Ações de cooperação entre pós-graduação da UFRGS e instituições internacionais ganham destaque na universidade

Internacionalização | A partir de uma parceria com o Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique, UFRGS formou uma turma de doutores do outro lado do oceano. Projetos semelhantes estão em andamento, como uma pós-graduação em conjunto com outras universidades latino-americanas

*Foto: Flávio Dutra/JU – Detalhe de uma capulana, tecido tradicional de Moçambique,
utilizado por mulheres como adereço mas também para funções do cotidiano, como carregar crianças,
proteger os cabelos ou peças de vestimenta

*Reportagem atualizada em 02/9/22, às 10h58, com a inclusão do posicionamento da Capes

A UFRGS possui quatro câmpus espalhados pela capital gaúcha, além do Câmpus Litoral Norte e atividades em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, como Imbé e Eldorado do Sul. Mas há uma turma de 18 doutores formados pela universidade que estudaram do outro lado do Oceano Atlântico, mais especificamente na cidade de Maputo, em Moçambique. A formação desses alunos “fora da sede” foi possível devido a uma cooperação entre a UFRGS e o então Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique — hoje Universidade Joaquim Chissano.

Iniciada em 2015, a parceria surgiu em decorrência da procura do Instituto Moçambicano ao Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS. Naquele ano, duas coisas ocorreram: a primeira foi a modificação da legislação moçambicana, que passou a exigir grau de doutorado a docentes de institutos superiores. A segunda foi o desejo do instituto de tornar-se uma universidade, conta Hetalben Patel, doutora pelo projeto e, à época, funcionária do Instituto.

Pelas leis brasileiras, para ser uma universidade, uma instituição precisa, além dos cursos de graduação, oferecer iniciação científica e turmas de pós-graduação. Em Moçambique, os princípios são os mesmos: a universidade possui a “investigação científica” como uma das suas missões.

Para alcançar esse objetivo, a reitoria do Instituto entrou em contato com a Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS e, juntas, as instituições iniciaram o desenvolvimento do projeto. A seleção dos alunos ocorreu com base nos editais da UFRGS, explica André Reis da Silva, professor do PPGEEI e, à época, diretor do curso. “Foi uma honra, pela confiança no nosso trabalho, mas também uma grande responsabilidade”, afirma. O doutorado foi organizado com base no que se faz aqui na UFRGS; com o projeto firmado e os alunos selecionados, 10 docentes saíram de Porto Alegre em direção a Maputo para ministrar aulas – que ocorreram em formato de módulos – e conhecer seus orientandos. Com isso, a Joaquim Chissano passou de Instituição a Universidade e agora integra o grupo de 9 universidades públicas de Moçambique.

Formatos de cooperação

A primeira turma de Moçambique tem como nome “Doutorado Fora da Sede”, entretanto, de acordo com uma portaria da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) de 2017 – posterior ao projeto –, a titulação seria outra, de Doutorado Interinstitucional. “A titulação do projeto não é o principal, e sim a cooperação entre as instituições”, aponta Júlio Otávio Barcellos, pró-reitor de Pós-graduação da UFRGS.

O pró-reitor explica que os projetos de cooperação existem e foram possibilitados pela Capes há mais de vinte anos. Inicialmente, eram chamados de PROCAD, ou programas casados entre universidades (os “casadinhos”). A partir de uma portaria de 2006, passaram a ser denominados Turmas Fora da Sede. Em dezembro de 2017, uma nova portaria entrou em vigor, regulamentando os Mestrados e os Doutorados Interinstitucionais (Minter e Dinter), em que uma “universidade-mãe” se deslocaria até uma universidade receptora, e as Turmas Fora da Sede teriam como foco a atuação profissional. Essa portaria, entretanto, foi revogada nove dias depois.

À reportagem, a Capes, por meio de sua assessoria de imprensa, explicou que “não existe mais Turma Fora de Sede, bem como Minter e Dinter, que foram substituídos pelo PCI” – Projeto de Cooperação entre Instituições para Qualificação de Profissionais de Nível Superior. Semelhantes à parceria entre a UFRGS e Moçambique, são projetos temporários de mestrados ou doutorados, ministrados por uma instituição brasileira em uma instituição receptora, que pode ser nacional ou internacional. Cada programa de pós-graduação com nota 4 ou 5 pode ter apenas um projeto vigente por vez; os avaliados com nota 6 ou 7 estão autorizados a ter uma turma excedente.

Qualificação da pós-graduação

Barcellos sintetiza que as cooperações ocorrem “quando programas consolidados e de excelência levam essa experiência e a pós-graduação a diferentes lugares”. “A universidade leva docentes e o processo seletivo, oferece esse mestrado, e depois a instituição segue com ele”, comenta Barcellos.

André Reis aponta que esse era o objetivo da instituição moçambicana: formar professores e seguir com os programas de pós-graduação. A justificativa para o projeto é a necessidade e o interesse em formar mestres e doutores nas instituições e, também, nos locais. “Precisa ser um local que tenha pessoas interessadas. Se for um doutorado, por exemplo, precisa ter um número de mestres interessados no projeto”, explica Reis.

A parceria entre diferentes universidades auxilia tanto a instituição receptora quanto a instituição-mãe. A internacionalização é um dos grandes objetivos da UFRGS, segundo o Plano de Desenvolvimento Institucional da Universidade. “Entre os pontos positivos, há a possibilidade de a universidade-mãe, vamos chamar assim, desenvolver pesquisas em parceria com a universidade receptora, com temáticas regionais”, comenta Barcellos.

Enquanto isso, do outro lado do oceano

Hetalben Patel, de 37 anos, foi a primeira aluna de sua turma a defender a tese. Funcionária da instituição, a moçambicana pesquisou as relações entre o seu país e a Índia – no dia da apresentação, até o embaixador indiano em Moçambique estava presente. “Eu não queria ser a primeira, a primeira sempre é a cobaia”, confessou, mas sua orientadora, Jacqueline Haffner, a incentivou. O incentivo foi constante durante o período do doutorado e um dos pontos positivos para Hetalben, que apontou a confiança dos orientadores em seus orientandos e seu incentivo à produção científica como um dos principais pontos de seu doutorado. “Até quando havia discordância de ideias, dava para ver que o objetivo era o crescimento e o diálogo”, conta.

Foram 24 aprovados, dos quais 22 iniciaram o curso. Até agora, 19 já defenderam a tese. “É um bom número”, aponta Reis, “principalmente ao levarmos em consideração a pandemia, que ocorreu na época das defesas das teses”.

Hetalben Patel (Foto: Flávio Dutra/JU)
Outras iniciativas

No Brasil, outras instituições têm programas semelhantes de Dinter, como a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na UFRGS, são 21 doutorados interinstitucionais no Brasil e um internacional, o de Moçambique, mas novas cooperações estão surgindo. Um dos novos projetos é uma parceria do PPGEEI com o Instituto Superior de Relações Internacionais de Angola (Isri), iniciada em 2019 e que será semelhante ao de Moçambique, mas regulamentada pelo modelo Dinter. 

Há, também, projetos em desenvolvimento nos países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e Equador, na área de Ciências Sociais. Dentre esses, está em andamento inclusive um programa de pós-graduação multi-institucional na Universidad de La República (Uruguai) em conjunto com universidades da Argentina, Chile, Peru e Paraguai. Nesse projeto, uma instituição de cada país será a responsável por ministrar uma disciplina e haverá grandes seminários presenciais. As únicas brasileiras participantes do projeto são a UFRGS e a UFMG. “Os projetos em cooperação com diferentes universidades estendem os braços da UFRGS e abrem novas perspectivas de ensino”, sintetiza Barcellos.