Pesquisas fortalecem monitoramento de vírus emergentes com potencial pandêmico

Biológicas | Com atuação que vai do litoral do Rio Grande do Sul à Antártica, pesquisadores do Laboratório de Virologia da UFRGS utilizam novas tecnologias e redes colaborativas  para acompanhar a evolução do H5N1 e de outros vírus infecciosos

*Foto: Ana Cláudia Franco/Arquivo de Pesquisa

A preocupação crescente com a saúde única – conceito que integra a saúde humana, animal e ambiental – tem impulsionado novas frentes de pesquisa no Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A emergência e a rápida disseminação do vírus influenza aviária de alta patogenicidade (H5N1) motivaram uma mudança no foco das pesquisas, que antes eram concentradas em vírus de animais domésticos e, hoje, também abrangem a virologia ambiental e o monitoramento de espécies silvestres.

De acordo com a coordenadora do Laboratório, Ana Cláudia Franco, a circulação global do H5N1 passou a chamar a atenção da comunidade científica a partir de 2022, quando o vírus, transportado por aves migratórias, se espalhou da Ásia e da Europa para a América do Norte e, posteriormente, percorreu toda a costa do continente até alcançar a Antártica, em 2024. O avanço do vírus reforçou a necessidade de ampliar o monitoramento em aves silvestres e, posteriormente, em mamíferos marinhos, como baleias, golfinhos, toninhas, focas e lobos-marinhos.

A partir desse cenário, o Laboratório, que reúne 21 pesquisadores entre estudantes de iniciação científica, pós-graduandos e pós-doutorandos, passou a estabelecer parcerias com especialistas e instituições de diferentes áreas. Entre elas estão a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), além de organizações não governamentais e órgãos públicos ligados à saúde e ao meio ambiente.

Essa colaboração resultou na aprovação de projetos de pesquisa voltados ao monitoramento de vírus emergentes. Um deles é a Vigilância de Doenças Potencialmente Emergentes, Zoonoses e do Impacto Antropogênico na Ecologia Antártica (VIDEANTAR), financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) com o apoio do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

O projeto prevê três expedições científicas ao continente antártico, das quais duas já foram realizadas. Durante as missões, pesquisadores trabalham tanto embarcados quanto em acampamentos instalados em ilhas, realizando coletas de amostras ambientais e biológicas para identificar a circulação do H5N1 e de outros vírus.

Outra iniciativa é a Rede de Monitoramento de Riscos Eco-Epidemiológicos em Ambientes Terrestres e Marinhos sob Variações Climáticas (ECOCLIM-RS), iniciado em 2025 com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). “Nesse projeto estabelecemos uma rede de colaboração no estado com várias universidades, ONGs e também com a Secretaria da Saúde, visando ao monitoramento de vírus emergentes em animais residentes e migratórios que visitam a costa do Rio Grande do Sul”, afirma a professora Ana Cláudia Franco. A pesquisa ainda acompanha vírus transmitidos por mosquitos, buscando compreender como as mudanças climáticas podem influenciar a circulação desses agentes infecciosos. 

O Laboratório também colabora com um projeto, coordenado pela professora Larissa Rosa de Oliveira, da Unisinos, voltado ao estudo da patogenicidade do vírus da gripe aviária em mamíferos marinhos brasileiros. Nesse trabalho, a equipe da UFRGS é responsável pelo monitoramento viral em cetáceos, incluindo baleias, golfinhos e toninhas.

Foto: Ana Cláudia Franco/Arquivo de Pesquisa
Evolução dos vírus na natureza

Embora sejam projetos distintos, todos convergem para um objetivo comum: acompanhar a evolução dos vírus na natureza. Segundo Ana Cláudia Franco, os vírus sofrem mutações continuamente durante seu processo de replicação, o que pode resultar em variantes mais adaptadas e com maior capacidade de transmissão.

“A ideia é monitorar a circulação desse vírus para acompanhar o que está acontecendo e tentar nos preparar para uma possível pandemia”

Ana Cláudia Franco

No último ano, o monitoramento também ganhou o apoio de novas tecnologias. Drones passaram a ser utilizados tanto nas expedições à Antártica quanto nas pesquisas realizadas no litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Os equipamentos permitem observar colônias de pinguins, baleias e outros animais sem causar perturbação ao ambiente natural. 

Além do registro de imagens, os drones foram adaptados para uma função inédita nas pesquisas do grupo: coletar o borrifo expelido pelas baleias durante a respiração. “Quando a baleia espirra pelo espiráculo, ela libera um jato de aerossois. Adaptamos o drone para coletar esse material e tentar detectar vírus presentes nele”, explica a professora. Paralelamente, o uso de drones permite realizar o censo de baleias-francas, acompanhar sua condição corporal e identificar filhotes.

Foto: Ana Cláudia Franco/Arquivo de Pesquisa

Para a pesquisadora, esses animais migratórios desempenham papel central na epidemiologia das doenças, pois atuam como dispersores naturais de vírus ao longo de milhares de quilômetros. Algumas espécies desenvolvem a doença e morrem, enquanto outras funcionam como reservatórios, carregando o vírus. 

Além dos impactos sobre a fauna, o H5N1 preocupa pelos prejuízos econômicos que pode causar. A influenza aviária de alta patogenicidade provoca mortalidade próxima de 100% em aves domésticas quando atinge aviários comerciais, interrompendo temporariamente as exportações brasileiras de produtos avícolas. Essa preocupação aumentou ainda mais em 2023. “Esse vírus é tipicamente um vírus de aves, mas sofreu alterações no genoma e passou, pela primeira vez na história conhecida, a causar mortalidade também em mamíferos”, ressalta a professora. 

Embora a transmissão para seres humanos seja rara, Ana Cláudia Franco alerta que o vírus possui potencial zoonótico e pandêmico. “O H5N1 tem transmissão para seres humanos, mas ela é bem difícil. O problema é que, quando ocorre, a letalidade pode chegar a 50%, e a vacina contra a gripe que usamos atualmente não protege contra essa variante”, destaca. “O que a gente consegue fazer é monitorar o que vai acontecendo para tentar estar preparado para o surgimento de um vírus com potencial mais agressivo”, finaliza.

Foto: Ana Cláudia Franco/Arquivo de Pesquisa

Coordenadora: Ana Cláudia Franco
Laboratório de Virologia
Unidade: Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS/UFRGS)