Gurl, can you read? Like, literally?*

Mia The Witch

Quando se faz ciência, seja em qualquer área, volta e meia um dos dilemas que enfrenta-se é a desvalorização dos nossos esforços em detrimento de crenças populares ou apego emocional em uma narrativa sem fundamentação. Podemos pensar, a princípio, na crescente onda de movimentos anti vacinas ao redor do mundo como exemplo: um grupo de pessoas que, sem embasamento científico, une forças para espalhar desinformação e propagar medo sobre determinado assunto em pessoas leigas, contrariando resultados obtidos por diversos estudos qualificados. Por vezes, cientistas têm sua imagem deturpada em prol de narrativas falaciosas: são acusados de perversão, imoralidade, alinhamento político específico, entre diversos outros boatos que se difundem buscando descredibilizar o método científico.

Desde que entrei na Universidade, em 2014, traço caminhos próximos à pesquisa científica. Atualmente, sou pesquisador em nível de formação de pós-graduação na área da Comunicação, sendo bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Minha pesquisa em desenvolvimento trata sobre os tensionamentos nas significações de gênero e sexualidade propostas a partir da performance de drag monstras brasileiras. Desde a graduação, eu pesquiso a respeito da arte drag, tendo realizado uma monografia que buscou entender as percepções que drag monstras porto-alegrenses tinham de si e do cenário drag em que atuam. Desse modo, além de artista drag há quase uma década, eu também tenho alguns anos de experiência em pesquisa científica sobre essa linguagem artística. 

É verdade que um dos pilares do fazer ciência deve ser o diálogo e a troca de ideias: a ciência não deve ser um local de certezas imutáveis e inquestionáveis. Porém, quando se questiona um posicionamento científico, a controvérsia exige o mesmo nível de comprometimento das informações das quais se discorda. Deve haver espaço na ciência para o debate democrático, para a exposição de ideias contrárias e até para que fatos apresentados sejam refutados. Freud e Foucault, dentre diversos outros célebres acadêmicos, são constantemente questionados e tensionados – assim, notamos também avanços no pensamento científico. Porém, qualquer um que queira contrariar um exercício de pesquisa deve o fazer a partir de novos embasamentos científicos. Quando uma pesquisa chega em um resultado, seja ele qual for ou em que instância da vida social esteja sendo empreendido os esforços, essas conclusões não são meros devaneios advindos das crenças pessoais ou dos interesses próprios do grupo de pesquisa em questão. Eles são obtidos através de uma série de procedimentos rigorosos que conferem o grau de cientificidade necessário para que o exercício se torne um dado consistente e não uma fake news. A ciência não precisa – e nem vai – agradar a todos para ser uma fonte legítima de informação. Goste quem gostar, suas conclusões são frutos de estudos realizados e fundamentados em diálogo entre a teoria e a pesquisa de campo. 

Quando aponto em meus textos que Porto Alegre tem uma cena drag baseada nos signos de feminilidade hegemônica, isso não é um ataque às artistas que se enquadram nessa vertente, mas sim uma evidência observada através de pesquisas, não apenas minhas, como de outros autores que já lançaram olhar para nossa cena. Como exemplo disso, Almeida (2023) realizou uma dissertação de mestrado analisando o consumo midiático de drag queens em Porto Alegre. Em descrição do percurso metodológico adotado para entender o fenômeno regional, a autora dispara: “a fim de compreender melhor a performance drag e os processos de transformação de um corpo masculino em uma mimetização do feminino […]” (Almeida, 2023, p. 72). A afirmativa que a pesquisadora considera para tomar decisões estratégicas entra em consonância com o que aponto: Porto Alegre busca performar drag, majoritariamente, a partir da feminilidade. Ademais, Almeida (2023) também elenca um time de drags conhecidíssimas entre o público gaúcho como corpus que considerou em sua pesquisa de campo, nomes os quais em totalidade podem ser encontrados os de Desirré Aserehe, Seripha Sigma, Suzzy B, Cassandra Calabouço, Charlene Voluntaire, Maria Helena Castanha e Madison Nubië (Almeida, 2023, p. 64). Algumas mais do que outras, mas todas as artistas citadas no estudo compõem um quadro drag que busca a expressão da feminilidade como a centralidade de sua performance. Não há menção a nenhuma drag monstra, drag king ou drag queer: a pesquisadora toma a cena a partir da performance queen, baseada nos signos de beleza e sensualidade envoltos aos corpos femininos. Isso, de longe, é um problema para o trabalho realizado por ela, pois demonstra uma amostra coerente da expressividade drag encontrada na cidade que, predominantemente, busca pelos códigos sociais hegemônicos atribuídos à estética das mulheres. Porém, nos serve como mais um dos estudos científicos que entendem a cena drag de Porto Alegre como um local que promove uma hegemonia drag baseada na feminilidade. Ainda conversando com esse pensamento, eu mesmo obtive respostas em entrevistas de campo com artistas locais de outras tipologias drag, nas quais registraram sentir uma grande pressão para se adequar a cena drag porto-alegrense por ser uma “cena de beleza”, a necessidade de mesclar sua expressão drag aos códigos de feminilidade estabelecidos na cidade e a forte resistência local entre artistas e contratantes para com drags que não seguem as normas estéticas da feminilidade (Nascimento; Primo, 2025). 

Nesse ponto do diálogo, cabe também ressaltar que, pessoalmente, não tenho nenhum problema contra artistas drag que seguem os códigos sociais femininos em sua expressividade artística. Minha observação não se baseia na promoção de uma rivalidade entre quem performa personas hiper-femininas e as demais tipologias drag. Isso seria, novamente, além de raso demais, um papo que eu consideraria nocivo ao exercício drag na cidade. Levo à sério meu compromisso de produção de conhecimentos drag, o qual também dá sustentação à carreira acadêmica que estou construindo. Não apenas por apreço ao meu papel de cientista, como também porque acho fabuloso o trabalho que as manas femininas desempenham. Existe uma tremenda transgressão política quando uma bicha afeminada que sofre os pavores da homofobia institucional passa a subverter esse local de sujeição em que o sistema a coloca, reivindicando o seu poder justamente através da feminilidade que lhe fora negada. Assim também no caso de mulheres cis e trans que desempenham drag em expressão femme, confrontando os limites que lhes foram impostos socialmente e desenhando seus próprios espaços, sem necessidade de nenhuma permissão masculina. Toda forma de drag é absurdamente política e válida. Eu jamais estaria gastando meu tempo produzindo sobre uma arte marginal em que eu não visse poder político, uma vez que é papel do artista criar a tensão de desestabilizar. 

Portanto, a conversa aqui não é sobre eu ser contra a forma drag de algumas artistas ou achar que elas representam algum malefício ao grupo. Não existiu e nem existirá espaço para esse tipo de pensamento superficial  em meus textos, pois não é algo em que eu acredito. Nesse sentido, também não cabe que haja distorções levianas sobre as minhas produções. Nesses casos, recomendo a realização de uma nova leitura, mais atenta e disposta a fazer uma interpretação de texto qualificada. Se depois de assim o feito, permanecerem discordando dos meus posicionamentos e os enxergando com maus olhos, as encorajo para que me demonstrem, a partir da construção de uma argumentação consistente, que leve em base o rigor científico, além da empiria, onde estive errando em minhas conclusões. O tensionamento que proponho através das minhas produções é muito mais direcionada aos contratantes, espaços que oferecem trabalho drag e para o público consumidor do que para as demais artistas em si. Busco fazer tais tensões em prol da reconstrução de uma cena drag que acolha a diversidade e oportunize a criação de carreiras plurais. Existe, por trás das intenções que me movem a produzir, um sentimento de que toda forma de drag é válida e, justamente por isso, todas devem ser validadas também no mercado. 

De modo bastante direto, o que me incomoda não é a existência de drags que buscam se assemelhar com mulheres, mas sim isso ser norma para que artistas drags consigam emprego em Porto Alegre. Aqui, aponto para o domínio de uma tipologia drag no mercado porto-alegrense, regido por aqueles que detém os poderes de decisão: contratantes e público. Nesse sentido, alio esforços a toda uma linha de pesquisa que busca legitimar a arte drag como uma performance diversa, que não é restrita aos ideais de mimetização feminina. Speckart (2023), por exemplo, aponta que a expressão drag não pode ser resumida em uma oposição de gênero, em que um homem cisgênero gay vai “vestir-se de mulher”, pois além de deslegitimar o trabalho de diversos artistas drag que não se incluem nas categorias “homem, cisgênero e gay”, como mulheres e pessoas não-binárias que fazem drag, isso representaria um pensamento danoso para o movimento, pois existem diversas outras abordagens drag que não utilizam a feminilidade como centralidade. 

Tão antigos quanto as queens na historiografia drag, os drag kings podem ser citados como uma das tipologias que desafiam essa norma. Lessa e Tortola (2016) apontam que os kings tratam da construção de masculinidades plurais dentro da expressão drag, contestando que a masculinidade não pode ser reduzida aos corpos dos homens. Nesse sentido, as autoras afirmam que “nas práticas Drag Kings, abrem-se possíveis modos de libertar os corpos que estavam presos ao papel de destino biológico e, assim, recriar um corpo mais lúdico, um modo transviado de masculinidade, que inclui o papel da vestimenta na configuração dos gêneros” (Lessa; Tortola, 2016, p. 77). De tal modo, a tipologia king descentraliza a feminilidade do campo artístico, substituindo-na pela problematização das masculinidades. 

Minha pesquisa em curso também se destina a analisar uma dessas tipologias dissidentes das normas hegemônicas do drag: as drag monstras. Apresentadas por Costa e Filho (2024, p. 6) como uma das quatro partes componentes da expressão drag queer, as drag monstras, juntamente das outras três, ecodrags, tranimals e themonias, “buscam justamente romper com representações muito essencialistas do masculino e do feminino, levando a arte drag para lugares de expressão que chacoalham a tradição”. Por esse caminho, a descentralização das questões de gênero feitas pelas drag monstras acontece através do desmanche dos signos da humanidade, os substituindo pelos da monstruosidade em um movimento que, além de estético, promove tensões políticas de sujeitos queer abjetos. Ao rejeitar a humanidade, encontrando na alegoria do monstro de horror um local de subversão das normas sociais e poder político, Gadelha, Maia e Lima (2020) apontam que as drag monstras representam o futuro da política queer.

Por essa via, minha atividade de produção sobre conhecimentos drag parte de uma lógica sistematizada e compartilhada por diversos estudos debatidos na área. A partir de todos eles, entendemos que a arte drag é bastante plural, inclusiva e com infinitas possibilidades criativas, aliando esforços de representatividade queer à performance artística. Nenhuma das posições que defendo deixam de ter embasamentos que dialogam tanto com o campo, como com a teoria. Portanto, acredito que tenham subsídios fortes o suficiente para não caírem ao papel de meras opiniões ou gostos pessoais. Essas, com certeza, guardo para as pessoas mais próximas e as oferto com uma boa cerveja gelada. Aqui, existe um compromisso ético e profissional em produzir textos embasados, com boa argumentação e sustentação. Ninguém é obrigado a concordar com os dados que eu apresento, assim como muitas pessoas estarão contra as vacinas e medicações, mas a contestação exige a apresentação de argumentos tão sólidos quanto os que demonstro. Ademais, penso que incomodar-se com tais apontamentos é, entre duas opções possíveis, negar o acesso das diferentes tipologias por medo da perda de espaço ou falta de uma boa interpretação de texto. As portas da GD estão abertas, nossas vozes e pontos de vista são múltiplos.

*O título em inglês faz uso do vocabulário drag, no qual a gíria “to read” significa gongar alguém, criando um trocadilho com seu sentido de tradução literal, que é “ler”.

Referências

ALMEIDA, Mirella de. A performance drag queen gaúcha: uma análise do consumo midiático de drags de Porto Alegre. 2023. 155 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023.

COSTA FILHO, Francisco Carlos; LOPES, Elisabeth Silva. Questões de gênero e mais além: a interseccionalidade na arte drag. Revista Brasileira de Estudos da Presença, Porto Alegre, v. 14, n. 3, e132185, 2024. 

GADELHA; MAIA; LIMA. Drag, glamour, filth: gênero e monstruosidade em Rupaul’s Drag Race e Dragula. Cadernos Pagu, Belém, n. 61, junho de 2020.

LESSA, Patrícia; TORTOLA, Eliane. O corpo que dança e a construção da poética Drag King: um tango-ação. Periódicus, Salvador, n. 4, v. 1, p. 76–90, nov. 2015 – abr. 2016. 

NASCIMENTO, Patrick Sutil do. Drag, monstruosidade e identidade: estudo sobre a percepção de drag monstras sobre si e sua participação no cenário drag da cidade de Porto Alegre/RS. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Relações Públicas) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024.

NASCIMENTO, Patrick Sutil do; PRIMO, Alessandra Teixeira. Monstruosidade na identidade de drags no contexto de Porto Alegre/RS. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 48., 2025, Vitória, ES. Anais […]. Vitória, ES: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2025. 

SPECKART, Jeanne Martins. Uma andança por pedagogias Drag. 2025. Dissertação (Curso de Moda) – Udesc, 2023.

Grafia Drag, 3º ano: a herança das montações

Profª Luná Maldita (Douglas Ostruca)

São três anos desde a inauguração do Grafia Drag como projeto de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De lá para cá, tornamo-nos um coletivo composto por pessoas de diferentes regiões do Brasil, um grupo atuante na produção escritural de ensaios e entrevistas em conexão com as cenas drag e transformistas. Além de publicar 68 textos, já realizamos três rodas de conversa sobre a arte da montação, incentivando a troca de saberes entre artistas de diferentes gerações.

Neste ano, nosso núcleo de produções foi integrado por: Anubis Blackwood, Bruno Arthur Voss Bernardy, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lady Lazzarus, Marcos Moraes, Mia The Witch, Persephone Ephemera Pepper , Pietro Lamarca, Professora Luná Maldita eTiffany Plazza. Também tivemos contribuições de Dara Deon, Giselle, Christy Moon e Miss Dangerr.

Ao longo dos últimos 12 meses, foram 20 textos, dos quais 15 são ensaios e 5, entrevistas. Também realizamos, em parceria com o espaço Zona Cultural, a primeira exibição pública do registro do espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (1991), dirigido por Zé Adão Barbosa e Mário Maya, seguida por uma roda de conversa com Gloria Crystal, Everton Barreto e Lauro Ramalho.

Dandara Rangel Grafia Drag
Dandara Rangel no espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (Dir. Zé Adão Barbosa e Mario Maya A1991).
Recuperação de imagem com IA: Guilherme Bressan.

Entre as linhas escriturais dos textos publicados entre outubro de 2023 e outubro de 2024, além de seguirmos partilhando os trajetos e as trajetórias dos processos de montação, seguimos comprometidos com a abordagem das gongações críticas e com a consolidação coletiva das memórias da montação. Ademais, localizamos uma nova vertente com textos conectados às pesquisas acadêmicas, dando a ver traços de composição do que se mostra uma ciência drag. A seguir, desdobramos cada um desses tópicos.

Gongação crítica: “a biblioteca está aberta”

Uma das vertentes de escrita que continua presente é aquela que promove problematizações sobre as desigualdades e preconceitos reproduzidos nas próprias cenas drag e transformistas. Nomeamos essa perspectiva de gongação crítica, a qual torna evidentes aspectos que precisam ser transformados para que nossos territórios se tornem mais acolhedores e abertos às expressões artísticas heterogêneas. Por essa via, Lady Lazzarus analisa a primeira edição do reality show Drag Race Brasil, considerando que, embora seja importante para fomentar a cena local, o programa acaba por valorizar as estéticas de montação que tendem a se aproximar dos moldes norte-americanos. Já Lorde Lazzarus discute os desafios enfrentados pelos drag kings na cena drag, ressaltando que a reprodução do machismo nesses territórios é responsável pelo apagamento de tais montações.

Em seus escritos, Anubis Blackwood chama a atenção para a ascensão dos movimentos conservadores que tomam como alvo a censura da arte drag, partilhando a luta travada em sua própria cidade. Também tratando da cena local, Giselle aborda os desafios de se inserir na cena drag de Porto Alegre, afirmando a necessidade de mais espaço e oportunidades para novas artistas. Outro texto que apresenta um olhar crítico contundente é o de Miss Dangerr, que problematiza o consumismo exacerbado tão recorrente nos processos de montação drag. Em alternativa, a artista propõe práticas de reutilização de figurinos, destacando a necessidade de se quebrar com o decoro burguês que sugere não repetir looks.

Uma ciência drag: entre os palcos e a academia

Seguindo os passos da transformista Laura de Vison e da drag queen Rita Von Hunty, as drag professoras e pesquisadoras passam a ocupar cada vez mais espaço nas universidades. Com isso, os saberes drag e transformistas passam a ser produzidos pelas próprias artistas, que deixam de ser mero objeto de pesquisa para tornarem-se vozes ativas, levando para os espaços acadêmicos as potências da gongação crítica. Nesse grupo de textos voltados para o desdobramento de pesquisas, Kam Middle Space reflete sobre como a arte drag funciona como ferramenta de autoconhecimento e expressão corporal

Já Persephone Ephemera Pepper investiga o uso de terminologias de gênero na arte drag, buscando uma desconstrução crítica. Em outro texto, a artista trabalha o que chama de “pedagogias drag”, descrevendo suas oficinas e enfatizando a formação de novas artistas. Bruno Arthur Voss Bernardy retoma seu trabalho de conclusão de curso, em que estuda a trajetória da drag queen Cassandra Calabouço. Em sua contribuição, Douglas Ostruca apresenta o primeiro capítulo de sua tese, a qual investiga a cena transformista de Porto Alegre a partir de uma perspectiva micropolítica das montações.

Trajetos e Trajetórias: os processos de montação 

Os textos que abordam questões sobre os processos de montação são recorrentes no Grafia Drag desde as primeiras publicações. Nessa linha, Christy Moon relata sua jornada na arte drag, destacando a evolução de sua persona e a inspiração que encontra nas fases da lua. Mia The Witch compartilha suas referências para a construção de sua expressão drag, destacando a influência de ícones do punk e do glam rock.

Tiffany Plazza fala de suas inspirações no grotesco para compor-se como uma drag monstra. Em seu ensaio, Dara Deon descreve a criação de sua peça “Eu, Chromática”, a qual apresenta seu início com a montação drag, incluindo as referências musicais e estéticas. Ainda nesse conjunto de textos, Juana Profunda discute a implementação do Registro Profissional (DRT) para artistas drag em Curitiba, sublinhando que esse movimento é um marco na valorização e regulamentação da profissão.

 Entrevistas: a herança das montações

Neste terceiro ciclo do Grafia Drag, houve aumento do número de entrevistas, as quais se mostram relevantes na partilha das trajetórias e experiências de artistas que compõem as cenas drag e transformistas. Essa é uma forma de recompor memórias, criando uma teia de narrativas que funciona como herança coletiva dos saberes da montação que são vivenciados nos corpos.

Entre as entrevistadas esteve Ikaro Kadoshi, que, em conversa com Pietro Lamarca, menciona os desafios e as oportunidades no mercado drag contemporâneo. Já nas respostas de Brigitte Liberté para Lady Lazzarus, a drag themônia de Belém do Pará fala de seu projeto artivista de vertente feminista, ressaltando a luta das mulheres por mais espaço na arte drag. Além disso, Liberté tensiona as cenas drag do Sul e Sudeste por reproduzirem em demasia os modelos norte-americanos.

A professora Maldita também trouxe a público duas entrevistas com artistas da cena drag e transformista gaúcha. A primeira foi com Cassandra Calabouço, na qual a artista trata de sua trajetória artística, considerando as transformações em sua trajetória pessoal a partir do encontro com a arte da montação. A segunda foi com Everton Barreto, que, além de contar como Lady Cibele aconteceu em sua vida, também ressalta a importância de se valorizar a história de artistas que vieram antes.

Por fim, incluímos no conjunto de textos publicados uma tradução da entrevista dada pelo coletivo Grafia Drag para a revista americana Canvas, onde abordamos a importância da coletividade na construção de conhecimento sobre a arte drag.

Um brinde aos porvires

Pelo trajeto realizado coletivamente até aqui, percebemos que se mantêm as propostas de pensar criticamente os contextos em que estamos inserides. A partir de nossas vivências, complexificamos as compreensões sobre o fenômeno drag e transformista. Evidenciamos que, mesmo em territórios majoritariamente compostos por grupos minoritários, ocorrem reproduções de relações de poder, as quais precisam ser tensionadas e transformadas. Além disso, com as partilhas sobre os processos de montação e as entrevistas, jogamos luz sobre as trajetórias artísticas e memórias provindas das experiências drag e transformistas.

Uma das novidades deste último ano é a consolidação de textos que apresentam conexão direta com pesquisas acadêmicas desenvolvidas nas universidades. Essa vertente demonstra a ocupação dos espaços de produção de conhecimento por saberes subalternos que carregam a potência de tensionar os regimes de verdade que imperam no meio acadêmico.

Para o futuro, além de seguir investindo nos olhares críticos e propositivos, desejamos dar continuidade à realização de rodas de conversa públicas, trazendo para o debate artistas de diferentes gerações. Gostaríamos também de estabelecer mais parcerias com drags e transformistas das regiões Norte e Nordeste, buscando pistas e inspirações para decolonizar as montações no Sul. Encerramos com um brinde à herança de nossas ancestrais e com a aposta em uma perspectiva abrangente sobre a arte da montação, aberta às expressões heterogêneas e às possibilidades de montação ainda desconhecidas que habitam o porvir.

Seres grotescos: corpo, drag e arte

Tiffany Plazza

Há anos atrás, em uma época em que eu era uma artista visual perdida no mundo, que não sabia qual caminho seguir com a minha arte, me deparei com um texto na internet chamado Why contemporary women artists are obsessed with the grotesque? (Por que mulheres artistas contemporâneas são obcecadas com o grotesco), de Tess Thackara. De cara, esse texto já chamou minha atenção e me fez entender porque sempre flertei com a arte grotesca, principalmente considerando toda minha vivência, minhas inseguranças e ideias. Depois que comecei a me montar e que conheci a arte drag alternativa e as drag monstras, me vi cada vez mais dedicada a me tornar uma artista grotesca. Hoje em dia, me vejo como uma drag monstra sempre disposta a atingir formas cada vez mais grandiosas de me tornar um ser grotesco e decidi revisitar esse texto que teve tanto significado na minha trajetória artística.

Tiffany Plazza Seres Grotescos
TIffany Plazza no Halloween da Festa Haus (2022). Foto: Acervo pessoal.

O termo “grotesco” surgiu para caracterizar aquilo que é fora do convencional e do que é familiar para o senso comum. Com o tempo, o termo passou a ser relacionado com o que é repulsivo e que, muitas vezes, pode apresentar algum tipo de ameaça. Não é à toa que o grotesco é tão associado às mulheres, despertando nosso interesse de querer ser uma manifestação do termo. Principalmente como uma mulher pertencente à comunidade LGBT, outro grupo normalmente associado ao que é “grotesco”, existe uma grande provocação e vulnerabilidade em reivindicar o que é usado contra nós, como insulto, em algo que nos fortaleça e nos torna seres mais poderosos do que aqueles que nos machucam.

Você já deve ter assistido a diversos filmes de terror em que o “monstro” era simplesmente uma mulher idosa, uma forma de representação do corpo da mulher fora do padrão como algo grotesco recorrente em filmes de terror. Você também deve ter assistido algum filme com uma figura de uma mulher sedutora, porém perigosa: uma forma de representação da mulher que desperta desejo, mas que ainda assim expressa algum tipo de ameaça para quem ela seduz.  O filme “Raw” (2016) conta a história de duas irmãs que vão morar na faculdade juntas, longe dos pais e descobrem que possuem instintos canibais. Mesmo que a diretora não tenha intenções metafóricas com o filme, não consigo deixar de ver como a imagem de uma mulher descobrindo o “grotesco” dentro de si, seja em relação à sua sexualidade ou apenas à sua identidade.

Seres Grotescos filme raw
“Raw” (2016) dir. Julia Ducournau. Fonte: Reprodução / Exeter Phoenix

Drag queens são seres grotescos por natureza, por sermos arte fora do padrão, ou talvez porque algumas de nós somos repulsivas, mesmo. Vestimos a identidade feminina de forma provocativa e até quando somos apenas belas, somos ameaças. Além disso, não limitamos nossos corpos quando se trata de mutação e expressão, mostrando a arte e a beleza na capacidade de transformação do corpo humano. A arte drag mostra que temos força e capacidade de transformar nosso corpo em fantasias que se tornam realidade, fugindo não só da normalidade, mas também, da naturalidade.

Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte: The Boulet Brothers Dragula (2021)
Sigourney Beave
Sigourney Beaver. Fonte:The Boulet Brothers Dragula (2021)

Assim como muitas artistas que são apresentadas no texto de Thackara, enxergo o grotesco como uma forma de expressão contra tudo que me foi imposto e negado, durante minha vida como uma mulher LGBT e como artista. Cada vez mais, sinto que minha confiança e meus superpoderes de drag são libertados quando assumo minha forma grotesca, seja com a feminilidade sedutora e mortal ou como um típico monstro grotesco e repulsivo, que foge, não apenas dos padrões de beleza e das normas, mas também do que é considerado humano.

Não me convidaram para a tal festa drag: notas de uma drag monster que não foi bem-vinda por ser estranha

Mia The Witch

Eu comecei a me montar há 6 anos. Nascida da mistura dos meus apreços artísticos e dos muitos rótulos que me puseram na adolescência, como “estranho”, “emo” e “viado”, Mia é uma forma de reivindicar o meu próprio valor que era negado pelos demais; ela é uma das expressões artísticas de Patrick, na qual elu clama pelo autoamor que lhe fizeram abandonar tão cedo.

Sempre me senti uma adolescente esquisita perto dos demais. Era perceptível que a minha exclusão não era apenas uma questão de falta de afinidade, mas que minha aparência e trejeitos tinham grande influência nisso. Pessoas como eu não eram tidas como dignas de receber afeto. Pelo contrário, fomos ridicularizadas e tornadas alvo de piadas. 

Aprender a socializar se torna um fardo quando você sente que não é bem-vindo nos espaços e, infelizmente, quando você é jovem, tende a acreditar no que os outros falam sobre você sem muito questionamento. Enxergar-me pelas lentes dos outros fez com que eu acreditasse por muito tempo em rótulos pejorativos e isso desencadeou não apenas a minha falta de autoestima, como também a depressão que trato até hoje. 

A Mia nasce em um contexto em que eu precisava de algo maior que a vida: um propósito. Ela emerge como um grito seco que rasga a garganta de uma Patrick de 21 anos, já farta de não aceitar quem era. Comecei a abraçar toda a minha estranheza, toda a minha frieza e as minhas questões de identidade de gênero, transformando-as no meu grande potencial através da arte drag. A Mia fez com que eu me reconhecesse como uma pessoa não-binária, confrontando-me ao fato de que eu sempre questionei normas de gênero, porque elas nunca me deixaram confortável na pele em que habito.

Minha visão artística era de que a minha drag deveria ser uma persona sombria, andrógina, assustadora. Lady Gaga tem uma frase na qual me reconheço muito: “eles não podem me assustar se eu assustá-los antes”. Assim, comecei a fazer drag com orçamento baixíssimo, tentando reproduzir looks de queens brasileiras alternativas com as quais eu me identificava, como Pandora Yume. Não só a barba era parte da minha montação, como também os pelos corporais – os quais eu me esforçava para que ficassem à mostra. O fato de eu não aquendar era como eu questionava o porquê de uma persona feminina não poder ter pênis se muitas mulheres – babadeiras – têm. Além disso, o característico cabelo preto e branco de Mia, junto da maquiagem gótica, sempre demarcou o fato de que eu sou uma bruxa. Eu era tudo aquilo que me fizeram acreditar ser, o pior de mim, que acabei transformando no meu melhor a partir da arte como um ato de resistência.

Mia The Witch festa drag
Mia The Witch.
Fonte: Arquivo pessoal da artista

O drag, por muito tempo, ocupou esse lugar em que eu poderia me expressar sem medo de retaliações. Percebi ao longo da prática que o jogo não é bem assim e que, por mais que o ato drag em si seja extremamente político, ele não me protegia do julgamento alheio. Quando falo deste julgamento, não falo apenas do que recebi por pessoas fora da comunidade queer, mas, também, de ataques e microviolências que sofri (e ainda sofro) de outras drag queens. Tenho a percepção de que, com o tempo, fui padronizando a minha drag para agradar os outros: contratantes, festas, locais, público, colegas. Fui fazendo para a Mia o mesmo que sempre fizeram para Patrick: encaixá-la em caixas que me ofereciam como opção e ir me machucando no meio do caminho por não caber totalmente em lugar algum. 

Mais uma vez, estar com um pé dentro de uma caixa, mas o resto do corpo não caber. Fico questionando a mim mesma se a Mia se sente como Patrick hoje em dia. Logo ela, a grande bruxona como nasceu, líder do seu coven, maldita e sombria, rainha poderosa do submundo, símbolo de empoderamento, acabou por se identificar com aquela queerzinha acuada, deprimida, com medo do mundo e se sentindo uma aberração? 

Fazer drag foi perdendo um pouco da sua essência para mim, foi ficando cada vez mais sem graça. Tornou-se mais um dos espaços em que me sinto estranha demais; exótica; precisando de correção ou ajuda. Em seis anos de drag, poucas foram as vezes em que me senti valorizada de verdade por outras artistas. Sem falar nas pouquíssimas oportunidades que surgem para uma performer que não está dentro de um padrão estético normativo do drag.  

O sentimento que me invade é o de injustiça. Não é justo que tirem de mim algo que lutei tanto para construir. Não é justo que o único lugar que me acolheu, na verdade, me rejeita também. Não é justo que tenhamos sempre que corresponder a expectativas normativas da sociedade e dos grupos em que nos inserimos para nos sentirmos amadas e valorizadas.

Esses sentimentos ruins a respeito do drag e a incerteza se eu deveria continuar ainda rondam, volta e meia, meus pensamentos. Ainda estou aprendendo a ressignificar o lugar que a montaria ocupa na minha vida. Tenho buscado ouvir mais o meu coração e voltar a ser a artista que minha criança precisava ter visto. Porém, me sentiria uma tola se lhes escrevesse um texto que romantiza a ideia de que ser quem realmente somos é uma tarefa fácil e que só traz benefícios. 

O cenário drag no qual estou inserida ainda exerce uma grande pressão em mim, no fato de que eu não correspondo com o padrão estético da cena. Eu acabo vivendo em uma dicotomia de pensamentos: o drag importa tanto para mim e eu preciso ser quem eu sou, porém ser quem eu sou não me traz relevância nem espaço e eu não sinto que estão me permitindo crescer como artista.

Cada vez mais tenho questionado o preço que pago em querer tornar a minha montaria em algo “comercial”. Na tentativa de ser notada e ganhar oportunidades de mostrar o meu trabalho, vou me distanciando cada vez mais de quem eu sou. Parece-me que há nisso um perverso efeito de exclusão da diversidade, em que todas as drags que não se montam para ser bonitas e bater cabelo (o que é um trabalho belíssimo para quem se identifica com ele) se questionam se são realmente drags boas o suficiente, até que algumas cedem a este modelo posto. 

O que me encanta como performer é que eu conto uma história com cada um dos meus atos. Convido o meu público a embarcar em uma narrativa monstruosa que só eu poderia lhes contar. Acredito que há um tremendo senso de singularidade no que me proponho a fazer. Contudo, ainda me questiono se eu seria uma drag tão incrível quanto as que dublam com coreografias e servem ao público características de divas pop. Sendo assim, prefiro assumir um papel muitas vezes de mediocridade do meu trabalho e tentar fazer o que elas fazem tão melhor do que eu. 

O mais chocante tem sido perceber que uma vez me invalidando para ocupar um espaço que corresponda às expectativas alheias e consequentemente me sentindo cada vez mais perdida de mim mesma, vou arrancando elogios na cena que jamais recebi fazendo aquilo que realmente me move no drag. Por um lado, sinto-me punida por ser quem sou, por outro, sou aceita em ser o que esperam de mim. Tudo isso acaba me deixando muito confusa e sem saber ao certo que rumo dar a minha carreira.

Entretanto, por meio das tantas dúvidas que demonstrei nesse texto e inquietações reais que afligem meu coração, acredito que vou tecendo uma rede de acolhimento de artistas que se sentem assim ou que têm percepções similares sobre a cena drag de sua região. Eu me sinto perdida, novamente, do mesmo modo que me senti durante a adolescência, sem saber se o correto era tentar me assemelhar ao padrão ou abraçar as diferenças. 

Seria demais ansiar por um cenário drag inclusivo em seus contratos e que pregasse a sororidade entre as artistas com suas diferentes abordagens? Eu só queria poder receber o mesmo acolhimento e oportunidade que as demais, mas sinto que sempre será duplamente mais difícil para pessoas como eu. 

Por fim, precisamos entre nós, as estranhas, criar mecanismos de hackeamento do sistema, porque, até então, não estamos sendo convidadas a fazer parte dessa festa drag. Penso que nossa potência é grandiosa demais para que seja naturalizado o sentimento de que somos inferiores ou que percamos nossos ideais em prol de nos inserirmos no mercado.

Nasce uma drag monstra

Mia The Witch

Eu não me recordo a idade exata que eu tinha quando eu conheci uma drag queen, mas certamente foi ainda na infância. Aqui, vale ressaltar que fui uma criança dos anos 1990, sabemos que a época dos fatos tem certo peso sobre eles ao orientar perspectivas sociais. As primeiras drags que conheci foram pela televisão: Vera Verão e Nany People. Lembro de achá-las muito divertidas, sempre sorrindo e fazendo sorrir quem contracenava com elas nas esquetes dos programas que faziam parte. Ao mesmo tempo, eu não entendia muitas das piadas e nem tinha ideia do porquê as pessoas com quem eu convivia (família, colegas de escola, professores, etc.) não gostavam ou tiravam sarro delas. Fui condicionada pelo meio social a esconder meu interesse pelo trabalho delas, mesmo sendo elas tão encantadoras à minha criança. Não era tido como de bom tom gostar de uma drag queen naquele contexto.

Anos mais tarde, por volta de 2014, descobri o trabalho de Lorelay Fox no YouTube. Essa descoberta coincidiu com o período em que eu tinha me assumido como uma pessoa LGBTQIAP+ aos meus pais e amigos. Os vídeos didáticos de Lorelay foram me fazendo entender mais sobre assuntos queers e me dando orgulho de ser quem eu sou – orgulho esse que não existia antes em mim e era ocupado por um sentimento terrível de inferioridade. Lembro que em um de seus vídeos, Fox disse que a drag queen é como uma porta-voz da comunidade LGBTQIAP+; que, através da arte e do encantamento proporcionado pela  drag  ao público, ela se torna hábil de ser uma comunicadora eficaz e abre espaços de diálogo com o objetivo diminuir a exclusão social de pessoas queers. Acho que foi assistindo a  esse vídeo que um estalo se deu em mim e me fez pensar: “Eu quero ser uma drag queen!”.

Aliado a isso, comecei a consumir cada vez mais conteúdos drags e descobri meu amor por RuPaul’s Drag Race. A partir do programa, meu deslumbramento pela arte drag tomou uma proporção ainda maior. Eu via no trabalho daquelas participantes uma ligação muito forte com o que eu queria fazer, mas que desde a infância fui ensinada a abafar em mim. O universo de Drag Race era muito viciante, me cativava de uma forma que eu me pegava em vários momentos do dia me imaginando em vestidos que vi na passarela do programa ou em como eu dublaria músicas que apareceram no show.

Drag Race moldou a ideia da primeira drag queen que eu queria me tornar. Arrisco a dizer que não só a mim, mas como a maioria das drag queens da nova geração. A ideia desse reality show, em teoria, me parecia fabulosa: pegar uma arte marginalizada, dar umas boas modeladas nela e a transformar em uma arte de entretenimento mainstream. Entretanto,

na prática, acredito que a disputa acirrada apresentada por RuPaul acabou criando regras e limitações demais para uma arte que era sobre ser livre para se expressar da forma que sentimos ser a nossa melhor versão.

É necessário reconhecer que o público teve acesso e aprendeu sobre a arte drag a partir desse show, o que evidencia sua relevância para a cena drag contemporânea. Contudo, ao mesmo tempo, esse reality elenca hierarquicamente um tipo específico (ou tipos específicos) de artistas e todos que destoam desse padrão “racer” passaram a ser comparados e inferiorizados por parcela dos fãs do programa, incluindo aí algumas drags que reproduzem esses padrões. 

Por esse caminho, uma drag queen só teria seu valor reconhecido pelo público, mesmo na cidade em que se apresenta, quando se assemelha com o que é visto sobre drag na competição televisiva.  Vejo nesse pensamento um ato de redução das expressões drag, mesmo depois de mais de uma década de programa e suas discretas tentativas de se tornar  um show com linguagens diversas. Isso me incomoda, não me interessa ser uma artista padrão “racer”. 

Mia The Witch drag monstra
Mia The Witch
Fonte: Arquivo Pessoal

Minha estética drag é bem diferente do que habitualmente aparece no show. Enxergo a minha arte como uma forma política de contestar imposições de gênero que me aborrecem desde a minha infância.

Eu sou uma pessoa não-binária. A vida inteira tentaram me encaixar em um lugar duro, desconfortável e cruel em relação ao meu gênero. A Mia nasceu como uma forma de o Patrick explodir essas caixas. Sendo assim, minha drag nunca foi feminina de um modo patriarcal. Enxergo que minhas escolhas estéticas – que são, sobretudo, escolhas políticas – incomodam e tiram o conforto de alguns espectadores. Eu ser uma drag queen com pelos em todo o corpo, que não usa enchimentos corporais e não aquenda faz com que muitos nem me considerem uma drag queen de verdade. Acredito que esse também seja o papel do artista: incomodar; fazer sentir desconforto; tirar a pessoa de um lugar de certezas imutáveis e acolhedoras. 

Apesar de ter uma paixão imensa por referências glamourosas, como a Old Hollywood ou o cenário pop atual com divas como Lady Gaga e Pabllo Vittar, enxergo minha arte como uma expressão de contra-revolta. Tento quebrar essas regras que foram impostas aos artistas drag. Por isso, eu me considero uma drag monstra. 

O dicionário Oxford traz para o verbete “monstro”:

  1. ser disforme, fantástico e ameaçador, ger. descomunal, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia.
  2. qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade.

Eu sou a monstra das drags. Sou uma drag que, do seu próprio modo, aprendeu a se incluir como artista num espaço que não se sentia bem-vinda por não se encaixar às “normalidades” próprias a esses lugares. Depois de 4 anos de montaria, estou encontrando quem sou enquanto artista e encorajo a todes que, assim como eu, se incomodam com essas regras, a se rebelarem. A arte é livre. E nós também devemos nos sentir assim. 

Vamos quebrar o CIStema!