Estudo investiga eficácia de diferentes modos de uso da levotiroxina para tratamento do hipotireoidismo

Caixa do remédio Puran T4, levotiroxina sódica

Saúde | Tese de doutorado do PPG Epidemiologia aponta que os usos mais eficazes são de manhã, ao acordar, e à noite, antes de dormir; as evidências para outros regimes de administração foram inconclusivas

Foto: Desde 1960, a levotiroxina é utilizada como tratamento do hipotireoidismo no Brasil. Nas farmácias, ela é comercializada sob o nome de Synthroid, Euthyrox, Levoid, Puran T4, Levotroid ou Tiroidin (Foto: Flávio Dutra/JU)

Estima-se que o hipotireoidismo afeta entre 8 e 12% da população brasileira atualmente. O tratamento mais comum para a doença, que causa alterações nos níveis do hormônio tiroestimulante (TSH) e da tiroxina (T4), é o uso da levotiroxina, administrada via oral ou intravenosa. Normalmente, os pacientes são orientados a ingerir o medicamento diariamente pela manhã, em jejum, mas alguns estudos também têm investigado outras recomendações, como tomar o remédio uma vez por semana, ou durante uma refeição, por exemplo.

Assim, um dos objetivos de uma pesquisa de doutorado do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da UFRGS era avaliar esses estudos sobre o tema para indicar qual a administração mais eficaz do medicamento, considerando a absorção, os níveis de TSH e os resultados reportados por pacientes. “O que a gente percebeu foi que usá-lo de noite, de 2 a 3 horas depois da janta, poderia ser tão efetivo quanto antes do café da manhã”, explica Bianca Bianchini, autora do estudo.

Pesquisadora Bianca Bianchini em entrevista sobre o efeito da levotiroxina nos pacientes
Bianca Bianchini analisou o efeito da levotiroxina nos pacientes a partir de pesquisas que já haviam sido publicadas. Para isso, o grupo de pesquisa usou estudos publicados em sete bases de dados, como PubMed e Scielo. (Foto: Pietro Scopel/JU)

Na pesquisa, Bianca analisou 14 estudos (disponíveis em bases de dados como PubMed e Scielo) que analisavam diferentes recomendações de uso do medicamento e seus efeitos. As orientações variavam entre tomar o remédio antes do café da manhã, antes de dormir ou durante o café da manhã e, com relação à frequência, diariamente, duas vezes ou uma vez na semana.

A doutora em Epidemiologia explica que a levotiroxina é mais bem absorvida quando tomada em jejum; por isso, os usos mais eficazes são de manhã (ao acordar) e à noite (antes de dormir). A pesquisa teve resultados inconclusivos sobre outros regimes de administração porque os estudos sobre eles têm alto risco de viés.

Bianca aponta que essa foi uma falha frequente nas pesquisas analisadas. De forma geral, o que indica o êxito da levotiroxina é a queda do nível do TSH na maioria dos pacientes tratados. Em alguns casos, porém, a amostra de pacientes usada nos estudos era muito pequena, não era aleatória ou não tinha informações suficientes: “Às vezes mostrava o resultado final, mas não me falava quanto estava o TSH lá no início”.

Apenas três artigos tratavam dos resultados reportados pelos pacientes (PROs), em que se faz uma análise qualitativa com questionários ou uma autoavaliação sobre o bem-estar das pessoas em tratamento.

Dentre eles, dois identificaram que o horário de uso (antes de dormir, antes ou durante o café da manhã) não provocava diferenças na qualidade de vida. O terceiro mostrava que a dose semanal melhorava aspectos do bem-estar, como dores no corpo, vitalidade, socialização e saúde mental.

Como havia poucos trabalhos sobre o assunto, e que não estavam padronizados, Bianca aponta que eles são insuficientes para recomendar ou desaconselhar outros regimes de administração.

Para ela, as bases de dados mostraram como as convenções atuais sobre o uso da levotiroxina são baseadas em evidências de baixa qualidade. Como o regime mais comum (tomar o remédio antes do café da manhã) atinge o objetivo de diminuir o TSH, os outros foram pouco estudados até hoje.

A relação entre a levotiroxina e a arritmia

O estudo também utilizou dados de mais de 111 mil pacientes com um dos tipos de hipotireoidismo – o subclínico – para investigar se o uso da levotiroxina estava associado a um maior risco de arritmia Arritmia cardíaca é uma anormalidade na frequência dos batimentos cardíacos, que ficam lentos ou rápidos demais. Seus sintomas são fadiga, dor no tórax, falta de ar, tontura ou palpitações. Dependendo da gravidade da condição médica, o paciente pode sofrer morte súbita. nesses casos.

Os pacientes foram divididos em dois grupos. O primeiro incluía os usuários do medicamento, que passavam a ser acompanhados a partir do momento em que iniciavam o tratamento até que ocorresse um dos dois eventos: morte súbita ou ocorrência de alguma das três arritmias mais relevantes (fibrilação atrial, flutter atrial ou taquicardia ventricular).

O segundo grupo era o chamado grupo controle, que reunia os pacientes que não usavam levotiroxina. Essas pessoas eram acompanhadas por um determinado número de dias após o diagnóstico de hipotireoidismo subclínico. Enquanto o usuário ou não usuário seguiam sem ocorrência de arritmia, a pesquisa continuava.

“Se não tem o evento, a pesquisa vai até a morte ou até a pessoa não querer dar mais informações para o banco de dados. Colocamos o início de alguns medicamentos [como evento] também ou outras doenças que podem influenciar o TSH”, esclarece Bianca.

Após o período médio de 3 anos, houve 5.254 registros de arritmia. Apenas 3,6% dos usuários da levotiroxina e 5,7% entre as pessoas não tratadas tiveram esse desfecho cardiovascular.

A pesquisadora alerta que a diferença não indica um perigo maior: “A gente não poderia considerar o resultado como ‘quem não trata, tem mais’. Não foi estatisticamente significativo”. O estudo concluiu, assim, que o uso da medicação não influencia nesse desfecho.

O artigo sobre a administração da levotiroxina já foi publicado no Expert Review of Clinical Pharmacology. Em breve, a tese de doutorado completa estará disponível no Lume – Repositório Digital.



Tese: Eficácia e segurança da levotiroxina: regimes de administração e incidências de arritmia
Autora: Bianca Vendruscolo Bianchini
Orientadora: Tatiane da Silva Dal Pizzol
Programa/Unidade: Programa de Pós-graduação em Epidemiologia – Faculdade de Medicina