Adroaldo Gaya: ensino e afetos do dia a dia

Câmpus Olímpico| Professor aposentado do curso de Educação Física sente falta de dar aulas para a graduação e de estar nos espaços da Universidade

*Foto: Flávio Dutra/JU

A paixão e a gratidão pela UFRGS atravessam constantemente a fala do professor Adroaldo Gaya, cujos olhos brilham ao relembrar sua trajetória na Universidade. “Eu não saio da UFRGS, e a UFRGS não sai de mim”, enfatiza. E tem sido assim há 45 anos. Ele estava lá quando a Escola Superior de Educação Física (ESEF) virou a Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID) e quando foram criados os cursos de pós-graduação em sua área de atuação, nos quais ainda dá aulas, apesar de estar aposentado da graduação.

Gaya foi parar no curso de Educação Física quase por acaso. No ensino médio, decidiu seguir os passos do pai e foi estudar na Escola Técnica de Agricultura (ETA) de Viamão. Quando não estava estudando, passava os dias dividido entre suas duas paixões: tocar guitarra e praticar esportes. Observando isso, dois dos professores que ele admirava sugeriram que estudasse educação física. “Aquilo me despertou… Eu nunca tinha pensado sobre isso. É incrível como as circunstâncias fazem a nossa vida”, reflete.

Uma vez na graduação, sua ambição era sossegar. Sonhava em ser professor de escola, talvez em uma cidade do interior. Mas o envolvimento com a faculdade, o estudo e a leitura despertaram seu interesse para a carreira acadêmica. Fez um curso preparatório para a pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com alguns colegas e voltou com ideias e projetos. Foi então que se apaixonou pela pesquisa e abandonou o desejo de viver uma vida pacata. Fez seu mestrado em Educação e desde então segue apaixonado por ensinar e formar novos profissionais.

“A coisa mais importante nessa vida é chegar aos 70 anos, como eu cheguei agora, e continuar apaixonado por aquilo que faz. Olhando para trás, muita coisa eu faria de outro modo se eu tivesse oportunidade, mas absolutamente não me arrependo das minhas escolhas e do meu caminho.”

Agora professor aposentado, sente saudade de dar aulas para a graduação, sobretudo pela criatividade dos alunos e pelas propostas inovadoras. “Acontecia muito de um aluno propor uma pesquisa, e eu pensar ‘que loucura, isso não pode dar certo’. Mas eu sempre deixava, porque acho que tem que fazer experiências, e os resultados eram incríveis”, conta. Alguns exemplos são o uso de skate e Pilates nas aulas de Educação Física. Nesses momentos, era ele quem aprendia.

Foto: Flávio Dutra/JU

Além disso, Adroaldo tem saudade de pequenas coisas do dia a dia, como os pássaros que visitavam a janela de sua sala na Esefid, onde ele deixava grãos e alpiste. Entre os lugares queridos para o professor, estão o Bar do Antônio, cuja importância histórica ele ressalta. Além disso, a Esefid, como não poderia deixar de ser, e o Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), onde participava de eventos e depois tomava um chá com seu amigo Zé Vicente, como é conhecido o diretor da instituição.

“É incrivel ver a UFRGS fechada, não poder ir ao barzinho para tomar um café, não poder ver os amigos e abraçá-los. Não poder cumprimentar desde o porteiro até chegar na sala com os alunos”, lamenta.

Felizmente, ele comemora o relacionamento com os alunos, que ainda o convidam para palestras, eventos e para fazer coisas juntos. Mesmo agora, na pandemia, os encontros virtuais amenizam a distância física. “Meus alunos nunca me abandonaram”, comemora.

Mas essas saudades e essa permanência vêm fundadas no sentimento de dever cumprido. Faz parte do legado do professor na Universidade o projeto de extensão Esporte Brasil, que já tem 25 anos e formou mais de 117 doutores e mestres.

Da troca com os alunos, o mais importante é a paixão pela profissão. “Eu gostaria de ter deixado como legado essa paixão pela educação física. Essa vontade que eu tenho de defendê-la em qualquer momento e em qualquer lugar eu gostaria que os alunos também tivessem.” E conseguiu: não à toa, sua filha seguiu seus passos e hoje ocupa a sala que ele ocupava na Esefid. Na mesma janela, ela observa o voo dos passarinhos. Foi ela quem ajudou a levar o projeto de extensão à revista Lancet. “A gente não faz nada sozinho”, diz.

“Eu gostaria que os alunos percebessem que a nossa profissão é maravilhosa, e ela é digna, embora muitas vezes pouco reconhecida na sociedade. Somos professores que trabalhamos com crianças, adolescentes, adultos e idosos de corpo e alma. Nas nossas aulas, as crianças correm, jogam, fazem exercícios, se alegram com a vitória, se entristecem com a derrota. Tem questões morais; não trabalhamos apenas questões racionais, sentados em sala de aula.”

Para Adroaldo, a pandemia coincidiu com sua aposentadoria. “Tive o privilégio de ficar preso em Garopaba”, graceja. E na praia o professor faz questão de retribuir o que a UFRGS implicou em sua vida na forma de retorno à sociedade. “Tudo o que eu consegui foi graças ao meu esforço, mas também por meio da universidade pública, paga com o dinheiro público”, relata. Agora, com um grupo de professores do município, faz projetos nas escolas locais e orienta professores da rede municipal no mestrado.

Hoje o professor lembra a Universidade com carinho e saudade. E, para o futuro, o professor deseja esperança e resistência. “Ela já resistiu em outras épocas e vai continuar resistindo”, projeta.

“Está muito difícil ver essa agressão à ciência, essa agressão à educação, a intervenção política na universidade. É um desrespeito, é o que tem de mais indigno que possa acontecer o século XXI infelizmente. Essa desconsideração obscurantista e irracional que vivemos neste país. Aos estudantes e aos nossos colegas servidores, vamos ficar atentos a isso e vamos certamente resistir; sairemos, quem sabe, mais fortes.”


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: