Uma carta a Dimitri Ismailovitch, mestre da retratística, autor do retrato na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Artes visuais | A bacharel em Artes Visuais Mariana Christmann escreve ao autor de sua obra favorita da Pinacoteca, expondo as dúvidas que dão início a uma nova pesquisa

Caro Sr. Dimitri Ismailovitch, 

Escrevo esta carta para lhe dizer que não está sendo uma tarefa fácil lidar com a sua pintura. Calma, irei me explicar! 

Existe um retrato pintado por você no acervo em que trabalho. A tela, catalogada como Sem título (1955), é protagonizada por uma figura feminina que aparece centralizada na imagem, sentada em um banquinho azul, com bordas em cinza escuro, de mãos postas sobre o colo. O vestido preto e elegante, ornado com um grande e luxuoso laço que desponta acima do ombro esquerdo da mulher, estabelece um belo contraste entre a retratada e o fundo brilhantemente dourado. Trabalhando a figura de maneira extremamente naturalista, a expressão e o olhar sereno que ela sustenta e direciona ao espectador é quase real. É maravilhoso! Certamente uma tela lindíssima, mas ela me intriga! Por que o fundo dourado? 

Por que pintar florzinhas tão simples no canto inferior esquerdo da tela? Por que colocar sobre uma paisagem gráfica, como o de uma gravura japonesa, uma moça vestida à moda da década de 1950 no Brasil? Quem é a mulher no retrato? Foi quem encomendou? Foi uma encomenda? 

O senhor a produziu especialmente para o VI Salão de Belas Artes, promovido, em 1955, pelo Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul? Pergunto porque a obra é datada do mesmo ano do Salão ao qual foi inscrita.

Por que o quadro se parece tanto com suas outras pinturas e, ao mesmo tempo, não? Sim, eu sei, existem outras telas em que você pinta o fundo de dourado, mas as figuras retratadas parecem, de fato, pertencer àquela paisagem, como em Princesa Persa (1947, coleção particular), por exemplo. Há influências da sua formação bizantina adquirida no período em que o senhor morou e estudou em Constantinopla? Seria apenas um elemento decorativo? 

No fim, a moça é uma modelo anônima e não uma pessoa influente? Sei que o senhor fazia retratos da nata carioca no período em que viveu no Brasil, entre os anos de 1927 e 1976. Nomes como Heitor Villa-Lobos, Eurico Gaspar Dutra, Lily de Carvalho Marinho e Assis Chateaubriand são um exemplo. Após passar por Istambul, Londres, Nova Iorque e Atenas, por que escolheu as terras brasileiras para fixar-se? 

No catálogo do Salão ao qual a obra foi submetida, a informação que consta é a de que o título dela é “Retrato”. Retrato de quem, meu caro Ismailovitch? Ajudaria tanto uma identificação! 

Sinceramente, quero muito saber. Como já deve ter percebido, tenho muitas perguntas. É sempre um desafio embarcar em uma nova pesquisa. Mas talvez isso seja o mais interessante, certo? São as interrogações que me movem. A tarefa, agora, é estabelecer uma linha metodológica e seguir, mesmo que, no início, tudo pareça ser um pouco abstrato. Vou mergulhar em arquivos e analisar jornais, revistas e documentações que encontrar. Lerei o que já escreveram sobre você e tentarei buscar respostas. Irei achar? Não sei. Faz parte… São as inquietações.

Com carinho, mas também com alguma frustração, 

Mariana

Dimitri Ismailovitch (Satanov, Ucrânia, 1892 – Rio de Janeiro, RJ, 1976)
Sem título, 1955
Óleo sobre tela, 91cm x 72cm

Mariana da Silva Christmann foi bolsista do Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo entre 2022 e 2024. É bacharel em Artes Visuais e graduanda em História da Arte na UFRGS. 

Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel.