Os direitos humanos e o caminho do meio

Jornalista Clóvis Malta estreia coluna #OmbudsmanHumanista defendendo a ponderação como estratégia de enfrentamento aos ataques que os direitos humanos sofrem atualmente.

Clóvis Malta*

Sentir, como nos diz Fernando Pessoa, é compreender. Por isso, fiquei feliz de encontrar muito sentimento no Humanista, ao qual me somo. A partir deste texto, pelo período de um ano, passo a representar os interesses dos leitores do portal, alternando análises com a colega jornalista Carla Dutra.

Escutar quem nos lê, quem nos ouve, quem assiste aos nossos vídeos é uma preocupação relevante para qualquer veículo voltado à produção de conteúdo de qualidade. Sensibilidade é a seiva do jornalismo. A questão dos direitos humanos, particularmente, tem ainda mais a ver com este requisito. O bom profissional precisa se mostrar sempre atento aos limites do que está expresso na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição de 1988 e no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

Que bom perceber que a inquietação é visível no Humanista, da Fabico/UFRGS. Essa universidade, à qual eu me sinto grato por estrear uma espécie de retorno, como ombudsman deste portal de alunos, foi uma das minhas grandes escolas. A outra foi a RBS, na qual aprendi quase tudo do pouco que sei, na prática diária, ao longo de mais de quatro décadas.

Como eu disse na entrevista a Arthur Ruschel para o Humanista, a opinião do ombudsman é mais uma a ser considerada, “não necessariamente a definitiva”. O Humanista está no caminho certo ao permitir interatividade aos seus públicos e ao se preocupar em responder com objetividade às questões suscitadas por quem interage. Talvez possa avançar mais ainda, dando margem a um espaço específico para os leitores. Seria um canal para que possam somar suas vozes à manifestada com muita clareza, precisão e oportunidade nos editoriais do portal.

Talvez deva ampliar ainda mais o leque de suas pautas, tentando entender a fundo e explicar o que pensam, por exemplo, os religiosos sobre a questão dos direitos humanos. Talvez seja importante investigar como é que pessoas de pouca ou nenhuma informação, infelizmente em número tão expressivo no Brasil, encaram o assunto. Talvez ouse aprofundar as razões de o tema ser erroneamente associado, na base de simplificações, à defesa de bandidos e à transformação de cárceres em celas de luxo. Talvez precise reforçar sempre que, sem uma imprensa livre, o espaço da cobertura a transgressões aos direitos humanos será ainda menor. O importante é contribuir para que o debate avance.

O tema direitos humanos não é de esquerda ou de direita. É de todos. A Declaração de 1948 é obra de pessoas de visões plurais, preocupadas com a dignidade dos membros de todas as famílias, inclusive dos que a rejeitam. Sempre que a gente duvida se deve ir pela esquerda ou pela direita é importante ter em mente uma alternativa que os tibetanos e outros povos orientais chamam de caminho do meio. É aquele que permite aproximar os extremos, pelo qual se pode vislumbrar um mundo melhor mais à frente. Vale para a vida e para o jornalismo, principalmente o direcionado à área, como é o caso do Humanista.

Espero que, a partir das generalidades deste primeiro texto, possamos ir avançando no detalhe nos próximos, com base no que já está feito e no que pode vir a ser feito. Vamos dialogando.

Gratidão pela acolhida.


*Clóvis Malta é jornalista formado pela Fabico/UFRGS e tem 45 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como Diário de Notícias, Folha da Manhã, Revista Amanhã e Zero Hora (onde atuava como editorialista). Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: clovismalta@gmail.com.


FOTO DE CAPA: geralt/Pixabay

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