Sociais | No bairro com a maior porcentagem de pessoas negras em Porto Alegre, população sente que suas necessidades são invisibilizadas pelas instituições, aponta pesquisa
*Foto: Vista da Bom Jesus das proximidades da Avenida Protásio Alves em direção ao Sul (Crédito: Pietro Scopel/JU)
Segundo o último Relatório de Desenvolvimento Para Além das Médias, Porto Alegre é a cidade brasileira com maior desigualdade entre brancos e negros. Em 2017, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de pessoas brancas foi 18,2% maior do que o da população negra, levando em consideração o índice de escolaridade, a expectativa de vida ao nascer e a renda per capita. Mais do que meros números, essas estatísticas indicam que há uma diferença de realidade vivenciada no dia a dia dessas pessoas, nos deslocamentos e no próprio lugar em que vivem.
Em uma pesquisa recente no Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional (Propur) da UFRGS, a arquiteta Sherlen Borges identificou as condições de infraestrutura, educação, segurança, saúde e lazer do bairro Bom Jesus, na zona leste de Porto Alegre. A pesquisadora também comparou os indicadores socioespaciais do bairro aos das comunidades vizinhas.
A Bonja, como é conhecido o bairro, é onde existe a maior densidade de pessoas negras na cidade (40,7%), seguido pelo bairro Mário Quintana (38,6%) e pela Restinga (38,5%).
A principal queixa dos moradores da Bom Jesus foi relacionada à educação. Faltam professores e merenda, as vagas nas escolas são insuficientes e o número de instituições não é proporcional ao tamanho da população. Só existe uma escola pública que oferece o Ensino Médio no bairro e, além disso, alguns moradores relataram que o trajeto até a instituição de ensino era perigoso.
Na Bonja, a dificuldade de acesso não se restringe às escolas: 74% dos entrevistados admitiram que não se sentiam seguros ao circular pelas ruas. Segundo eles, há pouca iluminação e a violência policial é bem comum, em especial na Vila Mato Sampaio, Vila da Paz, Vila Divinéia e Vila Pinto, que ficam na porção sul do bairro.

Outra questão apontada foi o contraste com a qualidade de vida na Chácara das Pedras, bairro nobre que se conecta com a Bom Jesus pela Avenida Protásio Alves.
Nesse bairro vizinho, em que apenas 3,9% da população é negra, o rendimento médio dos responsáveis por domicílio é de 11 salários mínimos, de acordo com os últimos dados da Prefeitura, de 2019. A Bonja, porém, tem rendimento médio de 2 salários-mínimos e uma infraestrutura bem diferente.
“Tu atravessa e muda tudo. Então, tu tá na Bom Jesus, todo maloqueiro. Tu atravessa e tá na Chácara, daí do outro lado tem um monte de casarão, um monte de coisa”, é a descrição de um dos moradores que foi registrada na pesquisa.
Sherlen comenta que, ainda que existam três praças na Bom Jesus, é comum que os jovens escolham brincar na Chácara das Pedras. “Às vezes eles iam para a pracinha no bairro ao lado, porque ali na praça da Bom Jesus não tinha os equipamentos para que eles pudessem brincar e utilizar o espaço em segurança.”
Com relação à infraestrutura, o acúmulo de lixo nos espaços públicos, os pontos de esgoto a céu aberto e o calçamento inadequado foram as principais queixas. E, na saúde, os moradores constataram que a Unidade Básica de Saúde (inaugurada em 1996) não tinha um bom atendimento nem profissionais suficientes para atender à população.
“Quando tu não tem um ambiente que no mínimo ofereça lazer, essa criança sai da Bonja para ir para outro espaço e ela sofre preconceito”, aponta um dos moradores ouvidos pela pesquisa. “O mínimo que se tem que fazer, já que não nos querem nesses outros territórios, é trazer qualidade pro espaço que a gente vive”, completa o morador.

O problema maior
A finalidade da pesquisa de Sherlen Borges vai além do diagnóstico de problemas na comunidade da Bom Jesus. Na realidade, as entrevistas e o mapeamento participativo foram os instrumentos para cumprir com um objetivo maior: identificar se o bairro pode ser considerado um exemplo de racismo institucional.
Diferente da concepção mais comum, esse fenômeno social específico não é provocado por comportamentos individuais: é um resultado do funcionamento das instituições, sejam elas públicas ou privadas. Nesses casos, entende-se que a dinâmica de instituições do setor público e privado conferem desvantagens ou privilégios com base na raça.
A pesquisadora afirma que, historicamente, a Bonja tem uma configuração que dificulta a ascensão das pessoas negras, e essa configuração se estende aos dias de hoje. “Tem todo esse processo de remoções por parte de instituições de planejamento urbano e de instituições públicas que também atingem o bairro Bom Jesus.”
Ela se refere às remoções pelo Departamento Municipal da Casa Popular que, durante as obras de canalização do Arroio Dilúvio, tirou, na década de 1950, os moradores de uma região central conhecida como Ilhota para realocá-los em espaços periféricos. A maioria das pessoas foi deslocada para a Restinga, mas existem registros de grupos que se instalaram na Vila Mato Sampaio, dentro da Bom Jesus.
Segundo a arquiteta, criar espaços de discussão dentro da comunidade é essencial para combater o racismo institucional, algo que tem sido articulado pelos movimentos sociais e líderes comunitários da Bonja. Além disso, a forma para solucionar os problemas estruturais é o planejamento urbano participativo, em que o poder público consegue dialogar com as necessidades de quem vive o território.
“O plano de bairro é um instrumento do planejamento urbano participativo que mostra muito a realidade de quem vive no local e consegue colocar num documento o que é necessário para aquele espaço. No Plano Diretor, por exemplo, o que falta para atender a todas as demandas das comunidades é, de fato, ouvir quem vive a cidade”, ressalta.

Dissertação: Evidências de racismo institucional em um bairro negro: o caso do bairro Bom Jesus em Porto Alegre/RS
Autora: Sherlen Cibely Rodrigues Borges
Orientadoras: Luciana Inês Gomes Miron e Clarice Misoczky de Oliveira
Programa/Unidade: Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional – Faculdade de Arquitetura
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