Holanda, corrija a problemática Blackface, por favor

A celebração do Pete Negro, realizada anualmente no país europeu, clama por adaptações sociais aos dias atuais.

*Laura Hülsemann

É aquela época do ano novamente. Dezembro está aí e com ele chegam as tradições de Natal – que costumam ser diferentes em cada país. Eu era estudante de intercâmbio na Argentina quando soube da tradição de Sinterklaas.

Conversamos sobre como celebramos esta época do ano em nossos países de origem. Enquanto eu falava sobre Nikolaus, meu amigo dinamarquês comentou sobre Juleaften e, em seguida, minha amiga belga explicou a tradição de Sinterklaas e Zwarte Piet. Ela disse que se as crianças se comportam, recebem doces – uma tradição parecida com a alemã, pensei. Então ela continuou: “as pessoas pintam o rosto de preto, fazem os lábios parecerem grandes e vermelhos, colocam brincos afro e dourados e uma fantasia, então andam pela cidade e dão doces para as crianças”, e ficou um silêncio estranho no ambiente.

Pensamos “o que ela acabou de dizer? Eu entendi certo? Não estamos falando de tradições de Natal?”, e perguntamos: “espere um minuto, isso soa estranho. Você tem certeza de que entendemos da forma correta?”, pois queríamos esclarecer. Quando ela nos mostrou as fotos, percebemos que passear com Blackface era algo normal na Bélgica e na Holanda. Para o resto de nós, não há necessidade de discutir sobre isso: é claramente racista. Meu amigo belga tentou justificar, dizendo que “é cultura, você não entende, nós crescemos com ela”. 

E ainda não entendo, apesar de ter morado por dois anos na Holanda. Ao voltar para o alojamento da universidade, encontrei um desfile de Sinterklaas. Dois anos depois de ter ouvido falar dessa tradição estranha, eu finalmente vi um enorme desfile com pessoas brancas adultas andando com blackface e vestidas com fantasias. Aparentemente, eu era a única que estava questionando o que diabos estava acontecendo e por que isso ainda acontecia em pleno Século 21, na Europa – tudo isso é feito em nome da preservação da tradição e do entretenimento de crianças.

É dezembro, sim. No calendário, o mês que sucede novembro, marcado pela Consciência Negra no Brasil, quando o Humanista dedicou uma semana à cobertura editorial da promoção da igualdade. A cultura na Europa, pois, que insiste em negligenciar essa reflexão, é justificativa mais do que pertinente para que o tema seja pautado cotidianamente.


Que tradição é essa?

Staint Nicholas é comemorado há pelo menos 700 anos na Holanda e, segundo a tradição, é baseado em um bispo do século IV. Não havia qualquer envolvimento de personagens negros até 1850, quando Jan Schenkmann inventou um livro infantil que definia muitas das tradições atuais. Pete Negro foi inspirado por um escravo e seu personagem é baseado na descrição estereotipada de negros no século 19. Na história, Sinterklaas (o Santo) e seu servo Zwarte Piet (Pete Negro) vêm de barco da Espanha para distribuir presentes para as crianças. Pete Negro, no entanto, é considerado um personagem assustador que castiga as crianças e as leva embora caso se comportarem mal e, assim, elas foram criadas associando pessoas negras com o assustador personagem Pete negro.

Um senhor branco interpreta Sinterklaas. Pete também é encenado por um homem branco, que veste  roupas medievais e pinta o rosto de preto. Como explica a Dra. Adrienne Keene, o problema da apropriação cultural é que “você está fingindo ser uma raça que não é e está recorrendo a estereótipos para fazê-lo”. Nos Estados Unidos, “foi estabelecido que a blackface é algo, na melhor das hipóteses de mau gosto e, na pior, um ato de racismo inflexível. Assim, ao participar do ato, as pessoas admitem que não se importam com quem ofendem ou com quais símbolos de opressão perpetuam.”

Mark Walraven conta que uma música escrita antes da Segunda Guerra Mundial costumava  chamar Pete Negro de “escravo de Sinterklaas”. “No final, o Pete Negro sempre parece um pouco estúpido, desajeitado e alguém que fala estranho, não usa o holandês de maneira adequada.”

Na Holanda, a tradição continua sendo apoiada. Apenas recentemente, “quando a mídia estrangeira começou a escrever sobre isso”, tornou-se evidente que Pete Negro pode não ser apenas um personagem folclórico engraçado, mas de fato um estereótipo descaradamente racista, como Joost de Vries explica.

Em 2018, até saudações nazistas, bandeiras e slogans nazistas foram usados ​​por supremacistas brancos durante os desfiles de Sinterklaas na Holanda. Em Eindhoven – cidade ao sul do país europeu -, cerca de 250 extremistas brancos jogaram ovos e latas de cerveja em pessoas que protestavam pacificamente contra o desfile e a tradição do Pete Negro.

Eu aprendi rapidamente que a maioria dos holandeses se recusa a falar sobre Black Pete – mesmo na minha universidade. É um tópico que você prefere evitar se não quiser entrar em uma discussão política acalorada sobre tradição, apropriação cultural e a chamada liberdade de expressão – porque a grande maioria da população ainda apoia a tradição. Também é uma discussão que está muito atrasada – então vamos falar sobre o que é realmente essa tradição?

Sinterklaas é comemorado na Holanda, Bélgica, Luxemburgo, norte da França e em alguns lugares com influências coloniais holandesas. Em alguns locais, o desfile do Pete Negro já é considerado racista – como em Curaçao, onde protestos contra a tradição celebram o “Pete Arco-íris”. Em 2011, no Suriname, uma ação parlamentar aprovada com unanimidade baniu a comemoração do Pete Negro em espaços públicos e nas escolas, porque “essa celebração tem um elemento racista e não pertence à nossa comunidade, deveria ser abolido “, explicou o político Ronald Venetiaan.

No Canadá, o comitê afro-canadense se movimentou para protestar contra os eventos de New Westminster Sinterklaas em Vancouver. Contudo, os organizadores tiveram que cancelar os eventos porque a comunidade holandesa não queria abolir a performance de Pete Negro. “Não podemos comemorar o Sinterklaas sem o Pete. Você não pode separar esses dois“, explicou o organizador Tako Slump. Aqui no Brasil, em Holambra, uma cidade com alta influência holandesa, Sinterklaas ainda é celebrado – apesar da controvérsia em torno do tema – devido à “importância de manter uma tradição sem mudanças”.


Imagem: John Van Hasselt, Corbis/Getty

Em 2011, um grupo de ativistas de direitos humanos liderado por Quinsy Gario criou um projeto com o objetivo de iniciar um diálogo baseado em fatos, porque eles sentiram “uma falta de conhecimento histórico sobre a figura de Pete Negro”. Eles exigem que as pessoas estudem a origem do personagem, e se perguntem se isso ainda é aceitável no mundo de hoje. O grupo foi ao Sinterklaas em Dordrecht para protestar com faixas e camisetas que diziam “Pete Negro é racismo” e “Os Países Baixos podem fazer melhor”. Enquanto eles protestavam pacificamente, Gario foi violentamente jogado no chão, apanhou nas costas, foi arrastado e pulverizado com pimenta.

O ataque foi disponibilizado em vídeo que se tornou viral. A prisão foi relatada como uma violação dos direitos humanos do ativista, e o arquivo foi exibido em telejornais e sites italianos, indianos, franceses, noruegueses e americanos – mas não na televisão holandesa. Durante os protestos anti-racismo em 2014, “60 pessoas foram presas por se manifestarem em áreas não autorizadas, e 30 por perturbar a paz”. Na TV nacional, Gario afirmou: “O Pete Negro ridiculariza nossa herança. Esta é uma caricatura de escravos, por que estamos ensinando isso aos nossos filhos?”. Na época, muitas pessoas na Holanda ficaram surpresas e chocadas porque nunca pensaram em Pete como uma tradição racista. Poucos holandeses conhecem sua própria história e, portanto, não entendem as conotações racistas da tradição – isso é chamado de racismo não intencional.

Justificar e relativizar a tradição é uma reação comum. Até jornais holandeses, como De Telegraaf, defenderam a tradição dizendo que era “parte integrante de um costume holandês que foi uma das tradições mais importantes e vitais para nossa herança”. O Pete Negro é “um festival infantil simples e inocente que foi injustamente atacado, e do qual ninguém se sente excluído” e que “nunca foi provado que a figura de Peter Negro incita a discriminação, o racismo ou qualquer outra imagem negativa de pessoas com peles escuras”.

O problema é que, na maioria das vezes é o grupo ofensivo – neste caso, alguns holandeses que podem nem estar cientes disso – que estabelece o que é, ou não, ofensivo aos grupos subjugados. O grupo dominante está agindo em seu privilégio hegemônico: “Porque não me sinto ofendido por isso, você também não deveria”. O problema surge quando as coisas são tiradas de culturas menos dominantes – por diversão ou moda, talvez -, mais por ignorância do que por conhecimento, e de maneiras que os membros dessa cultura acham ofensivos – como é claramente o caso desta tradição. Existe uma dinâmica intrínseca de poder neste processo que oprime outros, direta ou indiretamente. E grupos anti-racistas como “Pete Negro é racismo” e “Expulse o Pete Negro” estão claramente nos dizendo que é hora de mudar.

Os defensores da tradição dizem que Pete Negro é apenas o “ajudante amigável” de Sinterklaas, enquanto o lado anti-Pete aponta para o relacionamento colonial de mestre branco e criado negro. Os defensores da celebração dirão a você que o Pete Negro nem sequer é para ser um homem negro. Em vez disso, ele é negro porque passou pela fuligem da chaminé. Mas, isso não explica por que ele fala com um sotaque caribenho e se parece com a caricatura racista de um escravo do século 17. Os apoiadores ainda dirão que “não é sobre ele ser negro, ele pode ser de qualquer cor”. Mas, a representação estereotipada de Pete Negro e sua aparência se referem diretamente à história holandesa do colonialismo e da escravidão – um fato amplamente negligenciado pela sociedade. O país estava profundamente envolvido, e prosperou ao se dedicar fortemente ao comércio transatlântico de escravos antes de abolir a escravidão em 1863. Nas pinturas da época, as pessoas escravizadas são representadas vestindo roupas coloridas semelhantes às de Pete. O lado pró-Pete argumenta que o personagem é uma tradição e que os outros precisam aceitar isso. Por outro lado, os oponentes dirão que a sociedade holandesa não é mais branca e homogênea, e que as tradições precisam adotar novas circunstâncias.

Os apoiadores afirmam que é uma tradição infantil e não tem intenção racista, que é inofensiva e faz parte da história do povo holandês. Mas, apenas porque é uma tradição a qual você está acostumado, não significa que a prática não possa ter conotações racistas. “Os holandeses tendem a argumentar que o Pete Negro é uma coisa holandesa, e outras pessoas fora do país não entendem nossa cultura”, diz Mitchell Esajas, co-fundador do “Expulse o Pete Negro”. “Mas, faz parte de uma tradição internacional de estereótipos raciais”, conclui. O fato de muitos estrangeiros ficarem chocados quando confrontados com essa tradição deve causar alguma reconsideração sobre a prática.

Além disso, se realmente é para crianças, os apoiadores do Pete Negro deveriam considerar o que afirmam os relatórios: crianças negras sofrem mais insultos raciais e bullying durante a temporada da celebração. “Provavelmente toda pessoa negra na Holanda foi chamada de “Pete Negro” pelo menos uma vez na vida. Especialmente nas semanas que antecedem o 5 de dezembro. Dói, sempre doeu e sempre doerá”, diz Marthe van der Wolf. “Quando cresci comemorando Sinterklaas, me senti excluído, pois meu rosto não precisava ser pintado…depois de todos esses anos, finalmente descobri por que me incomoda ser relacionado ao Pete Negro. E agora que sei, não posso expressar isso, pois perturbaria os sentimentos das pessoas brancas.”

Imro Rietveld, que anualmente é vítima de bullying durante o mês de dezembro por sua cor, disse que “algumas pessoas têm medo de falar contra o Pete Negro porque estão preocupadas em serem ridicularizadas ou até mesmo perder o emprego”. Além disso, Jessica Silversmith explica que todos os tipos de holandeses se queixam da tradição – não apenas antilhanos ou surinameses – e que “ninguém é contra a celebração de Sinterklaas ou está chamando as pessoas que a comemoram de racistas, mas é hora de considerar se isso é ofensivo, se há realmente ideias racistas subjacentes a comemoração”.

Esajas e Gario, os fundadores do “Pete Negro é racismo”, conseguiram convencer algumas cidades e escolas a proibir a blackface, e a polícia holandesa anunciou que não permitirá fantasias de Pete nas festas de fim de ano depois de 2020 – mas isso está longe de ser suficiente. É tempo de mudança na Holanda!


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*Laura Hülsemanné alemã e estudante de graduação em Relações Internacionais na Leiden University (Holanda). Atualmente, realiza intercâmbio junto ao IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UFRGS e mantém uma coluna sobre assuntos internacionais no Humanista durante o segundo semestre de 2019. Contato: laurahuelsemann@gmail.com.


EDIÇÃO: Caroline Silveira


FOTO DE CAPA: Shantrelle Lewis

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