Educação | Ofício ainda encanta diferentes gerações, mas o quadro de desmotivações preocupa. A maior diversidade no perfil dos alunos também recomenda políticas públicas mais atentas à realidade dos educadores
*Foto: Oficina de serigrafia ministrada por Adalberto Porto Alegre no saguão do Instituto de Artes da UFRGS em 12/09/2012 (Crédito: Denis Nicola)
“Tive minha educação em colégio público. Todos os meus professores reclamavam dos salários. Eu não prestava atenção à aula, era um aluno meio f… para tudo. Mas, aí, uma professora começou a ensinar o porquê das coisas. Comecei a ver a matemática de outro jeito e decidi seguir profissionalmente. Valorizar os professores tem que sair do governo.”
Essa emblemática combinação entre o encantamento pelo ensino da matemática e a perturbação com a situação do magistério relatada por Rodrigo Hernani do Prado Santa Maria, 18 anos – um entre os mais de 20 mil candidatos que prestaram a prova do ENEM no mês de novembro em Porto Alegre –, retrata um dos conflitos que cercam a opção por essa profissão. Um cenário sintomático de causas e implicações preocupantes.
Conforme dados do último Censo de Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dos 20 maiores cursos em número de matrículas de graduação, apenas dois são das licenciaturas (Educação Física e Pedagogia).
O censo também destaca o crescimento da educação a distância nas licenciaturas: 64% dos matriculados e 81% dos ingressantes estão nessa modalidade. A mesma tendência é apontada pelo estudo sobre Indicadores de Qualidade da Educação Superior no Brasil, também realizado pelo Inep, que revela que apenas 38% dos alunos de licenciatura em instituições federais concluíram a graduação de forma presencial.
Mas a compreensão da dimensão dessa situação requer ir muito além dos números.
Evasão, causa e sintoma
Para a professora Nadja Regina Chiarelli Rolim, 49 anos de idade e há 23 no magistério, “a desvalorização se dá dentro da escola (alunos, pais, direção), de fora da escola, dentro da SEDUC (Secretaria Estadual de Educação do RS) e socialmente”. Nomeada pela rede estadual do RS em 2001, ela atua no Ensino Médio e Pós-Médio de formação de professores no Instituto de Educação General Flores da Cunha, em Porto Alegre.
Reconhecida como uma entusiasta na formação docente e conhecida por aliar sensibilidade e criatividade nas suas aulas de Ciências, Nadja levanta preocupações com o desinteresse pelo magistério já na formação técnica. “Em nosso curso, é comum a turma de 1.º ano do Curso Normal/Médio, o antigo Magistério, iniciar com 30 alunos e terminar com quatro. Ainda assim, dos quatro últimos estudantes, um deles costuma ir para outra área na faculdade. E foram alunos incríveis, participando de todas as práticas docentes de forma brilhante”, lamenta.
A evasão, enquanto fenômeno educacional, aliás, parece se apresentar hoje, simultaneamente, como causa e sintoma. “Não é somente a procura por cursos de licenciatura que diminui, também há o aumento de professores da ativa em busca de mudar de carreira, de um emprego de 40 horas semanais que lhes tire do pesado ambiente escolar cotidiano”, observa Alexander Montero Cunha, coordenador da Coordenadoria das Licenciaturas (Coorlicen) da UFRGS.
Eleita em plenária e constituída por representantes de todos os cursos de licenciatura da Universidade, a Coorlicen auxilia atividades, programas e projetos que envolvem as licenciaturas. “Muitos recém-formados nos cursos de licenciatura nem chegam a ministrar aulas, buscando rapidamente alternativas para a sua trajetória profissional que não a docência. E os estudantes percebem essa situação. Claro que todo esse contexto vai afastar o interesse em ser professor”, dimensiona.
Igualmente desperta atenção o caso de professores que deixam os bancos do magistério precocemente. “Gerava em mim uma angústia, o sentimento de que não estava conseguindo cumprir meu papel de facilitar o conhecimento ativo, vivo, alegre”, declara Sirlei Maria Minosso, 56 anos, que parou de lecionar em 2013. Pedagoga com duas especializações, Sirlei foi professora das séries iniciais na rede estadual por sete anos, até decidir abandonar formalmente a carreira para se dedicar a um trabalho com terapias naturais. “Atuo por uma formação mais ampla, que envolve a temática educação, saúde e espiritualidade”, resume.

Para a professora Nadja, do Instituto de Educação, um abandono da sala de aula por um docente ainda em pleno potencial é um prejuízo coletivo.
“Profissionais que acumularam conhecimento e que gostam de seu trabalho, procurando a aposentadoria e outros caminhos profissionais, poderiam estar compartilhando isso com novos professores nas escolas”
Nadja Regina Chiarelli Rolim
Um balanço rápido das densidades de procura entre 10 cursos de licenciatura da UFRGS nos últimos 10 anos reitera o motivo para a atenção às tendências de declínio da demanda, pelo menos no regime presencial. Os cursos que tinham uma procura ascendente antes da pandemia – Geografia (noturno), Pedagogia e Matemática (diurno) – retomaram esse crescimento. No entanto, a maioria já registrava queda mesmo antes da pandemia.
Densidade em Concursos Seletivos nos últimos 10 anos

Os dados acima precisam ser compreendidos no contexto de mudanças tecnológicas, advindas do crescimento do ensino remoto, sobretudo após a pandemia de covid-19, e que também tem incidência no mundo do trabalho.
A esse respeito, Alexander Cunha sugere atenção ao estudo “Expansão dos cursos de licenciaturas no Brasil – Período de 2010 a 2018”, apresentado em 2020 no VII Congresso Nacional de Educação (CONEDU). “A pesquisa indica que no período considerado houve um aumento na matrícula no Ensino Superior em geral (presencial e a distância), mas a matrícula nos cursos presenciais de licenciatura diminuiu”, observa.
A despeito dessas oscilações, são também incontáveis os exemplos de profissionais que assumem o magistério como uma opção de vida, a ponto de transformar em referência. “Meu pai, antes de ser professor, já atuava como educador social e ele me incentivou [a seguir a docência]. Depois de concluir a Licenciatura em Pedagogia, ingressei na Licenciatura de Artes Visuais, também inspirado na sua trajetória”, relata Andriws Porto Alegre, 39 anos, atualmente professor no município catarinense de Palhoça.
Adalberto, o pai de Andriws, aponta que “a valorização profissional, acompanhada, é claro, de uma remuneração que faça jus à sua importância, certamente vai reverter esse quadro [de desinteresse pelas licenciaturas]. Com uma longa trajetória de Educador Social anterior ao magistério, ele hoje aproxima sua experiência de oficineiro de serigrafia às suas aulas de Artes Visuais no Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire, onde leciona para alunos de várias idades.

Controle, sobrecarga e precariedades
Voltando ao espectro do cotidiano profissional, os cerceamentos administrativos estão também entre as reclamações dos profissionais. “Não há uma decisão que não seja pensada com medo. Acompanhei o caso de uma professora que sofreu processo por denunciar uma situação; em outro, uma denúncia realizada na Seduc/RS transformou-se em B.O. contra a professora. O jurídico da Coordenadoria Regional de Educação (CRE) não teve a capacidade de chamar a professora para ouvi-la”, exemplifica a professora Nadja.
As tendências de controle da sala de aula a partir de morais e ideologias questionadoras da própria legitimidade do professor para escolher seus conteúdos é outro ponto que preocupa. “Há uma lógica de perseguição e denúncias por parte da ideologia nefasta da ‘Escola sem Partido’”, aponta Rafael Claros, 48 anos, há cerca de 11 anos na rede pública estadual, atualmente lecionando as disciplinas de História, Geografia e Mundo do Trabalho no Instituto Dom Diogo de Souza, em Porto Alegre.
No que diz respeito ao nível básico, o abandono do aluno pela família é uma das queixas que surge entre os professores. “O que mais desvaloriza nosso trabalho é a falta de engajamento e comprometimento dos pais na educação dos filhos”, repara Débora Duarte da Silva, 35 anos, professora do 4.º ano do Ensino Fundamental na rede municipal de Nova Santa Rita. “Quem ministra aulas em escolas mais periféricas sabe o ambiente em que se encontra no qual, muitas vezes, são delegadas [a professoras e professores] funções que seriam de assistências sociais, de familiares e até mesmo de profissionais da saúde ou do judiciário”, nota Alexander Montero, da COORLICEN/UFRGS.
No caso dos professores em regime contratual, a sobrecarga de trabalho também preocupa. “Baixos salários nos obrigam muitas vezes a dar aula em mais de uma escola, e as condições de trabalho acabam por provocar o adoecimento”, observa Tyrone Andrade de Mello, 48 anos, professor de Geografia contratado em regime de 40 horas semanais. Ele leciona há 20 anos na rede estadual em Porto Alegre para turmas do 6.º a 9.º ano do Ensino Fundamental, mas prefere não mencionar as escolas em que trabalha.
A infraestrutura das instituições de ensino é lembrada como outro fator desmotivador. “Olhar as salas de aulas ‘estragadas’, a falta desde o papel higiênico, essa escassez toda dá uma sensação de incapacidade, e o desânimo pode ser observado pela aparência dos professores”, repara Nadja, do IE.
Com relação à formação, as questões vão desde a preparação para um cenário atual cada vez mais inclusivo, passando pelos desafios do ensino remoto e as adequações para a implementação de projetos de atualização condizentes com os contextos em questão.
“Sei que a SEDUC propôs cursos de formação, a maioria online. Vejo estes como paliativos. Pode-se até ter boas ideias e perspectivas pedagógicas, mas parecem não se conectar com o dia a dia da escola, parecem fora da realidade concreta, muito ‘bonitinhas’, ‘pra inglês ver'”, avalia o professor Rafael Claros, da rede estadual. Com uma perspectiva crítica, ele não vê eficiência no modo como tais iniciativas se apresentam. “Só tem interesse por parte da categoria quando tem algum retorno financeiro. A maioria não tem esse tipo de estímulo, até onde sei”, avalia.
Já Nadja considera que a formação online está, muitas vezes, fora da realidade da escola. “Em julho, a formação oferecida pela Seduc para nossa escola foi em vão. Disseram que falariam sobre o curso normal, e não houve nada. Ficamos esperando o que não aconteceu”, queixa-se.
Ela observa ainda a situação da inclusão como uma realidade que cobra novas capacitações, que nem sempre dão conta das demandas. “Neste ano vi duas professoras pedirem aposentadoria por verem o perfil de estudante mudar e não possuírem apoio da escola. Somente ter professor de AEE (Atendimento Educacional Especializado) não é o suficiente para uma escola fazer as inclusões necessárias”, considera.
A paixão pelo aprender, tão intrínseca ao ofício do professor quanto a de ensinar, exige às vezes um esforço especial ante às condições impostas. “Hoje estou finalizando o mestrado graças à ajuda de um tio que me auxiliou. Conciliar estudo continuado com uma carga horária de 40 ou 60 horas, mantendo a saúde, é quase impossível”, admite Nadja. “Nesses últimos anos vi pouquíssimos colegas concluírem a faculdade e o mestrado trabalhando 40h.”
Caminhos pela valorização
Em meio a esse quadro, em outubro do ano passado, a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) realizou em Manaus (AM) sua 41.ª Reunião Nacional. Em uma das mesas, “CONAE 2024: Plano Nacional de Educação 2024-2034“, a professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Suzane da Rocha Vieira Gonçalves apresentou as diretrizes norteadoras do quinto eixo da Conferência Nacional de Educação 2024: “Valorização dos profissionais da educação, garantia do direito à formação inicial e continuada de qualidade, ao piso salarial e à carreira e às condições para o exercício da profissão com saúde”.
“Quando falamos em valorização, não há como não pensar a indissociabilidade entre a formação inicial, formação continuada e as condições de trabalho”
Suzane da Rocha Vieira Gonçalves
“Hoje, 45% dos professores atuam com contratos precários. Há estados em que 70% de sua rede docente é [vinculada à rede] por meio de contratos. Além disso, há um esvaziamento das licenciaturas, e isso tem um impacto na carreira”, enumera.
Embora identifique essa relação em cadeia que se opera para a desvalorização profissional, o coordenador do Coorlicen considera necessário compreender as deficiências na educação brasileira a partir de uma análise histórico-estrutural, operada em um processo para o qual as respostas precisam ser também pensadas por diversos atores e projetadas para um longo alcance.
Como parte do trabalho da Coorlicen, foi divulgado este ano o relatório técnico “Ciclo de debates com as COMGRADs e NDEs dos cursos de licenciatura UFRGS”, que apresenta o resultado de um Grupo de Trabalho envolvendo pesquisas e diálogos desse coletivo com todas as Comissões de Graduação (Comgrads) de licenciaturas da UFRGS.
“Qualquer solução ‘mágica’, rápida e pontual, sem discussão ampla com as entidades que participam do Sistema Nacional de Educação, traz outros problemas, muitos deles piores. É preciso chamar as escolas, os professores, as universidades, os formadores de professores, os sistemas educacionais, toda a comunidade educacional para discutir política de médio e longo prazos para a educação”, avalia.
A reportagem do JU ouviu a Secretária de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (Seduc) sobre as demandas manifestadas. Por meio de sua Assessoria de Comunicação, a Seduc esclarece que o Curso Normal (Magistério) é uma modalidade de formação profissional em nível técnico para a atuação docente na Educação Infantil, com crianças pequenas em fase de alfabetização e dos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Com relação aos salários dos professores, a Seduc informa que, após os esforços do Governo para a realização de reformas administrativas e a consequente conquista do reequilíbrio fiscal, foi possível colocar os salários dos servidores em dia. A respeito da infraestrutura, a secretaria informa ainda que uma série de obras e reformas de infraestrutura estão sendo executadas nas escolas estaduais, visando garantir espaços escolares qualificados para atender todos os estudantes.
Finalmente, sobre as qualificações, a Seduc cita o Portal Educação, ambiente no qual docentes podem se inscrever para palestras, cursos, oficinas e seminários que ocorrem de forma presencial, semipresencial e de forma remota. Ainda, no decorrer do ano letivo, ocorrem transmissões ao vivo com formações pelo canal do YouTube TV Seduc RS.

