Perfil | Professora aposentada do Colégio de Aplicação conta como começou a utilizar a Ciência da Computação na luta por igualdade de gênero
*Foto: Flávio Dutra/JU
Duplamente graduada – em Processamento de Dados e Pedagogia –, a professora aposentada do Colégio de Aplicação da UFRGS Clevi Rapkiewicz trabalhou a maior parte de sua vida com educação. Natural de Nova Prata, Clevi Rapkiewicz fez o Ensino Médio em Caxias do Sul e se mudou sozinha, em 1982, para Porto Alegre para cursar Processamento de Dados na UFRGS. Durante o período de graduação, Clevi viveu todas as oportunidades oferecidas pelos estudos na Universidade. Morou na Casa do Estudante, fez suas refeições no Restaurante Universitário, trabalhou como fiscal de vestibular, passou seus verões na Colônia de Férias e até aprendeu a dançar e a nadar nos cursos e projetos de extensão oferecidos pela ESEFID.
“O que foi a UFRGS para mim? Foi a minha casa, meu lazer e meu despertar político”
Clevi Rapkiewicz
Vinda de uma família conservadora e religiosa do interior, quando chegou a Porto Alegre, Clevi começou a perceber a falta de conscientização política ao longo de sua criação. “Eu não tinha a mínima ideia do que era ser trabalhador e ser explorado. Eu sabia que existia a Arena e o MDB, mas não tinha noção de que tínhamos uma ditadura”, relata. Ao longo de sua formação, Clevi morou e trabalhou em diversos lugares e universidades do Brasil, construindo e ampliando seus interesses despertados pela vida como estudante.
Tendo a oportunidade de explorar variadas áreas, Clevi descobriu seu interesse em trabalhar com causas sociais, mais especificamente a desigualdade de gênero. Durante seu doutorado, que teve uma parte realizada em Paris em 1996, ela participou de um grupo de pesquisa sobre a divisão sexual do trabalho e, dessa forma, pôde também analisar suas próprias vivências de discriminação de gênero na profissão.
A tese de Clevi teve como enfoque a construção do gênero na área da Informática, tema que ela queria continuar pesquisando. Em 2014, a pesquisadora começou a desenvolver projetos que unissem lixo eletrônico, arte e a luta pelo lugar da mulher na ciência. Assim surgiu o projeto de extensão chamado Enigma. Composto somente por mulheres, o grupo começou a expor as peças construídas pelas integrantes a partir de lixo eletrônico reciclado, chegando até mesmo a levar seus trabalhos para fora do RS.
O projeto de extensão, todavia, não foi a única experiência que lhe abriu os olhos para as infinitas possibilidades que sua formação poderia oferecer. Quando começou a dar aula na Educação de Jovens e Adultos do Colégio de Aplicação, em 2012, a docente descobriu as oportunidades que trabalhos interdisciplinares poderiam proporcionar para os estudantes. Em conjunto com a área de teatro da escola, Clevi desenvolveu um projeto de multiletramento. Com o objetivo de ir além da alfabetização e ajudar os alunos a desenvolverem práticas sociais de leitura e escrita, as duas áreas buscaram realizar atividades que integrassem português e mídia digital.
“Aprendi não só a respeitar, como a gostar e aprender com os alunos da EJA”
Clevi Rapkiewicz
A professora continuou com as atividades interdisciplinares na escola até a pandemia da covid-19, em 2020, quando outra causa lhe chamou a atenção. Em 2019, Clevi havia ajudado cinco alunas residentes na Casa do Estudante a conseguirem computadores para utilizarem em seus estudos. A partir do momento em que as aulas foram suspensas nas escolas em função da pandemia, as tarefas dos alunos passaram a ser realizadas online. Grande parte dos estudantes da rede pública, contudo, não tem acesso à internet em suas residências, incluindo uma parcela dos alunos do Colégio de Aplicação. Dessa forma, Clevi decidiu recomeçar a arrecadação de computadores que havia realizado no ano anterior, dessa vez na escola em que lecionava. Naquele período, mais de 130 computadores foram doados.
“Em termos de avaliação, o foco não era no conteúdo, era no vínculo. O aluno tinha que continuar se sentindo pertencente à escola”
Clevi Rapkiewicz
A demanda, entretanto, só aumentou, e famílias com jovens em idade escolar de outras instituições começaram a pedir auxílio também. Foi então que ela decidiu expandir as atividades do Enigma e utilizar seus recursos para a reciclagem e a doação de computadores para jovens em idade escolar que necessitassem. Em 2022, com o crescimento do projeto, Clevi decidiu criar uma microempresa que pudesse comportar todas as atividades que o Enigma realizava. Dessa maneira, surgiram o Enigma – Doar para estudar, que realiza doações de computadores, e o Espaço Enigma, que oferece oficinas de línguas e artes com os artesanatos a partir de lixo eletrônico.
Com a aposentadoria, Clevi deixou a coordenação do projeto de extensão, mas segue atuando na empresa Espaço Enigma. Como boa professora, não está disposta a parar: ainda tem o interesse de, futuramente, abrir uma ONG para expandir ainda mais as ações dos projetos.





