Cientista, com certeza

Perfil | Em matéria publicada em dezembro de 2012, professora fala do caminho que a conduziu à pesquisa científica
Foto: Flávio Dutra/Ju (Arquivo)

Não era verdade aquela história de que os comunistas comiam criancinhas, como costumava ouvir em casa e nas atividades para as famílias de militares que frequentava com seus pais, Paula e Rui, a irmã mais nova Denise e o irmão mais velho Alexandre.

Essa foi uma das primeiras lições que Márcia Barbosa aprendeu nesses seus mais de 30 anos de vida acadêmica na UFRGS. Ela ingressou como aluna do curso de Física, em 1978, fez o mestrado e doutorado e depois voltou como professora em 1991. Hoje é diretora do Instituto em que estudou.

Falando muito rápido e sem perder o fio da meada de sua retrospectiva pessoal, Márcia diverte-se lembrando algumas cenas da infância como filha de militar. Uma vez por ano, por exemplo, soldados norte-americanos da Operação Unitas encenavam pequenas peças para as crianças, nas quais os soldados eram sempre os mocinhos, e os comunistas, os vilões. “Era um verdadeiro clima de terror, tínhamos de prestar muita atenção por onde andávamos”, comenta sobre as recomendações do pai quando ela e os irmãos saíam para a escola: “Porque poderíamos ser raptados pelos comunistas”, diverte-se.

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Por isso, quando mudaram do Rio de Janeiro para Canoas em 30 de março de 1964, Márcia – então com quatro anos de idade – já convivia com algumas verdades que seriam colocadas em cheque com o seu ingresso na UFRGS: “Na minha cabeça, o que nos salvou foi a ditadura, e a esquerda era ruim. Foi na Universidade que descobri a esquerda”.
Família – Descoberta, entretanto, que não se traduziu num engajamento político, mas representou o rompimento com algumas verdades implícitas à condição militar de seu pai e que acabavam permeando as relações familiares.

Rompimento que não abalou a ligação próxima que até hoje Márcia mantém com a família, especialmente com os pais, que são vizinhos seus no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Naquela época, início da década de 80, o que preocupava seu Rui era ver os filhos voltarem para casa tarde da noite depois de um dia de faculdade.

Foi quando decidiu montar um cursinho preparatório para militares que tencionavam avançar na carreira. Enquanto o pai de Márcia dava as aulas técnicas, ela ensinava Português e seu irmão Matemática. Em pouco tempo, conseguiram comprar um apartamento pequeno na capital, para onde se mudaram os dois irmãos universitários.

Por não suportar a saudade da comida da mãe, Alexandre voltou a morar com os pais em Canoas, e Márcia passou a viver sozinha em Porto Alegre: “Eu me arranjava com a comida do RU (restaurante universitário), ficava na biblioteca até as 22h ou até ser expulsa. Então ia para o diretório, jogar War e conversar até tarde”. Mas nos finais de semana retornava à casa dos pais.

Prioridade

Desde muito pequena Márcia aprendeu a valorizar os estudos, que eram prioridade em sua casa. Dona Paula, inclusive, deixara a profissão de secretária para dedicar-se à educação dos filhos. Anos mais tarde, com o propósito de acompanhá-los em seus estudos, decidiu concluir o ensino médio.

Foi ela quem alfabetizou a filha, que não havia sido aceita na escola por não ter ainda completado seis anos e meio (Márcia nasceu em 14 de janeiro de 1960). Em combinação com a professora do primeiro ano, dona Paula comprometeu-se a alfabetizar a menina até o meio do ano, quando então seria matriculada.

As aulas eram na cozinha, durante as múltiplas atividades da mãe, que usava a porta preta da peça como quadro negro onde escrevia com giz. “Eu adorava estudar”, recorda. E assim, Márcia estava pronta para começar sua vida escolar no segundo semestre de 1966.

Sua paixão pelos estudos, entretanto, não incluía a música. Tentando ocupar a filha que ficara inconformada com o ingresso do irmão na escola enquanto ela permanecia em casa, os pais decidiram colocá-la na aula de piano: “Para tentar me acalmar”. A professora acabou reconhecendo que a menina “não tinha mão para piano”. Por isso, na festa de final de ano, quando familiares reuniam-se para ver o progresso de seus pequenos músicos, os pais de Márcia assistiam a filha dançar”.

Cientista

Buscando o melhor, Rui e Paula transferiram os filhos para uma das mais prestigiadas escolas públicas de Canoas, a Escola Estadual Marechal Rondon. Como se destacavam nos estudos, eles muito cedo passaram a contribuir com a escola, substituindo professores.

Um dia, o diretor convidou Márcia para auxiliar os professores a organizar os equipamentos que haviam chegado para a montagem dos laboratórios da escola. Na sequência, ela passou a organizar os kits dos experimentos que seriam utilizados pelos estudantes nas aulas do outro dia.

“Aquilo me apaixonou, tinha de tudo: Química, algumas coisas de Física.” A única incomodação era ouvir a mãe reclamando dos uniformes corroídos pelos solventes: “A Química destruiu as minhas roupas”, ilustra. Outros incidentes, entretanto, poderiam ter desfechos mais graves, como quando Márcia montou mal um forno, o que provocou um curto: “Quase coloquei fogo na escola”, confessa.

Dessa convivência em laboratório nasceu a certeza de que seguiria a carreira de pesquisadora. Em 1978, passou em 35.º lugar no vestibular geral da UFRGS e ingressou no curso de Física; além dela, havia mais oito mulheres na turma, mas apenas ela concluiu o bacharelado. “Era muito difícil”, justifica a evasão. Em casa, a mãe sonhava que ela fosse médica, e o pai, achava que devia cursar engenharia: “Mas eu queria ser cientista. Tinha isso muito claro na minha cabeça”.

Prêmio

Em 19 de outubro deste ano (2012), Márcia foi agraciada com o 15.º Prêmio L’Oréal-Unesco para as Mulheres e a Ciência, promovido pela Unesco (organização cultural da ONU). Ela foi premiada pela descoberta de uma anomalia da “água que poderá levar a uma melhor compreensão do mecanismo de dobramento de proteínas, que é essencial para o tratamento de certas doenças”, publicou o órgão premiador.

Depois de alguns anos trabalhando com polímeros, em 1997, entre outras importantes mudanças em sua vida, como a separação do marido com quem fora casada por 14 anos, decidiu iniciar seu próprio programa de pesquisa, passando a dedicar-se a simulações representando as moléculas d’água, utilizando programas de computador.

Entre as muitas atividades que superlotam sua agenda, Márcia segue dando aula na graduação e na pós-graduação do Instituto de Física da UFRGS, é vice-presidente da International Union of Pure and Applied Physics (IUPAP). Sempre sorrindo e rápida nas respostas, encerra a entrevista pedindo licença e correndo para o próximo compromisso.