Meu Lugar na UFRGS | Psicóloga jurídica aposentada se reencontra com a Universidade por meio de projeto de costura
*Foto: Flávio Dutra/JU
Criatividade. É assim que Magaly Andrioti Fernandes define o Projeto de Extensão Costurar Paisagens, realizado pela Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Para ela, o trabalho manual com os tecidos e retalhos traz de volta memórias afetivas. “A partir dos materiais, tu pega os pedaços de tecido, e dali tu vai criar, vai fazer uma associação com aquilo que está lá na tua alma, vamos dizer assim, e trazer para uma obra, para fazer a paisagem em si, construir essa paisagem.”
O primeiro contato de Magaly com a UFRGS ocorreu durante o seu primeiro vestibular, em 1978. Ela conta que a primeira opção para ingresso na Universidade foi Psicologia, mas acabou cursando dois anos e meio de Filosofia, sua segunda escolha. Na época, Magaly havia prestado prova para a PUC/RS, instituição onde se formou em Psicologia. Um tempo depois, o seu vínculo com a Federal continuou, mas num caminho diferente.
Em um Projeto de Extensão realizado pela Faculdade de Psicologia ficou cerca de um ano prestando atendimentos supervisionados na clínica da UFRGS e, um pouco mais tarde, voltou à Universidade como professora convidada para conversar sobre ética e direitos humanos. Em sala ou pelos arredores do câmpus, Magaly sempre fez da UFRGS o seu lugar.
Aqui no Câmpus [centro], eu uso muito. Às vezes eu almoço ali no Antônio, porque era da época da Filosofia, né? Então, assim… memórias, sei lá, eu tenho uma coisa. Eu sou uma aluna não recuperada. Eu devo ter alguma paixão por essa Universidade
Magaly Andrioti
Iniciado em 2023, o Projeto de Extensão Costurar Paisagens é desenvolvido a partir de um desdobramento do Projeto de Extensão A Cara da Rua e de encontros com costureiras na Associação Ksa Rosa. No começo, o Costurar reunia mulheres de variados contextos para criar produtos com resíduos têxteis, usando como referência a fotografia. Com o passar do tempo, o foco se tornou as paisagens da cidade com a finalidade de conceituar o olhar e a relação de cada uma das participantes com o meio em que vivem.

Bordando o sete
Com experiências anteriores em costura, Magaly conta que encontrou o Projeto através de uma amiga durante um almoço de domingo em que elas se reúnem para bordar. Sua primeira participação foi durante uma programação do Costurar realizada no Memorial da capital. A atividade envolvia a reprodução de algum lugar que tivesse sido parte da infância das participantes, através de tecidos. “Eu achei muito legal. E daí eu comecei a vir e não parei mais”, relata Magaly. Dentro de sala, as produções do Projeto vão desde a costura de bottons até bordados em bolsas. As meninas também trabalham com cadernos e reproduzem fotografias nos tecidos.”
Para além de aprender, Magaly também já ensinou. Funciona assim: as participantes organizam uma aula para as colegas e, a partir disso, aprendem tricô, ponto e outras técnicas umas com as outras. Em sua participação, Magaly ensinou sashiko, um tipo de bordado feito no Japão que resgata a ancestralidade do povo japonês. Ela enfatiza que esse tipo de prática dentro do Projeto desafia e faz enxergar a arte manual de uma maneira diferente. Quando mais nova, achava a atividade “o ó do borogodó”, principalmente quando a sociedade associava esse aprendizado à ideia de a mulher como um ser prendado ou com o clichê “mulher prendada”.
“Eu acho horrível alguém me chamar de prendada, sabe? Eu acho uma ofensa me chamar de prendada. Eu sou uma artesã, eu gosto de bordar”
Magaly Andrioti
Além de exercer a criatividade, o Costurar auxilia Magaly a desenvolver uma noção de perspectivas de paisagens, possibilitando trazê-las para o artesanato com diversos olhares. Outro ponto importante é o local em que a atividade acontece: dentro de uma Universidade Pública, permitindo o acesso a todos.


A importância da extensão universitária
Acostumada com o ritmo universitário, Magaly pontua a importância que as extensões possuem para abrir as portas da academia à comunidade. Do Centro Cultural até as idas à Biblioteca, sempre esteve envolvida com o caminho da universidade e, mesmo que hoje “não tenha pernas” para acompanhar tudo o que ocorre, defende a relevância e a continuidade de projetos como esse.
A extensão universitária é quem primeiro traz a comunidade.Vamos dizer: a pessoa que nunca experimentou a universidade desmitifica, assim. Traz a pessoa para essa realidade, como é que é feita a ciência, como é que as coisas são construídas.
Magaly Andrioti
Com a participação no Projeto Costurar Paisagens e a volta ao ambiente da UFRGS, Magaly notou que a Universidade despertou coisas que estavam abafadas na “Magaly infantil” e remodelou, não só a maneira de observar as coisas ao redor, mas também a maneira de trabalhar os seus sentimentos. “A arte me moldou, me deixou mais moderada. Meu vocabulário mudou. Quando eu vou falar com as pessoas, eu falo parece que de uma forma mais tranquila.”
A série Meu Lugar na UFRGS é um projeto conjunto JU e UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo:
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