Mobilização | Iniciativas evidenciam o quanto o voluntariado e a organização social representaram importante forma de confronto ao empobrecimento da população
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU
Quando dona Cláudia corta a carne do churrasco para temperar o feijão, é certo que as quentinhas daquele dia terão um quê de feijoada. Esse é o sabor que Brenda Terrez, aluna do curso de Nutrição da UFRGS, identifica na receita da mãe, com quem desde março deste ano distribui 60 marmitas semanais entre dois projetos sociais na zona sul de Porto Alegre, a Casa da Sopa e o Corações de Luz. Independentemente das doações de amigos e conhecidos, o custo total da produção é arcado pela família. O que recebem usam para montar cestas básicas. “Tens noção de que vocês já produziram e entregaram mais de 2.400 quentinhas?”, pergunto. “Nossaaa!!! Nunca paramos pra contar”, responde surpresa pelo whatsapp.
A cerca de 10 km de distância da cozinha da família Terrez, outras nove também vêm preparando marmitas para famílias em vulnerabilidade social que vivem em 19 das 40 comunidades da Lomba do Pinheiro, que faz divisa com o município de Viamão e onde moram aproximadamente 100 mil pessoas. Essa rede de cozinhas, que no início do ano eram apenas duas, é resultado de ações do Comitê Gaúcho de Emergência no Combate à Fome – coordenado pelo Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea-RS) e apoiado por 30 entidades da sociedade civil, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pelos governos federal e estadual, e pela Assembleia Legislativa. Segundo Isnar Borges, uma das lideranças comunitárias que participa do Comitê, das 500 famílias inicialmente cadastradas, temos hoje mais de 5 mil, e já entregaram um número superior a 7 mil ranchos.
“As nossas cozinhas são e se tornaram mais do que cozinhas, elas se tornaram um espaço de organização, espaço de mobilização, um espaço de fortalecimento onde as pessoas buscam o seu protagonismo na comunidade. As nossas cozinhas não são só alimentos, são espaços de articulação, de formação e de organização das pessoas.”
Isnar Borges
Assim como o engajamento dos moradores das próprias comunidades beneficiadas que Isnar identifica nas ações no Comitê, o mesmo vem ocorrendo em outra regiões da cidade. Gabriel Goldmeier, idealizador e coordenador da ONG Misturai, faz a mesma avaliação ao relatar os resultados da atuação da organização em associação com o projeto Amparaí, que distribui quentinhas em comunidades carentes e para pessoas em situação de rua desde o começo da pandemia.
Originalmente, a produção se concentrava na cozinha da sede da ONG, na Vila Planetário, região central de Porto Alegre; atualmente, três das nove comunidades assistidas começaram a implementar cozinhas próprias para que as refeições sejam produzidas lá mesmo, com a participação dos moradores locais. Segundo Gabriel, no mês de outubro, o movimento totalizou a produção de 100 mil quentinhas, produzidas tanto na sede e nas comunidades como nas cozinhas de 150 voluntários.
Nesse contexto de ações de solidariedade que buscam atenuar o cotidiano social de carência e fome, agudizado com a pandemia do coronavírus, outra expressão recorrente é ‘empoderamento’. Tendo como embrião um coletivo de mulheres, foi criado no início do ano o Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres, cujo foco eram as mulheres, porque seriam elas que rapidamente seriam afetadas pelo fechamento de serviços como creches e escolas. Daiana Santos, sanitarista egressa da UFRGS e coordenadora do coletivo, comenta que, das 100 primeiras famílias atendidas no início do ano, o Fundo se tornou um projeto sólido, chegando a mais de 30 comunidades e tendo atendido até o momento cerca de 7 mil famílias, que além da comida recebem orientação sobre seus direitos.
“As pessoas precisam saber dos seus direitos. Pontuamos que conseguimos fazer essas ações justamente pela ausência do poder público nessas comunidades, pois nesses locais não falta somente comida.”
Daiana Santos






Para além das doações
Se por um lado considera positiva a expansão das atividades do Comitê entre os diferentes agrupamentos sociais da Lomba do Pinheiro, Isnar, ex-frei franciscano e há 31 anos morador do bairro que fica na zona leste da cidade, atribui parte dessa repercussão ao fato de que as famílias seguem empobrecidas. Por isso esse é um dos principais motivos de a organização não somente seguir produzindo e distribuindo quentinhas, mas também passar a desenvolver projetos que contribuam para que as pessoas possam se qualificar e buscar novas fontes de renda. Nesse sentido, um dos projetos que está em andamento é o da oficina de produção de sabão, e que recentemente recebeu a proposta de um comerciante para que produzam para seu empreendimento. Também estabeleceram parceria com o curso de Nutrição da PUCRS para a realização de oficinas de reaproveitamento de alimentos.
Por certo, as parcerias têm agregado aos movimentos. Maria Angélica Dias Pinto, integrante do coletivo que criou o Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres, conta que faz poucos meses entregaram para dona Denise a casa que ajudaram a construir com a colaboração dos proprietários da pousada Pico da Galera, em Maquiné. Segundo Angélica, a iniciativa partiu deles, que se prontificaram com a mão de obra se o Fundo fornecesse os materiais de construção. A primeira casa construída foi a da senhora Denise, que mora na Comunidade da Colina, próxima ao Morro Santana, pois onde morava as condições estavam péssimas, já não tinha parte do teto e também do soalho.
“Foi a primeira experiência, mas é um projeto que a gente pretende continuar”, comenta Angélica. De acordo com ela, o coletivo já vem conversando com algumas moradoras das comunidades que estão fazendo cursos oferecidos na Mulher em Construção, ONG criada em 2006 na cidade de Canoas, que tem por objetivo capacitar a mulher no trabalho da construção civil para colaborar com a sua independência econômica. A ideia é de futuramente contarem com essas mulheres na construção de casas nas comunidades, com o apoio do Fundo na compra de material de construção, assim como ocorreu com a casa da dona Denise.
“Uma das propostas que temos para o próximo ano é o Fundo das Mulheres Poa – Construir, pensando em habitação de baixo custo que possa substituir os casebres insalubres nos espaços mais precários da periferia, pensando na qualidade de vida e na saúde dessas pessoas.” Daiana Santos
Além de manter as ações realizadas anteriormente e ampliá-las “para que não seja somente entrega de alimentos, mas, sim, de certeza de pertencimento, protagonismo, de autonomia e emancipação”, Daiana diz que o Fundo também pretende trabalhar a educação ambiental, fazendo a troca de materiais recicláveis por alimentos, tendo em vista a relação das pessoas e o seu cuidado com o território em que vivem. “A ideia é realizar o auxílio com o alimento nas comunidades mais carentes e desenvolver parcerias com os recicladores da área”, completa.
Para 2021, Gabriel diz que a proposta é manter o projeto Amparaí, específico para a distribuição de quentinhas, ainda que de forma reduzida. Por outro lado, com vistas a contribuir para a qualificação dos moradores das comunidades assistidas pela ONG, eles planejam voltar a focar nas ações originárias da organização, como os projetos educacionais, culturais, ambientais e de empreendedorismo.
E para que isso ocorra em maior escala do que já ocorria, esperam contar com o grande número de voluntários que a ONG conta hoje em dia. Quanto às formas de financiamento, ele diz que o grupo vem concorrendo a editais e já obteve a primeira aprovação no mês de setembro, ao se inscreverem e ganharem edital da prefeitura para desenvolver projeto de redução de danos e geração de renda junto à população em situação de rua de toda a cidade. De acordo com o Ministério da Saúde, redução de danos são estratégias da saúde pública para atuação junto a usuários de drogas.
“A grande frase que está nos norteando para 2021 é ‘a passagem da assistência para o empoderamento através do trabalho, da cultura, do cuidado com o meio ambiente e da educação’.”
Gabriel Goldmeier





Como contribuir:
ONG Misturaí
www.misturai.com
@misturaipoa
Instituto Misturaí
Banco Sicredi – Agência 0116/ CC 35074-4/ CNPJ 09.154.647/0001.42
Família Terrez
whats (51) 981867185
Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável do RS (Consea-RS)
Plantão do Consea-RS – (51) 98436.2696
Doações de alimentos – (51) 99318.1521
Depósito financeiro: Banco do Brasil/ Agência 1248-3/ CC 55.450-2
Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres
Como contribuir:
vakinha.com.br/967924
Doações de alimentos: (51) 982.111.963
Facebook/Instagram – @daianasantospoa
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