Pinacoteca | Mel Ferrari, historiadora da arte, analisa a obra da escultora e pintora que foi a primeira mulher a lecionar no Instituto de Artes da UFRGS
A revisão da história de Christina Helfensteller Balbão (Porto Alegre, RS, 1917 – 2007), nos últimos anos, permitiu a descoberta de fatos importantes para a história da arte do Rio Grande do Sul. A artista foi a primeira professora a lecionar no Instituto de Artes, em 1945. Participou ativamente da concepção do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) ao lado de Ado Malagoli, onde atuou como assistente técnica por 33 anos, sendo a funcionária mais longeva da instituição. Durante sua trajetória no Margs, desempenhou um papel essencial na mediação cultural e na formação de públicos, acreditando que o aprendizado das artes transcendia a sala de aula.
A produção artística de Christina Balbão estende-se de 1933 a 1963, com destaque para seus bustos em gesso e autorretratos, que afirmavam sua presença em um meio predominantemente masculino, além de um conjunto de pinturas abstratas apresentado publicamente em exposição coletiva na Galeria do Correio do Povo em 1949, tornando-a pioneira dessa temática no Brasil. Suas obras permaneceram desconhecidas às novas gerações até sua exposição retrospectiva Christina Balbão: Além do Silêncio (Margs, 2023 – 2024), realizada graças a uma grande doação de obras ao museu feita por sua família.
Balbão foi aluna do Instituto de Artes de 1933 a 1942, cursando pintura, escultura e, posteriormente, aperfeiçoamento em pintura, quando teve aulas de paisagem ao ar livre com Luís Maristany de Trias. Na época, apesar da entrada de professores mais modernos como Ângelo Guido, João Fahrion e Oscar Boeira, ainda predominava na capital gaúcha um ambiente conservador em relação à produção artística, ou seja, um modelo de ensino baseado na representação naturalista, com resistência ao modernismo paulistano.
Em 1939, Balbão matriculou-se na cadeira de escultura com Fernando Corona e, devido a seu talento, logo se tornou sua assistente. Em seus diários, o professor lhe dedica cinco páginas, afirmando que “Cristina H. Balbão foi a primeira aluna com grande vocação formada em Porto Alegre”. Sua produção era inspirada tanto pelo conhecimento técnico das aulas quanto pelas viagens de estudo que realizava para locais como Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.
No acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, há um conjunto de três esculturas de autoria de Cristina: Sem título (cabeça de mulher), 1963; Sem título (cabeça de menino), 1958; e Cabeça de velha, s.d., que demonstra sua qualidade técnica e seu característico modelado. A artista deixava espessas camadas de matéria na superfície dos bustos, diferente do que se via à época.
Balbão utilizava como ateliê um dos cômodos da casa onde morava, na Rua Fernando Machado, em Porto Alegre, e tinha particular interesse em retratar pessoas e tipos comuns, tanto na escultura quanto na pintura, utilizando o desenho como base. Nas peças mencionadas, observa-se a carga de sentimento que as expressões dos modelos carregam: o ar de ingenuidade do menino com a boca entreaberta, o olhar sério da mulher que encara o espectador e a tristeza da velha senhora que baixa a cabeça quase em súplica, permitindo imaginar o restante de seu corpo sofrido.

Escultura em gesso, 61cm x 35cm x 37cm
Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre
Imagem: Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Escultura em gesso, 53cm x 24cm x 30cm
Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre
Imagem: Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Escultura em gesso, 33cm x 24cm x 26cm
Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre
Imagem: Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo
Esse modelado característico desenvolveu-se até atingir formas abstratas, um caminho possível se pensarmos na convergência com sua produção em pintura (as telas abstratas pertencem ao acervo do Margs). Conforme relato do amigo e artista Luiz Gonzaga, em uma exposição no Salão de Atos da UFRGS, em 1960, Balbão expôs um conjunto de três peças abstratas em gesso, sendo uma delas denominada “Catedral”. Infelizmente essas obras não foram localizadas.
À medida que essa produção rompia os padrões da época, e embora tenha recebido críticas favoráveis na imprensa, é provável que Balbão tenha parado de produzir devido à falta de reconhecimento de seus pares. A partir da década de 1960, ela passou a se dedicar exclusivamente ao ensino das artes, construindo uma trajetória de importância para o campo. Balbão não seguia o padrão de ensino acadêmico tradicional; em vez disso, adotava uma nova concepção focada no desenvolvimento da expressão. Essa abordagem, alinhada às tendências modernistas em educação inicialmente promovidos pela Escola Nova no Brasil, influenciou toda uma geração de artistas formados pelo Instituto de Artes.

Mel Ferrari é doutoranda em História, Teoria e Crítica de Artes pelo PPGAV/UFRGS e coordenadora do acervo do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS).
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.
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