Descoberta de nova espécie de vespa mostra relevância das bordas entre Mata Atlântica e remanescentes do Pampa

Biológicas | Ninhos-armadilhas colocados na área rural de Porto Alegre revelam a Messatoporus bisignatus e a existência de barreira ecológica rígida entre os ambientes de floresta e de campo

*Foto: Messatoporus bisignatus (Foto: Alexandre Aguiar)

O ecólogo Henrique Negrello-Oliveira não poderia imaginar que 20 anos separariam a criança moradora do Morro Santana, bairro onde cresceu, do mestre em Ecologia que ajudou a descobrir a Messatoporus bisignatus, espécie de vespa recém-descoberta, habitante naquela região. O hoje doutorando no Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFRGS é o autor principal de um artigo que investiga a conectividade entre os ambientes de Pampa e Mata Atlântica em Porto Alegre. 

Entre outubro de 2022 e março de 2023, o pesquisador verificou ninhos-armadilhas instalados em três colinas localizadas na área rural da capital gaúcha: Morro Santana, Morro do Osso e Morro São Pedro. Os ninhos foram colocados em diferentes faixas de distância (a cada 20 metros) em relação à borda entre os ambientes campestre e florestal para que, a partir da interação das espécies em níveis tritróficos (presa–consumidor–parasitoide) fosse possível afirmar como a borda de habitats entre esses dois ambientes se comportava. 

“Ao estudar a mudança de espécies/interações entre essas camadas, pudemos ver que a borda funciona como uma barreira ecológica rígida”, explica Henrique. Esse achado revela que, apesar de estarem lado a lado, os ecossistemas são mantidos separados em suas complexas redes de interações (vespas, abelhas e suas presas/parasitas). Isso porque as interações que ocorrem na floresta são quase totalmente únicas e separadas das interações que ocorrem no campo, e vice-versa. 

A pesquisa liderada por Henrique se mostra relevante academicamente porque fornece uma descrição detalhada das interações de um sistema tritrófico, algo considerado raro na literatura de redes ecológicas. Essa descrição, que responde à pergunta ecológica de ‘Como diferentes ambientes podem ser conectados pelas espécies que ali habitam’, rendeu ao artigo a capa da edição de novembro da revista britânica Journal of Animal Ecology.

Henrique explica sobre o funcionamento dos ninhos-armadilha para colegas. (Foto: Arquivo pessoal)
Henrique checando a ocupação de um ninho-armadilha. (Foto: Arquivo pessoal)
Nova espécie e conservação urbana

As investigações aconteceram em Unidades de Conservação de Porto Alegre (Parque Natural Morro do Osso e Refúgio de Vida Silvestre São Pedro) e no Morro Santana (área da Universidade). Durante o trabalho dos cientistas foi descoberta uma nova espécie de vespa parasitoide as espécies desse nível são aquelas que atacam o hospedeiro ou as presas armazenadas dentro dos ninhos-armadilha : Messatoporus bisignatus, endêmica uma espécie endêmica é aquela que só é encontrada em uma região específica da capital. “Essa descoberta destaca a relevância ecológica desses habitats de borda entre a Mata Atlântica Subtropical e os remanescentes do Campo do Pampa no Sul do Brasil. A presença e a proeminência de espécies novas ou pouco conhecidas, como Messatoporus bisignatus, nessas zonas de transição (bordas) reforçam a necessidade de estratégias ativas de conservação para proteger os mosaicos de floresta–campo”, ressalta o acadêmico.

A revelação da nova espécie de vespa em Porto Alegre torna esse achado relevante por dois fatores:

1. Evidência de biodiversidade e relevância ecológica: a descoberta de Messatoporus bisignatus (assim como a primeira descrição dos machos de outras duas espécies de parasitoides, Messatoporus elektor e Messatoporus opacus) reforça a importância das bordas de habitat para espécies que são pouco conhecidas, mas que podem ser consequentes para a estrutura da rede trófica dessa região;

2. Abundância na amostra: Messatoporus bisignatus se destacou por ser o parasitoide mais abundante nas amostras coletadas durante o estudo.

Mesmo que as bordas atuem como barreiras neste habitat pesquisado, o estudo observa efeitos de borda locais que mostram um aumento da riqueza e da abundância de interações perto do limite. O principal exemplo disso é a descoberta da nova vespa. Em resumo, as bordas de habitat atuaram como um laboratório natural para entender como a estrutura espacial (a borda em si) molda a comunidade e o fluxo de energia em redes ecológicas complexas.

Do ponto de vista ecológico, as bordas podem atuar como áreas de maior diversidade de espécies porque contêm elementos de ambos os habitats adjacentes, além de espécies únicas adaptadas a essa transição. Compreender as bordas de habitats é fundamental para a conservação e o manejo de áreas naturais, especialmente em paisagens fragmentadas, para mitigar os impactos negativos do efeito de borda na vida selvagem. Para Henrique, os resultados mostram como, mesmo dentro de uma capital, Unidades de Conservação possuem um papel essencial na preservação da biodiversidade, contendo espécies ainda desconhecidas para a ciência.

“Nosso estudo pode, portanto, fortalecer a conservação dessas áreas ao revelar tal biodiversidade e, no futuro, garantir mais recursos financeiros para que tais unidades possam promover a conservação das espécies ali contidas”

Henrique Negrello-Oliveira
Cápsula de barro (ninho) da vespa Auplopus subaurarius, contendo uma aranha que foi caçada e paralisada dentro. (Foto: Arquivo pessoal)
Messatoporus bisignatus, a nova espécie descoberta nos morros de Porto Alegre. (Foto: Alexandre Aguiar)
O sistema tritrófico

O sistema tritrófico (presa–consumidor–parasitoide) adotado nessa pesquisa foi o de vespas predadoras que fazem ninhos em cavidades. Esse modelo pode ser visto como uma cadeia em que o consumidor estabelece a primeira interação (consumidor–presa) ao coletar recursos, e o parasitoide insere a segunda interação (hospedeiro–parasitoide) ao explorar os recursos armazenados no ninho. “Assim, por envolver as interações entre ‘quem come quem’ em diversos níveis, trata-se de um sistema tritrófico (presa-predador-parasitoide)”, informa Henrique.

As interações nesse sistema ocorrem da seguinte forma, utilizando a metodologia de ninhos-armadilhas para observação:

1. Nível da Presa (Prey-level. Ex.: aranhas, lagartas): é o nível mais baixo e inclui as espécies que servem de alimento para os consumidores. Na pesquisa, esse nível é composto por presas (como aranhas e lagartas), com 118 espécies registradas;

2. Nível do Consumidor (Consumer-level. Ex.: vespa predadora, abelha): essas espécies ocupam os ninhos-armadilhas e alimentam suas larvas com as presas capturadas. Na pesquisa, esse nível inclui vespas predadoras e abelhas (Hymenoptera), com 9 espécies registradas. As interações nesse nível são de consumidor–presa;

3. Nível do Parasitoide (Parasitoid-level. Ex.: vespa parasitoide, cleptoparasita): essas são as espécies que atacam a prole ou as presas (hospedeiro) dos consumidores nos ninhos-armadilhas. Na pesquisa foram registradas 15 espécies nesse nível. As interações aqui são de hospedeiro–parasitoide, pois a prole da espécie consumidora ou as presas paralisadas que estão armazenadas no ninho fazem o consumidor atuar como hospedeiro quando é atacado;

O sistema tritrófico analisado revelou tanto interações de consumidor-presa (como vespas caçadoras de aranhas alimentando suas larvas) quanto interações de hospedeiro-parasitoide (como parasitoides atacando as vespas ou suas presas). Trata-se de uma cadeia alimentar de três elos: Presa→Consumidor→Parasitoide.

Esquema metodológico da obtenção de dados com ninhos armadilha (Crédito: Arquivo da pesquisa)

Artigo: Across the edge: Spatial segregation drives community structure in tri-trophic multilayer networks at a forest–grassland edge (Na fronteira: a segregação espacial influencia a estrutura da comunidade em redes tritróficas multicamadas na borda entre floresta e pastagem, em tradução livre)
Autor principal: Henrique Negrello-Oliveira
Programa/Unidade: Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFRGS