Mia The Witch
Trabalhar com arte no Brasil – especialmente nos últimos 4 anos – não tem sido uma tarefa fácil. É de conhecimento geral que a nossa classe, além de sofrer diversos ataques, não tem recebido muitos incentivos, apesar da importância do papel cultural na formação da cidadania. Com isso, quero dizer que estou ciente sobre o quão desafiador é permanecer como agente da arte em períodos como o que recém passamos: um governo conservador que desde seu primeiro ano de mandato tratou a arte como se fosse um adorno fútil, uma trivialidade que poderia ser cortada do orçamento público sem gerar impactos sociais.
Quando falamos de arte LGBTQIAP+, precisamos considerar que os estigmas pelos quais passamos, infelizmente, acarretam em ainda mais negligência das políticas culturais para nós. Entretanto, o que eu gostaria de abordar neste ensaio é como essa lógica excludente e estigmatizante promovida pela heteronormatividade social acaba dificultando a inserção de artistas queers que não atendam a um padrão estético específico dentro da sua própria comunidade.
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Eu me monto há 5 anos. Comecei minha jornada drag através de experimentos em casa, como um hobbie. Esse lazer foi se tornando cada vez mais frequente na minha vida, até que passei a produzir conteúdos para internet, criando minha persona. Essa persona, como já apresentei em outras publicações aqui no Grafia, diverge de um padrão estético hegemônico. O que me atrai na montação é o diferente. Sou uma bruxa com gosto no horror, no grotesco e peculiar, apesar de flertar com o glamour em muitas de minhas criações.
Sendo uma pessoa não-binária, não adoto a prática de aquendar porque acredito que representações femininas são plurais e não se limitam à genitália. Também sou uma queen com pêlos corporais: o visual andrógino sempre foi uma das minhas maiores paixões. Essa é a Mia The Witch, uma drag monstra que desafia regras de normatividade impostas dentro do próprio ofício drag.
Com todo esse tempo dentro da arte, acabei percebendo recentemente em mim o desejo de levar a Mia para fora dos ambientes digitais. Outra grande paixão que me fez começar o drag foi o encantamento que sempre senti pelo teatro. Assim, comecei uma nova jornada em busca de me tornar a performer que eu desejo ser. É exatamente nesse ponto que começou a surgir a problemática que orienta minha incomodação motivadora para escrever este ensaio. Tem sido frustrante perceber que os contratantes de arte drag em nossa cidade, Porto Alegre, ainda não estejam tão abertos e/ou receptivos à arte de queens que não emulem em sua persona um perfil a la Drag Race.
Na minha compreensão, o drag é uma arte plural que deve ser celebrada justamente pela sua capacidade de transformação constante. O ser drag é múltiplo. Não há apenas um modo de se exercer a arte drag, nem deveria existir um modo “correto” de se fazer. Acredito que a formação de nossas personas são processos extremamente íntimos, nos quais revisitamos a nós mesmos em busca dessa identidade artista, para, então, nascermos enquanto drags. Desse modo, como poderíamos julgar errado uma estética drag específica, se os diferentes estilos são resultados das subjetividades e experiências sociais e culturais de cada indivíduo?

Fonte: arquivo pessoal
Confesso não conseguir compreender exatamente o motivo pelo qual existe ainda esse bloqueio no contrato de artistas que tenham abordagens drag alternativas ao padrão estético RuPaul. Posso levantar algumas hipóteses como, por exemplo, a dúvida sobre o potencial artístico, ou, o medo da rejeição do público à proposta do artista em questão. De qualquer forma, acredito que isso pode ser classificado como um preconceito infundado. Considero que uma forma segura de qualificar o trabalho de um artista é verificando seu portfólio e o avaliando a partir dessas experiências, o que pode ampliar as oportunidades. Do contrário, me parece um boicote à produção artística em sua diversidade.
Tal qual a sociedade impõe normatividades sob nossos corpos queers, é necessário perceber os momentos em que adotamos esse mesmo mecanismo social dentro da nossa comunidade. Isso acontece, por exemplo, quando, no lugar de acolher as diferenças, considerando as experiências de rejeição que já vivenciamos, acabamos reproduzindo uma série de normas a serem seguidas, descartando todes aqueles que fogem desse padrão.
Na minha visão, se nosso mercado local desconstruísse a ideia de que uma drag legítima é apenas aquela que se aproxima da estética RuPaul, haveria maior espaço para que as artistas alternativas fossem contratadas. Isso poderia fortalecer a cena drag porto-alegrense e, quem sabe, poderíamos nos tornar referência nacional na variedade de estéticas drag. Nossa cidade tem espaços incríveis para o desempenho da arte drag, há um público muito interessado em consumir a arte e também há abundância em artistas muito potentes. O que nos falta é parte dos contratantes locais perceberem que há muito mais ganhos apostando na diversidade da cena do que no descarte do estranho.

2 respostas para “O descarte do estranho: a exclusão da diferença na cultura drag”