O que está em jogo para o ensino superior nas eleições presidenciais de 2026

Eleições 2026 | Propostas para universidades federais passam por expansão, financiamento, mercado de trabalho, pesquisa, inclusão e autonomia, mas aparecem com diferentes níveis de detalhamento nos programas

*Foto: Júlia Relevant

A universidade pública brasileira chega às eleições de 2026 longe de ser apenas uma questão que envolve a abertura de vagas ou a construção de novos câmpus. Para funcionar, uma instituição federal precisa de servidores, laboratórios, assistência estudantil, pesquisa, infraestrutura e recursos para mantê-la ao longo dos anos. Na UFRGS, o vice-reitor Pedro Costa afirma que, em termos reais, o orçamento da Universidade está abaixo do pico registrado em 2014 e que o crescimento das despesas não condiz com os recursos recebidos do Governo Federal. Para 2027, o orçamento previsto é de 2,7 bilhões de reais, enquanto a arrecadação própria da instituição fica entre 38 e 39 milhões de reais.

Nesta reportagem, o Jornal da Universidade analisou como o ensino superior se apresenta nos planos de governo dos 12 candidatos à Presidência da República nas Eleições de 2026. A apuração foi feita a partir dos documentos de propostas de governo apresentados pelas candidaturas e registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cruzados com a carta da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Os dados coletados foram debatidos por Aragon Érico Dasso Júnior, pesquisador do Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (CEGOV/UFRGS), Julian Fontoura, professor da Faculdade de Educação (Faced/UFRGS) e Pedro Costa, vice-reitor da UFRGS.

As propostas de governo partem de concepções diferentes sobre o papel da universidade. Há programas que defendem a expansão da rede pública e o fortalecimento das políticas de permanência; outros priorizam desempenho, empregabilidade, inovação e aproximação com empresas. Há planos que propõem mudanças na autonomia universitária, no sistema de cotas ou na própria estrutura de financiamento do ensino superior.

Expandir sem esquecer o que já existe

O plano do candidato Lula (PT) é um dos que apresentam medidas mais detalhadas para a rede federal de educação. O documento afirma que o orçamento das universidades foi restaurado e cita recursos do Novo PAC para 10 novos câmpus e 367 obras de infraestrutura, entre laboratórios, restaurantes e salas de aula. A candidatura também promete concluir obras em andamento, implantar novas unidades (ITA no Ceará, Universidade Indígena e Universidade do Esporte), além de promover um novo ciclo de expansão e interiorização da educação superior pública. O plano prevê, ainda, aperfeiçoar a assistência estudantil para garantir a permanência e a conclusão dos cursos.

A expansão não deve ser definida apenas pela construção de novas unidades. Para a Andifes, o próximo governo deve combinar expansão qualificada com a consolidação das instituições já existentes. A entidade afirma que as universidades criadas entre 2018 e 2019 passaram a exercer suas funções sem financiamento estruturante, expansão equivalente de cargos ou um plano de implantação com previsibilidade orçamentária. Por isso, defende um Plano Nacional de Desenvolvimento da Rede IFES que articule expansão, redução das desigualdades entre instituições e fortalecimento de servidores, infraestrutura, permanência, pesquisa e inovação.

Para Julian Fontoura, expansão, financiamento e permanência não podem ser tratados separadamente. “A abertura de vagas sem ampliação de docentes, técnicos, laboratórios, bibliotecas e assistência estudantil pode gerar uma expansão formal que não se sustenta no cotidiano das instituições”, afirma.

Pedro Costa chega a uma conclusão semelhante a partir da experiência administrativa da UFRGS. Segundo ele, o último grande ciclo de expansão da rede, associado ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), precisa que infraestrutura, espaço físico, número de servidores e recursos de capital sejam avaliados. Por isso, pontua que novos processos de expansão sejam acompanhados de uma avaliação do ciclo anterior.

“A gente precisa olhar para o que foi feito, verificar quais foram os resultados e quais são as necessidades que ficaram. Não dá para pensar em uma nova expansão sem garantir as condições para que as universidades consigam manter e qualificar aquilo que já foi criado”

Pedro Costa

O debate aparece de outra maneira no plano de Romeu Zema (Novo). O candidato fala em universidades e institutos federais e propõe um “choque de gestão e eficiência”. Isso se daria com a transferência do ensino superior para o Ministério da Ciência e Tecnologia, a escolha de reitores por critérios técnicos e incentivos financeiros baseados em indicadores, como desempenho acadêmico, empregabilidade e produção científica. O documento também propõe concentrar recursos de pesquisa em instituições com produção científica considerada relevante e ampliar vagas e bolsas em ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Para Julian, um financiamento vinculado ao desempenho pode fazer com que indicadores deixem de ser apenas instrumentos de avaliação e passem a determinar a distribuição dos recursos. Uma universidade com infraestrutura consolidada poderia acumular vantagens sobre uma instituição recém-interiorizada, por exemplo.

“Definir desempenho significa, na prática, definir quais funções da universidade recebem maior valor dentro da política pública”

Julian Fontoura
Universidade para o mercado ou para a sociedade?

A relação entre universidade, empresas e mercado de trabalho é um dos pontos de maior discrepância entre os documentos. O plano de Zema propõe facilitar a instalação de centros de pesquisa e o desenvolvimento de empresas dentro das universidades públicas. Flávio Bolsonaro (PL) também aproxima ensino superior, ciência e mercado: seu plano transfere a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e estabelece que Capes e CNPq priorizem impacto produtivo, inovação e transferência de tecnologia. A proposta cria, ainda, um modelo de financiamento estudantil em que o pagamento do empréstimo começa apenas depois da entrada do estudante no mercado de trabalho e varia de acordo com a sua renda.

Augusto Cury (Avante) propõe uma universidade voltada à produção de conhecimento e riqueza. O plano amplia as ações da Capes e do CNPq, cria incubadoras, laboratórios tecnológicos, centros de pesquisa aplicada e programas de incentivo a startups, além de estimular patentes e a transferência de tecnologia para o setor produtivo.

Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, sugere elevar as exigências de avaliação no ensino superior, fechar ou reestruturar cursos considerados persistentemente insuficientes e combater a evasão. Também defende mestrados profissionais, residências tecnológicas e mecanismos de parceria entre universidades, instituições de ciência e tecnologia e empresas.

Para Aragon Érico Dasso Júnior, a aproximação com empresas pode existir, mas não deveria ocupar o centro da relação entre universidade e sociedade. “A aproximação com empresas é uma forma, digamos, secundária de financiar a universidade”, afirma. Para o pesquisador, o risco é de que a instituição passe a atuar como prestadora de serviços e deixe em segundo plano ensino, pesquisa e extensão.

A Andifes traz uma posição intermediária: defende a ampliação da integração entre universidades, setor público, setor produtivo e sociedade, mas também reivindica fortalecimento da pesquisa, extensão, autonomia e financiamento público. A entidade afirma que a relação com empresas deve integrar uma estratégia mais ampla de produção de conhecimento e desenvolvimento nacional.

Universidade para quem?

As políticas de inclusão também aparecem de formas distintas nos planos de governo dos presidenciáveis. O plano de Lula (PT) coloca que a política de ações afirmativas transformou o perfil das universidades e que, entre estudantes de graduação que declararam cor ou raça, 45,5% se identificam como pretos, pardos ou indígenas. O documento registra que três em cada quatro ingressantes são oriundos da escola pública e cita o aperfeiçoamento das cotas com a inclusão de reserva para quilombolas.

O PSTU, de Hertz Dias, defende a manutenção e a ampliação das cotas para negros nas universidades e nos serviços públicos e apresenta propostas de cotas para a população trans (transexuais, travestis e transgêneros). O PCB, de Edmilson Costa, propõe uma educação 100% pública e gratuita da creche à pós-graduação, com estatização do sistema privado de ensino. O plano defende a ampliação dos institutos federais, o fim do vestibular nas universidades federais e a ampliação das cotas para 54% da população negra, além de ações afirmativas para estudantes de escolas públicas e universalização das cotas para a população trans.

A Unidade Popular, de Samara Martins, vai destinar pelo menos 10% do PIB nacional à educação pública, recompor os orçamentos das universidades e institutos federais, ampliar bolsas de ensino, pesquisa, extensão e assistência estudantil e garantir moradia, restaurante universitário e transporte. Também defende a suspensão do envio de verbas públicas ao ensino privado, a estatização progressiva de grandes conglomerados educacionais e a federalização de universidades endividadas.

No sentido oposto, Renan Santos (Missão) indica substituir o sistema de cotas por bolsas de mérito. O plano aponta uma reforma do ensino superior que busca substituir a autonomia universitária para uma perspectiva de “alinhamento estratégico”, realocando recursos de cursos ‘bacharelescos’ para áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e criando cursos e centros de pesquisa relacionados às necessidades de desenvolvimento industrial, incluindo a cadeia de terras raras.

Para Julian, a diferença está na própria concepção de igualdade. Segundo ele, substituir ações afirmativas por critérios de mérito pode tratar como equivalentes estudantes que chegam ao processo seletivo depois de trajetórias sociais e educacionais diferentes.

“Quando se fala em mérito, muitas vezes se desconsidera que os estudantes não partem do mesmo lugar. As condições de acesso à educação básica, à preparação para o vestibular, e a própria permanência na universidade são desiguais. Por isso, tratar todos apenas pelo desempenho individual pode reproduzir desigualdades que as políticas de cotas procuram enfrentar”

Julian Fontoura
Acesso não termina na matrícula

A permanência aparece nos planos, principalmente associada à assistência estudantil. Lula (PT) promete aperfeiçoar essas políticas; Samara (UP) fala em moradia, alimentação, transporte e bolsas; e outras candidaturas associam permanência à redução da evasão.

A Andifes coloca a questão em um eixo próprio. A entidade defende a implementação plena da Lei do Programa Nacional de Assistência Estudantil, com financiamento adequado, além de políticas de moradia, alimentação, transporte, inclusão digital, ações afirmativas, acessibilidade e saúde mental.

A UFRGS enfrenta, justamente, uma crescente pressão nesse sentido. Pedro Costa afirma que a assistência estudantil está entre as despesas que mais pressionam o orçamento da Universidade, ao lado dos serviços terceirizados.

“Hoje o recurso que vem especificamente para a assistência estudantil não é suficiente para atender a toda demanda. A Universidade precisa complementar esse valor com recursos do próprio orçamento, que já é bastante pressionado por outras despesas”

Pedro Costa

Julian coloca que a questão não se resume ao valor da bolsa. Alimentação, moradia, transporte, acessibilidade, apoio pedagógico, inclusão digital e saúde também interferem na permanência. “A assistência estudantil precisa deixar de ser pensada como um complemento da expansão”, diz.

Os planos de governo analisados não desenvolvem com profundidade a temática da saúde mental. A Andifes, entretanto, inclui explicitamente a ampliação das ações de saúde mental e bem-estar da comunidade universitária como prioridade para 2027-2030. Julian fala que tratar a permanência apenas pela dimensão financeira deixa de fora situações de sofrimento psíquico, isolamento, dificuldades acadêmicas e ausência de vínculos institucionais.

“A permanência não se resume à garantia de uma bolsa ou de um auxílio financeiro. Ela também depende das condições de saúde mental, do apoio pedagógico e da construção de vínculos com a universidade”

Julian Fontoura
O orçamento por trás das promessas

Se a expansão, a permanência e a pesquisa dependem de recursos públicos, os planos de governo dos presidenciáveis apresentam diferentes formas de tratar o financiamento. Zema (Novo) propõe um modelo em que parte dos incentivos às universidades seja vinculado a indicadores de desempenho. Samara (UP) estabelece uma referência de 10% do PIB para a educação pública. Wilson Grassi (Democratas) defende financiamento estável e previsível para a pesquisa, com regra plurianual, além de uma carreira federal de pesquisadores com despesa obrigatória e contínua, dependendo de espaço fiscal e estimativa de impacto.

O plano de Caiado (PSD) apresenta indicadores de acompanhamento para o ensino superior, entre eles desempenho e evasão, mas não estabelece uma meta numérica específica para esses indicadores. Na avaliação de Aragon, os planos são frágeis justamente quando precisam transformar a palavra ‘expansão’ em orçamento, prioridades e execução. 

“Uma política pública depende de capacidade estatal, que envolve recursos humanos, orçamentários, materiais e capacidade de planejamento”

Aragon Érico Dasso Júnior

Pedro Costa observa que a arrecadação própria da UFRGS é insuficiente para sustentar o orçamento da universidade. Segundo ele, diante de um orçamento de 2,7 bilhões de reais previsto para 2027, os 38 a 39 milhões de reais arrecadados pela Universidade representam uma parcela residual. “A arrecadação própria é importante, mas não resolve o problema do financiamento da Universidade.” Recursos de parcerias e arrecadação própria podem complementar o orçamento, mas não substituem um financiamento federal previsível.

A Andifes reivindica um modelo de financiamento capaz de garantir previsibilidade orçamentária e recursos para ensino, pesquisa, extensão, inovação, permanência estudantil, infraestrutura, hospitais universitários e sustentabilidade financeira dos processos de expansão e consolidação.

Ensino superior como política de Estado

Nem todos os planos dão ao ensino superior o mesmo espaço. Wilson Grassi (Democrata) concentra sua proposta em financiamento da ciência e da carreira de pesquisadores. Clariana Barão (DC) menciona o ensino superior de forma pontual, ao propor parcerias com o setor produtivo e a formação técnica. Leonardo Avalanche (PRTB) propõe uma Universidade Federal Digital, com graduação tecnológica online, certificações profissionais rápidas e uma plataforma de educação continuada.

No PSTU (Hertz Dias), o ensino superior aparece integrado à defesa da educação pública e das universidades, das ações afirmativas e do financiamento científico. No PCB (Edmilson Costa) e na Unidade Popular (UP-Samara Martins), a expansão do setor público é acompanhada de propostas de redução ou superação da participação privada no ensino superior. Já em Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) e Caiado (PSD), a relação entre universidade, inovação, mercado de trabalho e setor produtivo ocupa espaço mais evidente nos documentos.

Aragon chama atenção para uma ausência que atravessa parte dos programas:

“Há poucas propostas voltadas diretamente à ampliação de vagas no ensino superior público, enquanto programas como Prouni e Fies aparecem como mecanismos de acesso ao setor privado”

Aragon Érico Dasso Júnior

A Andifes traz uma visão de longo prazo, para além da lógica de um mandato. A entidade propõe uma Rede IFES projetada até 2035, com financiamento adequado, planejamento longo, expansão qualificada, consolidação institucional, permanência, pesquisa, inovação e redução das desigualdades regionais.

Para Julian, três elementos são fundamentais para que uma política de ensino superior atravesse governos: financiamento previsível e planejamento plurianual; articulação entre acesso, permanência e conclusão; e equilíbrio entre autonomia, avaliação e responsabilidade pública.

A distância entre uma promessa de campanha e uma política capaz de permanecer além de um mandato, portanto, passa menos pelo número de vezes em que a palavra “universidade” aparece no documento e mais pela forma como cada candidatura trata as condições necessárias para que ela funcione. No centro desse debate estão orçamento, expansão, permanência, pesquisa, autonomia e a própria definição do papel que a universidade pública desempenha no país.


Uso de IA e coleta de dados

A construção dessa reportagem tomou como ponto de partida a coleta dos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso garantiu a igualdade e preservou a isonomia de informações prestadas pelos candidatos. A pesquisa e a análise inicial desses dados contaram com o auxílio da inteligência artificial (IA), sendo utilizado o ChatGPT, da OpenAI. A partir de um prompt elaborado para esta reportagem, foram solicitados o levantamento, a sistematização e a categorização de informações relacionadas ao ensino superior nos planos de governo das candidaturas à Presidência da República no pleito de 2026.


Leia também da série Eleições 2026:
Clima e ciência em debate: o que dizem os planos de governo dos presidenciáveis
A fé como atalho: a polarização e o impacto da religião na disputa eleitoral