Artigo | O professor do Departamento de Ecologia Demetrio Guadagnin apresenta argumentos para a retomada segura das atividades presenciais na educação
*Por: Demetrio Guadagnin
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU
Pronunciar-se pela retomada do ensino presencial no Brasil implica um sério risco de má interpretação e apropriação indevida em um debate polarizado ideologicamente. Decidi arriscar-me em uma reflexão independente, com a intenção de reposicionar o debate a partir de evidências científicas e da interpretação das preferências políticas.
Minha posição é de que o ensino deva retomar as atividades presenciais, considerando que a educação remota seja insatisfatória e que seja possível planejar um modelo inovador, seguro e efetivo. Me manifesto como educador e pesquisador com formação em Gerenciamento Baseado em Evidências – esta uma abordagem interdisciplinar. Inicialmente, questiono os discursos presentes na mídia a partir do cruzamento entre a situação brasileira e as evidências científicas. A seguir, elaboro, a partir de reflexões acadêmicas, a proposição de que o debate atual esteja perturbado por vieses e dilemas. Finalizo com algumas proposições para o seu reposicionamento.
No centro desse debate estão três argumentos. Primeiro, de que manter as escolas fechadas protege as crianças e a comunidade escolar. Segundo, de que escolas são perigosas por serem locais de aglomeração. Terceiro, de que as crianças são transmissores importantes. Os fatos do dia a dia e as evidências científicas indicam que são proposições que podem ser falsas. Quanto ao primeiro argumento, as crianças e a comunidade escolar só estarão protegidas fora da escola se voluntariamente suas famílias optarem por não se exporem a outras situações de risco no dia a dia, o que é pouco provável. Todos os ambientes construídos são de risco, como supermercados e comércio. O fluxo para as praias aumentou. Crianças estão brincando nas ruas e frequentando a vizinhança. Jovens retornam à vida noturna.
Em alguns discursos é plausível supor que a educação esteja sendo usada como moeda de troca para manter o comércio aberto pelo receio de novos surtos. Por que a preocupação desproporcional com a infecção em crianças e profissionais da educação em relação à população geral e profissionais da saúde? Por que os riscos em todas as atividades que reabrem são toleráveis e no ambiente escolar não?
Esse argumento também ignora que a condição atual expõe as crianças a um risco aumentado de outras intercorrências, como abuso e acidentes. A notificação de abuso infantil caiu abruptamente desde o início da pandemia, provavelmente relacionado com o papel da escola na identificação e notificação. Suicídio é a segunda causa de morte entre adolescentes e jovens. Instituições globais como Unicef e Unesco alertam para os efeitos potencialmente graves do afastamento da escola na evasão de alunos, no atraso no desenvolvimento, em problemas psicossociais, no acesso à informação confiável e na perda de vínculos extrafamiliares.
Quanto ao segundo argumento, as escolas não precisam ser locais de aglomeração. Depende de como as atividades forem organizadas. Lembrando de que os jovens são os mais propensos a burlar as regras de distanciamento e encontram agora múltiplas oportunidades na comunidade. Se é possível evitar aglomerações no comércio, por que na escola não seria? A escola é um ambiente mais controlado e controlável que shoppings, restaurantes, praias e outros pontos de possível aglomeração que já estão abertos. Alguns discursos sugerem que as instituições privadas poderiam abrir por terem mais condições de se organizar. Quais serão os efeitos na desigualdade já existente entre o ensino público e privado?
O terceiro argumento, de que as crianças são transmissoras importantes da covid-19, se relaciona diretamente com o anterior. As evidências epidemiológicas contradizem esses argumentos. Em todos os países que retomaram aulas presenciais em diferentes níveis de ensino, os surtos são esporádicos, de pequena magnitude, não envolvem situações de gravidade, em geral envolvem transmissões que inciam em adultos e, na maioria dos casos, se limitam a infecções ocorridas fora da escola.
Mesmo o único caso monitorado de abertura de escolas em fase ascendente da pandemia, em Long Island, nos Estados Unidos, mostrou baixo risco e foi considerado pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention) um caso de sucesso. Já é sabido que a taxa de infecção é mais elevada em adolescentes e jovens, e não em crianças.
As últimas modelagens sugerem que o efeito da abertura das escolas na trajetória da pandemia é menor do que o de outras doenças respiratórias. Os casos que recentemente pautaram a mídia e as redes sociais foram equivocadamente interpretados. Em Israel, tais casos se limitaram a poucas escolas, se confundindo com a abertura simultânea de muitas atividades frequentadas pelos escolares, sendo a origem dos casos primários não investigada.
Um artigo recente identificou que crianças podem ter uma carga viral comparável a dos adultos, e os autores concluíram, equivocadamente, que isso significa um alto risco de transmissão. O estudo, entretanto, investigou apenas o raro subgrupo de crianças hospitalizadas – a relação entre carga viral e transmissão, portanto, não está estabelecida, e os dados epidemiológicos empíricos contradizem a afirmativa. Entendo tratar-se de um caso clássico de ciência normativa.


Um argumento adicional propõe que o retorno deva acontecer apenas depois de termos a vacina. Entretanto, por que o mesmo critério não é válido para o comércio e outras atividades? Além disso, a expectativa pela vacina é ilusória. Não é certo que uma vacina será efetiva tampouco quando estará disponível. Está claro que a capacidade global de produção e distribuição é limitada e que, ao longo de 2021, se houver uma vacina, ela estará disponível apenas a grupos prioritários e será distribuída de forma desigual.
Por que somos incapazes de considerar esses argumentos? Uma primeira resposta pode estar nas pesquisas psicológicas que indicam que aumentam com o tempo as sobrerrespostas de medo e as subrespostas de minimização de cuidados. A resposta principal pode estar nas tendenciosidades de cognição, conforme a análise dos pesquisadores Scott Halpern e Franklin Miller.
Quatro vieses – de otimismo, de identificação das vítimas, do presente e de omissão – levariam a respostas inconsistentes quanto à priorização de atitudes. O erro de otimismo leva as pessoas a reagirem mais agressivamente a situações agudas, em que a ameaça imediata à vida é claramente identificável, e a minimizar os riscos associados a problemas crônicos ou multicausais.
O viés de identificação é a tendência a sensibilizar-se mais com situações e pessoas conhecidas do que com as invisíveis. O viés do presente resulta da opção pessoal por benefícios imediatos em vez de benefícios maiores no futuro. O viés de omissão é a preferência por assumir os riscos indiretos pela inação em vez de os riscos diretos pela ação. A pandemia também parece desafiar nossas prioridades e valores morais, como no confronto situacionista da ética da virtude.
Surpreende que esses dilemas existam mesmo entre a comunidade científica brasileira, que tem sido incapaz de produzir consensos e guiar de forma afirmativa a condução das políticas. Surpreende que os educadores se manifestem mais sobre sua preocupação com a própria segurança do que sobre a importância da educação.
Embora tendenciosidades e desafios morais sejam pervasivos, por que são condicionados evolutivamente, tais confrontos têm sido mais bem resolvidos em alguns lugares que em outros. Talvez não estejamos sendo éticos, céticos e metódicos o suficiente. A educação como atividade essencial parece ter perdido prioridade.
Diante desse quadro, que atitudes tomar? Proponho seis ideias iniciais:
- colocar a educação e os estudantes no centro das preocupações;
- reconhecer o papel essencial da educação na formação e na proteção dos estudantes;
- examinar as evidências cientificamente e comunicá-las de forma crítica e embasada, desfazendo mitos;
- ser coerentes e simétricos quanto aos cuidados e riscos de toda a sociedade;
- orientar as decisões pelo foco da saúde pública e do conceito abrangente de saúde; e
- ser criativos e práticos na organização do ensino.
A epidemia está se prolongando no Brasil em níveis elevados de transmissão. Vivemos um dos mais longos e intensos períodos de transtorno da vida normal, o que contribui para respostas inadequadas e polarização. As tendenciosidades que nos são inatas afetam nossa capacidade de tomar decisões ótimas se a razão cede às emoções. O despertar da doação convive com comportamentos aéticos e antiéticos. Somados, aumentam os riscos de efeitos adversos da própria tentativa de superação da epidemia. É hora de mudar de atitude.
Demétrio Luis Guadagnin é professor do Departamento de Ecologia da UFRGS.





