Projeto Brincar de Viver acolhe idosos por meio de atividades lúdicas

Saúde | Ação de extensão promove encontros online com pessoas de mais de 60 anos que sofrem com comprometimentos cognitivos

O projeto de extensão Brincar de Viver propõe atividades remotas lúdicas voltadas para pessoas com mais de 60 anos, com ou sem comprometimento cognitivo devido a acidente vascular cerebral (AVC), demência e afasia. Essas atividades lúdicas são de diversas formas, desde contação de histórias, dança, música, até palhaçaria e gastronomia. Tudo isso visando ao bem-estar e à funcionalidade dos participantes para que mantenham a comunicação e a qualidade de vida durante a pandemia.  

O Brincar de Viver tem uma visão muito focada na equidade social e racial. Com apoio do Sistema Único de Saúde (SUS), do Centro Dia do Idoso (CDI) e da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), o projeto fez buscas ativas para conseguir acessar uma maior diversidade de pessoas. Desse modo, por volta de 65% dos participantes são negros, pardos ou indígenas. 

E, nesse sentido, para promover a equidade, 30 participantes receberam doações de tablets e chips de internet do Atlantic Institute. “O  meio virtual, que exigisse acesso à tecnologia, a gente sabe que é excludente quando a população não tem acesso. Então, o fato de nós termos conseguido esse financiamento com o Atlantic Institute, que é uma organização que tá espalhada pelo mundo e que apoia projetos sociais dessa forma, é uma maneira também de a gente ascender a consciência da população para a importância do acesso às tecnologias digitais”, explica Lenisa Brandão, coordenadora do projeto e professora de Fonoaudiologia da UFRGS.

Além da desigualdade social e racial, é preciso refletir sobre os impedimentos que idosos sofrem em nossa sociedade. “É uma população excluída da sociedade. No geral, as pessoas não valorizam muito a interação com a pessoa idosa (…). Nós temos uma sociedade voltada para valores capitalistas. Não diria nem de valores, mas de produção. Valorização da produção, do indivíduo enquanto uma pessoa que trabalha e rende dinheiro ou que é vista como utilidade. Uma sociedade utilitarista. E isso acaba promovendo o isolamento da pessoa idosa”, descreve a professora.

Os integrantes são reunidos em grupos e passam por uma itinerância semanal que permite uma mudança temática a cada mês. O projeto conta com o auxílio e a participação de alunos e professores de diversos cursos da UFRGS, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e da Universidade Federal de Santa Catarina. No primeiro ciclo, os temas abordados pelo grupo foram: a comunicação, a memória e a imaginação, sempre estimulando a faceta lúdica em suas atividades. “A brincadeira é uma dimensão que o adulto perde. A criança vivencia isso muito, e depois de adulta a gente acha que não pode, e isso cria um vazio muito grande na nossa vida. Brincar de viver nada mais é que o reconhecimento do lúdico na nossa vida, mas compartilhando com colegas, alunos e pessoas”, conta. 

Antes da pandemia, Lenisa coordenava um projeto na Casa de Cultura Mário Quintana chamado Palhafasia. Nele, os participantes praticavam atividades relacionadas à palhaçaria e o público-alvo eram idosos com comprometimentos neurológicos. Com a pandemia, a coordenadora entrou em contato com esse público para mantê-lo vinculado ao projeto e interagindo virtualmente. O grupo, entretanto, percebeu que metade dos integrantes não tinha acesso à tecnologia. Além disso, havia a consideração de que seria importante que o projeto pudesse atingir outras pessoas que se beneficiariam de uma atividade virtual. Nesse contexto surgiu a ideia do Brincar de Viver.

“A prática da palhaçaria é importante no sentido de inclusão social, da conscientização e do questionamento sobre padrões de normalidade, porque o palhaço acaba com todos os tipos de fronteiras. O palhaço justamente desafia a visão de que existe o certo ou errado, de que a gente deve ter vergonha de errar. O palhaço, então, expõe o fracasso, ou o que a sociedade considera fracasso”

Lenisa Brandão
A pandemia fez com que o projeto Brincar de Viver mantivesse suas atividades remotamente. A doação de tablets e internet por uma fundação estadunidense tornou o acesso a plataformas online possível a públicos interessados
Isolamento

O nome da atividade extensionista faz alusão à música “Brincar de viver”, de Guilherme Arantes, que serve de inspiração à filosofia do projeto. Para Lenisa, brincar de viver é reaprender a viver por meio do lúdico e do imaginário: “Nós não estamos apartados da dor, nós vivenciamos a dor juntos, mas nós aprendemos a lidar com ela unidos e de uma forma que não nos paralise. E a brincadeira tem sido essa forma leve de conseguir conduzir essa união, esse acolhimento, esse ninho”.

Para Geroni de Oliveira Gonçalves, conhecida no projeto por dona Geroni, brincar de viver é um resgate das coisas boas da vida. “Eu quero brincar de viver porque eu não tava vivendo. Eu não tava vivendo, era um momento de muito desespero dentro de casa. Eu achei melhor brincar de viver porque a gente é útil, pode viver mesmo dentro de uma pandemia dessas. A gente pode viver”, afirma.

A idosa de 69 anos conheceu o projeto por meio do CDI e o frequenta há 1 ano. Para ela que nunca tinha conversado pela internet foi muito bom poder se comunicar nesse momento de isolamento e distanciamento social. 

“Tava sendo difícil, tava sendo um desespero pra mim. Eu comecei de novo a entrar em depressão, daí o Brincar de Viver renovou minhas forças. Fiquei mais disposta, com mais vontade de viver, porque a pandemia não pode me prender dentro de casa sem ter um meio de comunicação. Isso daí, antes da vida, foi a melhor coisa que me aconteceu”

Geroni de Oliveira Gonçalves

Mauro Fernando Jardim Leal, de 77 anos, teve um AVC em 2016 e faz parte do grupo que participava do Palhafasia antes de entrar para o Brincar de Viver. Para ele, o fato de ser uma pessoa com deficiência não o condena ao segundo plano: “Brincar de viver pra mim é participar, dançar, cantar… Tudo faz parte do processo que é feito pra nós. Brincar de viver porque tu tem sequência na vida, tu não precisa ser uma pessoa que tá à margem da sociedade”, reflete.

As atividades favoritas de Geroni e Mauro são aquelas que movimentam o corpo. Para este, elas são uma boa forma de exercitar áreas que foram muito prejudicadas por conta do AVC.

A arte de sorrir

Nem só de brincadeiras o projeto funciona. Os participantes, segundo Lenisa, trazem histórias pessoais, hábitos que gostam de fazer no dia a dia, entre outras conversas que propõem nos encontros. “A espiritualidade também é um tema que permeia. Os próprios participantes trazem que gostariam de fazer uma oração, eles mesmos liderando. Ou alguém traz uma poesia que gostaria de compartilhar com o grupo. Então tem esse elemento de reflexão, de sabedoria, de um olhar também com fé que eles trazem”, conta a professora. 

Juntos retornam toda sexta-feira para enfrentar o dia a dia e reaprender a sonhar. “Eu renovei aquele desejo de viver. Eu encontrei a razão para viver de novo, não ficar presa, porque sou livre pra brincar, pra conversar e pra sorrir. É tão bom quando a gente pode sorrir, a vida tem mais sentido”, expõe Geroni.

Atualmente no segundo ciclo, o projeto está buscando trabalhar o senso de humor dos participantes. Além disso, as Universidades Federais de Pernambuco e de Santa Maria passam a integrar o projeto.