Educação em Pauta | A professora Lucia Rottava celebra os 18 anos do programa de iniciação à docência, que se consolidou como importante iniciativa para garantir a qualidade da educação em um país marcado por desigualdades
*Foto: Pietro Scopel/JU
Foi em 2007 que tudo começou. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) nasceu em um momento de urgência, quase como um respiro em meio à crise da docência no Brasil. A escassez de professores no ensino médio e a necessidade de ações estruturantes para reverter, além da baixa remuneração, a falta de prestígio e o pouco incentivo para a profissão docente, foram os elementos determinantes para a criação do programa. Um cenário desafiador, que ainda persiste e precisa ser conhecido.
Trazendo consigo uma proposta ambiciosa e transformadora, a missão do PIBID era aproximar licenciandos das escolas públicas, quebrar o muro invisível que, por vezes, separa a teoria acadêmica da prática docente e, ao mesmo tempo, resgatar a atratividade da carreira de professor.
Minha jornada com o programa começou bem antes de ocupar o posto de Coordenadora Institucional. Lembro-me dos primeiros passos na universidade, quando me deparei com aquela que, à primeira vista, parecia ser apenas uma iniciativa entre tantas. Mas, para mim, foi um convite para mergulhar em um universo que logo se revelaria transformador.
Em 2012, ao ingressar como voluntária no subprojeto Letras, senti que cada palavra e cada encontro tinham o poder de transformar a realidade. Era como se a Universidade sussurrasse segredos sobre o ensino, a pesquisa e a extensão – um trio inseparável que, aos poucos, se enraizaria na minha atuação.
Dois anos depois, em 2014, já envolvida diretamente com estágios de docência, percebi que as interações com as escolas de educação básica ganhavam um novo sentido. Era como se uma ponte invisível fosse construída entre o saber teórico e a prática no cotidiano dos alunos. Foi nesse mesmo período que, atuando como bolsista no PIBID, passei a ver a Universidade, os licenciandos e as escolas como o tripé que sustentava minha missão acadêmica e profissional.
O tempo me conduziu, e em 2020, mesmo em meio às incertezas da pandemia, assumi o desafio de coordenar institucionalmente o programa. Esse novo papel ampliou meu horizonte: passei a ver um mosaico de experiências que iam desde a reconfiguração das ações em tempos de crise até a constante renovação das demandas atuais.
A cada dia, aprendo um pouco mais sobre o que é ser professor. Aprendo com os licenciandos, que chegam cheios de expectativas e curiosidade; com os supervisores, que trazem em seu olhar a diversidade das realidades escolares; e, sobretudo, aprendo no diálogo sincero com as redes de ensino, em que cada conversa se torna uma lição.

Assim, entre encontros, desafios e aprendizados, o PIBID deixou de ser apenas um programa – tornou-se a essência da minha trajetória. A prática docente ganhou contornos de aprendizado mútuo.
E quem se beneficia disso? Todos. Os licenciandos, ao experimentarem a sala de aula real, sentem o peso – e a leveza – da responsabilidade docente.
Percebem que ser professor vai além de repassar conteúdos; é construir laços, transformar histórias e encantar mentes curiosas.
As escolas, por sua vez, ganham um sopro de inovação, com metodologias e práticas que oxigenam o ambiente educacional. E a sociedade, talvez sem perceber de imediato, é impactada por um processo que busca garantir uma educação pública de qualidade.
O PIBID, em seus quase 18 anos de história, consolidou-se como mais que um programa de bolsas. Ele prepara profissionais e promove a inclusão em um país marcado por desigualdades. Na UFRGS, os números impressionam: 19 subprojetos, 24 núcleos, 576 estudantes beneficiados e 72 escolas envolvidas.
Mas, mais do que números, são histórias que marcam: licenciandos que foram bolsistas no PIBID hoje são professores em escolas de educação básica e atuam como supervisores, outros ainda são atualmente docentes em universidades. São licenciandos em formação que, ao entrarem em sala de aula pela primeira vez, se emocionam ao ver seus alunos compreenderem algo novo. É o brilho nos olhos de quem descobre que ensinar é, antes de tudo, um ato de amor e resistência.
Precisamos de programas de formação de professores sólidos. O PIBID precisa ser uma política pública de Estado que investe na educação. É a esperança de um país que acredita que a educação transforma, conecta e liberta.
Lucia Rottava é professora do Instituto de Letras da UFRGS e coordenadora institucional do PIBID.
Quinzenalmente, profissionais e pesquisadores da área de Educação escrevem sobre temáticas que envolvam licenciaturas e as experiências ensino e aprendizagem. A seção tem curadoria de Beatriz Moro, servidora da Coordenadoria das Licenciaturas (Prograd/UFRGS).





