Perfil: Isabel Carvalho

Foto: Rochele Zandavalli/ Secom

Moradora de um bairro simples durante a infância, Isabel Cristiane Nepomuceno Carvalho, 49 anos, começou a alfabetizar por vontade de ajudar os outros. Quando ainda estava no colégio, transformou a paixão pelo estudo e pelos livros em um trabalho voluntário: passou a reunir os vizinhos mais novos para ensiná-los o bê-a-bá. “À época, eu ainda usava o Método da Abelhinha, o método fônico, juntando consoante com vogal. Depois, essa coisa de ajudar um e outro foi crescendo e acabei dando até aula particular”, lembra a atual servidora da creche da UFRGS, criadora de um reconhecido projeto de educação ambiental.

A experiência com os vizinhos cativou tanto Isabel que ela escolheu cursar Pedagogia. Enquanto fazia faculdade, também trabalhava em uma creche e como cuidadora de bebês, com os três turnos ocupados. “Era uma correria, mas era muito gostoso”, conta sorrindo. Em 1994, foi aprovada no concurso para a creche da UFRGS, onde segue há 25 anos. “É o meu local, representa a melhor parte da minha vida. Tanto que, quando surgiram aqueles rumores de que iria fechar, eu fiquei em depressão. Eu nasci para a creche”, desabafa.

Foi trabalhando no local que ela criou os dois filhos, hoje com 19 e 10 anos, ambos ex-alunos da creche. “Eu tive o privilégio de ver os dois estudarem aqui e saírem semialfabetizados com seis anos”, relata orgulhosa. Por conta da maternidade, a professora se viu forçada a abandonar a faculdade, voltando apenas em 2013. “Consegui me formar na Uniasselvi a distância em 2016. Foi muito importante para legitimar o meu trabalho”, conta Isabel.

Foto: Rochele Zandavalli/ Secom

Professora coruja, exibe com carinho um grupo de Whatsapp que integra junto com outras docentes e ex-estudantes. Faz questão de mostrar, um a um, como os pupilos seguiram nos estudos. “A educação infantil é uma sementinha que afeta toda a maturidade. Então, quando sê que a maturidade deu certo, dá aquele orgulho. Tenho até um ex-aluno que hoje é piloto. Quando eu voar com ele, disse que vai chamar meu nome no microfone. Aí eu morro né, imagina ele dizer que a profe está no avião? Vai ser muito emocionante”, entusiasma-se.

Nas horas vagas, a professora diz que adora encontrar ex-estudantes, o que acontece com frequência em parques ou supermercados. “Conversei com uma ex-aluna na Redenção que estava formada em Turismo e cursando Psicologia. Fiquei superorgulhosa. Ano retrasado, outra me trouxe um convite para a formatura dela em Fisioterapia. Tu não tens noção do prazer que é trabalhar aqui.”

Depois de ter sido professora de crianças de todas as idades da Educação Infantil, hoje Isabel leciona para uma turma de nove alunos de três anos. “Já dei aula para o filho de um ex-aluno, me considero uma “vóssora”. A infância é a melhor parte da vida, a que mais precisa ser respeitada e preservada. Representa a alegria e o brincar, trabalhar com isso é tudo”, relata.

Apesar de receber carinho dos pequenos, Isabel conta que, com os adultos, não é sempre assim. “Teve um episódio que nos magoou muito, quando um pai não quis acordar cedo para levar o filho à festa de Dia dos Pais. Foi uma decepção. Não estávamos fazendo aquilo por obrigação, mas por amor.”,

Além de trabalhar com a infância, outra paixão de Isabel é a preservação ambiental. Para levar o tema à creche, em 2015, ela criou o projeto Guardiões da Natureza, que tinha o objetivo de ensinar às crianças os “três Rs”: reduzir, reutilizar e reciclar. Durante a iniciativa, os alunos foram divididos conforme os elementos terra, água, fogo e ar para serem os defensores do Planeta e criarem a super-heroína Reciclilda. “Como eles adoram super-heróis, ela servia para ampliar o projeto às famílias. Era levada para as casas e tinha um diário, o que fazia com que os pais também participassem. Com os adultos, é muito mais difícil ensinar a separar lixo, por exemplo”, explica Isabel.

Xodó da professora, a iniciativa foi apresentada no Salão de Extensão da UFRGS. “Mostrei para a banca a importância de trabalhar educação ambiental com as crianças, que são muito mais abertas, e ganhei destaque”, conta Isabel. Quando a encontram na rua, alguns alunos que participaram do projeto a chamam de “professora dos Guardiões da Natureza”. “Não se lembram do meu nome, mas lembram da atividade, o que já me deixa muito feliz. O projeto durou um ano: deu muito certo, mas acabou durante transições internas. Agora, quero retomar.”

Professora Isabel e seu projeto Guardiões da Natureza (Foto: arquivo pessoal)

Dinâmica com as crianças, que foram convocadas a serem “defensores do Planeta” (Foto: arquivo pessoal)

Nesse vídeo, você confere um pouco da história da Professora Isabel (Vídeo: arquivo pessoal)

Fernanda da Costa

Repórter