Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil: “O filme só existe se as pessoas assistirem”

Cultura | Sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre refletem sobre o sucesso e a diversidade da produção audiovisual brasileira a partir de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”

*Foto: Pietro Scopel/JU

A história de uma família destroçada pela arbitrariedade da ditadura militar no Brasil levou mais de 5 milhões de espectadores aos cinemas do país e fez a cinematografia nacional alçar um patamar inédito: “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional, enquanto Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama pela interpretação de Eunice Paiva. Pouco depois, um homem e seus companheiros dissidentes que tentavam sobreviver ao regime de exceção fizeram novamente o público interessar-se por seus próprios traumas. Mais uma vez, a nação destacou-se em festivais norte-americanos – “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi reconhecido com o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e, por conta da atuação de Marcelo, Wagner Moura conquistou a condecoração de Melhor Ator de Filme de Drama na mesma premiação. Naquele ano de 2025, o Brasil concorreu em cinco categorias no Oscar, o maior número de indicações até então.  

Mas o que antecede todo esse prestígio dos estadunidenses é uma cinematografia amparada por várias políticas públicas de incentivo à cultura, segundo os cineastas Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil, sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre. Ana dirigiu os filmes “Três minutos”, “Dona Cristina perdeu a memória” e “Antes que o mundo acabe”, além de ter trabalhado como produtora, corroteirista e assistente de direção em diversos projetos. Giba, por sua vez, montou “Ilha das Flores”, “Meu tio matou um cara”, “Saneamento Básico, o filme” e outros curta e longa-metragens. Também foi diretor e roteirista de uma série de produtos audiovisuais. 

Em entrevista ao JU, a dupla fala sobre o papel das artes na autoestima de um povo, a diversidade das realizações cinematográficas no Brasil e a crescente qualificação dos profissionais do setor. Confira: 

Nos últimos dois anos, os filmes “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” mobilizaram os brasileiros para irem às salas de cinema e acompanharem as grandes premiações internacionais, especialmente as norte-americanas. Vocês avaliam, enquanto trabalhadores desse setor há décadas, que vivemos um momento diferente do audiovisual no Brasil? 

Ana: Essa presença maior da cinematografia brasileira no exterior, com resultados em prêmios importantes, é consequência de políticas públicas [criadas] há muito tempo coletivamente, tanto pelo poder público como pela sociedade civil. Tivemos momentos difíceis nos anos do governo anterior, em que quase todas as políticas públicas foram destruídas. Agora, estamos vendo um momento de reconstrução, porém o que está sendo colhido hoje foi construído lá atrás. 

Giba: Mas o cinema sentiu menos a crise do governo anterior do que tinha sentido a crise do governo Collor, porque [nos últimos anos] havia políticas públicas já implantadas que não dependiam tanto de governo. Relações entre produtoras e emissoras não chegaram a desaparecer nesse período, enquanto no governo Collor o Brasil não produziu cinema nenhum. Então tem essa coisa de longo prazo mesmo, que um [mandato do] governo anterior não conseguiu destruir, talvez um segundo consiga.

Que políticas públicas culturais nos trouxeram a esse patamar de prestígio internacional?

Ana: Bom, começou com a criação do Ministério da Cultura e da Ancine, que é uma agência reguladora. Depois a criação do Conselho Superior de Cinema, que era uma instância em que toda a cadeia produtiva estava presente, exibidores, distribuidores. Também a criação do Fundo Setorial do Audiovisual e do Condecine, que é uma taxa paga por toda a cadeia do cinema. Se chama Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional. O dinheiro que tem para o audiovisual é dessa taxação, que vai para o Fundo, e aí se discute como aplicar. 

Teve um momento, por exemplo, quando as salas de cinema precisaram se digitalizar e deixar de exibir filmes em película, em que foi feito todo um trabalho de apoio aos exibidores para que eles pudessem digitalizar o parque, que era muito caro. Já no início dos anos 2000, a distribuição do cinema estava praticamente na mão de distribuidores americanos. Tinham pouquíssimos distribuidores nacionais. Hoje têm muitos, porque houve uma política para o fortalecimento da distribuição no Brasil. Então essas políticas são fundamentais. Onde não estamos conseguindo mexer é no streaming, que não paga imposto nenhum. 

Giba: O fato de surgir um “O Agente Secreto” e um “Ainda Estou Aqui” depende, claro, da qualidade dos diretores e dos atores de criar projetos. Mas o fato desses caras terem relações internacionais, já terem estado em outros festivais e possuírem experiência para fazer um filme modelado para esse tipo de mercado tem a ver com anos de política pública. Não é de uma hora para a outra. 

Em uma única semana do mês de novembro de 2024, “Ainda Estou Aqui” levou quase 800 mil pessoas aos cinemas. Na noite do Oscar, telões foram instalados nas ruas e o clima em todo país era de torcida, festa, patriotismo. Como vocês enxergam que a cultura e, nesse caso, o cinema, pode contribuir para a construção da autoestima de um povo?  

Ana: As artes, em geral, são onde nos reconhecemos. Por que a música brasileira tem todo esse espaço? Porque é através da música que a gente se reconhece, que sabemos quem somos, e o cinema também é um espelho de quem nós somos. Acredito que temos uma responsabilidade com [a seleção dos] elencos, se queremos uma sociedade mais igualitária e menos racista. O audiovisual é muito poderoso nisso, não só o cinema, as novelas e as séries também. 

Giba: Talvez tenhamos que responder isso mais como espectador do que como realizador, porque como realizador a gente tende a pensar na vontade de expressão, na vontade de fazer. Agora, como espectador, o quanto da minha cabeça foi formada por filmes brasileiros, por séries brasileiras, por novelas brasileiras, por produtos audiovisuais que ajudaram a me enxergar e a enxergar os meus vizinhos? Dizemos ‘ah, o que eu faço é importante para a população’; não, o que o cinema brasileiro faz é importante para mim enquanto população. 

E qual o perigo de se valorizar o cinema só quando os Estados Unidos reconhecem nossas qualidades?

Giba: Eu tenho uma resistência muito grande ao Oscar, passei 20 anos sem assistir e voltei a ver as duas últimas edições por questões específicas, por estar torcendo. Ganhar prêmio é ótimo, ajuda a autoestima da equipe, ajuda a confraternizar com o pessoal, ajuda a conseguir outros trabalhos, ajuda a fazer relações, possibilita financiamentos para outros filmes, mas se não ganhar, esquece, vai para o próximo. Sabe-se lá quem são as pessoas que votaram num filme e não votaram no outro. Temos uma tendência muito grande de levar o Oscar mais a sério do que [Festival de Cinema de] Berlim, [Festival de] Cannes ou a presença do público nas bilheterias. O importante é tentar fazer com que a premiação ajude a levar a produção para frente. 

Ana: Como o Oscar é a premiação da maior indústria cinematográfica do mundo, ele consegue fazer com que as pessoas deem toda essa importância. E a importância acaba sendo para o marketing do filme. No momento em que um filme é indicado ao Oscar e isso vira assunto, vai levar as pessoas ao cinema e a buscar esse filme no streaming. Porque o filme só existe se as pessoas assistirem. Fazer um filme para ficar parado numa prateleira ou num HD não faz sentido. E para que as pessoas assistam, as pessoas tem que saber que ele existe. E para saberem que existe, ele tem que conseguir chamar a atenção de alguma forma. É essa a importância dos festivais. Tem filmes que não passaram por festivais nem nada, mas que conseguiram chegar ao seu público de uma forma fantástica, como o “Medida Provisória”, do Lázaro Ramos.  

Giba: E é muito interessante que “O Cangaceiro” e o próprio “Cidade de Deus”, que eu acho um baita filme, estavam muito na coisa do ‘olha como é a vida nas favelas’, ‘olha como é estranho esse Brasil’. Agora, “Ainda Estou Aqui” é um filme sobre uma família que foi destruída pela ditadura militar e “O Agente Secreto” é sobre a memória perdida do sujeito que foi perseguido pela ditadura. Os brasileiros estão sendo percebidos pela sua importância histórica também, e não pelo exotismo. 

Ana: Isso é uma coisa importante na cinematografia brasileira hoje: a sua diversidade real. Até os anos 2000, o cinema estava predominantemente sendo realizado no centro do país, em Rio e São Paulo. O “Noites Alienígenas”, que foi o primeiro longa-metragem do Acre, é um filme muito bom. Ganhou prêmios, circulou. Isso é consequência de um momento atual do mundo, mas também de uma política pública que se preocupou com a descentralização da produção. 

Em março, Saneamento Básico, um filme produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, foi exibido na Praça dos Açorianos gratuitamente e contou com a presença de centenas de pessoas. Vocês enxergam que esse tipo de ação e investimento aproxima a arte e democratiza o acesso ao cinema? 

Giba: Pessoalmente, eu não gosto de ver em uma sessão de rua um filme que não tenha visto antes. Se tenho que prestar atenção no filme e entendê-lo, quero estar numa sala escura, fechada, ou então na minha sala. Esse tipo de sessão é uma sessão necessariamente muito dispersa. Eu considero que ela é importante para, exatamente, democratizar e chamar as pessoas, mas eu não considero isso como sessão de cinema propriamente dita. É uma maneira de divulgar o filme.

Ana: Antes tinham os cinemas de calçada em quase todas as cidades e eram muito baratos. Hoje não é. Os cinemas foram entrando cada vez mais para os shoppings. Quais são os bairros da periferia de Porto Alegre que têm cinema? Nenhum. O cinema, então, já não é mais visto só na sala de cinema, infelizmente. As pessoas às vezes esperam para ver em casa, alguns assistem no celular, outros assistem no seu notebook. Acredito que essas projeções na rua fazem parte do cinema enquanto espetáculo, e acho bacana que seja assim. E o “Saneamento Básico”, quando foi lançado, teve um número de espectadores aquém do que nós imaginávamos e aquém do que a Sony esperava. Agora, no relançamento, foi uma coisa impressionante, ele foi redescoberto. E isso é uma coisa do filme, ele não morre.   

Foto: Pietro Scopel/JU
Qual a conjuntura da categoria de profissionais do audiovisual e do cinema no Brasil atualmente? O mercado artístico, mesmo que fomente a economia, segue deixado de lado pelo poder público quando falamos de orçamento e valorização trabalhista?  

Ana: Quem fazia cinema antigamente não tinha se formado em cinema. Hoje é uma categoria que está sendo formada pelas universidades. Aumentou o número de técnicos, que se qualificaram, e o mercado se ampliou. Quando começamos, fazíamos filmes de curta ou de longa-metragem e até fazíamos coisas para a televisão, mas era muito restrito. Hoje tem as TVs a cabo, os streamings, os podcasts, tem muita possibilidade de produção. Algumas são mais bem remuneradas, outras menos. As séries feitas para o Canal Brasil ou para o Canal Curta são muito pequenininhas, então tu tem que pensar esse produto audiovisual para um orçamento menor. Agora, quando tu vai fazer um trabalho para o Globo Play ou para a Netflix, são produtos que tu tem de pensar com outro tamanho e, aí sim, os técnicos vão ser muito bem pagos. Uma produtora como a Casa de Cinema precisa de tudo isso. Ela precisa da série pequena que vai circular e ela precisa de coisas maiores para que possamos sustentar a produtora e pagar os técnicos para que continuem morando no Rio Grande do Sul.

Giba: Uma equipe tem que ter um contrarregra, um cara que pinta cenários, outro que faz o microfone. Se essa pessoa trabalha uma vez a cada 5 anos e o resto do tempo ele está fazendo outras coisas, cada vez que ele for entrar num filme vai ter que descobrir coisas novas, agora, se ele está no ritmo de sair de um filme e entrar no outro, o cara melhora muito a qualidade do filme em geral. O filme é, necessariamente, uma obra coletiva feita por uma quantidade imensa de pessoas, e cada uma bota o seu conhecimento, a sua qualidade e o seu talento naquilo. Se essas pessoas estiverem se desenvolvendo o tempo inteiro, é muito melhor para os filmes. 


Naturalmente, a discussão em torno da proeminência do Brasil em grandes premiações internacionais reacende a demanda da comunidade acadêmica da Universidade pela criação da graduação em Cinema e Audiovisual. Conforme a direção da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, o projeto pedagógico do curso já foi aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, mas ainda faltam encaminhamentos. Leia a nota: 

Para que o curso possa ser efetivamente implantado — com oferta de vestibular e início das atividades —, ainda é necessária a alocação de vagas docentes e técnicas, condição essencial para garantir seu funcionamento com a qualidade acadêmica que a Universidade exige. Esse é o ponto que está em diálogo neste momento com a Reitoria.

Trata-se de um projeto já amadurecido, alinhado às transformações contemporâneas do campo da comunicação e à crescente relevância do audiovisual brasileiro, que vem conquistando reconhecimento internacional tanto pela sua qualidade artística quanto pela sua capacidade de refletir questões sociais e culturais do país.

Do ponto de vista da infraestrutura, o projeto de construção de um estúdio – por enquanto chamado de “novo NEPTV”- está em andamento. Ele deverá ocupar uma área de 186 metros quadrados no térreo do prédio Anexo I. 

Seguimos trabalhando para que o curso possa ser implementado em breve.


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