Maí Yandara
“Eu poderia estar pintando um quadro, mas estou pintando a mim mesma”
Alma Negrot

Fonte: Denissitta fotografias
As questões referentes às experiências estéticas que causam tensionamentos sobre os diferentes espaços que ocupamos no mundo, desde muito cedo, me atraíram.
Sempre fui fascinada por manifestações culturais que deslocassem o meu olhar para lugares ainda não habitados por mim: experimentações que causam desconforto estético; que propõem tensionamentos políticos, culturais e sociais; que expõem as feridas e deixam-as sangrar; que nos fazem pensar sobre o papel da arte na contemporaneidade.
Face a estas reflexões, há muito tempo tenho me debruçado a observar variadas manifestações artísticas que diluem as fronteiras entre arte e vida, considerando a forma como o artista se impõe sobre o mundo revelando sua maneira de descortinar a realidade e o modo como compartilha sua subjetividade com a sociedade.
Quando observamos um artista operando artisticamente, a curiosidade vem à tona: Quem é a pessoa por trás daquele artista? Quem é o artista por trás daquela pessoa? É o que costumeiramente questiono.
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Em uma deriva pelo YouTube – entre os vídeos da Björk e do Sigur Rós – cheguei até o canal DRAG-SE e me deparei com o Crisálida Especial com Alma Negrot, um filme de Oasis.
Fonte: Canal Drag-se / YouTube
Fascinada por esse acontecimento artístico, comecei a me instigar pela arte e pela vida de Alma. Foi aí que, em uma entrevista ao canal da Regina Volpato, a drag queer, como ela mesma se intitula, diz: “A Alma é a mistura de todas as coisas que eu sinto, que gostaria de ser e coloco em prática a partir da performance, da pintura. É uma expressão minha. Eu poderia estar pintando um quadro, mas estou pintando a mim mesma. Eu sou artista”.
Vale destacar, aqui, que o artista por trás de Alma Negrot é Raphael Jacques, nascido em Gramado, no Rio Grande do Sul, de onde saiu cedo para se permitir explorar sua arte. Ao descrever o processo de transformação que sucedeu com Raphael, poderíamos dizer que havia um menino queer que queria ser artista. É a partir da diáspora, causada pela intolerância e pelo conservadorismo familiar de sua própria cidade de origem, que o artista se encontrou com a criação de uma Alma. Esse processo o permitiu a transfiguração do lugar comum de artista interiorano em um lugar no mundo intergalático, atravessado pelas temporalidades evanescentes do ser queer.

Fonte: Monstermovie
Como drag, ela permite se reinventar a cada momento, buscando uma liberdade como alguém de gêneros transitórios, não se afirmando nem como masculino, nem como feminino.
De modo bem elementar, pode-se dizer que Alma Negrot é queer sendo como é e o que é. Ela transita por entre as composições “lésbixa”, “lesbigay”, “vodoo”, “cyborg”, “queen”,“tranimal”, “anarcopunk”, “ecodrag”, “guerrilheira”, “terrorista”, “não-humana”, “porn-drag”, “viado”, produzindo uma expressão própria em seu processo
Aqui, arte e vida, criador e obra, são traçados no mesmo fio condutor da transitoriedade artística drag. A expressão drag se coloca como processo de encontrar-se a si mesmo, mas já a partir de outro lugar.

Uma resposta para “A transitoriedade artística da drag queer Alma Negrot”