Entre raízes e recomeços, o kickingball fortalece redes de acolhimento entre mulheres imigrantes em Porto Alegre

Esporte | O projeto liderado por venezuelanas articula prática esportiva, cultura e apoio mútuo na garantia de direitos e na construção de pertencimento

*Foto: Flávio Dutra/JU

Mais que um espaço de lazer, o campo onde mulheres imigrantes se reúnem para jogar kickingball A forma mais usada globalmente é kickball, enquanto kickingball é uma adaptação regional mais comum em países da América Latina em Porto Alegre tornou-se um ponto de encontro entre histórias de deslocamento, reconstrução e identidade. Ligado à Rede de Integração e Desenvolvimento de Migrantes, Refugiados e Apátridas (REIDE), o time feminino Girasoles reúne cerca de 30 mulheres, em sua maioria venezuelanas, que encontram no esporte uma forma de manter vínculos culturais e, ao mesmo tempo, construir novas redes de apoio no Brasil.

Criada em 2022, a REIDE nasceu com o objetivo de auxiliar imigrantes recém-chegados no processo de adaptação à cidade. Idealizada por Nayeskyb Blanco, a iniciativa funciona como um coletivo voluntário e já atendeu mais de 130 famílias, oferecendo suporte em áreas essenciais como regularização documental, acesso ao mercado de trabalho, matrícula em escolas e busca por moradia.

“O kickingball é um esporte muito praticado por mulheres na Venezuela. Praticá-lo fora do país é extremamente importante para manter o vínculo com o país de origem”

Nayeskyb Blanco

Muito similar ao beisebol, porém jogado com uma bola de borracha inflável, o kickingball é um esporte coletivo geralmente praticado por nove jogadoras em cada time. A bola, em lugar de ser rebatida com tacos, deve ser chutada. Para pontuar, as jogadoras devem correr e completar uma volta pelas quatro extremidades do campo, livrando-se das tentativas de bloqueio da equipe adversária.

Segundo Nayeskyb, o esporte atua como ferramenta de integração, criando um ambiente de convivência e troca entre mulheres que compartilham experiências semelhantes de migração.

Essa dimensão prática do acolhimento é vivida diretamente por quem participa do projeto. Capitã do Girasoles, Merly Alvarez chegou ao Brasil há oito anos e relembra o impacto do processo migratório. “Foi uma luta muito difícil deixar o nosso país e chegar a outro sem saber o idioma e sem conhecer a cultura”, conta. Após passar por abrigos e programas de interiorização com apoio de organizações internacionais, ela se estabeleceu em Porto Alegre, onde encontrou no esporte uma forma de reconstruir sua rotina.

“O kickingball ajuda muito. Ajuda a sair dos problemas, a distrair a mente e enfrentar as dificuldades do dia a dia”

Merly Alvarez

Para Alvarez, o time vai além da prática esportiva: “Aqui a gente aprende disciplina, atenção, e também existe muito carinho e apoio entre nós”.

Além de preservar elementos culturais, o grupo também se abre à diversidade. Segundo Merly, pessoas de outras nacionalidades, como brasileiras, haitianas e argentinas, são convidadas a participar das atividades, ampliando o alcance da iniciativa e fortalecendo a convivência intercultural.

Florescendo em meio à dificuldade

Apesar do impacto positivo, o projeto enfrenta desafios estruturais. Os treinos ocorrem em espaços públicos e dependem da disponibilidade de iluminação no período noturno. A falta de recursos financeiros também limita o acesso a materiais adequados, levando o grupo a improvisar equipamentos. Ainda assim, a continuidade das atividades é garantida pelo engajamento das próprias participantes.

Para Maria Helena Sant’Anna, doutoranda em Antropologia Social na UFRGS, iniciativas como a REIDE e o Girasoles desempenham um papel que vai além do acolhimento imediato. “Não é mais sobre esporte, é o futuro dessas pessoas”, resume. Segundo ela, esses espaços são fundamentais não apenas para a adaptação, mas também para garantir acesso a direitos básicos e informações essenciais.

Ao estudar comunidades migrantes na região metropolitana de Porto Alegre, a pesquisadora observou que o acesso à informação é um dos principais desafios enfrentados por quem chega ao país. Nesse contexto, redes comunitárias ajudam a preencher lacunas deixadas por políticas públicas, orientando sobre serviços como saúde, documentação e programas sociais.

Cerca de onze equipes de kickingball estão organizadas na região metropolitana de Porto Alegre. Nas imagens desta reportagem, jogadoras da Orquideas e da Fuerza Fenix treinam em um sábado de tarde na praça Martin Luther King, no bairro Harmonia, em Canoas (Foto: Flávio Dutra/JU)

A dimensão cultural também aparece de forma complexa. Para Maria Helena, práticas como o kickingball não apenas preservam identidades, mas também contribuem para a construção de novas formas de pertencimento. “Ser migrante passa a ser um ponto de conexão. Essas iniciativas ressignificam essa condição e destacam a autonomia dessas pessoas”, afirma.

Quando observadas sob a perspectiva de gênero, essas experiências ganham ainda mais relevância.

“As mulheres migrantes têm assumido um papel central nesses processos. Esses espaços coletivos são também formas de enfrentar vulnerabilidades e construir projetos de vida”

Maria Helena Sant’Anna

Ao mesmo tempo, as iniciativas revelam os desafios persistentes enfrentados por populações migrantes no Brasil. Questões como xenofobia, racismo e dificuldades de integração social aparecem como obstáculos recorrentes que exigem respostas tanto institucionais quanto comunitárias.

Nesse cenário, projetos como a REIDE demonstram que o acolhimento não se limita a políticas formais, mas também se constrói no cotidiano, a partir de redes de solidariedade e ação coletiva. Mais do que inserir imigrantes em uma nova realidade, essas experiências apontam a construção de espaços nos quais é possível pertencer sem abrir mão da própria história.

Ao final, o que se vê em campo não é apenas um jogo. É a materialização de trajetórias que, mesmo atravessadas por rupturas, seguem encontrando formas de continuidade, seja no movimento de uma bola chutada, no reencontro com uma cultura de origem ou na criação de novos laços em território estrangeiro.