Projeto incentiva o uso do cinema para debater questões raciais na escola

Educação | A partir de filmes que colocam em pauta a representatividade negra, iniciativa fornece subsídios para que professores trabalhem história e cultura afro-brasileiras em sala de aula

*Imagem: Gustavo Assarian

No final de setembro, estreou nos cinemas brasileiros o filme “A Mulher Rei”, com um elenco composto quase inteiramente por mulheres negras. Em visita recente ao Brasil, Viola Davis, a protagonista do longa e ganhadora do Oscar, incentivou o público a ir ao cinema prestigiar a obra. “Esse filme precisa fazer dinheiro, e isso me deixa em conflito. Se não fizer, o que isso vai significar? Que mulheres negras não podem liderar as bilheterias mundiais”, declarou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Sendo um meio de comunicação de massas, o cinema contribui para a criação de novas conjunturas. Com isso em mente, o projeto Cinema Negro na Escola, mantido em parceria entre UFRGS e a Prefeitura de Porto Alegre, tem o intuito de dar ferramentas e alternativas de atividades pedagógicas para que professores de escolas públicas consigam tratar da cultura afro-brasileira em sala de aula.

O projeto começou em 2020 em virtude da repercussão do caso de George Floyd, homem negro morto pela polícia de Minneapolis (EUA). “Foi então que surgiu a ideia, a partir do colega Marcos Melo, de naquele momento se adaptar ao virtual e encontrar um meio para se chegar até os professores, e com o programa poder falar de racismo estrutural”, explica a coordenadora do projeto de Alfabetização Audiovisual, Maria Angélica Santos. A partir de um conjunto de filmes – na maioria dirigidos por pessoas negras –, o projeto busca levar questões étnico-raciais para dentro da sala de aula. Entre os títulos escolhidos estão Lápis de Cor, de Larissa Santos, Ewé de Òsányìn – O segredo das folhas, de Pâmela Peregrino, e Filme de Domingo, de Lincoln Péricles.

A realização do projeto une diferentes esferas: além da Cinemateca Capitólio – responsável pela parte de Cinema –, participam a Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e professores da UFRGS, em projeto de extensão. “Essa foi a segunda edição, mas [a ideia é] que a gente possa ao longo dos anos aumentar. Ele [o Cinema Negro na Escola] tá dentro do guarda-chuva do Programa de Alfabetização Audiovisual, que se chama guarda-chuva porque nele há diversas iniciativas, sendo o Cinema Negro na Escola uma delas”, explica Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio.

Devido à pandemia de covid-19, o Cinema Negro na Escola foi realizado no formato online, o que pode proporcionar uma abrangência nacional e, segundo Angélica, resultou em grande repercussão. A coordenadora vê o projeto como um grande apoio no combate ao racismo, mas explica que a proposta vai além: a ideia principal é ajudar o professor a trabalhar com a Lei 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileiras nas escolas. “Essa é uma lei muito querida e necessária, mas nem sempre o professor se vê instrumentalizado para abordar esse assunto”, comenta Maria Angélica.

Familiaridade com o audiovisual

De acordo com Gabriel de Andrade Filho, professor da Faculdade de Educação da UFRGS e coordenador acadêmico do programa, a alfabetização audiovisual pode ser entendida como a familiaridade, seja em qualquer idade ou nível de escolaridade, com a linguagem audiovisual, ou seja, com os processos necessários para a construção de um filme: planos e enquadramentos da fotografia, movimentos de câmera, elaboração de roteiros, trilha sonora, cenários, figurinos, atuação, e todos os elementos necessários para contar uma história com imagens, palavras e sons.

O pesquisador complementa que o Cinema Negro na Escola tem o objetivo de contribuir para a sustentação de uma educação antirracista, levando discussões sobre questões raciais, cultura afro-brasileira e representatividade pela ótica do cinema. O projeto é composto de três módulos, cada um contendo filmes escolhidos e adequados à faixa etária dos alunos, da educação infantil ao ensino médio. Além disso, os filmes são curtos, o que favorece que as crianças mantenham a atenção nas obras.

Outros projetos da Cinemateca vão além da preservação fílmica, estimulando o processo educativo. Quando acontecem sessões presenciais, por exemplo, os alunos participam de visitas guiadas, em que acessam locais dos bastidores do cinema, entendem como funciona uma projeção e têm acesso a trailers e cartazes. “Muito além da curiosidade de conhecer um espaço que não se frequenta, tem o sentido disso [do conhecimento]”, explica Angélica.

Projetando novas experiências

Incomodada com a rotina de ensino que parecia não mudar, a técnica em educação básica de Canoas Janice Pacheco queria tentar abordar novas temáticas dentro da sala de aula. Antes mesmo de conhecer o projeto, se perguntava o porquê de a grande maioria das escolas terem o costume de proibir o uso da televisão em aula. Para ela, esse recurso precisa estar disponível e pode ser usado de forma pedagogicamente fundamentada. Além disso, quando via outros professores usando a televisão em sala de aula, percebia que os filmes eram da sua época de infância, como Cinderela e Branca de Neve, sem abordar as perspectivas atuais.

Depois que participou de duas edições do Cinema Negro na Escola, Janice conta que passou a trabalhar de forma mais estruturada com as crianças. Os projetos que desenvolveu com os alunos do ensino infantil e fundamental não tinham apenas a perspectiva de que as crianças assistissem a algo novo, mas que elas pudessem criar suas próprias histórias, sendo atuantes nesse processo.  

Um dos filmes que a educadora conheceu no projeto foi “Cores e Botas”, que conta a história de Joana, uma menina negra que tem como sonho ser paquita. “É o sonho de quase todas as crianças do Brasil. Todo mundo queria ser paquita, e como você vai ser paquita se é negra?”, relata. A partir desse filme, ela desenvolveu uma atividade com os alunos para debater sobre padrões de beleza, o que trouxe à tona questões de pertencimento.

“Me lembro até hoje: tinham dois meninos, um branco e um negro, e quando o menino negro foi pegar o lápis de cor que entendeu ser do tom da pele dele, o outro colega, branco, falou: ‘essa aí não é a tua cor’. ‘Não, mas eu sou dessa cor’, o menino respondeu. Ele tinha pegado um lápis rosa. O outro disse ‘não, tu não é branco, tu é negro’. No entendimento dele, o rosa seria o tom para quem tem a pele branca. Então o aluno negro disse ‘não, eu não sou negro, eu sou dessa cor’, querendo dizer que era branco. O outro insistiu com ele dizendo que ele não era daquela cor”, conta.

“Isso é muito forte, porque traz a questão de pertencer, de se autorreconhecer. Foi muito marcante o aluno branco reconhecer o negro, e o preto não se reconhecer como negro”

Janice Pacheco

Especial Novembro Negro 2022

Nesta edição especial alusiva ao Novembro Negro – série de eventos organizados pela comunidade universitária em função do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro – o JU traz para reflexão diferentes aspectos sobre apagamento, resistência e memória do povo negro. Acesse todo material da edição aqui.

Para ilustrar as matérias desse especial, apresentamos a obra do artista visual Gustavo Assarian, que utiliza o desenho como contraponto à impotência do ser humano diante do caos cotidiano. Acesse aqui o ensaio com as obras do artista.