Conjunto modular de três dípticos de Silvia Motosi prenuncia a arte queer/cuir e transfeminista no RS

Fotografia mostra reprodução dos três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS

Pinacoteca | Rosângela Fachel, professora colaboradora do PPG Artes Visuais da UFPel e amiga íntima de Silvia Motosi, recorda a poética da artista a partir de obra recentemente integrada à coleção da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

*Por: Silvia Motosi (Porto Alegre, RS, 1971-2002), Sem Título, década de 1990. Acrílica sobre tela, 199 x 242,1cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Flávio Dutra/JU/Reprodução

Minha amiga Silvia Motosi (1971-2002) decidiu nos deixar precocemente quando tinha apenas 30 anos. 

Incorporado ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo em 2024, o trabalho sem título e sem data, formado por três dípticos, congrega algumas das principais características e repertórios de sua poética. Entre esses aspectos, podemos destacar a primazia da pintura acrílica sobre tela, suporte tradicional que Silvia subverteu com a utilização de elementos disruptivos, como moldes vazados, spray, grafite e purpurina. E também as grandes dimensões, engendradas pela conjunção modular de telas verticais, que avultam as figuras humanas, protagonistas de sua produção. 

Cada um dos dípticos da obra é dedicado a uma personagem que, como nos retábulos, ocupa frontalmente quase todo o espaço pictórico.  Acompanhando cada figura, estão elementos cifrados, signos associados à mística-religiosa corpórea: a maçã, a coroa de espinhos, as rosas, os peixes e o coração. Nas telas superiores, destaca-se a tridimensionalidade dos rostos em um realismo feérico e fantasmático. Nessa época, a artista começava a utilizar fotografias, suas e de pessoas amigas e amadas, como modelo para explorar o expressionismo anatômico de rostos e mãos, recorrente em suas personagens.

De fato, boa parte da obra de Silvia está centrada na noção de autorretrato que, neste trabalho, está literalmente no centro da narrativa, como elo entre as personagens laterais. Iluminada por uma aura violácea, paira sobre sua cabeça de longa cabeleira púrpura uma coroa de espinhos, índice de suas autorrepresentações. De suas profusas olheiras, emerge um olhar de arrebatamento, anunciado pelas rosas, imprecisamente devocional e lascivo. No decote profundo do vestido, os cabelos cobrem seu peito sem volume e seus dedos, em um mortificante amarelo, escapam das mangas largas na altura de seu púbis desvelado. Seu rosto sereno converge com a benevolência no semblante da figura masculina de mitra à sua esquerda, cujas mãos espalmadas de unhas pintadas consagram um coração. Mas, por outro lado, contrasta com o repúdio debochado na fisionomia da figura feminina de rufo à sua direita, cuja mão crispada se ergue entre os seios burlescos expostos. 

São detalhes da fluidez sacro/profana de corporeidades e gêneros que a artista viria a explorar, cada vez mais, em suas personagens. E que seu estilo figurativo de cores vibrantes em composição com estampas e formas geométricas consagra, aqui, como uma trindade camp. 

Esta obra dá pistas de como sua trajetória artística parte do corpo feminino, território de disputa da violência normatizadora, para expandir essa experiência corporal, obnubilando as fronteiras binárias de gênero, rumo ao que ela própria definiu (no projeto desenvolvido em 2001 da mostra Catedrais, exposição que não chegou a realizar) como “uma androginia travesti e limiar”.

Em uma abordagem situada e insurgente da mística-religiosa em relação às corporeidades, Silvia questiona a performatividade de gênero em uma de suas instâncias mais poderosas, a discursividade hagiográfica e iconográfica católica. E que na gira do sincretismo brasileiro, hibridizando elementos de religiosidades pagãs, judaico-cristãs e afro-ameríndias, intensificou sua ruptura com os discursos cis-heteronormativos coloniais, instaurando uma perspectiva queer/cuir e transfeminista, precursora no Brasil do final do século XX.

A integração dessa obra ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo corrobora a importância da produção de Silvia na cartografia da arte contemporânea brasileira. Mas, sobretudo, lança um esperançoso facho luz sobre o vasto acervo (de mais de 100 trabalhos) deixado por ela, que, apesar do esforço afetivo e financeiro da família e de pessoas amigas, permanece inacessível, precariamente catalogado e fragilmente guardado, tendo escapado, por um andar, da inundação que assolou Porto Alegre em maio de 2024. 

Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS
Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS
Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS
Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS
Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS
Fotografia mostra reprodução de um dos seis quadros que compõem os três dípticos realizados por Silvia Motosi, pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS

Rosângela Fachel de Medeiros é doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, atua como Professora Visitante do Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal de Pelotas e como Codiretora da Red Iberoamericana de Inverstigación en Narrativas Audiovisuales (RedINAV). É Idealizadora e codiretora do Festival Internacional de Videoarte SPMAV – FIVA SPMAV (UFPel) e do Festival Internacional de Videodança – FIVRS (UFPel/ECARTA).

Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.