Nascente na Lomba do Pinheiro ilustra os esforços e entraves para viabilizar a existência de fontes de água públicas

Meio ambiente | Ocupação desenfreada do espaço urbano e dificuldade de articulação com o poder público prejudicam os esforços comunitários para recuperar e preservar os vertedouros, que seguem contaminados e impróprios para o consumo

*Desabastecimento de água em Porto Alegre levou muitas pessoas a buscarem fontes públicas nesta semana. Na foto, fonte localizada na Rua Carlos Trein Filho, no Bairro Auxiliadora (Flávio Dutra/JU

Na lista de fontes de água registradas pela Prefeitura de Porto Alegre que passou a circular nos grupos de whatsapp nos últimos dias, um endereço me chama a atenção: Rua das Jaboticabas, 73, na Lomba do Pinheiro. Já estive, em outros tempo, envolvido com a Horta Comunitária da região, projeto de referência na cidade.

Não demora muito, recebo, no grupo da iniciativa, um vídeo da Lurdes Ágata, uma das lideranças da comunidade, em frente à fonte, apresentando para a população o contexto que proporcionou a existência daquela estrutura pública. Prontamente fiz contato com ela para saber como estava a procura pela água.

Segundo Lurdes, que além da horta também atua na Associação de Moradores da Vila Pinhal, a água acabou na Lomba do Pinheiro no domingo de manhã. “As pessoas estão vindo de várias comunidades, desde a Pitinga até a Agronomia. O quadro delas é bem grave, são pessoas em extrema vulnerabilidade social. Em geral, elas não têm a informação de que não se trata de uma água potável”.

“A gente está passando a informação para que não bebam a água sem ferver. E me respondem que não têm gás. A realidade dessas pessoas é ter o seu fogão a lenha ou o fogo de chão”

Lurdes Ágata
Frame do vídeo em que Lurdes Ágata, em frente à nascente da Rua das Jaboticabas, apresenta o contexto da existência daquela fonte pública
Mobilização comunitária

A segurança para afirmar que a água não está adequada para o consumo é conhecimento que provém de anos de mobilização da comunidade com a constituição de um grupo de trabalho para recuperação da bacia hidrográfica do Arroio Taquara, que recebe as águas da nascente.

Em 2017, o coletivo passou a contar com a participação do Centro de Ecologia da UFRGS, numa ação encabeçada pela professora Teresinha Guerra, do Instituto de Biociências.

“Fizemos levantamento da potabilidade e verificamos que a água estava contaminada. Havia moradias construídas num ponto acima da fonte. Então, o DMAE realizou obras com melhoria significativa na condução do esgoto”. No decorrer do trabalho, fizeram a identificação da existência da nascente com água corrente permanente na Rua das Jaboticabas. Esse ponto era usado pela população em virtude de constantes falhas no abastecimento da região.

“A partir disso, a Vigilância em Saúde incluiu essa nascente na lista de nascentes de Porto Alegre, mas em análises posteriores ainda detectamos a presença de contaminação”

Teresinha Guerra

A docente explica que, para realizar a descontaminação, o ideal é usar hipoclorito de sódio. Se ele não estiver disponível, pode-se filtrar a água e fervê-la por cinco minutos.

Cartaz elaborado pelo grupo do Centro de Ecologia da UFRGS, encabeçado pela professora Teresinha Gyerra, voltado para a conscientização da comunidade do entorno do arroio (Arquivo pessoal))
Despoluição e conscientização

Teresinha explica que o arroio Taquara se situa na parte sul da Represa da Lomba do Sabão, tem extensão aproximada de 2.800 metros e está numa área com mais de 20 mil habitantes, na porção mais urbanizada da Lomba do Pinheiro, o que agrava o quadro de poluição. “Uma das atividades realizadas pelo Centro de Ecologia foi mostrar para a comunidade a péssima qualidade das águas do Arroio Taquara”, relata.

De acordo com Lurdes, parte da população toma o arroio por um “valão”, onde jogam lixo, esgoto e resíduos de todo tipo, como pneus, roupas e restos de construção. Além disso, completa Teresinha, há o processo de assoreamento do leito do arroio e erosão das margens por conta da retirada da vegetação.

Para tentar reverter essa situação, o GT promoveu seminários, debatendo a importância do arroio e suas nascentes. “Foi feito um trabalho de conscientização, desde a parada 16, onde fica a nascente, até a parada 9”, ressalta a líder comunitária – referindo-se ao número da parada de ônibus, forma como se dá a localização na região.

Teresinha considera que a constituição do grupo foi um processo muito interessante, porque reunia a comunidade local, Vigilância em Saúde, representantes de diversos segmentos e de órgãos da Prefeitura de Porto Alegre, como DEP, DMAE, DMLU e outros setores, bem como a Agronomia e o Centro de Ecologia da UFRGS. Nos últimos anos, porém, o grupo perdeu força e mobilização, segundo Teresinha, por conta da reestruturação da administração municipal, com o fechamento do DEP, e da diminuição da participação de outros órgãos da prefeitura.

Preocupação com o futuro

Lurdes julga que a ação do grupo foi um trabalho muito árduo, mas vitorioso. “Só que ninguém deu ouvidos para nós. Nem sonhávamos com todas essas desgraças que vinham por aí, mas já estávamos nos preparando e prevenindo. Tudo isso que tá acontecendo, e as nossas nascentes vão sendo ocupadas por moradores porque não há uma política de moradia. As pessoas vão indo, vão ocupando.”

Ela lembra que a água poderia estar protegida se houvesse maior mobilização da sociedade e do poder público.

Material produzido pelo Telessaúde/RS orienta sobre como tratar a água para consumo humano