Tailine Kaingang e Ruan Potiguara, na luta pela visibilização das práticas ancestrais em saúde

Meu Lugar na UFRGS | Discentes destacam o papel da Casa do Estudante Indígena e a importância da troca de saberes tradicionais e ocidentais

*Foto: Pietro Scopel/JU

Quando Tailine Kaingang, de 24 anos, e Ruan Potiguara, de 22 anos, ingressaram na UFRGS, nos cursos de Odontologia e Medicina, respectivamente, tiveram uma percepção similar à de outros estudantes indígenas nos cursos da área da saúde: não enxergavam a si mesmos e a seus povos nos ensinamentos de professores, focados na ciência ocidental e no modo não indígena de promover saúde. Os conhecimentos indígenas, passados oralmente de geração em geração desde tempos imemoriais, não pareciam ter espaço nas salas de aula por não seguirem os moldes acadêmicos convencionais. “Esses conhecimentos tradicionais não são valorizados [na comunidade acadêmica], são tratados como se fossem mitos, sendo que ele é um conhecimento ancestral, que veio muito antes da gente”, explica Tailine. 

Foi a partir dessa percepção que, em 2019, estudantes indígenas da UFRGS se mobilizaram para a criação da Liga da Saúde Indígena (Lisai), composta por discentes de cinco etnias e focada em servir como uma ponte mutuamente proveitosa entre o conhecimento produzido na Universidade e os saberes milenares indígenas. “A gente vê que aqui nos cursos da saúde não tem disciplinas específicas [sobre saúde indígena], então foi uma forma de a gente trazer os nossos conhecimentos de fora para dentro da universidade, mas também de dentro da universidade para fora”, conta Ruan.

Além de promover a disseminação dos conhecimentos indígenas no ambiente acadêmico, a Lisai realiza ações extensionistas para levar o cuidado em saúde a comunidades indígenas da região metropolitana de Porto Alegre. “[A aprendizagem] fica menos engessada. O que eu aprendo na Universidade eu já posso praticar por meio das interações que a gente faz nas aldeias. É poder agregar os dois conhecimentos: o conhecimento ancestral e o conhecimento ocidental”, pontua Ruan.

Tailine explica que, para indígenas que estudam a área da saúde, um dos principais choques culturais ao ingressar no ensino superior é a forma isolada com que os problemas de saúde são tratados na medicina ocidental. Ela destaca a importância do caráter holístico na noção indígena de saúde, integrando a necessidade de bem-estar físico, mental e espiritual. Por isso, a Lisai trabalha com estudantes indígenas de diversas áreas da saúde para realizar um cuidado integral das populações atendidas pelo projeto. “Enquanto indígenas, a gente entende a saúde como um todo. Tudo é um conjunto. E isso muitas vezes é fragmentado dentro da universidade”, aponta. “Eu vou cuidar do meu corpo, mas se minha mente não estiver encaixando, não vai estar tudo bem.”

A Liga também atua com estudantes do curso de Ciências Jurídicas e Sociais para garantir os direitos dos povos atendidos pelos projetos de extensão, expandindo ainda mais o conceito integralizado de bem-estar. Eles enfatizam que, sem que os indígenas tenham seus direitos fundamentais reconhecidos e assegurados, é impossível atingir o conceito ideal de saúde. “A gente busca a questão da demarcação dos territórios, que é muito importante, é causa de adoecimento mental nos nossos jovens, nos nossos adultos”, afirma Tailine.

“Sem território, não tem saúde. O bem-estar do nosso território significa o nosso bem-estar físico”

Tailine Kaingang

Além dos estudantes indígenas, também integram a Liga professores não indígenas dos cursos da área da saúde da UFRGS. Outro choque cultural acontece quando não indígenas começam a entender o funcionamento do tempo para comunidades indígenas, que transcorre de forma diferente, mais lenta. A dinâmica de cuidado se altera na atenção à saúde de populações indígenas — o imediatismo e a impessoalidade entre profissional e paciente dão lugar à atenção integral e à escuta atenta.

“Quando a gente entra na academia, é difícil essa questão do imediatismo. Eu vou chegar e já vou atender, e aí você chega [nas comunidades indígenas] e você toma um choque de realidade. As pessoas querem sentar e conversar antes”, conta Tailine. “É importante a gente não perder essa questão da valorização do tempo dos indígenas.”

Ruan destaca a importância da existência de profissionais indígenas de saúde para lidar com essas populações do modo como elas necessitam.

“Na maioria das aldeias, é o não indígena que trabalha, e a maioria não sabe respeitar as especificidades de cada povo. Ele não nasceu naquele território. Eu, trabalhando com o meu povo, sei as demandas, as necessidades que eles estão apresentando”

Ruan Potiguara

Através do Processo Seletivo Específico para Ingresso de Estudantes Indígenas, a UFRGS oferece anualmente 10 vagas em cursos de graduação para indígenas egressos de escolas públicas. Mesmo assim, e apesar de a Lisai representar um avanço importante no reconhecimento da sabedoria indígena na Universidade, os estudantes destacam que políticas de inclusão e permanência mais robustas seguem necessárias para garantir o bem-estar desses estudantes.

Nesse sentido, ambos destacam a importância da Casa do Estudante Indígena, onde residem. “Você não vai conseguir estar bem fisicamente e mentalmente em um lugar que você não tem uma permanência adequada”, aponta Tailine. “A gente já tem que sair dos nossos territórios, isso já é uma demanda muito grande para gente. É um lugar que a gente se sente bem, se sente confortável, então, ter que sair de lá também é um processo muito difícil.”

Apesar dos desafios encarados por estudantes indígenas no ensino superior, a Lisai segue atuando dentro e fora da UFRGS para a promoção e o reconhecimento da saúde indígena em diversos ambientes. “Eu tenho certeza de que quem ganha com isso é a universidade, porque a gente a gente tá aqui representando uma diversidade cultural muito grande que a gente traz conosco”, observa Tailine.

“Os conhecimentos [que estudantes indígenas têm] a serem repassados são muito grandes e de extrema importância. Podemos ensinar e podemos aprender”, reforça Ruan. “E eu acho que todo espaço que a gente conquista dentro da Universidade acaba sendo um espaço de resistência.”


A série Meu Lugar na UFRGS é um projeto conjunto JU e UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: