Entrevista | Professora emérita da UFRJ destaca que é preciso unificar iniciativas de promoção à diversidade de gênero na ciência e reafirma o papel das instituições nesse processo
*Foto: Flávio Dutra/JU
Ministrante da aula magna do primeiro semestre letivo de 2022, Alice Rangel de Paiva Abreu tem uma longa trajetória em sociedades científicas e organizações governamentais, nas quais acompanhou e fomentou o crescimento dos debates sobre gênero e ciência. Na conferência, a socióloga e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) saudou iniciativas que promovem a diversidade de gênero na ciência, mas destacou que essas mudanças precisam sair do âmbito individual e ser uma preocupação das instituições.
Em entrevista por videoconferência ao JU no dia seguinte à aula magna, a pesquisadora fala um pouco mais sobre sua trajetória na pesquisa e apresenta exemplos de iniciativas internacionais que tiveram êxito em aumentar a participação feminina na ciência.
Como foi a tua trajetória na ciência e quais os desafios que tu encontraste como mulher pesquisadora?
Olhar pra trás é um pouco complicado. Minha carreira foi um pouco engraçada, porque teve toda uma primeira parte até início dos anos 2000 que foi uma carreira normal, no sentido de que eu fazia tudo o que uma socióloga que investe em construção institucional fazia. Ensinava, fazia pesquisa, tinha projetos internacionais, tive uma participação muito importante na UFRJ, fui de vários comitês, de vários conselhos, fui coordenadora de pós, chefe de departamento, todas essas coisas. E era uma carreira bastante bem-sucedida, eu tinha sido secretária-executiva da Anpocs [Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais] por quatro anos, depois fui presidente de área de sociologia da Capes por mais quatro anos, fiz pós-doc em Paris. Aí em 1999 me chamaram pra me juntar à equipe que tava montando uma nova diretoria do CNPq. Fiquei três anos no CNPq como vice-presidente e olhando muito pra área de cooperação internacional.
No ano que o Fernando Henrique passou o governo pro Lula, foi uma transição ultraconsciente, a gente tinha que fazer relatórios infindáveis sobre projetos em andamento, o que estávamos fazendo. Quando acabou o governo FHC eu fui para a Organização dos Estados Americanos (OEA), havia naquela época um escritório de ciência e tecnologia na OEA que estava sem diretor e me nomearam diretora desse escritório, que, além de ciência e tecnologia, abarcava educação. Aí eu fui pra Washington e fiquei lá três anos.
Mas aí aconteceu a coisa da família e do trabalho, porque meu marido tinha ido também fazer um ano sabático, mas ele não gostou muito. Ele é um scholar, não gostou muito dessa vida de organizações internacionais e voltou no final do segundo ano pra retomar o trabalho dele na PUC-RJ. E eu ainda fiquei um ano sozinha em Washington, mas aí era demais, era muito longe. Meus filhos eram já mais velhos, mas também você fica sozinha, a família começa a sentir falta. Acho que fui a única pessoa que pediu demissão da OEA na vida [risos]. Mas foi engraçado porque, quando eu voltei pro Rio, a Academia Brasileira de Ciências tinha proposto sediar um escritório latino-americano do ICSU [International Council for Science]; me pediram para eu me candidatar à diretora do escritório, e fui eleita, aí fiquei quase quatro anos dirigindo esse escritório no Brasil.
Na tua fala na aula magna, tu destacas a importância das políticas institucionais para a diversidade. Que exemplos de políticas institucionais aqui no Brasil tu destacas como bem-sucedidas?
Olha, na verdade, é uma área no Brasil que ainda está engatinhando. Você tem algumas propostas, mas não tem ainda uma coisa bem estruturada. A gente conversa sobre isso há muito tempo. Eu me lembro de uma reunião aqui no CNPq com uma pessoa que coordenou uma atividade que foi absolutamente central na Europa pra trazer esse tema pro fulcro das políticas: foi um comitê fundado pela Comissão Europeia que tinha o objetivo de levantar a questão de ciência e tecnologia em todos os 27 países da União Europeia, o Helsinki Group. Eles ficaram mais vinte anos fazendo isso, criaram o relatório do She Figures e basearam toda a política de apoios e projetos da União Europeia, que hoje tem uma forte visão de diversidade e de inclusão de gênero que até influencia os parceiros brasileiros nisso. Hoje, a União Europeia, com o programa Horizon 2030, não financia ninguém que não tenha a questão da inclusão e diversidade muito claramente definida nos seus projetos.
Aqui não acontece nada disso. Dos nossos planos de ciência – que eu acho que já vai pro quarto –, nenhum deles tem a palavra mulher ou gênero. Até no que eu participei também não tem. Não era um tema, e continua não sendo.
Eu espero que este ano a coisa mude, porque eu acho que a questão do gênero está na mesa de uma forma muito forte em todos os níveis. Hoje em dia SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência], SBS [Sociedade Brasileira de Sociologia], Academia Brasileira de Ciências, todo mundo tem a noção de que a questão do gênero e da diversidade tem que ser enfrentada. A SPBC, por exemplo, está fazendo algumas discussões para apresentar um plano de ciência e tecnologia para os presidenciáveis. E eu acho que aí o gênero vai entrar pela primeira vez. A ABC, pela primeira vez em mais de 100 anos, tem uma presidente mulher e que muito claramente tem isso como uma das preocupações. E eu acho também que, se a Academia contribuir pra apresentar planos de ciência e tecnologia [aos presidenciáveis], esse será um dos temas a serem discutidos.
Mas mesmo se você olhar as experiências que foram tentadas no Brasil, nenhuma delas tem sustentabilidade. Na época dos governos do PT, primeiro que eles tinham um ministério da mulher, que, hoje, o que existe é um arremedo do tema. Tinha um programa com alunos de ensino médio sobre a questão, tudo isso desapareceu.
Agora há algumas iniciativas que estão ainda no começo, mas que podem ser bem interessantes. Tanto a USP como a Unicamp estão pensando em discutir um plano de equidade de gênero pra universidade. Isso vai ser uma mudança de nível. Porque o que a gente vê no Brasil – e não só no Brasil – é que você tem tido nos últimos dez anos uma quantidade enorme de atividades, de ações, iniciativas, mas elas são dispersas, muitas vezes de vida curta, muitas vezes voltadas pra temas e grupos específicos.
Você tem que ter alguma coisa que pegue toda essa atividade que existe e que aglutine isso tudo. E aglutine isso de forma a dar uma visão mais institucional e sistêmica.
Outro dado que tu apontaste na aula magna é a diminuição da representatividade à medida que se sobe na hierarquia. Por que a participação de mulheres cresce nos níveis hierárquicos mais baixos, como nas bolsas de iniciação científica, mas não na hierarquia mais alta, como nas bolsas de produtividade do CNPq?
Eu tenho essa teoria, a gente nunca fez realmente uma pesquisa pra ver se efetivamente é isso. Mas a forma de distribuição dos tipos de bolsas é muito diferente. Qual é a diferença central? É que, pra todas as bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e até de doutorado no exterior, a iniciativa de concessão de bolsa é dos cursos, não é de um comitê centralizado do CNPq e da Capes. O CNPq e a Capes distribuem as bolsas de acordo com o nível dos cursos de pós-graduação. E aí são os cursos que distribuem as bolsas através de processos seletivos, que são muito adequados e bem feitos. O que significa isso? Que você não tem concentrados todos esses preconceitos e as formas complicadas de atuação de um comitê centralizado. As bolsas de produtividade em pesquisa, como são? São centralizadas no CNPq, através dos comitês. E a escolha dos comitês, como é? Quando eu estudei isso em 2010, me dei o trabalho de olhar os comitês um por um, e é uma coisa impressionante: você não tem um comitê onde você tenha uma equidade de gênero nas áreas de ciências. Pelo menos em 2010 não tinha, não sei se isso agora é uma preocupação. Mas não acredito muito nisso.
Então é muito difícil, porque em um comitê onde você tem dez homens e duas mulheres, por mais que você diga “vamos ser equânimes e objetivos”, é muito difícil você ter uma visão que realmente permita um julgamento mais isento. A gente tinha que descobrir uma forma de ter os currículos sem o sexo das pessoas. Eu adoro uma história que conta que as orquestras do mundo todo só passaram a ter músicas mulheres quando os concursos de entrada foram feitos atrás de uma cortina. Se você olhar as orquestras de hoje em dia e comparar com as orquestras de 50 anos atrás, é uma coisa inacreditável. Hoje você tem mulheres em tudo que é espaço.
Essas experiências da USP e da Unicamp vão ser um divisor de águas. Porque quando você faz um plano de equidade, que é um plano institucional, você consegue amarrar não só os níveis, ou seja, você tem que envolver a alta hierarquia da universidade, todos os níveis de estrutura, tem que envolver os professores homens e mulheres. Deixa de ser uma atividade de um gueto de três ou quatro mulheres que estão ali trabalhando e se torna, de fato, uma coisa institucional.
E mais do que isso: pra ser um plano institucional, ele tem que abarcar todas as facetas da questão da diversidade e inclusão, o que é muito complexo. Você em geral trabalha um aspecto só, por exemplo, várias iniciativas que já estão fazendo pesquisas e estabelecendo formas de lidar com assédio sexual nas universidades. Muitas universidades têm isso. A própria UFRGS fez uma pesquisa que mostrou como é importante você ter estruturas, como ter uma porta de entrada pra onde essas queixas são encaminhadas. Mas aí acaba nisso, você trata só dessa questão. No plano de equidade, você tem que abarcar todas as questões: tem isso, tem a questão da carreira das mulheres, tem a questão desse equilíbrio maternidade/trabalho – que também tem iniciativas na própria UFRGS muito boas que olham essa questão. Quando você insere isso num plano, ele se relaciona com os outros aspectos.
E tem um aspecto – que eu acho que talvez seja o mais complexo, mas também, talvez, o mais interessante – que é a questão do ensino dos currículos e da atividade de pesquisa. Tem uma iniciativa da Comissão Europeia – hoje em dia é um programa internacional que fica em Stanford e se chama Gendered Innovations – que mostra como você insere a questão do sexo e do gênero no conteúdo, no planejamento das pesquisas. E os exemplos são absolutamente fascinantes, desde ligados a ciências da vida, onde é muito importante, se você quiser estudar, digamos, o desenvolvimento de um peixe, você entender como é que é a questão da reprodução sexual daquele peixe, etc. Ou seja, se você não incluir a questão das diferenças e da diversidade, a sua pesquisa se torna muito mais fraca.
Uma coisa que acho muito interessante, e para a qual a discussão internacional chama muito a atenção, é que você tem um número enorme de pesquisas científicas em que isso não é nem informado, então você nem sabe em que se baseou a análise. Eles acham isso mais perigoso do que uma pesquisa que tenha sido feita somente com homens mas que informou isso, então você sabe, você tem essa informação e pode lidar com isso. Mas o que se diz em muitos trabalhos que a gente vê é que isso muitas vezes nem é informado. No Brasil, isso não está sendo nem discutido, ainda não está na mesa.
Nós estamos ainda naquelas questões que são muito centrais mas que afetam as identidades muito fortemente. Eu gosto dessa expressão “rush hour” – quer dizer, as jovens pesquisadoras, quando já terminaram o doutorado e estão no início de uma carreira profissional, têm que fazer tudo: têm que ter filho, têm que cuidar da mãe, têm que fazer todas as coisas científicas estruturais tradicionais de forma muito bem feita, têm que pedir financiamento, têm que coordenar projeto. É um momento na vida em que realmente a questão de ser mulher ou não, e a sua relação com o seu parceiro, é fundamental.
A questão da diversidade e da inclusão não é uma coisa só de mulheres. Tem que ser de mulheres e homens. Não são somente as mulheres que têm que mudar, os homens também têm que mudar. Você tem que ter uma cultura científica onde a questão de ser mulher não precisará mais ser uma questão. Que seja um ambiente onde ela pode atuar de uma forma simétrica aos homens sem que isso seja um item de luta o tempo todo. E o segundo é que, quando isso acontece, quem ganha não são as mulheres, é a ciência. Isso é um ponto fundamental.
Confira a aula magna na íntegra:
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