Saúde | Estratégias para continuar o trabalho realizado com beneficiários do Bolsa Família, escolas e pessoas em situação de rua integram a rotina da Unidade Básica Santa Cecília
A Unidade Básica de Saúde Santa Cecília, localizada no complexo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, teve que reorganizar as rotinas da equipe interdisciplinar de profissionais da saúde, bem como de professores, estagiários e residentes, para garantir a continuidade da atenção básica à saúde durante a pandemia. A implantação do teleatendimento e a realização de consultas apenas com hora marcada – exceto casos emergenciais, como para pessoas com sintomas respiratórios – foram acompanhadas de pequenas revoluções: até mesmo a renovação de receitas pode ser feita de forma online, pelo WhatsApp, sem que seja necessário comparecer ao posto
A equipe mantém bom vínculo com os pacientes e com os cuidadores. Na maior parte dos casos, conseguem fazer a consulta por chamada de vídeo ou por telefone. Visitas domiciliares acontecem apenas em casos extremamente necessários — pacientes acamados, que fazem uso de sondas ou que tiveram alta da internação hospitalar. “É um momento de capacitação e adaptação. Estamos vendo que os humanos estão mais flexíveis”, comenta Marina Carvalho Berbigier, nutricionista da Unidade.
A nova dinâmica da UBS resultou na integração e na melhora da comunicação da equipe. Para reduzir a necessidade de circulação das pessoas, os profissionais muitas vezes optam por fazer interconsultas, em que dois ou mais profissionais participam da avaliação dos pacientes. A quebra de barreiras disciplinares se reflete em todos os níveis profissionais: “Os estagiários vinham muito focados nas suas disciplinas. Hoje, quando o profissional chega ao contato com o paciente, ele leva várias demandas. Muitos estagiários da Medicina vêm discutir conosco, o que antes não acontecia muito”, observa Marina, profissional de Nutrição.
Implantação do teleatendimento apresenta desafios e oportunidades
O teleatendimento foi criando raízes de forma gradual: começaram atendendo os pacientes que já conheciam para não deixá-los desassistidos. “Como a regulamentação não permitia isso, não tínhamos prática. Estamos em um lugar privilegiado de ter acesso à tecnologia e de ter pacientes que aceitam essa transformação”, reflete Marina. Ela enfatiza que nem todos os pacientes lidam bem com a tecnologia, e muitos sequer têm condições de acessá-la. Esse processo é construído em conjunto entre os profissionais e os usuários.
“No teleatendimento encontramos muitas barreiras, sobretudo nossas. Nós não tínhamos domínio, e não temos ainda, de como utilizar essa tecnologia. Nós somos profissionais que lidamos com muito contato com as pessoas — com o olhar, com as percepções que nós temos nessa troca —, e de repente se impôs uma tela à nossa frente ou um telefone”
Marina Carvalho Berbigier
Apesar da falta de contato presencial, a tecnologia permite novas interações: “A gente entra na casa das pessoas, vivencia o espaço doméstico. Essas transformações nos tornam mais flexíveis como seres humanos e nos ajudam a criar conexão com os pacientes”.
Os profissionais também tentam ver formas diferentes de tirar algo positivo da situação: o teleatendimento, por exemplo, permite horários mais flexíveis para atendimentos em grupo, já que não depende da disponibilidade de um espaço físico. “Conseguimos alcançar pessoas que antes não alcançaríamos”, reflete Marina.
“Vemos uma capacidade muito grande de adaptação das pessoas. Conseguimos introduzir idosos no programa de atenção familiar por meio de chamadas de vídeo, algo que há pouco tempo achávamos que não era tangível.” Às vezes, as próprias nutricionistas são as orientadoras desse processo, seja guiando pelo telefone ou enviando imagens explicativas pelo celular, até que os pacientes se materializam na tela. “As pessoas estão mais empáticas às propostas; talvez por estarmos vivenciando a pandemia haja uma maior compreensão do trabalho”, completa a nutricionista.


Telemonitoramento como busca ativa dos beneficiários do Bolsa Família
A estudante de Nutrição Luanda de Souza Conrado e estagiária da UBS ficou encarregada de avisar aos beneficiários do programa Bolsa Família, que faziam uma consulta a cada seis meses na unidade, que, devido à necessidade de distanciamento social, eles não precisam comparecer ao posto, se desejassem. Nessas ligações, Luanda aproveitava para conversar com as pessoas sobre como elas estavam — método nomeado como “telemonitoramento”.
Verificar se alguém da família estava com algum sintoma respiratório, explicar a função da UBS e conversar sobre o auxílio emergencial eram formas de não apenas manter um olhar atento à saúde das pessoas como também de compreender a situação das famílias durante a pandemia. “Em torno de 20% das famílias compareceram ao atendimento presencial. Se não tivéssemos feito o telemonitoramento, essas famílias provavelmente não teriam sido vistas”, diz Luana.
“Mesmo com o auxílio, nos últimos três meses muitos estão em situação de insegurança alimentar, muito pelo fato de que eles não sabem se vão ter dinheiro no futuro. Muitos deles são autônomos e diminuíram as demandas do trabalho. A rotina também mudou: o filho está em casa e está comendo mais; a conta de luz vem mais alta.”
Luanda de Souza Conrado
Para os graduandos e estagiários, vivenciar a pandemia é, também, um momento de aprendizado. Para Luana, o trabalho foi importante a ponto de servir de base para seu Trabalho de Conclusão de Curso. “Foi uma experiência que me tornou uma profissional melhor, um ser humano melhor e muito mais empático, valorizando as coisas mínimas da vida”, conta a estudante. Ela lembra de que muitas vezes as pessoas se sentiam agradecidas pela ligação, que representa não só a preocupação e o cuidado dos profissionais, como também uma aproximação em um período no qual a regra é o isolamento social.
Abordagem da população em situação de rua no território de abrangência da unidade
Além de estar disponível para mais de 40.000 pessoas que vivem em domicílios cadastrados nas proximidades da UBS, a unidade também atende a população em situação de rua. Desde o início de 2019 a equipe de assistência social da UBS realiza abordagens a essa população para fazer avaliações de saúde, apresentar o trabalho da Unidade e doar kits de higiene.
Por serem pessoas em extrema vulnerabilidade, o cuidado com a saúde é essencial. Em muitos casos, pessoas em situação de rua não conseguem acessar o auxílio emergencial por uma série de dificuldades, como não ter documentos ou conta no banco e nem mesmo acesso a um celular para baixar o aplicativo.
“Nós sempre enfatizamos que esse trabalho representa o acesso a um direito e que, justamente por serem pessoas próximas da unidade de referência, elas podem acessá-la”, explica Darlise Passos Gomes, nutricionista que, durante a pandemia, passou a participar da atividade. A equipe incentiva a procura pelo serviço. “Damos um atendimento preferencial e sensibilizamos os outros colegas a tratarem bem, a passarem com prioridade, porque muitas vezes eles não se sentem à vontade de estar ali”, relata a nutricionista
Assistência em saúde a escolas da rede pública
A UBS também faz parte com uma ação de extensão multidisciplinar do Programa Saúde na Escola (PSE), que atende escolas estaduais e municipais em Porto Alegre com ações educativas em saúde e avaliação física dos alunos e abarca seis escolas na região da UBS. Sem aulas presenciais, as escolas tiveram que se adaptar à nova realidade.
Nesse cenário, o acesso à alimentação escolar e a segurança alimentar e nutricional ainda estão em discussão. Mariana Dihl, nutricionista da UBS e coordenadora do projeto, contatou as escolas e buscou saber quem são os alunos e as famílias em situação de vulnerabilidade. Algumas das escolas organizaram a entrega de cestas com os alimentos recebidos pela escola às famílias da comunidade, e a equipe da UBS contribuiu ajudando a montar e distribuir os kits.
Com o início da pandemia, a professora Rosemarie Tschiedel, do Instituto de Psicologia da UFRGS, explica que a equipe se reuniu para discutir as possibilidades de dar continuidade ao trabalho. “Isso está requerendo uma série de encontros e reuniões. No primeiro momento fizemos muita busca de material, pesquisa, estudo, retomando questões do PSE, que é um espaço muito importante de entrada do SUS nas escolas”, explica Rosemarie.
“Trabalhamos na via da formação universitária interdisciplinar para a produção, prevenção e promoção de saúde. É uma intervenção muito potente e diversa. Existe desde uma atenção à saúde física, na avaliação dos estudantes, mas também a partir de espaços que sejam abertos para que se abordem vários temas.”
Rosemarie Tschiedel
Nem sempre é possível que tudo seja abordado pela escola, e a saúde amplia temas do cotidiano. Na Psicologia, a maior preocupação nesse momento é a saúde mental dos alunos, professores e funcionários. “A finalidade de promover espaços de acolhimento, de escuta, podendo fazer o encaminhamento quando necessário para a assistência”, explica Rosemarie. Agora, com o retorno gradual das aulas em sistema remoto, pensam em atividades para avaliar como está a saúde dos alunos, e também de professores e funcionários.
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