Bolsonaro transfigurou seu discurso na abertura da Assembléia Geral da ONU em uma plataforma para disseminar desinformação sobre o Brasil.
Era 22 de setembro de 2020 quando começava a 75ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova Iorque. Tema? “O futuro que queremos, as Nações Unidas que precisamos: reafirmando nosso compromisso coletivo com o multilateralismo.” Medidas de prevenção contra a Covid-19 foram estabelecidas, como a realização de um debate virtual com os líderes de Governo internacionais, o primeiro da história da instituição neste formato.
O Brasil inaugurou a sessão de debates e Bolsonaro — infelizmente — não surpreendeu: apresentou um discurso recheado de informações falsas, imprecisões e exageros. A fala do presidente brasileiro foi checada e contestada por agências de fact-checking consolidadas, como a Aos Fatos e a Lupa, e por veículos de comunicação que possuem serviço de checagem próprio, como o G1 e o Estadão. As verificações, baseadas em pesquisas aprofundadas e em fontes oficiais de informação, evidenciam a quantidade de fake news propagada por Jair Bolsonaro em um discurso internacional. A impressão que fica é de que o chefe de Estado se aproveitou do palanque da assembléia para reiterar sua estratégia de governo: a divulgação de desinformação a torto e a direito e o negacionismo de um modo geral. Em resumo, provoca-se um diversionismo para que a população ignore os problemas e veja só o que é positivo (seja ele verdadeiro ou não).
É um perigo o presidente espalhar informações falsas sobre o Brasil mundo afora, por meio de um evento que poderia servir para melhorar a imagem do país. Em vez disso, Bolsonaro preferiu discursar para os próprios apoiadores, ampliando o isolamento em relação aos outros países. A narrativa se assemelha bastante à de 2019, na 74ª Assembléia Geral, mostrando a incapacidade de evolução do presidente. Optando por seguir nessa linha, o líder do governo decretou o crescimento da já presente desconfiança da comunidade internacional e colocou o País na contramão do mundo em questões vitais, como sustentabilidade, diversidade e até democracia.
Entidades brasileiras repudiaram a atitude do presidente diante da abertura da Assembléia geral. O Observatório do Clima classificou a fala de Bolsonaro como um delírio que envergonhou o país “e confirmou as preocupações dos investidores internacionais que pensam em sair do Brasil”. O Greenpeace Brasil afirmou que o discurso “agrava a difícil situação que o país enfrenta. (…) piora ainda mais a imagem do Brasil e agrava as sérias crises que enfrentamos.” A organização Artigo 19 considera a declaração como “deplorável, mas nada surpreendente.” O Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 refutou a utilização da tribuna internacional para “disseminar informações falsas sobre o país, culpar inimigos imaginários pela destruição ambiental, desrespeitar a sociedade civil e o trabalho da imprensa.” A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) se manifesta contra o discurso que considera “repugnante e ridículo”. Ao todo, mais de 250 ONGs repudiaram as mentiras, acusações e ataques pronunciados por Bolsonaro na ocasião.
Um dos vários exemplos de informação falsa propagada pelo chefe de estado envolve a questão acerca das queimadas na Amazônia e no Pantanal brasileiro. Bolsonaro afirmou que seu governo é vítima de uma campanha de desinformação brutal sobre o tópico. Entretanto, na realidade, ele é seu maior praticante, já tendo dado 127 declarações falsas ou distorcidas desde o início do governo, segundo levantamento do Aos Fatos. Para o presidente, “nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.” Cada constatação que compõe esta frase é ou falsa ou questionável por imprecisões.
Apesar da floresta amazônica ser ultraúmida, dados da ONG Ipam e da Nasa indicam que os focos de incêndio de 2019 atingiram áreas previamente desmatadas da região. Além disso, também foram registradas queimadas em estados fora da parte leste, como o Acre e o Amazonas. Por fim, é errado culpar os índios e caboclos sem qualquer tipo de certeza, já que não há indícios de que eles tenham sido responsáveis. E ainda, investigações da Polícia Federal apontam que os incêndios foram feitos de forma criminosa.
O presidente também mentiu ou distorceu o valor total do auxílio emergencial, a quantia investida em medidas emergenciais por conta da Covid-19, o reajuste no insumo da produção de hidroxicloroquina, a proporção do suprimento de energia renovável no país, a política de combate ao crime ambiental praticada pelo governo etc.
Com a aproximação das Eleições Municipais de 2020, o discurso de Bolsonaro mostra-se um contrassenso, considerando que é um momento que demanda transparência e verdade por parte dos políticos. O atual governante do país se mostra mais preocupado em fortalecer as relações com seus apoiadores através de falácias, em uma provável estratégia para a sua reeleição. O que era uma oportunidade para o Brasil ressaltar seu protagonismo e se redimir pelas “mancadas” anteriores com a comunidade internacional, se transformou em motivo de vergonha. O que, infelizmente, não é novidade no recorrente mandato presidencial.
O Humanista se posiciona radicalmente contra a propagação da desinformação, praticada por Bolsonaro em meio à uma pandemia e às crises atuais. Também reafirma o seu compromisso com a defesa dos direitos humanos e das práticas democráticas, ambos sufocados pela estratégia de bolsonarista que acentua a polarização. Fica em evidência a importância da atuação responsável dos meios de comunicação, com a devida liberdade de expressão, além da extrema relevância de organizações da sociedade civil, de defensores de direitos humanos e ambientais no Brasil.
FOTO DE CAPA: BRAZILIAN PRESIDENCY/reproduzido do Uol




