A geometria do moderno

Arquitetura | Para os andarilhos das ruas de Porto Alegre, parte do conjunto arquitetônico situado nos câmpus da UFRGS ajuda a contar a história da arquitetura moderna presente na cidade

Entre as ruas Ramiro Barcelos e São Manoel está situado um gigante. É lá, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que centenas de pessoas transitam todos os dias. O contorno geométrico do prédio e os altos pilotis distribuídos no solo contam a história de uma arquitetura moderna tecida em Porto Alegre.

Por todos os cantos da cidade, mesmo com um olhar apressado do transeunte, é perceptível a presença arquitetônica do moderno. A construção desse viés no espaço urbano contou com o suporte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O HCPA, hospital-escola que forma futuros profissionais e oferece assistência à população, foi moldado à base das influências que estavam em evidência quando da sua fundação, em 1970.

Hospital de Clínicas
(Foto: Setor de Patrimônio Histórico/ UFRGS – Arquivo)

Há aproximadamente 1.600 km de Porto Alegre, no coração do Rio de Janeiro, nascia, em meados dos anos 1940, a Escola Carioca de arquitetura, que viria a influenciar todo o país. Foi a partir da perspectiva desses visionários, que faziam uma nova leitura do tradicional, que as ruas porto-alegrenses deixaram de lado os adornos excessivos para valorizar o simples.

A sede do Instituto de Artes (IA), o gigante de cor rosa, ocupa o lugar de pioneiro do acervo modernista da Universidade. As obras iniciaram em 1943 e, depois de dez anos, uma edificação de linhas retas e blocos precisamente definidos estava pronta para compor a estética do Centro Histórico. O prédio, de inspiração moderna, foi inserido em um ambiente conservador da cidade, aponta Anna Cartez, professora da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. “Não chega a ser incongruente, mas é uma arquitetura moderna implantada no espaço urbano tradicional”, diz.

Instituto de Artes
(Foto: Setor de Patrimônio Histórico/ UFRGS – Arquivo)

Um ano mais tarde, já em 1954, toma forma a grande onda que percorre de uma ponta a outra o prédio da Reitoria. Os olhos do transeunte passeiam pela intenção de movimento do arquiteto de preservar o estado de ação do criar. Entre o caminho possível, lacunas abertas no solo por pilares – a ideia de um espaço permeável e transitável anda lado a lado com a proposta arquitetônica do moderno.

Reitoria
(Foto: Setor de Patrimônio Histórico/ UFRGS – Arquivo)

Afastando-se mais do centro pela avenida Ipiranga, o observador encontra uma construção que chama atenção por seu formato singular. O Planetário, posto de pé em 1971, faz parte de uma nova etapa da arquitetura modernista. Após o desenvolvimento da Escola Carioca, foi a vez de São Paulo ser o berço de um fragmento do moderno. A Escola Paulista, também conhecida como Brutalista, se apropriou de intenções da predecessora e propôs uma percepção antagônica de como construí-lo. 

“A arquitetura brutalista é mais pesada. Às vezes, ela tem o que chamamos de um exoesqueleto – quando o ‘esqueleto está por fora’. O planetário tem aquelas vigas e tudo está por fora do edifício”, comenta Anna.

Planetário
(Foto: Setor de Patrimônio Histórico/ UFRGS – Arquivo)

O andarilho que estica o passo mais um pouco pode conferir a edificação que abriga a piscina da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID). Para os nadadores, as passadas na água se dão em torno do concreto aparente do ambiente. É uma das intenções do movimento brutalista a expressão dos materiais utilizados em seu estado natural, de forma que logo se identifique a matéria e a técnica. Para essa escola, os revestimentos são considerados dissimuladores, uma vez que a ideia de beleza é associada à de verdade construtiva.

ESEFID
(Foto: Setor de Patrimônio Histórico/ UFRGS – Arquivo)


No fim desse percurso, o visitante pode ter uma ideia de como a presença da arquitetura modernista na UFRGS é uma forma de contar a história da cidade, das pessoas que a fazem e a sua passagem pelo tempo.

Mélani Ruppenthal

Estudante de Jornalismo da UFRGS