A arte que acontece em nós

*Publicado na Edição 226 do JU

Cultura | Manifestações espontâneas que ocorrem no ambiente universitário demonstram como a arte consegue se inserir nos espaços cotidianos
Elivelto Correa, estudante de Jornalismo, cantor, escritor e organizador do Sarau da FABICO (Foto: João Cerbaro/Divulgação)

“Acho que a arte é inescapável ao ser humano. Entendo a arte como uma tentativa de expressão da alma (ou de alguma outra coisa pra quem não acredita em alma), e é por isso que não vivemos sem ela: porque precisamos expressar o que sentimos. Além disso, a arte permite conjecturar realidades possíveis.” Essa é a opinião de Elivelto Correa, estudante de Jornalismo, cantor, escritor e organizador do Sarau da FABICO (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS). Convivendo com arte desde que a música o ajudou a vencer a timidez e o preconceito racial na infância, Elivelto conta que a iniciativa de unir em um evento a produção artística dos seus colegas aconteceu de forma natural.

“Na faculdade, logo percebi que havia muita gente talentosa que fazia música por hobby e mesmo alguns que já começam a trilhar uma carreira profissional. Só faltava uma organização daquele talento todo, e, quando surgiu a ideia de levantar dinheiro para ajudar a ressarcir um colega que foi roubado em uma festa da faculdade, criamos um sarau”, conta.

O evento veio no sentido de unir os talentos que já circulavam pela Universidade e incluía música, poesia, dança e performance drag queen. A produção foi tão efusiva que acabou levando à criação de um sarau paralelo, mais despojado que o original. “O sarau estava tão organizado e regrado que eu quis retomar um pouco a falta de preocupação, e fiz outro. Depois até me afastei da organização, mas o evento seguiu acontecendo. Agora está em um hiato, mas temos planos de retomar”, relata. No fim, uniu-se o útil ao agradável: as apresentações oportunizaram a divulgação dos trabalhos que já existiam, incentivaram alguns artistas que nunca tinham se apresentado em público e ainda serviram de experiência para alguns alunos que descobriram o gosto por trabalhar com produção cultural.

Cotidiano
Entre chegadas e saídas, o saguão da reitoria torna-se palco inesperado para músicos como Frederico (Foto: Rochele Zandavalli)

Como a maioria das profissões não lida diretamente com arte, é comum o tempo e a lógica da vida moderna deixarem em segundo plano a subjetividade do indivíduo, que tem permissão para ser produtivo, mas poucas vezes para ser criativo. Sedes administrativas, lotadas de arquivos, ofícios e trabalhadores atarefados não costumam reservar espaço para a cultura.

O prédio da reitoria da UFRGS destoa um pouco desse perfil por contar com ambientes como a sala Fahrion e a galeria Maria Lucia Cattani. Mas mesmo neste prédio que reserva espaço para arte, ainda há necessidade de expressão, e a disponibilidade de um piano no saguão de entrada mudou a rotina do local. Ação de divulgação e intervenção do projeto Unimúsica 2019, estabeleceu o saguão do prédio como local de reunião espontânea para fazer e aproveitar arte sem horário para acontecer.

Um dos músicos ocasionais é Frederico Guilherme Curtulo, que acumula as funções de secretário da Câmara de Pesquisa e da Câmara de Extensão do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. Sentado ao piano no meio da tarde de um dia de semana, quebra não apenas a sua rotina, mas também a de quem transita pelo prédio. Os acordes que enchem o ambiente e não deixam indiferentes os passantes podem ser de uma tradicional música platina, como Merceditas,  composição do argentino Ramón Sixto Ríos, e serem seguidos pelo pop estadunidense do sucesso I Just Called to Say I Love You, de Stevie Wonder, evidenciando a versatilidade de Frederico. Alguns passam e observam curiosos, deixando escapar um sorriso ou balançando a cabeça ao ritmo da música. Há também quem se detenha e saque o celular para fazer um registro.

A história de Fred, como é conhecido onde trabalha, é indissociável da música. Foi aluno do antigo curso de teoria musical e solfejo no Instituto de Artes da UFRGS a partir dos sete anos.  De lá pra cá são mais de cinco décadas de piano, teclado, guitarra e violão. “Sou músico amador. Tenho uma banda cover de rock anos 70, mas meu sustento é aqui na UFRGS. Também toco em festas o que o cliente pedir, mas faço mais porque gosto do que por dinheiro. Minha ligação com a música é muito forte, mesmo quando me aposentar não vou parar de tocar.”

Saúde
Oficinas na Casa do Estudante reuniram alunos de diferentes cursos e até nacionalidades (Foto: Frederico Machado/Divulgação)

Ter contato com a cultura em meio ao cotidiano é também uma forma de se manter saudável, segundo avaliação de Carlos Rasch. Aluno de Teatro na UFRGS, ele participa do Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões – Participação e Controle Social em Saúde, que reúne estudantes de diferentes cursos para trabalhar temáticas da área. A relação entre arte e saúde, embora possa não ser óbvia, é natural, acredita Carlos. “Quando falamos em cuidar da saúde, geralmente imaginamos curar doenças ou resolver algum problema. As pessoas só vão ao médico quando estão mal.

“A arte faz bem ao ser humano, é da nossa essência. Precisamos nos expressar, colocar pra fora aquilo que nos inquieta.”

Carlos Rasch

Mas cuidar a saúde também é prevenir, manter-se saudável. E a arte faz bem ao ser humano, é da nossa essência. Precisamos nos expressar, colocar pra fora aquilo que nos inquieta. É uma forma de o sujeito se relacionar consigo mesmo e com os outros; trabalhamos o estar presente no aqui e agora. E isso é muito importante em tempos de tanto estresse e ansiedade.”

Morador da Casa do Estudante Universitário (CEU), Carlos observou uma oportunidade de aproveitar a profusão de culturas do local em que vive, em junção com o trabalho no PET, para tematizar o seu trabalho de conclusão de curso: uma oficina experimental de teatro com a participação de moradores da casa. “Aqui temos muitas referências culturais e cênicas de estudantes que vêm de outros estados e de intercambistas estrangeiros. Então decidi me apropriar de um conceito de Augusto Boal, que coloca o espectador como protagonista da ação teatral, para propor essa oficina aqui na CEU.”

O projeto venceu a desconfiança do próprio autor e foi aceito pela orientadora do trabalho. “Ela disse que estamos aqui justamente para ‘tirar a arte da caixinha’, então, por que não? E é muito gratificante ver que a Universidade está legitimando uma proposta que nasce tão espontânea.” Além do resultado acadêmico, as oficinas tiveram como desdobramento a criação de uma cultura de encontros espontâneos para arte na CEU. “Às vezes as pessoas se juntam aqui com violão, declamam poesia, fazem exercícios corporais… e reúne gente que nem era da oficina.”

Em meio a um cenário de adversidades e uma lógica que insiste em repeli-la, a arte segue se reafirmando como uma constante, uma condição definidora do humano. “É um momento difícil para o artista, pois muita gente vê a arte como inútil ou vilã. O cenário é de desesperança, mas a arte sempre foi resistência e sofreu muitas censuras durante a história; no entanto, permanece aí”, conclui Carlos.


Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS