Saúde| Investigação realizada por instituições nacionais e estrangeiras já mostra que brasileiros têm níveis de estresse e ansiedade mais elevados que pessoas de outros países
“Um estilo de vida não saudável aumentou mais do que duas vezes a chance de as pessoas terem ansiedade na pandemia”, afirma Flávio Kapczinski, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e pesquisador responsável pelo estudo “Mudanças em hábitos saudáveis e estilo de vida durante a pandemia do covid-19: uma Websurvey para a população brasileira”. O questionário busca analisar as mudanças de hábitos e estilo de vida dos brasileiros neste período que tem exigido mudanças de rotinas.
A pesquisa avança mais uma etapa e é uma parceria da UFRGS e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) com a Fiocruz e as universidades de Valencia, da Espanha, e McMaster, do Canadá. As informações coletadas no questionário auxiliarão os pesquisadores na elaboração de estratégias para o enfrentamento de problemas de saúde física e mental durante esse período.
A pandemia da covid-19 mudou as nossas dinâmicas de vida e de sociedade. Segundo uma etapa anterior da pesquisa, com o isolamento social aumentou a adoção de uma alimentação não saudável, diminuiu o tempo em ar livre e aumentou o tempo na frente de telas. Isso causa consequências de médio e longo prazo na saúde física e mental. A diminuição de atividades físicas causada pelo isolamento social pode, por exemplo, aumentar os efeitos negativos cardiometabólicos e mentais nos indivíduos.
“A gente está atuando desde o comecinho da pandemia. E o que nós descobrimos é que ter um estilo de vida não saudável aumenta a chance de depressão em torno de quatro vezes para trabalhadores essenciais durante a pandemia, além de oito vezes mais chances de ter ansiedade e depressão ao mesmo tempo”, comenta Flávio sobre resultados das etapas anteriores do estudo.
Vida saudável
A relação entre um estilo de vida saudável e a saúde mental foi uma inovação trazida pelo grupo de pesquisa do professor Flávio nessa área de estudos. Segundo eles, os problemas biológicos podem afetar a mente. E, por isso, os pesquisadores desenvolveram a escala Short Multidimensional Inventory Lifestyle Evaluation (SMILE), que mede uma vida saudável.
Segundo a pesquisa, uma vida saudável inclui o indivíduo se exercitar regularmente, não abusar de drogas, bebidas alcoólicas ou cigarros, ter contatos sociais, se alimentar com comidas caseiras, evitando congelados e ultraprocessados, ter um bom sono e saber manejar o estresse, ou seja, lidar com as pressões cotidianas por meio de estratégias cognitivas, físicas ou de suporte psicológico – como meditação, psicoterapia e mindfulness.
De uma forma geral, comportamentos não saudáveis são os principais contribuintes para a carga de doenças gerais, estão associados a piores desfechos em transtornos psiquiátricos e cada vez mais ligados a transtornos mentais comuns.
Contexto nacional
Existem também fatores externos que podem piorar o cenário para os brasileiros. “Outro dado que nos chamou atenção é que nós comparamos a Espanha com o Brasil. Na Espanha, a situação já estava bem crítica e com lockdown. Aqui no Brasil, o vírus ainda não tinha chegado, mas mesmo assim viver no Brasil estava associado a três vezes mais chance de ter depressão do que na Espanha. Três vezes mais chance de ter ansiedade do que na Espanha. E seis vezes mais chances de ter depressão e ansiedade juntas”, detalha Flávio.
A combinação de instabilidade política, social, econômica e sanitária que o Brasil enfrenta hoje é uma das explicações para esses índices. Somado a isso, a grande desigualdade social, o desemprego, o valor acessível de álcool e outras drogas, assim como alimentos industrializados e ultraprocessados formam um ambiente de estresse e para todos os brasileiros.
Driblando os problemas
Confira algumas dicas de Flávio para melhorar seu estilo de vida e seus hábitos durante a pandemia, baseadas na escala Smile:
- tenha uma boa alimentação: opte por comidas caseiras, tenha um prato colorido (vegetais, grãos, frutas e legumes), evite o excesso de sal, fast-foods, alimentos pré-prontos e ultraprocessados (congelados como pizza, batata frita, empanados em geral, enlatados, bolachinhas);
- não abuse de drogas, bebidas alcoólicas e cigarros. E não as use para lidar com as suas emoções;
- faça atividade física regularmente pelo menos meia hora por dia: você pode optar por exercícios em casa, como yoga, ou escolher lugares arejados e sem aglomeração para fazer uma caminhada, uma corrida ou andar de bicicleta (sempre com máscara);
- maneje o seu estresse, cuide de si mesmo, encontre tempo para relaxar, procure um novo hobbie, faça meditação. E caso você tenha uma crise, busque ajuda psicológica;
- procure dormir bem, vá para a cama no mesmo horário sempre, se levante no mesmo horário, descanse, evite dispositivos eletrônicos no ambiente e no horário de dormir;
- conecte-se com pessoas que são do seu círculo familiar ou de amizades. Mesmo que remotamente, procure continuar presente, participando de aniversários ou bate-papos, construindo uma rede de apoio; e
- por fim, siga as orientações básicas de cuidados de higiene, como usar máscara, evitar aglomerações sociais e lavar bem as mãos com frequência ou higienizá-las ou álcool gel 70%.
Sobre a pesquisa:
Brasileiros com mais de 18 podem participar pelo link: https://www.surveygizmo.com/s3/5765911/covid-19-Nova-Onda

