Como aprender a aprender na universidade?

Bem-estar | A pedagoga Sonia Martins aponta como emoções e identidade interferem na adaptação do estudante ao Ensino Superior

*Foto: Estudantes de Geologia em atividade prática no Câmpus do Vale (Crédito: Flávio Dutra/Arquivo JU 02/09/2025)

A entrada no ensino superior é um desafio. É preciso estudar de maneira independente, desenvolver estratégia de aprendizado, autoconhecimento e adaptação. Essa transição ainda pode ter outros fatores dificultadores, como a passagem para a vida adulta, a necessidades de conciliação entre trabalho, estudo e família, a distância até a universidade e outros elementos que podem interferir na adequação à vida universitária.

O contexto universitário, menos estruturado do que o secundário, exige uma autorregulação das aprendizagens e um nível mais exigente e aprofundado de adaptação do estudante. É um desafio para o qual nem sempre o jovem está preparado, uma vez que está acostumado a uma dinâmica com foco em uma formação generalista no ensino médio.

Na universidade, é o jovem quem define suas metas de estudo e a maneira como fazê-lo, com autonomia em relação à aprendizagem e ao gerenciamento de tempo. Essa independência pode fazer com que se sinta perdido ou desamparado, pois é necessário lidar com graus de exigência maiores e conteúdos mais densos. Isso requer que o estudante aprenda a conduzir as novas situações, caso contrário, as dificuldades podem virar frustrações e levar até o abandono do curso.

Tomar decisões baseado em emoções leva o estudante a perder o foco na organização e dificulta o processo de planejamento. As emoções são uma fonte essencial da aprendizagem, na medida em que as pessoas procuram atividades e ocupações que façam com que se sintam bem, e tendem a evitar atividades ou situações que lhes provoquem mal-estar ou sentimentos negativos.

Assim como as emoções dão sentido à vida humana enquanto nos adaptamos, aprendemos, temos sucesso e fazemos amizades, também emergem enquanto enfrentamos episódios, eventos e situações que nos esmagam, magoam, ridicularizam, frustram e entristecem.

A aprendizagem subentende um processo inicial de tentativas e imperícias: o cérebro precisa de segurança para assumir riscos, incluindo os de cometer erros e de construir inadaptações iniciais às tarefas ou aos problemas propostos. Somente em um clima de segurança afetiva o cérebro humano funciona de forma mais adequada, e as emoções abrem caminho às cognições.

Nesse processo, o autoconceito é fator importante para a aprendizagem. Ter consciência das forças pessoais e de seus aspectos positivos, e não apenas se concentrar nas limitações, é essencial. Jovens com autoconceito positivo experimentam maior sucesso acadêmico do que aqueles sem essa qualidade. Vários fatores como a formação da identidade, variedade de ambientes – processo interativo em que
são experimentadas diferentes ideias, amigos e atividades – auxiliam no aprendizado de si mesmo.

Adequar-se a uma realidade distinta daquela com que o estudante está familiarizado pode ser facilitado pela universidade, por meio de oficinas de aconselhamento, como as oferecidas pelo Núcleo de Atendimento ao Estudante (NAE), pela Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), pelo Instituto Latino-americano de Estudos Avançados, entre outros. Mais do que “receitas”, esses espaços oferecem possíveis caminhos e reflexões relacionados à aprendizagem por meio das atividades desenvolvidas junto ao estudante.

Nesses ambientes, o estudante é convidado ao autoconhecimento, a buscar motivação, desenvolver disciplina, administrar seu tempo, conhecer ou buscar diferentes formas de estudar, aprender a se organizar, além de receber orientação sobre outros assuntos que possam estar relacionados à aprendizagem, como alimentação, autocuidado e saúde. Tudo isso em um espaço acolhedor para a troca de experiências com outros estudantes, que, como ele, têm semelhantes ansiedades e dificuldades.


Sonia Martins é pedagoga, mestre em Sociologia, pós-graduada em Neurociência e Aprendizagem e Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional. Atua como Técnica em Assuntos Educacionais no Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA/UFRGS).

Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados ao bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.


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