Artigo | Rose Gurski e Dieine Mércia de Oliveira, da Psicologia, apresentam um projeto de escuta psicanalítica no campo social que desenvolvem junto a mulheres negras e periféricas na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre
*Por: Rose Gurski e Dieine Mércia de Oliveira
*Ilustração: Luiz Augusto Lacerda/IA-UFRGS
“É preciso conhecer a realidade da comunidade.” Com essa fala, uma das fundadoras do Coletivo Preta Velha – um coletivo de mulheres negras que, no ano de 2020, realizou a ocupação de um prédio escolar abandonado pelo Estado na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre – define um modo de fazer política: trazer o olhar periférico para o centro das discussões que importam! Ela segue: “Precisamos falar de nosso lugar com mais afeto, carinho, tratando das violências cotidianas”.
Essa narrativa, entre tantas outras semelhantes, foi escutada durante as atividades de pesquisa e intervenção que o NUPPEC/Eixo 3 desenvolve junto a esse Coletivo de mulheres periféricas. O Preta Velha originou-se do desejo de moradoras, nascidas e criadas na Vila Cruzeiro, de “devolver para a comunidade o que é dela por direito”. Na escuta que fazemos no território do Coletivo, muitas vezes, elas mencionam a preocupação de resgatar a dignidade de vida das mulheres dessa comunidade por se tratar de um território atravessado pela violência policial e pela negligência do Estado.
Ao longo dos anos, as condições de vida dos moradores do local foram se precarizando em decorrência, especialmente, da invasão do tráfico, da falta de acesso à educação, alimentação, energia e água. Além das insuficiências citadas, no ano de 2018, uma das escolas de referência da região foi fechada pelo governo estadual, que alegou pouco número de matrículas.
Com o abandono da escola, o espaço começou a ser frequentado por moradores de rua, facções criminosas e usuários de drogas – os quais eram abastecidos pelo tráfico da região. Com o tempo, o prédio foi, gradativamente, depredado e sua estrutura comprometida. Nas palavras de outra das fundadoras do Coletivo: “isso aqui parecia uma ‘cracolândia’, e a gente via apenas as cabecinhas das pessoas. Era cheio”. Importa sublinhar que foi a partir do aparecimento de um corpo morto, jogado nas valetas em frente à antiga escola pública da comunidade, que essas mulheres se uniram para ocupar o prédio da escola, dando um basta à violência e inaugurando, naquele espaço, o que elas nomearam de Coletivo Preta Velha. Com esse ato, elas encontraram uma alternativa ética e política para enfrentar as injustiças sociais vivenciadas cotidianamente por uma população que luta pelo direito de ocupar a cena pública.
Desde o momento da ocupação do prédio, esse movimento é compreendido como um ato de transformação social com capacidade de devolver à comunidade a história do território, das famílias e de muitas gerações que vivem na região. As lutas diárias e o modo de conduzir as dificuldades que surgem diante da tentativa de apagamento sócio-histórico, sobretudo dos povos negros, periféricos e do gênero feminino, são anunciados por Carolina Maria de Jesus quando, em 1986, diz: “Ah! Comigo, o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”.
Compreendemos que o mundo ao qual Carolina se refere é o mesmo que dá propósito ao Coletivo Preta Velha e também àquilo que Maria Lúcia da Silva – psicanalista, mulher negra e ativista do Movimento de Mulheres Negras – escreve no texto O Racismo e o Negro no Brasil: questões para a psicanálise, como: “A manutenção ou superação do racismo no Brasil, e seus efeitos perversos, depende de uma decisão coletiva, que implica corresponsabilidade”.
O projeto que estamos apresentando tem sido construído por muitas mãos e conta com a colaboração de muitos parceiros. Entre eles, professores de diferentes unidades da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O Preta Velha tem sido um espaço de acolhimento das dificuldades da população, bem como de oferecimento de atividades que contemplam um cuidado sociopolítico através de ações socioassistenciais, educacionais e culturais.
Desde 2022, iniciamos um processo de aproximação com o território, por meio do dispositivo da escuta-flânerie ou escuta-flâneuse no espaço do Coletivo. Compreendemos, por meio dessa ferramenta, que, para desenvolvermos atividades de escuta que abranjam a saúde mental nos territórios, precisamos escutar as demandas daquele local, sobretudo o desejo e o sonho das mulheres que fundaram esse espaço reconhecido pelo seu agir ético e político. É preciso “ouvir o outro a partir do seu contexto histórico”, como sugere Maria Lúcia Silva. Temos nos dedicado a pensar acerca da realidade sobre a qual a moradora da comunidade falou e, também, a respeito da dimensão enunciada por ela “de devolver para a comunidade o que é dela por direito”.
Após esse tempo inicial de familiarização que a flânerie ou a flâneuse emprestou às pesquisadoras, foi possível, como escutadoras-flâneuses, testemunhar delicadamente o dia a dia do Coletivo e das lideranças femininas. Acreditamos que tal testemunho se ancora tanto na relação transferencial construída junto ao Coletivo como na proposta da fala em associação livre, nos moldes de Sigmund Freud, visto que elas passaram a narrar suas realidades e seus sonhos em um espaço coletivo.
A partir da escuta das lideranças e após um tempo de circulação no território, passamos a escutar a demanda de que pudéssemos nos ocupar de suas filhas – meninas adolescentes moradoras do território da Vila Cruzeiro. A preocupação com o acolhimento refere-se a criar novas possibilidades de sonhar um futuro diferente daquele que o presente oferece.
Assim, afora a escuta-flâneuse, também temos espaços de Rodas de Sonhos com meninas adolescentes do Coletivo. Esses encontros foram propostos a partir da preocupação com a transmissão geracional da dor produzida pela violência de gênero. A ideia é que possamos, por meio da escuta das filhas, colocar um contraponto e uma oposição a um destino “comum” que deriva das inúmeras dores provocadas pelo lugar de invisibilidade especialmente das mulheres negras e periféricas – como nos ensina Suely Carneiro.
Foi nesse cenário que passamos a promover no espaço do Coletivo as Rodas de Sonhos, um dispositivo de caráter clínico-político já consolidado no âmbito da política socioeducativa. As Rodas constituem-se um espaço no qual experimentamos a oniropolítica: as meninas são convidadas a falar de forma livre a respeito do tema dos sonhos e do sonhar, isso desde uma perspectiva coletiva e política.
Buscamos construir dispositivos clínicos de escuta no campo social de forma semelhante aos anseios de Freud e das primeiras gerações de analistas do século XX. Ao nos aproximarmos do território e das demandas emergentes daquele lugar, consideramos “as condições sociopolíticas dos sujeitos com os quais trabalhamos, sem negligenciar o rigor dos fundamentos psicanalíticos – dentre eles, os aspectos éticos e políticos ligados à realidade social brasileira”.
Rose Gurski é psicóloga e psicanalista e professora do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do PPG em Psicanálise: clínica e cultura (UFRGS) e do PPG em Psicologia Clínica (USP). Pesquisadora CNPq. É pesquisadora do PSOPOL/USP e coordenadora do NUPPEC – Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (UFRGS).
Dieine Mércia de Oliveira é psicóloga, mestra pelo PPG Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS) e doutoranda no PPG em Psicologia Clínica (USP). É pesquisadora participante do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC/UFRGS) e do Laboratório Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL/USP).
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”
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