Bruno Marques e a importância da representatividade

Diversidade | Egresso de escola pública e de pré-vestibular popular, estudante do curso de Publicidade e Propaganda quer ser um exemplo para a sua comunidade de que, sim, é possível estar na UFRGS

*Foto: Flávio Dutra

Das muitas paixões que uma pessoa pode ter na vida, a união delas pode mostrar um caminho a ser seguido. Foi o que aconteceu com Bruno Marques. Quando tinha apenas 14 anos, conseguiu uma vaga como menor aprendiz no marketing do Grêmio, seu time do coração. Desde aquele momento, ele já sabia que queria se tornar publicitário. Não fazia ideia de como alcançar esse objetivo, mas tinha foco e disposição para realizar esse sonho. Bruno nunca ficou parado: fez curso técnico, prestou concurso, se formou e trabalhou em diversos lugares. No fundo, porém, já sabia que o que realmente queria era cursar Publicidade e Propaganda. 

Como um jovem de comunidade, sem muitas condições financeiras, percebeu cedo que não cabia na sua realidade pagar uma faculdade particular. A única opção aparentemente viável era estudar o suficiente para conseguir uma vaga na universidade pública. Na busca de um cursinho que oferecesse aulas de forma gratuita, ele encontrou o Farol, um cursinho popular que até hoje é o único da cidade de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. Bruno sempre morou e estudou na Zona Sul da capital, mas, por conta da pandemia, conseguiu ter acesso ao cursinho, que estava adaptando as aulas para o formato remoto. 

Quem estudou a vida inteira em escola pública sabe que a dedicação dos professores é um dos principais fatores de apoio para conseguir alcançar objetivos que parecem distantes. Foi esse suporte que Bruno encontrou tanto na escola em que cursou o ensino médio quanto nos professores do Farol Cursinho Popular. “No começo foi meio difícil parar e aprender na frente do computador. Mas o Farol tem professores excelentes, que, quando algum aluno não conseguia participar, sempre iam atrás para ver se tinha acontecido algo. Por mais que não fosse um cursinho remunerado, eles de fato se preocupavam com os alunos”, conta. 

Foi com muita dedicação e apoio que Bruno conseguiu passar no vestibular e hoje cursa Publicidade e Propaganda na UFRGS. Em novembro passado, no Dia da Consciência Negra, ele foi convidado para dar uma palestra na escola Neuza Goulart Brizola, no bairro Cavalhada, onde cursou o ensino fundamental. Para o discente, foi um dos dias mais felizes de sua vida.

Vindo de onde eu vim, sendo de comunidade, sendo negro, entrar na Universidade onde tem, em sua maioria, pessoas que não são como eu sou e não vêm de onde eu venho, pra mim e pra minha família, é uma batalha muito grande. Então, poder falar pras pessoas semelhantes a mim que elas também podem chegar aonde eu cheguei é muito gratificante e especial. 

Bruno Marques
Apenas começando 

Bruno destaca diversas vezes a importância do apoio familiar nas suas conquistas. Filho de uma técnica de enfermagem e de um mecânico, sempre recebeu muita motivação de seus pais para conquistar tudo que desejava, mesmo sem condições financeiras de pagar uma faculdade. Foi a mãe de Bruno que conseguiu o emprego no marketing do Grêmio, e ele ressalta o quanto é grato por ela tê-lo ajudado a descobrir sua vocação.

Dentre as dificuldades que encontra na UFRGS, Bruno diz que a falta de representatividade e de convivência com pessoas da mesma realidade que ele são os aspectos mais difíceis. Segundo o estudante, mesmo as cotas sendo muito importantes, não são suficientes porque não bastam para que o aluno negro de periferia continue frequentando as aulas e principalmente se sinta pertencente àquele ambiente. Ele lembra que, quando cursava o ensino médio, já tinha a percepção de que a maioria da Universidade era branca. “Mas é diferente ver a minoria e se sentir minoria”, relata.

Por conta disso, os sonhos de Bruno são altos, e ele deseja ser exemplo para a sua comunidade. Aos 20 anos, sabe que está apenas no começo do caminho. Mesmo que pense em voltar a trabalhar no time do coração, a falta de representatividade negra nos docentes da Universidade faz com que ele sonhe em, um dia, ser professor. O estudante acredita que, quando alcançar esse objetivo, vai conseguir entrar no sistema e fazer outras pessoas como ele, que vieram do mesmo lugar, quererem ocupar o espaço da universidade pública.

Bruno é um jovem que realmente vai atrás do que acredita e do que deseja conquistar, não tem medo de sonhar alto e nem de desafiar as limitações impostas pela sociedade. Ele quer ajudar pessoas a ocuparem o mesmo espaço que lutou para ocupar.

Se uma pessoa olhar pra mim e pensar: ‘se ele conseguiu, eu também consigo’, pra mim já é mais do que recompensador.

Bruno Marques