiração numa cultura de resistência.

Divinas Divas
Divinas Divas: o documentário de Leandra Leal mostra grandes artistas de palco e do transformismo brasileiro. Foto: Reprodução/Divulgação.

Devemos saber a origem das coisas, a história delas, para que a nossa própria não seja apagada. Lembremos que o registro das coisas para aqueles que virão sempre será feito pelas mãos quem venceu a batalha. Nossa meta é vencer a batalha do capitalismo sobre a arte, da globalização sobre as culturas. É tempo de resgatar territórios e bens dos mais diversos e entregá-los de volta às mãos das minorias. O Drag Race Brasil deve mostrar o quão valiosa e necessária a arte da montação é, mas não é preciso “desmontar” a arte do transformismo brasileiro para isso.

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Referências

https://www.imdb.com/title/tt24251630

https://www.imdb.com/title/tt2362790

 

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. “Disseram que voltei americanizada”: Será que o transformismo brasileiro resistirá à franquia RuPaul’s Drag Race? Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/disseram-que-voltei-americanizada/>. Acesso em: 11 Dez. 2023.

Consumismo na arte drag

Miss Dangerr

Eu sou Miss Dangerr, uma drag queen vampira instalada atualmente na cidade de Campo Limpo Paulista, em São Paulo. Algumas das coisas que me inspiram são a música gótica, a música industrial e o horror. Recentemente, me tornei compositora de músicas trevosas e é assim que pretendo dar continuidade à minha carreira como transformista. Além de artista drag, sou professor de inglês (puramente como profissão) e escritor de horror.

Desde que iniciei o planejamento de Miss Dangerr, me preocupei em idealizar roupas e acessórios feitos de material reciclável, pois tenho preocupação ambiental e gostaria de trazer essa pauta com minha drag. O que descobri com o passar da minha jornada foi que fazer reciclagem não seria o suficiente para ser uma drag ecológica. Eu teria, também, que aproveitar mais minhas roupas e com isso viria mais um desafio, o de não ser básica.

Miss Dangerr arte drag
Miss Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Em 2019, fiz uma guitarra de papelão, lata e isopor para uma de minhas apresentações. Ficou maravilhosa. No entanto, com o passar do tempo, descobri que reciclar não é tão simples assim. No final das contas, nossos acessórios feitos de reciclagem vão parar no lixo do mesmo jeito que os outros lixos, tendo seu descarte apenas um pouco atrasado. Todos os meus acessórios de material reciclado ou reutilizado foram parar no lixo mais cedo ou mais tarde, porque em algum momento já não precisei mais deles. Ou seja, a reciclagem torna-se um placebo.

Então, o que um transformista precisa fazer para, ao mesmo tempo, ter looks arrasadores e gerar menos impacto ambiental? Bom… Pode continuar fazendo seus acessórios e roupas a partir de lixo, com certeza; mas isso não adiantará muito se a montação durar apenas um dia. Sendo assim, uma das respostas que achei para meus questionamentos foi: repita os looks, aproveite-os mais. A fast fashion é um dos mercados que mais poluem no mundo;  não deveríamos colaborar com ele juntamente às grandes marcas de roupas.

Looks especiais feitos para um único show são comuns na cena drag. Eu mesma já passei horas costurando roupas que usei apenas uma vez, feitas apenas para aquela ocasião especial, aquele vídeo, aquela festa. Note também que RuPaul nunca repetiu um look em seu programa. Eu considero que isso seja um consumismo inerente à arte drag e estou há quase dois anos tentando evitá-lo. Jurei para mim mesma que nunca mais faria  uma roupa de uma noite só. Me sinto livre para repetir minhas imagens extravagantes quantas vezes quiser.

É claro que fazer isso sem parecer repetitiva e básica não é uma tarefa fácil. Agora, meu plano é ter algumas camisas, algumas saias e alguns casacos para combiná-los de maneiras diferentes. Assim, não é necessário fazer algo novo para cada ocasião. Mudar a peruca, o penteado e a maquiagem também ajudam a transformar o mesmo em algo novo. Eu poderia muito bem usar no Halloween a  roupa que usei no Réveillon  mudando somente a peruca e a maquiagem. Por que não? 

Miss Dangerr arte drag
Mis Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Outra estratégia que uso para aproveitar mais as roupas é fazer peças que sirvam tanto para mim, em meu dia-a-dia, quanto para minha persona drag queen, sejam elas unissex ou femininas, já que sou um homem cisgênero que usa vestido, saia e espartilho. Fazer uma roupa cotidiana parecer um figurino de drag queen não é tão difícil, você pode encher sua calça de correntes e alfinetes de segurança tamanho 6 ou colocar quase toda sua energia em fazer um casaco bem chamativo que vá até o chão; dessa forma, ninguém perceberá que você está usando a calça skinny preta que usa para ir trabalhar. Além disso, uma customização e um bom do it yourself podem te ajudar bastante nessas situações. 

Acredito que este trabalho de me vestir para arrasar sem ser consumista e sem desperdiçar material ainda demorará algum tempo para se consolidar. Estou apenas no início de minha adaptação para uma drag queen não-consumista e econômica,  inclusive, começo a pensar  em quais materiais devo ou não usar em minhas confecções. Sei que toda pessoa que se aventura na arte do transformismo é diferente, mas gostaria de convidar outras a refletirem sobre essa questão do consumismo . Você não precisa fazer um look diferente para cada música, para cada show e depois deixá-lo jogado no fundo do guarda-roupas; faça com que o show se adapte a você e ao que você tem. Quando for repetir uma roupa, mude a maquiagem, a peruca e a proposta da performance; as pessoas não têm que se importar. Se achar que está tudo básico e repetitivo demais, lance mão dos acessórios de reciclagem e use sua criatividade.

Todos nós podemos arrasar consumindo menos!

Como citar este texto

DANGERR, Miss. Consumismo na arte drag. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/consumismo-na-arte-drag/>. Acesso em: 13. Nov. 2023.

Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta

Kam Middle Space

PRAZER!

Sou Kam Middle Space, uma criação de Lincoln Marques Cavalcante Santos. Permitam-me apresentar a pessoa por trás desse nome. Sou um homem cisgênero, homossexual, nascido em Aracaju, Sergipe, Brasil. Sou farmacêutico, embarcando em uma jornada como doutorando na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, sempre em busca de aprofundar meus conhecimentos e contribuir para a ciência brasileira. Além disso, encontro inspiração nas artes e no design gráfico, explorando minha criatividade e expressão. Como um autêntico geminiano, abraço todas essas facetas com entusiasmo e curiosidade, sempre buscando desafiar as fronteiras do que posso conquistar. Nesta jornada, descobri uma das maiores fontes de alegria e realização ao me tornar uma drag queen, abraçando a beleza do meu eu autêntico. Através desta publicação, pretendo compartilhar minhas experiências e aprendizados com a Kam Middle na ocupação de espaços variados, transitando entre a ciência, a saúde e os palcos. Te convido a explorar esse mundo e auxiliar na construção de uma sociedade mais aberta e acolhedora onde todes podem brilhar em suas verdadeiras cores.

Kam Middle Space jaleco e batom
Kam Middle Space
Fonte: Arquivo pessoal

A arte drag é uma forma de expressão artística que transcende as fronteiras tradicionais de gênero, empoderando indivíduos a explorar e celebrar sua identidade de forma criativa e sem restrições. No palco, a drag assume uma persona única, muitas vezes extravagante, que vai além das normas de gênero impostas pela sociedade. O cerne dessa arte está na desconstrução e reconstrução da identidade de gênero, desafiando as noções preestabelecidas sobre feminilidade e masculinidade, e redefinindo o que significa ser uma mulher e/ou um homem. Com a arte drag, celebramos a fluidez, a ambiguidade e a diversidade de gênero.

Devido suas multifaces de expressão, a drag possui um potencial de inserção em diversos ambientes. Nos palcos, encantamos audiências com performances que vão da dublagem, a dança até a atuação. Nas redes sociais, encontramos plataformas online para compartilhar tutoriais de maquiagem, moda e discursos de capacitação, alcançando uma audiência global. Para além disso, a arte drag tem se mostrado valiosa em ambientes acadêmicos, permitindo que drag queens como Rita von Hunty e eu, Kam Middle, levem assuntos mais sérios, a exemplo da representatividade LGBTQIAPN+, para as universidades e outros espaços de aprendizado. Essa capacidade de se adaptar e florescer em diferentes cenários é o que torna a arte drag transformadora, questionando a figura provedora da prática docente e possibilitando uma conexão genuína com públicos variados.

Apesar dos avanços recentes, o meio acadêmico permanece engessado em sua estrutura tradicional. As universidades tendem a ser conservadoras em relação à diversidade de gênero e sexualidade, criando um ambiente onde a representatividade LGBTQIAPN+ em cargos de destaque é escassa. Essa falta de inclusão pode ser desencorajadora para estudantes e profissionais LGBTQIAPN+, dificultando a identificação de mentores que sejam referências para eles. Tal realidade coloca em evidência a necessidade de mudanças, de maneira que as instituições acadêmicas se tornem mais inclusivas, acolhedoras e representativas, proporcionando um ambiente igualitário para todes.

No campo da saúde, a representatividade LGBTQIAPN+ é crucial para promover uma assistência mais sensível e inclusiva. Historicamente, essa comunidade enfrentou barreiras significativas no acesso a cuidados de saúde adequados, em sua maioria devido ao estigma e à discriminação. É fundamental que profissionais de saúde, no qual me incluo como farmacêutico, estejam cientes das especificidades das necessidades e desafios enfrentados por pessoas LGBTQIAPN+, sendo aliados na busca por uma assistência equitativa. O farmacêutico desempenha um papel social essencial, não apenas como fornecedor de medicamentos, mas também como educador e defensor da saúde. Ao criar um ambiente acolhedor e seguro para pacientes LGBTQIAPN+, o farmacêutico desempenha uma importante missão na prevenção, promoção e recuperação da saúde dessa comunidade. Essa atuação empática e inclusiva está profundamente ligada às habilidades de comunicação essenciais para a pulverização de práticas seguras em saúde e elucidação da função dos cientistas.

Kam Middle Space Jaleco e Batom
Kam Middle Space
Fonte: Arquivo pessoal

É nas habilidades de comunicação onde encontro a fusão da ciência, saúde e arte drag. Parafraseando a teoria da comunicação… a identidade, a credibilidade e a autenticidade do emissor desempenham um papel crucial na forma como a mensagem é recebida. Um cientista, por exemplo, traz consigo a autoridade e a expertise na sua área de pesquisa, o que pode conferir credibilidade e confiança à mensagem que está sendo comunicada. No entanto, é essencial que o cientista também possua a habilidade de traduzir termos complexos em linguagem acessível ao público, evitando linguagem técnica. Por outro lado, uma drag queen utiliza a arte e a performance para transmitir sua mensagem, conectando-se emocionalmente com o público e provocando reflexões sobre questões sociais e culturais. Já o profissional de saúde, busca a empatia e a sensibilidade para comunicar informações sobre tratamentos e cuidados em saúde. Em todos os casos, o processo de transmissão de mensagem se torna uma dança delicada entre o emissor e o público desejado, podendo inspirar uma mudança positiva em suas respectivas esferas de atuação. 

Partindo de uma perspectiva pessoal, a arte drag tem conquistado novos espaços no meio acadêmico à medida que a comunicação efetiva se torna um veículo importante para a desconstrução de preconceitos e para a divulgação de conhecimento científico. Desde a criação da Kam Middle durante meu mestrado em maio de 2022, tenho recebido grande apoio e a aceitação de estudantes, professores e outros profissionais na Universidade de São Paulo. Apesar do engessamento mencionado, a comunidade acadêmica tem mostrado uma notável disposição em abraçar a diversidade e a autenticidade, reconhecendo a importância da arte drag como uma forma de expressão e ativismo. 

Assumo que tal aceitação seja devido ao papel impulsionador significativo dos cientistas. A ciência, com sua busca contínua pelo respeito à evidência, tem inspirado uma mentalidade mais aberta e inclusiva, resultando em um ambiente universitário onde artistas drag podem ser vistos e celebrados como agentes de mudança social e cultural. Essa recepção calorosa tem me proporcionado a oportunidade de compartilhar minha história, minha arte e minhas perspectivas com um público mais amplo, fortalecendo a conexão entre a arte e a academia, e tornando a Universidade de São Paulo um espaço acolhedor e enriquecedor para todas as formas de expressão.

Apesar dos recentes progressos na comunidade acadêmica, é importante questionar como a arte drag é percebida pela sociedade brasileira como um todo. Ainda existem desafios significativos a serem enfrentados, uma vez que a sociedade, de maneira geral, possui visões preconceituosas e estereotipadas sobre a arte drag e a diversidade de expressão de gênero. Ainda há muito trabalho a ser feito para promover uma compreensão genuína sobre essa forma de arte, bem como para combater a discriminação que muitos artistas drag enfrentam.

Assim, finalizo esta publicação propondo a seguinte reflexão: será possível alcançar a aceitação da arte drag como parte valiosa e vibrante da nossa cultura?

Referências

LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Proposições, v. 19, n. 2 (56), p. 17-23. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf 

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho – ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

AGRELI, Milene Soares. A inclusão da diversidade sexual na Universidade. Tese de Doutorado (Especialização em Psicologia). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2017, 176f.

CAMPANA, Nathalia Sato. O ato político por trás da drag queen: desmontando o essencialismo dos gêneros. Dissertação de Mestrado (Especialização em Psicologia Social). Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017, 118f.

Como citar este texto

SPACE, Kam Middle. Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/jaleco-e-batom/(abrir em uma nova aba)>. Acesso em: 04. Set. 2023.

‘Toda forma de drag?’  A falta de representatividade AFAB* em reality shows brasileiros

Lady Lazzarus

*AFAB: Assigned Female at Birth – diz-se das pessoas “designadas mulheres ao nascer”. Pode identificar mulheres cisgênero, pessoas trans não binárias transmasculinas, transmasculines em geral e homens trans.

Toda forma de drag? Nia Cardalos e Toni Colette
As atrizes Nia Vardalos e Toni Colette interpretam Connie e Carla no filme homônimo. Elas são as drag queens mais bem sucedidas de Los Angeles. Ninguém sabia que elas eram mulheres cisgênero.
Foto: Divulgação

O Brasil vive a febre dos reality shows drag. Influenciado por RuPaul’s Drag Race, muitos produtores brasileiros estão trazendo à TV competições similares, envolvendo desafios, criação e desenvolvimento de persona drag e, agora, com o CARAVANA DAS DRAGS, até o enaltecimento da cultura nacional e regional. Mas será que os profissionais de casting estão recrutando artistas na sua pluralidade – e isso inclui representatividade de gênero – ou seguem reproduzindo preconceitos que a própria atração criada por RuPaul Charles admitiu ter por muitos anos, que é a de não incluir AFABs em seu programa?

O primeiro AFAB a participar da franquia RuPaul’s Drag Race foi Gottmik, homem trans de 26 anos, que já atuava como drag queen antes da transição social e corporal. Gottmik integrou o elenco da 13ª temporada do programa em 2021. Foram necessários quase treze anos para que a produção aceitasse que uma pessoa AFAB pudesse competir entre homens cisgênero e pessoas AMAB (Assigned Male at Birth – designadas homens ao nascer – no caso de mulheres trans e travestis). Nos spin-offs do reality em outros países, Victoria Scone foi a primeira mulher cisgênero a integrar o elenco do Rupaul’s Drag Race UK (2021), voltando posteriormente para o Canada’s Drag Race: Canada vs. the World, em 2022. Agora, o Drag Race España anunciou em seu elenco a drag queen Clover Bish, outra mulher cisgênero, que competirá na terceira temporada da atração no país. 

RuPauls Drag Race Gottmik AFAB
Gottmik, o primeiro AFAB (homem trans) a participar do reality RuPaul’s Drag Race.
Foto: Youtube

Foram 196 participantes até a 14ª temporada do reality show, mas apenas um desses era uma pessoa AFAB – isso falando apenas da franquia estadunidense. Admitindo que RuPaul’s Drag Race não só tem influenciado a comunidade de transformistas e drag queens (e até de drag kings) do mundo todo e que, de alguma forma, dita os “padrões” que a arte segue, é possível imaginar como devem ficar frustrados os perfomers AFAB que, todos os anos, são completamente ignorados por esse fenômeno, chegando a ter suas práticas artísticas invalidadas e conseguindo muito menos trabalho – ou quase nenhum – do que as pessoas AMAB dessa história. 

***

Agora, vamos falar da NOSSA realidade: o Brasil. Nosso país tem uma história incrível com o transformismo/arte drag, considerada aqui uma manifestação artística muito respeitada até mesmo em períodos conturbados como a Ditadura Militar e o governo Bolsonaro. A drag queen brasileira Pabllo Vittar é, atualmente, a representante desta arte mais seguida no mundo no Instagram (12 milhões de seguidores). Pabllo rompeu barreiras ao fazer música com produtores e artistas estrangeiros e estabeleceu até mesmo uma nova identidade para drag queens brasileiras. Antes dela, obviamente, temos as nossas incríveis veteranas, as “Divinas Divas”, em sua maioria mulheres trans, que construíram carreiras sólidas e referenciadas aqui e no continente europeu, e serviram por muitos anos de referência não só para outras artistas drag/transformistas, mas para atrizes, performers e cantoras nacionais. A arte transformista brasileira ganhou palco em programas de TV, cinema e até novelas muito antes do fenômeno de RuPaul’s Drag Race chegar às telas nos Estados Unidos. Após a popularização do reality estadunidense por aqui, o primeiro programa brasileiro de TV com drag queens foi o DRAG ME AS A QUEEN, de 2017, no canal E!, que era  uma réplica nacional do DRAG U, criado por RuPaul Charles. A atração era capitaneada por Ikaro Kadoshi, Penelope Jean e Rita Von Hunty e proporcionava uma experiência de montação para mulheres cisgênero. As três drag queens ajudavam as mulheres no processo de investigação e criação da persona drag delas e as montavam por um dia. Ou seja: por UM DIA as mulheres poderiam “ser drag queens”. Um dos talentos que avançou do programa para as baladas, festas e eventos foi a drag queen Morana Evermore, até hoje uma artista bastante requisitada no estado e na cidade de São Paulo.

Toda forma de drag? Morana Evermore
Morana Evermore, drag queen de São Paulo, “nascida” no programa DRAG ME AS A QUEEN.
Foto: Divulgação

Este formato de programa, tanto o de RuPaul como o brasileiro, se analisado com cuidado, não se tratava de uma experiência drag genuína para mulheres (ou pessoas AFAB). Como por muito tempo o mito de que pessoas AFAB não poderiam atuar como drag queens/transformistas foi muito forte, parecia pertinente oferecer a elas essa vivência através das mãos de “drag queens de verdade” – pois também por muito tempo a grande maioria das mulheres, dentro e fora do Brasil, eram denominadas como “falsas queens” (faux queen). Se drag é uma arte como qualquer outra, mas também é uma forma de hackear e brincar com gênero, por que ela não pode ser explorada totalmente por certos grupos de pessoas? Por que é necessário que um homem cisgênero que atua como drag queen “monte” uma pessoa AFAB para que ela se sinta validada artisticamente? É como se disséssemos a uma criança que ela pode “ser o que quiser quando crescer”, desde que ela respeite certas “condições”. Por um dia, podemos sonhar com a maquiagem exagerada, o brilho das roupas e os grandes palcos. Para fazer disso profissão, talvez não. 

Em novembro de 2020 estreou na Netflix um segundo programa dedicado às drag queens, que lembrava um pouco o formato do DRAG ME AS A QUEEN. NASCE UMA RAINHA, apresentado por Alexia Twister e Gloria Groove, contou com seis episódios e em cada um deles uma pessoa seria “transformada” numa persona drag idealizada por si mesma e que teria por mentora/madrinha um outro artista brasileiro(a). Neste programa pudemos ver a presença de dois AFABs. No terceiro episódio “nasce” o drag king Carlão Sensação, persona drag de Caju Bernardes – que inclusive trouxe uma discussão muito pertinente acerca da arte drag king nas mídias e nas redes sociais – e Ginger Moon, drag queen e artista burlesca que atua como mentora num dos episódios. Ginger Moon é mulher cisgênero e integrante de um movimento pioneiro de AFABs em São Paulo, o Riot Queens. Até então, NASCE UMA RAINHA foi o primeiro e único programa de drag queens brasileiras a colocar dois AFABs na TV. Apesar de ter seu formato elogiado e contar com o carisma de Gloria Groove, uma das cantoras drag mais famosas do país, a atração não foi renovada para uma segunda temporada. 

Carlão Sensação Toda forma de drag?
Carlão Sensação, um dos pouquíssimos AFABs num reality brasileiro (NASCE UMA RAINHA).
Foto: Divulgação

Depois de NASCE UMA RAINHA, veio o reality para drag queens cantoras, produzido pela HBOMAX, o QUEEN STARS BRASIL, em 2022. O QUEEN STARS BRASIL foi a primeira produção televisiva de competição entre drag queens que mais se aproximou do formato de uma atração da franquia RuPaul’s Drag Race. Antes disso houve a ACADEMIA DE DRAGS, que contou com três edições transmitidas via Youtube, e vários outros concursos online e shows de talentos variados feitos pelos mais diversos produtores, e que tiveram como plataforma o Youtube e o Instagram.

O QUEEN STARS BRASIL, apresentado por Pabllo Vittar e pela cantora Luisa Sonza, contou com 20 participantes de vários lugares do Brasil. Não havia nenhum AFAB no elenco do reality. Focado em canto, as drag queens competiram em desafios diversos por um prêmio de R$ 100 mil reais, sendo que as três finalistas formariam um trio “drag” de cantoras com direito a um contrato para produzir música com a Universal Music.  Diante de toda a diversidade de performers que temos no Brasil, as equipes de casting não foram capazes de colocar no elenco uma pessoa AFAB sequer. O reality também sofreu críticas com relação às outras representatividades: havia poucas pessoas negras, gordas e poucas pessoas trans (AMABs, no caso). Apenas uma participante se declarou abertamente trans não binária (Ashilleyy Extravaganzza), levando em consideração o período em que a atração foi transmitida. O público também criticou o formato do programa, que eliminou várias drag queens em dois episódios, não dando assim chance para que o público conhecesse o trabalho de cada uma delas. 

No dia 14 de abril deste ano estreou no streaming do Prime Video a competição intitulada CARAVANA DAS DRAGS. Produção de Tatiana Issa e tendo como apresentadores Ikaro Kadoshi e Xuxa Meneghel, a atração já sofreu críticas e backlash antes mesmo da estreia, considerando o background de Xuxa e controvérsias de sua carreira no passado. O programa foi anunciado ainda em 2022 e como toda produção do gênero, não se soube muito sobre o processo de seleção de artistas para compor o elenco. Quando do anúncio da estreia, soubemos apenas que haveria 10 participantes e entre elas, nenhuma pessoa AFAB. 

Até aqui podemos ver que, à frente de RuPaul’s Drag Race, as produções que envolveram talentos drag brasileiros nos últimos dez anos trouxeram à TV mulheres trans, travestis e pessoas trans não binárias AMAB, mas apenas uma produção trouxe dois AFAB (um na condição de participante e outra na condição de mentora). São cerca de trinta e quatro participantes AMAB (94,4%) para apenas dois participantes AFAB (5,6%). Isso seria quase 1 participante AFAB para cada 20 AMAB. 

Clover Bish RuPauls Drag Race Espanha
Clover Bish, participante da terceira temporada do Drag Race Espanha, é a segunda mulher cisgênero a competir no programa, mas fora da franquia principal.
Foto: Divulgação

Ainda este ano foi confirmada a gravação do spin-off brasileiro de RuPaul’s Drag Race. O processo de casting se deu ano passado. O vídeo de audição pedia fotos e gravação de vídeos com os figurinos das possíveis participantes, um número de dublagem do repertório da artista, um número de dublagem de uma música de RuPaul Charles e a gravação de dois personagens para o quadro Snatch Game, um desafio clássico do programa. Foram muitas as drag queens de todo o Brasil que se inscreveram para participar, e sem dúvida deveriam haver muitas mulheres cisgênero e pessoas transmasculinas, mesmo que essas últimas ainda tenham pouco destaque atuando neste segmento. 

O elenco rumorado em redes sociais como o Twitter e plataformas como o Reddit confirma o padrão Endemol Shine de participantes: algumas pessoas negras, um número menor de asiáticas e uma maioria de pessoas brancas. Não há AFABs entre os possíveis competidores. O DRAG RACE BRASIL vai ser um divisor de águas no que tange à arte drag/transformista na América Latina. Mesmo com todo o sucesso que as produções nacionais possam gozar, a produção estadunidense é hipervalorizada entre artistas e produtores, que inclusive preferem empregar pessoas que se moldaram no padrão “Drag Race” de se fazer arte. Nos Estados Unidos as ex-participantes do programa são chamadas de “Ru Girls”. Agora, o Brasil terá seu primeiro time de Ru Girls, que não duvido que serão extremamente requisitadas em eventos posteriores à sua participação no programa, mas que, mais uma vez, não carregará nenhuma representatividade para AFABs e para mulheres e pessoas transmasculinas que gostam e consomem conteúdo do programa. 

***

Que mensagem o mundo do showbusiness passa às muitas mulheres cisgênero e aos homens trans e pessoas transmasculinas que atuam como drag queens? De que a arte que fazem não é válida. Não para eles. Que não é apropriada para consumo de massa. Que seus corpos não são interessantes para a TV. O machismo e a misoginia são maiores que o olhar para a arte pela arte. Mulheres e pessoas trans estão entre os grupos de pessoas dissidentes que mais morrem todos os dias em todo o mundo, além de sofrerem grande abusos, preconceitos e, em alguns lugares, sequer são considerados seres autônomos. 

Se pensarmos como a proposta do movimento negro intitulado “Não me vejo, não compro”, que criou força em 2017 e serviu para mostrar aos consumidores negros o quanto muitos produtos e serviços oferecidos no mercado não pensavam neles – e não os retratavam em propagandas também – nós, pessoas AFAB, não deveríamos consumir nenhum desses programas de TV, uma vez que nossos corpos não fazem parte de sua história e de sua proposta como atração. 

RuPaul’s Drag Race, responsável pela disseminação da arte drag para o mainstream, está tentando corrigir os seus erros, mas ainda assim o número de participantes AFAB do programa está muito abaixo do que seria uma cota justa para o tanto de artistas que temos atuando pelo mundo afora. O Brasil tenta escrever uma história diferente, mas não vai longe: tendo a maior drag queen cantora da atualidade, traz um reality para drag queens cantoras, mas onde AFABs não são recrutados, traz um outro reality sobre cultura nacional e regional, que mais uma vez, não tem artistas AFAB contando suas histórias e mostrando suas abordagens e estéticas para a arte drag. DRAG RACE BRASIL não será diferente, e com isso vamos apagando e silenciando vozes dentro da comunidade LGBT que podem e devem ser amplificadas, justamente para contrapor os erros do passado. 

E se pensarmos no apagamento de drag queens criadas por mulheres e pessoas transmasculinas, o que diríamos acerca dos drag kings? Sequer lembrados por quase todas as produções, seguem ainda mais à margem, sem maiores oportunidades. O reality show The Boulet Brothers Dragula, que prioriza os/as drag monsters, premiou como soberano representante do programa um drag king, na sua segunda edição, em 2019. A notícia de que Landon Cider, persona drag de Kristine Bellaluna, venceu uma competição do gênero revolucionou o mundo dos drag kings nos Estados Unidos e na Europa, mas seu efeito não chegou a provocar uma onda de montação king significativa no Brasil, por exemplo. 

A arte dos drag kings, cuja história remonta oficialmente há mais ou menos 250-300 anos atrás, é uma arte que partiu de pessoas AFAB – mulheres cisgênero e homens trans, essencialmente. Muito se dizia e se diz que “mulheres não poderiam ser drag”, quando não só poderiam como já eram há muito tempo. Estudos realizados pelo drag king Mo B. Dick, do DRAG KING HISTORY, diz ter encontrado registros de artistas de male impersonation dos anos 1660. Como não temos certeza exata de como surgiu a arte das drag queens, podemos dizer que kings existem há tanto tempo quanto elas. Logo, pessoas AFAB estão há muito pavimentando a estrada da arte da montação, e deveriam ser tão respeitadas quanto pessoas AMAB por isso.

***

Mas, voltando à nossa reflexão acerca de drag queens, uma última provocação: e se ocultássemos ou apagássemos o gênero de todas as pessoas que conhecemos e que atuam como drag queens? Será que muitas das nossas referências mais caras não seriam pessoas AFAB?

No Brasil, sob o posto de drag queens “honorárias” – pessoas que não se intitularam drag queens, mas usam estética similar – temos várias mulheres cisgênero, que inclusive pautam a estética de vários de nossos artistas favoritos. Elke Maravilha e Maria Alcina são alguns desses exemplos. Ao redor do mundo, divas pop como Lady Gaga e Katy Perry são constantemente comparadas a drag queens devido aos suntuosos visuais com os quais se apresentam em concertos e turnês. Zaldy, estilista de alta moda que veste RuPaul já criou vários figurinos para Katy Perry, por exemplo. O que separaria Katy Perry de RuPaul ou até mesmo Lady Gaga de RuPaul, que já foi jurada do programa nos Estados Unidos? O exagero no visual e o talento estão ali, em todos esses artistas. O que definiria definitivamente a estética drag queen? 

Maria Alcina  Toda forma de drag?
A cantora brasileira Maria Alcina sempre teve sua estética muito próxima das drag queens. Tanto ela como Elke Maravilha são exemplos de drag queens brasileiras “honorárias”.
Foto: Reprodução

Por fim, trago uma sugestão de filme para levar essa reflexão ainda mais à fundo. O longa metragem “Connie & Carla”, de 2004, traz as atrizes Toni Colette e Nia Vardalos como duas atrizes que precisam fugir de Chicago depois que testemunham um crime cometido pela máfia. Uma vez em Los Angeles, elas conseguem fazer uma audição para uma boate onde atuam drag queens – “disfarçadas” de drag queens – ou seja, fingindo serem homens caracterizados como artistas drag queens. Como ambas cantam e dançam, acabam se tornando a maior atração local, fazendo com que o público faça filas para vê-las fazerem seus números musicais. Sob os nomes de Connie e Carla ambas se tornam as drag queens mais bem sucedidas do momento – e não há quem conteste seus talentos, pois ninguém sabe que elas são… mulheres. 

Se o binarismo de gênero, o machismo e a misoginia não viessem à frente da arte não precisaríamos em nenhum momento ler num briefing de casting a famigerada frase: “Precisamos de homens que se vestem como mulheres (drag queens) para compor o cast de um trabalho para a rede social x” – como já li certa vez ao pensar em me candidatar. Uma drag queen não é um homem vestido de mulher. Um homem vestido de mulher não é uma drag queen. O que é vestir-se “de mulher” em dias como os nossos, onde os estudos da Teoria Queer nos dizem que o gênero é uma construção social? 

E se simplesmente recrutássemos artistas para um reality show que mostrasse seus talentos, ignorando completamente o gênero pelo qual a pessoa se identifica? Ou se, para começar, definíssemos que passaríamos a consumir um produto audiovisual a partir do momento que ele incluísse pessoas de todos os gêneros em seu elenco? James Baldwin, escritor e ativista estadunidense, nos disse: “Artistas existem para perturbar a paz. Eles precisam perturbar a paz.” Hoje, perturbo a sua paz e pergunto: artistas AFAB estão vivendo como artistas de fato no mundo da arte drag/transformista ou apenas passando por uma breve experiência comandada por um grupo de homens cisgênero majoritariamente brancos? A nós será dado apenas “um dia de drag” ou teremos no futuro espaço suficiente para competir e mostrar que somos tão bons ou até melhores do que essa hegemonia?

Referências

DOONAN, Simon. DRAG: The complete story. Amazon. 2019.

https://dragkinghistory.com

https://www.imdb.com/title/tt1353056

https://www.imdb.com/title/tt1584942

https://www.vogue.com/article/gottmik-rupauls-drag-race-fashion-star

https://www.huffingtonpost.co.uk/entry/rupauls-drag-race-victoria-scone-first-cisgender-woman_uk_61236e98e4b0e8ac791fc17b

https://www.imdb.com/title/tt7667398

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/11/20/drag-mulher-e-tabu-depois-de-reality-ela-virou-drag-queen-profissional.htm

https://www.legiaodosherois.com.br/2022/queen-stars-brasil-pabllo-vittar-luisa-sonza-entrevista.html

https://www.imdb.com/title/tt19063056

https://web.archive.org/web/20150708210227/http://revistalofficiel.com.br/academia-de-drags-estreia-no-youtube/#

https://www.netflix.com/br/title/81140803

https://www.estadao.com.br/emais/tv/netflix-divulga-trailer-de-nasce-uma-rainha-com-gloria-groove

https://www.estadao.com.br/emais/tv/prime-video-divulga-primeiras-imagens-do-reality-caravana-das-drags-veja

https://m.imdb.com/title/tt22003244

https://mundonegro.inf.br/carreira-negocios/nao-me-vejo-nao-compro-plataforma-quer-mostrar-o-poder-do-consumidor-negro

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-11/black-money-movimento-favorece-negocios-de-pessoas-negras

https://www.themarysue.com/dragula-landon-cider-drag-king-winner

https://www.imdb.com/title/tt0345074

https://www.elespanol.com/bluper/20230320/drag-race-espana-confirma-participante-clover-bish/749925030_0.html

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. Toda forma de drag?” A falta de representatividade AFAB* em reality shows brasileiros. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/toda-forma-de-drag/>. Acesso em: 24. Abr. 2023.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso de drag kings do Brasil, o Concurso King of Kings. Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta

Anubis Blackwood

Elke Maravilha uma vez disse: 

“Eu não me contento em ser bonita, isso muita gente é. Uma vez um homem me perguntou: ‘Por que tanto?’ e eu respondi: ‘Por que tão pouco?'”. 

Elke Maravilha

Eu não poderia concordar mais com essa afirmação de uma das minhas musas… por que somos tão podados e limitados pela forma que nos expressamos? Ou, pior que isso: por que passamos tanto tempo considerando essa maneira de pensar ao invés de nos deixar confortáveis com quem somos? Comigo não demorou muito até perceber que o usual, o quadrado, não me pertenceria e que para eu deitar minha cabeça no travesseiro, tranquila, precisaria ignorar tudo o que me foi dito sobre quem eu deveria ser até então.  

Anubis lugar de revolta
Anubis.
Foto: PHJUNIORG

Se descobrir uma artista drag aos 16 anos, foi libertador, mas também foi um teste para tudo que estaria por vir. Eu havia acabado de conhecer conceitos feministas, ativismo LGBTI+, nunca tinha feito parte de companhia de teatro e não tinha nenhuma certeza concreta sobre como me identificava. Eu era bissexual, pansexual? E sobre identidade de gênero? Eu era não-binária? Que tipo de artista eu era? Passava horas pensando nisso tudo, pois na época sentia que ser uma menina cisgênero que mal sabia sobre sua sexualidade não era o suficiente para ser como RuPaul, Dimmy Kieer e Vera Verão, ainda mais por se tratar de 2015, onde ao procurar ‘drag queen mulher’ no Google apareciam poucos resultados que de fato me levassem a compreender e me relacionar com o que estava vivendo internamente. 

Eu procurei tanto, e tudo que me aparecia eram termos como ‘faux queen’, e ao pesquisar mais via que a palavra ‘faux’ significava ‘falsa’ …mas o que eu sentia era tão verdadeiro! Eu podia não compreender muito quem eu era, mas o que tinha certeza é que eu não me encaixava nesses termos excludentes. Ao passar o tempo treinando a arte, via que as similaridades que buscava entre Dimmy e Vera eram muito maiores que as diferenças. Parei de procurar por imagens de ‘sucesso’ semelhantes a mim, e comecei a traçar meu futuro da forma que achava certo. 

Assim compreendi que, sim, ao decorrer do tempo teriam muitos questionamentos em volta da minha identidade enquanto mulher cisgênero, que essas questões viriam interna e externamente, mas por mais complexo que fosse para uma jovem se entender e se identificar no meio desse turbilhão de ideias, esse, era o caminho que me dava uma razão para viver. 

O tempo muda, e com ele os modos como nos entendemos, mas ainda sinto que a arte drag me salva… a diferença é que, hoje, eu racionalizo o motivo de me salvar. A sociedade misógina do jeito que é pode ser muito agressiva para uma mulher em formação, e para mim não foi diferente. O direito de ir e vir é colocado em cheque, até mesmo os mínimos detalhes do que se faz.  Tudo isso pode ainda piorar, dependendo da roupa que se usa e do que se fala. 

Ser relembrada, todos os dias que certas coisas não são tão possíveis, simplesmente por se ser mulher, deixa qualquer uma de nós desgostosa. Ora, então como poderia eu, com uma mente artística tão livre, me contentar com essas limitações? Mas também, como poderia eu, tão jovem, sozinha, ir contra um monstro tão grande desses? 

Anubis lugar de revolta
Anubis
Foto: PHJUNIORG

Agora entendo que Anubis Blackwood surgiu de um lugar de revolta,  ela foi meu próprio mecanismo para me tornar mais forte e inatingível. Ela veio me levar para um lugar fantástico onde é possível me sentir completa, absoluta e assumidamente eu. Onde não sou rotulada, onde crio minhas próprias regras, onde tenho minha deusa pessoal para me auxiliar quando a realidade sufocante faz com que sinta que não sou artista ou alguém o suficiente. 

Eu tentei por muitos anos não pensar na Anna Clara enquanto reinada por Anubis, mas em algum momento entendi que por mais que minha drag fosse minha armadura, meu porto seguro, existiam motivações e referências que vinham de mim, um indivíduo cheio de inseguranças e cicatrizes. Ao entender esse elo, essa junção de seres e quereres que sou, consegui aos poucos achar amor próprio, auto compreensão e entender que Anubis, Anna Clara e todas mais que virão são uma só. Por esse fator busco hoje inspiração nessas cicatrizes encontradas em mim num todo, e o que antes entendia como rótulo hoje entendo como identidade. 

Apesar das expectativas, minhas performances não são e nunca serão iguais às performances feitas por artistas drag de outros recortes sociais. Isso porque o nosso ‘eu’ não é igual e muitas vezes sequer é parecido: nossa vivência é diferente e assim nos molda enquanto artistas. O assédio, a violência contra a mulher, a invisibilidade de pessoas bissexuais e demais problemáticas que me atingem são questões que influenciarão diretamente cada escolha de música, de figurino, de mensagem. 

É óbvio que a motivação vai além do fato da arte drag ser para mim terapêutica, reabeliante e cicatrizante, afinal, estamos falando de uma das artes mais vivazes que poderíamos imaginar. Idealizar um projeto inteiramente seu e que será instalado em você mesme, no seu corpo, é revolucionário! O processo de criação, de autodescobrimento é, no mínimo, excitante, e traz uma sensação de graça, desenfadamento na vida que só acontece no ato de se montar. 

Anubis processo criação
Anubis
Foto: Bernardo Pfaff

E quando mostramos ao mundo o que secretamente preparamos por dias, meses, anos? Ah, nesse momento o feeling é exatamente o que Gloria Groove diz em ‘Gloriosa’: “no caminho até o bar, o mundo para pra ver a rainha passar”. Se todos param mesmo, aí eu não sei, já que frequentemente o brilho do alter ego é tão forte que chega a cegar, mas acreditar que por algumas horas nosso magnetismo é capaz de mudar a energia de um ambiente inteiro, causar alternâncias na respiração de quem nos olha, trazer um pouco de fantasia, utopia para quem nos assiste é divino, e depois de tantos anos fazendo isso diria que chega a se tornar sagrado. 

O fato é que todo mundo busca fazer algo que dê sentido a essa louca jornada, algo que nos dê a impressão que fizemos nossa parte no fim do dia, e ao decorrer do tempo compreendi que por mais que nem sempre me deem palco, cachê ou condições para exercer minha função, ainda assim encontro afago e autossatisfação ao causar esse impacto em quem está disponível para  senti-lo. 

Encontrei no meu caminho pedras, mas também encontrei alívio, reparação, mil e uma versões de mim, e posso dizer que vi beleza até nos piores momentos. Bem-aventurados são aqueles que não aceitam o que é atribuído a si de primeira, que procuram formas de se redescobrir a cada dia, que vasculham cada fração do ‘eu’ em busca de se compreender, e logo ser feliz ao se afirmar no mundo.  

Afinal, Elke tinha razão, pois nessa revolução estética que é cada montação, as ideias vão surgindo de simples questionamentos como: Por que não? Por que tão pouco? E eu, não conformada, aceito com alegria cada desafio que a mente e o mundo quiser me dar, e no meio de tanta alienação e incerteza: eu vou é me jogar!

Como citar este texto

BLACKWOOD, Anubis. Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/por-que-tao-pouco-arte-drag-como-lugar-de-revolta/ . Acesso em: 10. Abr. 2023.

“Para hétero ver”: Arte e Cultura LGBT para fora da bolha

Lady Lazzarus

“Eles dizem dominar a periferia. Nós dizemos ‘mestiçar’ o centro.”

Paul B. Preciado

Inicio a provocação da vez com esta frase de Paul B. Preciado, filósofo transgênero contemporâneo, ou como ele mesmo gosta de dizer, filósofo dissidente, para convidar a todas as pessoas, sejam elas da comunidade LGBT ou não, a uma reflexão: até onde o discurso de militância feito de um grupo para este mesmo grupo é válido?

Vídeo: Gabriel Fidelis apresentar a performance “I want a dyke for president”, poema de Zoe Leonard, no espetáculo DRAG NIGHT SHOW, em 2018. https://youtu.be/sPfOXSznVDY

Quando falamos em arte e cultura LGBT, falamos em arte politizada, ativista, mesmo quando o propósito desses/as artistas é o entretenimento. Como corpos dissidentes e marginalizados, por muito tempo patologizados e proibidos de existirem dentro de uma sociedade majoritariamente branca, aristocrata, burguesa, capitalista e cisnormativa, toda e qualquer manifestação que nasce dentro da comunidade LGBT é revolucionária. Se voltarmos o nosso olhar para a arte transformista/drag, veremos então quão numerosas são essas manifestações, e como ativistas das mais variadas causas se utilizam do palco da arte do transformismo/arte drag para que suas pautas sejam vistas, avaliadas, para que se faça pensar, analisar, para angariar adeptos/as/es e, daí por diante, que passem a tomar corpo e finalmente chegarem a lugares como o parlamento, onde esse discurso vai ocupar o espaço de lei, de direito, de obrigação.

Como pessoa que também atua na produção cultural de eventos, quando faço um convite a qualquer performer LGBT e comunico que nosso espetáculo, festival ou concurso é aberto a todos os públicos, incluindo pessoas heterossexuais, vejo sempre duas reações que considero interessantes. A primeira delas é a insegurança que se instaura na pessoa, como se fazer qualquer coisa fora dos (poucos) lugares seguros conquistados pelo público LGBT fosse muitíssimo ameaçador. Ficam preocupados/as/es com a integridade de seus corpos e como isso será visto e interpretado por pessoas sexualmente diferentes. A segunda reação é a de promover algum tipo de choque cultural e fazer algo que insulte ou mostre a essas pessoas que elas são, de alguma forma, pertencentes a uma classe de algozes e agressores, e diante dessa motivação nascem muitos manifestos até bastante criativos, válidos e realmente transgressores.

Mas, pensemos juntos: não seria a arte uma poderosa ferramenta a favor da educação? Se sim, por que temer educar através dela aquelas pessoas que estão em outra categoria social mais privilegiada que a nossa? Por que não usar a nossa arte e a nossa cultura para construir pontes e conquistar aliados entre essas pessoas?

Arte e Cultura LGBT Lady Lazzarus
Foto: Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017. Teatro Municipal de Itajaí, 2018. Créditos: Andressa Magalhães

Como pessoa transgênero e como transformista, não vejo forma mais eficaz, potente e viável de mostrar ao universo heterossexual que somos seres humanos como eles, passíveis dos mesmos direitos, capazes de ocupar os mesmos lugares, constituir família, empreender, lutar e construir um mundo melhor e mais humano. Apresentar uma narrativa de militância dentro de uma “bolha” social é relativamente fácil. Tentar conversar com quem está fora dela é um desafio grande e totalmente capaz de ser feito por nós.

Para mim, quando estamos dentro do grupo das pessoas dissidentes, das pessoas que pertencem às minorias sociais (e que na verdade nem se tratam de minorias), reproduzir certos discursos através da arte é quase nulo. Falar de assassinato de corpos dissidentes para corpos dissidentes é algo válido? Talvez seja, se falarmos a um grupo de pessoas cisgênero sobre a morte das pessoas transgênero. Mas será que a pauta transgênero precisa ser sempre a morte? Não podemos falar de conquistas acadêmicas, de parentalidades trans, de uniões afetivas bem sucedidas, de negócios e até de arte que quebram as barreiras sociais e de gênero? Se tratarmos do discurso de racismo que sofrem as pessoas negras, indígenas, asiáticas e demais povos não brancos a povos não brancos estaremos de fato provocando alguém? Ensinando alguém? Mostrando o quanto isso ainda afeta a qualidade de vida dessas pessoas e até mesmo a expectativa de vida delas? Agora, se pegarmos essa mesma teatralidade, essa mesma encenação visual, esse mesmo discurso envolvido em arte e colocá-lo diante de um grupo de pessoas brancas? É amedrontador? É desafiador? Certamente que sim, mas como pessoa que interpreta o incômodo como reação válida a um número artístico, a uma performance, a um ato artístico, estaremos invertendo a máxima de que “a vida imita a arte” ao mostrar que “a arte imita a vida”, e que tudo que é mostrado num palco ou espaço cultural é um microcosmo de um macrocosmo, onde a realidade precisa mudar para que tenhamos um mundo mais próximo da equidade e onde uma pessoa não precisa lutar por toda uma existência para simplesmente manter-se viva.

Quando reflito sobre a frase de Preciado que citei no início deste texto, penso no seguinte: muito se fala em políticas públicas para levar “a arte e a cultura para as periferias”, para que pessoas que “geralmente não têm acesso a esses recursos possa então gozar deles”. Me parece, às vezes, que o governo nada inclusivo que temos em todos os estados da federação não considera que exista arte e cultura nas periferias. Como se pessoas pobres e desfavorecidas de recursos monetários por conta da sociedade capitalista não sejam capazes de produzir e criar arte, que o que têm em suas comunidades e vilas não seja cultura, mas qualquer outra coisa diferente disso. Nem sempre isso me parece bem intencionado, pois soa como um processo de catequização. Por que não deixar que a cultura dos periféricos invada os grandes centros de arte? Por que a comunidade não pode ocupar os teatros municipais com os seus manifestos, canções, danças e linguagens diversas? Por que não promover uma ocupação total desses espaços por pessoas dissidentes?

Através dessa reflexão, volto para o fazer artístico “para o heterossexual ver”. TODO E QUALQUER EVENTO LGBT DEVERIA SER EXIBIDO A UM PÚBLICO HETEROSSEXUAL, pelo menos uma única vez. Nossas vozes e corpos precisam estar diante dessas pessoas, e nossas pautas e agruras precisam ser ouvidas por elas. Não podemos ficar para sempre no conforto dos nossos redutos, das casas noturnas, das boates e bares dedicados a nós ou conquistados por nós. Falar de opressão para o nosso grupo de pessoas é mais do mesmo. A criança LGBT já cresce sabendo muito bem o que é ser oprimida, rejeitada, humilhada, censurada, castrada, banida – assim como sabe como criar espaços de acolhimento e alento pessoal entre os seus. Já sabemos se aqueles que estão na mesma embarcação que nós vão vibrar ou chorar diante do que temos a dizer com a nossa arte. Resta saber: que reação teriam aqueles que podem ter mais liberdade que nós? Aqueles que podem simplesmente preencher um formulário e pagar uma taxa para se casar, aqueles cujo nome e corpo são aceitos em todos os lugares para o trabalho, aqueles cuja família nunca questionou a honra e a possibilidade de sucesso.

Já apresentei meu espetáculo, o DRAG NIGHT SHOW, com elenco composto apenas por pessoas LGBT e com enfoque na arte transformista em vários teatros, muitos deles equipamentos públicos, com plateias lotadas de pessoas de todas as idades, gênero e classe social. Vimos todo o tipo de reação possível: de risos a lágrimas, de excitação a êxtase, de surpresa a comoção, de olhos que se fecham e reviram a olhos que se apaixonam. Não me recordo de nenhuma vez que alguém tenha se levantado e deixado a plateia ao falarmos que queríamos uma presidente sapatão, onde um viado é estrela do palco, onde uma mulher trans é a maior diva da noite e, quando erguemos nossas bandeiras coloridas dizendo que não vamos deixar de ocupar este lugar que também é nosso, de recebermos vaias e negativas daqueles que são diferentes de nós. Ao fim do espetáculo, forma-se uma fila imensa de pessoas emocionadas, cativadas por nós, que quer tirar fotos, pedir um abraço e contar como se emocionou e se divertiu naquela noite, que talvez não esperava ver o que viu, mas que viu muito mais do que imaginava ver e que quer repetir essa dose mais e mais vezes.

Arte e Cultura LGBT Lady Lazzarus
Foto: Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017. Teatro Municipal Bruno Nitz, Bal. Camboriú, 2018. Créditos: Andressa Magalhães

Nos últimos vinte anos vemos um “encaretamento” da cultura e todo um grupo de artistas cada vez mais restrito às noites, aos clubes e bares específicos para eles, deixando de se fazerem presentes em lugares onde poderiam fazer muito mais que a diferença. Agora, após o resultado revolucionário das eleições de outubro de 2022, temos uma nova chance de sair desses lugares à guisa de armário para onde nos empurraram e colocar as nossas vozes em coro pela nossa liberdade de expressão de fato. Não nos contentarmos somente com as cotas designadas a nós em editais culturais, sejam eles à comunidade LGBT ou à periferia. Precisamos nos levantar e OCUPAR OS CENTROS. Ocupar espaços da branquitude, da heterossexualidade, da cisnorma. Precisamos apresentar o transfeminismo e reapresentar o feminismo negro ao feminismo branco heterossexual. Precisamos mostrar que podemos constituir famílias e ser pais, mães e avós e não somente os tios e tias queer, aqueles considerados estéreis pela família cisheteronormativa. Precisamos exibir nossos corpos com ou sem intervenções cirúrgicas, pois também precisamos nos sentirmos bem conosco. Isso não é para ser um privilégio estético, mas uma forma de estar melhor consigo. Precisamos romper de uma vez com a norma, OCUPANDO o lugar dela e dizendo: este é o nosso lugar também.

O lugar da heterossexualidade é também o nosso. Ele nos foi retirado pelos dogmas religiosos, pelas normas e práticas médicas que também são preconceituosas e pelo processo de organização social pautado nos dois primeiros. Ser visto pela heterossexualidade é um ato necessário. Precisamos mostrar nossa língua a este povo, nossa cultura, nossos hábitos, nossos anseios e nossas agruras. Precisamos receber seus aplausos, precisamos que entendam que ocupam um lugar de favorecimento e que se querem ser nossos aliados e aliadas nessa luta constante para gozarmos de direitos que também nos são essenciais, essas pessoas precisam aprender conosco. Não podemos temer a potência dessa intervenção e a licença enorme que a arte nos dá para isso.

Enquanto não temos pelo menos 50% dos nossos no parlamento para legislar em nosso favor, precisamos de aliados e aliadas que o façam. Precisamos que nossos representantes sintam total empatia por nossas causas e se sintam movidos por elas.

Logo, sim, eu faço arte para que todas as pessoas vejam. Eu quero que minha arte seja vista por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Eu quero que minha arte seja vista por pessoas de todo o gênero, de toda raça e etnia. Eu quero que pessoas religiosas vejam a minha arte e revejam suas crenças. Eu quero atingir pessoas que precisam ser atingidas pela minha arte. Quero falar para quem usualmente poderia não querer me ouvir. Só a minha comunidade não me basta. Não que não tenhamos problemas que precisam ser resolvidos, mas alcançar o poder é mais importante neste momento. E para chegarmos ao poder precisamos de todos os aliados possíveis para enfrentarmos a batalha. Cada vez mais fortes, numerosos e persistentes.

Referências

PRECIADO. Paul B. Um apartamento em Urano: Crônicas da Travessia. São Paulo: Zahar, 2019. p. 44.

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. “Para hétero ver”: Arte e Cultura LGBT para fora da bolha. 2022. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/arte-e-cultura-lgbt-para-fora-da-bolha/ . Acesso em: 21. Dez. 2022.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que corou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

Número artístico e performance: tem alguma diferença?

Lady Lazzarus

Atualmente vemos drag queens e transformistas ocuparem os mais diversos lugares: nós as vemos na TV, nos concursos, nos espetáculos de teatro, nas intervenções urbanas, nas capas de revistas e até nas headlines de notícias. A arte da montação alcança o mainstream e é vista e consumida por, essencialmente, todo o tipo de público, conquista fãs e adeptos, desperta curiosidade e até alguma polêmica. O repertório dessas artistas é o mais vasto possível: elas dublam, cantam, atuam, dançam, fazem stand up comedy e protagonizam quadros de entrevistas, dentre muitas outras atividades. Adquirimos o costume de dizer que drag queens e transformistas apresentam PERFORMANCES variadas, e isso se deu também à popularização do reality RuPaul’s Drag Race, que legendado em português, diz: “Foi pedido a vocês que preparassem uma performance de dublagem para esta noite.” Com isso, a batalha entre as drag queens inicia e o painel de jurados decide quem fica e quem sai do programa. Aqui reside a dúvida – e a provocação: drag queens fazem PERFORMANCES?

Número artístico e performance Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor
Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor na Batalha de Dublagem do reality Rupaul’s Drag Race.
Fonte: Youtube

A arte da performance é a manifestação artística mais “jovem”, conforme os estudos em História da Arte. Ela se manifesta pela primeira vez no início do século XX com o Movimento Dadaísta e segue se desenvolvendo fortemente até os nossos dias. Hoje, temos performers e artistas que exploram a performance que influenciam os mais diversos trabalhos nas Artes Visuais, Artes Cênicas, Cinema e Audiovisual e até na Arte Urbana. Mas o que é a arte da performance?

“A performance ou performance art, expressão que poderia ser traduzida por ‘teatro das artes visuais’, surgiu nos anos sessenta (não é fácil distingui-la do happening, e é influenciada pelas obras do compositor John Cage, do coreógrafo Merce Cunningham, do videomaker Name June Park, do escultor Allan Kaprow). Ela chega à maturidade somente nos anos oitenta. A performance associa, sem preconceber ideias, artes visuais, teatro, dança, música, vídeo, poesia e cinema. É apresentada não em teatros, mas em museus e galerias de arte. Trata-se de um ‘discurso caleidoscópico multitemático’ (A. Wirth)”

(PAVIS, 2011).

Mas para entender um pouco melhor o que é a performance, precisamos também estabelecer o conceito de PERFORMER:

“Termo inglês usado para marcar a diferença em relação à palavra ator, considerada muito limitada ao intérprete do teatro falado. O performer, ao contrário, é também cantor, bailarino, mímico, em suma, tudo o que o artista, ocidental ou oriental, é capaz de realizar (to perform) num palco de espetáculo. O performer realiza sempre uma façanha (uma performance) vocal, gestual ou instrumental, por oposição à interpretação e à representação mimética do papel pelo ator. Num sentido mais específico, o performer é aquele que fala e age em seu próprio nome (enquanto artista e pessoa) e como tal se dirige ao público, ao passo que o ator representa sua personagem e finge não saber que é apenas um ator de teatro. O performer realiza uma encenação de seu próprio eu, o ator faz papel de outro”

(PAVIS, 2011).

A partir da breve definição de performance e performer dada por Patrice Pavis, vemos que existe uma diferença entre o performer, que é um artista de palco que se manifesta das mais variadas formas, do ator, que encarna um personagem específico (ou até mais de um). É como se o performer fosse um artista orgânico, que colocasse mais de si em suas encenações e obras, o que combina com o conceito de “drag persona”, que é o que estabelecem para si vários(as) artistas transformistas. A drag queen ou o drag king não é, na grande maioria das vezes, um personagem, mas sim uma persona, uma manifestação da própria pessoa que o encarna, uma faceta do seu “eu”. Sendo assim, de alguma forma seus shows são quase sempre atos únicos, que dependem da reação do público, o que mais uma vez difere da atuação no teatro, por exemplo. Um espetáculo teatral pode ser encenado sem público algum e sem levar em consideração nenhuma reação ou ação do público, enquanto a arte do performer é, de certa forma, interativa: ela depende da leitura, da reação e às vezes até da ação do público para ser um ato completo.

Mesmo assim, será que todas as manifestações artísticas das transformistas são performances?

Entre os artistas de palco que não são atores – cantores, circenses, bailarinos e artistas da dança, mímicos, cômicos – é muito comum vermos encenações pautadas, que possuem começo e fim, que caminham de forma linear ou não, que são ensaiadas, que até podem possuir um roteiro para sua execução. A isso damos o nome de ATO ou NÚMERO ARTÍSTICO, uma vez que é criado para ser repetido várias vezes, como uma encenação teatral. O número artístico pode ou não ter um propósito específico, mas ele possui marcações essenciais, ações específicas, trilha sonora que não pode ser acidental, dentre outros elementos que estão mais próximos de uma cena curta do que de um ato performático. A performance é algo que exige esforço específico do artista, que fala diretamente com ele e transmite também uma mensagem às pessoas que assistem, e que pode se modificar pouco a pouco (ou drasticamente) com a interação do público.

Gabriella apresenta a performance “A Carne” no espetáculo DRAG NIGHT SHOW, dirigido por Lady Lazzarus. Tradução do poema e preparação do performer: Lady Lazzarus.

A performer Marina Abramovic, considerada uma pioneira na arte da performance, tem em seu repertório de criações várias intervenções onde colocava à disposição do público o seu próprio corpo, a ponto de arriscar a própria vida. Um de seus trabalhos mais conhecidos é intitulado Rhythm 0, de 1974, onde a artista ficou em uma galeria com uma mesa a seu lado contendo vários objetos como: uma pena, uma rosa, uvas, mel, um chicote e até uma arma com uma bala. As pessoas passaram seis horas interagindo com Marina, que não reagia em nenhum momento. Rasgaram suas roupas, cortaram seu corpo, carregaram-na de um lado para o outro, até que uma pessoa resolveu “testar” a arma com ela. Neste momento, o galerista interviu dizendo que a performance havia acabado e Marina voltou a si, chorando, caminhando ensanguentada pela galeria. As pessoas assustadas correram para fora.

Número artístico e performance Marina Abramovic
Marina Abramovic – “Rhythm 0” – 1974.
Fonte: Reprodução – IMDB

Para trazer um exemplo de artista brasileira dentro do mesmo espectro de Marina, Marcia X criou a performance/instalação Pancake em 2001. Marcia ficava dentro de uma bacia de alumínio e perfurava latas de leite condensado de 2,5kg e derramava por sobre si. Depois de abrir cerca de 10 ou 12 latas de leite condensado, ela então peneirava confeitos e colocava também sobre seu corpo.

Número artístico e performance Marcia X
Marcia X – “Pancake”. 2011.
Fonte: Reprodução – O Globo

Mas as performances precisam seguir sempre esse tipo de ação? Não. Como vimos na definição apresentada por Pavis no início deste texto, ela pode incluir outros elementos de arte em sua encenação, como a música, o canto, a dança, a poesia, dentre outras, e elas podem também estar combinadas para provocar o público, passar uma mensagem, estabelecer uma conexão, criar uma experiência diversa.

Quando falamos de um número de dublagem, que é o “carro-chefe” das apresentações de transformistas e drag queens, estamos diante de um NÚMERO ARTÍSTICO, um ato
encenado, de forma menos roteirizada e mais inspiracional, mas ainda assim algo que requer uma preparação prévia, que vai desde a execução de um figurino, adereços, perucas e acessórios até a incorporação de expressões na letra da música dublada. Um número de dublagem não é necessariamente uma performance, pois ele segue um caminho traçado previamente pelo(a) artista.

Entre transformistas, drag queens e drag kings e artistas de circo encontramos poucas diferenças. Todos possuem caracterização específica, que inclui figurino, maquiagem, peruca e acessórios e todos apresentam algo a fim de entreter o público. No caso do circo temos números de aéreos (tecido acrobático, lira, trapézio), palhaçaria, contorcionismo, dança etc. Por que palhaços(as) não apresentam “performances”? Por que sempre chamam seus shows de “números” ou “atos” artísticos? Porque eles seguem uma partitura corporal, uma espécie de roteiro com um clímax, criado especialmente para ver o público reagir a tudo isso. Existe muita diferença entre um número de aéreo com música e um número de dublagem? Ou ainda, entre um número de palhaçaria ou um número de canto? Não, na verdade não há diferença. Mesmo assim, não vemos artistas circenses se referirem aos seus shows como performances, pois as performances são MENOS encenadas e MAIS sentidas pelo performer do que os números artísticos, que são criados para apresentação em uma temporada de shows, seja ela diária, semanal ou mensal (e até esporádica).

Quando Pavis nos diz que a performance não é “pré-concebida” é justamente porque ela vai depender da condução da plateia presente. É o público que guia o artista no caminho da performance, e não o contrário, como no número artístico. No número artístico, o artista prepara um caminho e conduz seu público por ele. Há um clímax, mas ele já é pré-definido pelo artista, que aguarda certa reação de seus espectadores (alegria, incômodo, emoções diversas). Na performance, o performer é quem recebe essa energia do público e é ele que vai experienciar as emoções, ele que será surpreendido pelas pessoas que interagem com ele ou o assistem. Geralmente as performances são concebidas para um momento e um espaço específico, enquanto os números artísticos podem ser repetidos indefinidamente, adaptando-se aos espaços e aos recursos disponíveis.

Quer dizer então que um(a) artista transformista NÃO é um PERFORMER? Não. Ele é um performer, pois ele vai encenar ou até improvisar algo dentro do seu repertório de conhecimento e ação, mas ele tem noção completa (ou deveria ter) de até onde pode ir e também até onde o público pode acompanhá-lo. Ele não precisa de um palco italiano e luzes profissionais, embora isso ajude a conduzir seu ato. Ele não precisa também se ater a um texto e um conjunto de ações específicas. E, claro, há artistas transformistas que produzem performance na sua essência, que criam intervenções e interações com o público que dependem deste último, que dependem de sua observação e até de suas ações. A arte do transformismo engloba muitos fazeres artísticos e pode, sim, se usar da arte da performance, mas via de regra, ela fica num lugar onde é mais fácil manter um repertório que pode ser facilmente repetido em qualquer lugar do que dialogar com um momento, um espaço e um público em específico.

O significado principal da palavra PERFORMANCE, conforme o dicionário, é DESEMPENHO. Quando vemos essa palavra sendo utilizada em inglês, na grande maioria das vezes ela quer dizer apenas isso. Como consumimos mais e mais conteúdo produzido por outros países para pautar nossas referências como transformistas, isso nos faz crer que toda vez que criamos um ato encenado, um número artístico, estamos criando uma “performance”, pois ouvimos isso no reality show e achamos que também se aplica ao que fazemos. Mas, não é bem assim. Precisamos, como artistas, saber a diferença entre uma coisa e outra, pois a arte performática exige mais de nós, exige mais preparo físico e menos poética, mais convicção e menos estética. É algo mais visceral, mais intenso, que transforma o performer e sua plateia.

Como disse o fantástico Erick Barreto, um pioneiro da arte transformista brasileira: “Transformistas são palhaços de luxo. Pintamos a cara para passar uma coisa que não somos e nem sentimos” – se referindo aqui ao ato do female impersonation, que é a “imitação” daquilo que seria uma mulher, também uma base da arte transformista no passado, antes de recebermos a iluminação da Teoria Queer sobre gênero, arte, suas diferenças e onde se tocam. O trabalho artístico do(a) artista transformista reside mais na transpiração, na prática, do que na inspiração, na poética. E não há problema algum em criar um repertório de atos ou números artísticos. Eles não estão, de maneira alguma, abaixo da performance, apenas são formas diferentes de explorar a atuação de um performer.

Número artístico e performance Erick Barreto
Erick Barreto no documentário “Bananas is my business”.
Fonte: Gayblog/Reprodução

Referências

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2011.
Marina Abramovic. Rhythm 0 – 1974. MoMA. Disponível em: https://www.moma.org/audio/playlist/243/3118. Acesso em 24 de julho de 2022.
Marcia X. Marcia X: Pancake. Disponível em: http://marciax.art.br/mxObra.asp?sObra=1&sMenu=2. Acesso em 24 de julho de 2022.
Erik Barreto Diana Finsk se transforma em um palhaço no Show de Calouros. Arquivo Transformista. Disponível em: https://youtu.be/0XwgHOgwdZY. Acesso em 24 de julho de 2022.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que corou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

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