Crescimento do desemprego, aumento do custo de vida, crise sanitária, empobrecimento da população, aumento da inflação. Foi nesse cenário econômico que milhares de manifestantes que apoiam o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reuniram em mais de 179 cidades no dia 7 de setembro, data que marca a Independência do Brasil. Na pauta, entre uma variação e outra, o fim da “ditadura de toga”, se referindo ao poder do STF (Supremo Tribunal Federal), e o voto impresso, derrotado no Congresso Nacional em agosto.
A postura antidemocrática de Bolsonaro ao longo dos atos, com direito a promessa de descumprimento de decisões judiciais do ministro Alexandre de Moraes, do STF, elevou a tensão entre os três Poderes da República. Em meio aos anseios de golpe entre bolsonaristas, o presidente da República foi obrigado, dois dias depois, após manifestações do Judiciário e do Legislativo, a divulgar uma “declaração à nação” em que recua das ameaças.
E nesse ruidoso contexto o Humanista conversou com três professores especialistas na relação entre política e sociedade para tentar entender os efeitos das manifestações públicas da semana passada. Manifestações que não se restringiram ao bolsonarismo. Embora em número menor, militantes de movimentos sociais, de oposição à Bolsonaro, realizaram o Grito dos Excluídos em 26 capitais brasileiras, ato que ocorre há 27 anos para demarcar pautas que não costumam ser priorizadas pelos governantes.
O 7 de setembro
Para o professor do Departamento de Sociologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Marcelo Kunrath da Silva, especialista em democracia e movimentos sociais, “os atos são um marco na democracia brasileira”. Opinião que é corroborada, de uma forma ou de outra, pelas avaliações do professor Alfredo Alejandro Gugliano, que estuda processos participativos em gestão pública, e da professora Silvana Krause, cujas pesquisas se concentram em partidos políticos; ambos são do Departamento de Ciência Política da UFRGS.
Kunrath da Silva justifica a frase forte destacando o ambiente de caos que a ameaça à democracia que marca os atos bolsonaristas representa. “Em um contexto que está profundamente instável, isso gera essa sensação de que a gente vive cotidianamente de caos. É um caos que é em parte estratégia de desgoverno, de produzir medo e raiva o tempo todo. Ele se alimenta dessas emoções. Isso tem um efeito destrutivo cotidianamente”, argumenta o professor. “A crise é nosso estado permanente. Para a sociedade isso é desastroso. Um governo que não governa é o pior dos mundos, ainda mais no contexto pandêmico.”
“O que se vive desde 2016 é uma situação caótica o tempo todo. A crise é nosso estado permanente. Para a sociedade isso é desastroso”.
– Marcelo Kunrath Silva, professor Departamento de Sociologia da UFRGS
Alfredo Gugliano não lembra de outra ocasião em que o Dia da Independência – considerada uma data cívica celebrativa em vários países – tenha sido marcado tão fortemente por demandas de apenas uma parte da população, como ocorreu este ano, também denotando o momento paradigmático. “Em termos de reações, desde o final desses atos já houve manifestações críticas de diversos setores da sociedade, questionamentos, em grande medida, relacionados com o conteúdo antidemocrático dos discursos presidenciais”, acrescenta Gugliano.
Uma tentativa de reagir à tendência de queda de popularidade dos últimos meses é como Silvana Krause entende os atos bolsonaristas. “Os atos de 7 de setembro chegaram a um ponto, dentre várias outras manifestações que nós já vivenciamos, em que ele [Bolsonaro] tenta mobilizar e mostrar que tem apoio sem intermediações de outras instituições. Ele faz questão de que exista essa convocação direta e pessoal”, explica a professora.
Um dos grupos mais fiéis a Jair Bolsonaro é o de policiais militares, o que faz Silvana lembrar do movimento tenentista, que, nos anos 1920, teve um papel importante nas reivindicações de esquerda que alteraram a política no Brasil. Um movimento político-militar, baseado em uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro, de camadas médias urbanas, que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica no início da década de 1920. Hoje, o movimento seria inverso.
“Os militares têm uma heterogeneidade significativa no que tange ao posicionamento em relação à política de governos, isso é todo um tema paralelo nesse sentido. O que chama atenção é um grau de setores da segurança pública, não todos, mas há um grau de mobilização muito associado à Bolsonaro: policiais militares, milícias, Brigada Militar”, elenca a professora. “Não é uma instituição com membros do alto escalão do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que são os que tradicionalmente, no caso brasileiro, tiveram participação nos golpes militares.”
O professor Marcelo Kunrath da Silva entende como estratégia a postura política de acirramento da conflitualidade mantida por Bolsonaro desde o início do seu governo. “Todo comportamento político dele é fundamental na manutenção dessa base de apoio ideológico, setores autoritários e violentos”, explica. “Em certa medida, isso mantém a mobilização desses setores. Agora, o problema é que esse tipo de afirmação, como várias outras que o presidente faz o tempo todo, produz crise, conflitos, enfrentamento, não há em nenhum momento uma preocupação de governar.”
E agora?
O professor Alfredo Gugliano é cético. Prevê que é impossível que alguma área deixe de ser impactada pela crise – mesmo diante do recuo de Bolsonaro com a “declaração à nação” publicada depois das reações dos demais Poderes. “Em nível internacional, o atual governo enfrenta grande isolamento na comunidade dos países que conformam os principais organismos globais. Em termos sociais, o crescimento do desemprego e o aumento do custo de vida tendem a agravar ainda mais a situação, especialmente dos setores mais pobres. Ou seja, vivemos um dos piores cenários possíveis”, avalia Gugliano.
Para Marcelo Kunrath Silva, a crise entre os Poderes não pode ser entendida apenas pelo Governo Bolsonaro. Isso porque o Brasil vive até hoje um desdobramento da ruptura que ocorreu com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016. “A própria eleição de Jair Bolsonaro expressa uma crise democrática grave, ou seja, quando uma parte significativa da população vota em alguém que tem um comportamento explícito antidemocrático”, avalia o professor. “E os desdobramentos que a gente tem visto a partir de 2018 só vão aprofundar essa crise. O grande desafio é como construir uma saída.”
O receio de um retorno do Partido dos Trabalhadores ao Planalto, segundo Kunrath da Silva, sustentado na liderança do ex-presidente Lula em pesquisas de intenção de voto, impede que setores da elite brasileira engrossem a crítica a Bolsonaro. “E aí fica nessa posição ambígua de aceitar os arroubos autoritários de Bolsonaro em troca de um medo que há de um possível retorno de um governo petista – que, gostemos ou não, não foi um governo que produziu nenhuma ameaça à democracia.”



