Artes visuais | Paulo Gomes, historiador da arte, analisa a obra pertencente à coleção da UFRGS e que atualmente se encontra em exposição permanente no segundo andar do prédio da Reitoria, no Câmpus Centro
*Por: Paulo Gomes
*Foto: Giovanni Álvarez Ramos
Do numeroso grupo de estudantes do Curso de Escultura, criado por Fernando Corona em 1937, destaca-se Dorothea Vergara Pinto da Silva (Porto Alegre, 1924 – 2021). Sem nunca ter feito uma mostra individual, sua carreira é marcada por algumas participações em exposições e salões e, se a escultora ainda não recebeu a merecida atenção dos historiadores da arte, isso se deve, principalmente, ao fato de sua obra estar pouco representada em coleções públicas: cinco peças no acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo (UFRGS); e um desenho na coleção do MARGS.
Dentre as obras pertencentes à Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, destaca-se a Moça (Figura Feminina, 1947), uma obra fora dos padrões da própria escola. O que vemos é a ênfase na naturalidade da postura da modelo com, no alto do seu corpo esguio, a cabeça de um sabor quase arcaico, uma síntese de traços indígenas e negros muito fortes. Observamos também a simplicidade da forma (sem ênfase na musculatura ou na expressão facial), isto é, formas sintéticas ao invés de formas expressivas e, finalmente, a qualidade do acabamento, que é liso e sem as marcas da mão do artista.
Sua premiação no I Salão Pan-Americano (1958) tem um significado que extrapola os limites do salão e da sua orientação estilística, equivocadamente visto como reacionário e passadista. É a consagração de um pensamento plástico, que estava em curso dentro do Instituto de Belas Artes desde 1938, resultado da lenta ruptura com a tradição escultórica local. Promovida por Corona em suas obras e no seu magistério, foi consolidada na obra de Christina Balbão (1917-2007), Alice Soares (1917-2005) e Leda Flores (1917-2016).

A consagração da peça, mais do que um prêmio individual, é o reconhecimento do sistema, e do Instituto de Belas Artes, de que algo havia mudado na velha e tradicional escultura local. Como resultado, nos anos seguintes, principalmente na década de 1960, surgirá um notável grupo de escultores de matriz modernista, rompendo definitivamente com a tradição da escultura eclética.
Interpretamos hoje a Moça pelos seus valores artísticos e simbólicos irrefutáveis, relevantes para a evolução da escultura no Rio Grande do Sul. Se é notável a marca do estilo da moderna escultura europeia, que tanta influência exerceu no centro do país, ela deve, entretanto, sua excelência ao talento de Dorothea Vergara e, também, muito aos ensinamentos de Fernando Corona, escultor erudito e profundo conhecedor da moderna escultura francesa e de seus princípios de limpidez de formas e essencialismo de expressão.


Paulo Gomes é professor aposentado do Departamento de Artes Visuais e coordenou o Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo de 2012 a 2023.
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel.

