Artigo | O diretor da Faculdade de Educação, Cesar Lopes, reflete sobre a importância histórica da formação do primeiro doutor indígena pela UFRGS
*Por: Cesar Lopes
*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU – 17 ago. 2020
Passados 50 anos da criação da Faculdade de Educação (Faced), 86 anos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e 212 anos do primeiro curso superior no Brasil, em 04 de dezembro de 2020 tivemos a aprovação da primeira tese de doutorado do povo kaingang aqui na Faced da UFRGS. O professor Bruno Ferreira tornou-se o primeiro doutor indígena formado na UFRGS, o primeiro herdeiro dos povos originários que habitam nossas terras desde antes da chegada dos povos do além-mar a receber o título.
A data histórica para a Faced, para a UFRGS e para o povo kaingang vem carregada de simbolismo. Bruno Ferreira é professor e formador de professores na Terra Indígena Inhacorá (RS) e sua tese Ũn si ag tũ pẽ ki vẽnh kajrãnrãn fã – O papel da escola nas comunidades kaingang marca a relevância da educação e dos professores na afirmação dos saberes, conhecimentos, histórias, cultura e língua dos povos originários.
Considerando os caminhos percorridos por Bruno, os mesmos caminhos percorridos por cada jovem indígena na escolarização brasileira, é emblemático que o primeiro doutorado seja em Educação. A educação escolar, para os jovens indígenas, ainda pode ser caracterizada como um percurso de constantes enfrentamentos com os limites impostos pela escolarização branca, colonizadora e de origem eurocêntrica que se apresenta na esmagadora maioria de nossas escolas e universidades. Assim, não é casual que a Educação Escolar seja o tema discutido por Bruno na sua dissertação de mestrado e aprofundado na tese de doutorado.

Acompanhando a trajetória do Bruno pela educação escolarizada até o doutorado, podemos, a partir de nossa lógica ocidental, meritocrática e individualista, enxergar apenas o bravo professor que, por seus méritos e esforços pessoais, chegou ao topo da escolarização que conhecemos. Ou podemos buscar um outro olhar, um outro jeito de ver, mais próximo das cosmologias dos povos originários, e exercitar nossa capacidade de perceber o Bruno e seu trabalho como sujeitos coletivos e sociais que não apenas representam seu povo, mas que são exatamente o fruto do trabalho, dos saberes, dos conhecimentos, das histórias dos antigos e também dos jovens que perpetuam a cultura kaingang.
Façamos o esforço para um olhar que atravessa, integra e identifica o Bruno, encontrando nele um ‘doutor coletivo e social, um doutor povo, um doutor kaingang’. Dito isso, é necessário parabenizar, então, o povo kaingang pelo título de doutor em Educação.
Aproveitando esse momento, esse lapso de tempo em que a lógica individualista pode estar um pouco silenciada, é importante pensar as aprendizagens em nossa Universidade com os povos originários que ocupam algumas de suas vagas.
Precisamos ampliar e qualificar nossos programas de cotas para indígenas, é necessário avançar com as aprendizagens construídas, é necessário avançar em propostas que considerem a lógica social e coletiva, a lógica de povo que os indígenas nos ensinam.
Ainda devemos aproveitar um possível lapso de tempo permitido a lógicas e cosmologias não totalitárias para defender a necessária interconexão entre os saberes da cultura ocidental branca e os saberes de nossos povos originários e os dos povos que se originaram em África para construir novos caminhos para Ciência e Cultura que possam se produzir nos espaços universitários brasileiros, considerando as diferentes matrizes culturais que nos constituem.
É importante destacar aqui a luta dos povos indígenas por uma educação que reconheça sua cultura e sua língua como produtoras de saberes e conhecimentos relevantes, e destacar também o trabalho de pessoas e instituições que são parceiras nessas lutas.
E como hoje abordamos um pouco da história do doutor Bruno Kaingang, destacamos aqui o trabalho da orientadora de Bruno, a professora Cida Bergamaschi, incansável pesquisadora, orientadora e ativista na defesa da educação indígena e da inclusão dos povos originários na Universidade. Ela representa muitos colegas que assumem essa luta por nossa América Latina. E destaco também o Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEDU) pelo acolhimento que tem construído aos estudantes indígenas e pela implantação do programa de ações afirmativas no mestrado e no doutorado.
Finalizo mais uma vez parabenizando o povo kaingang. A tese de doutorado defendida pelo Bruno é um grande passo num caminho ainda inicial que pode levar a maiores transformações na Universidade e também ampliar os sentidos e as compreensões de mundo. Quem sabe assim ultrapassaremos compreensões de conhecimento totalitárias, pois temos muito a aprender e construir juntos.
Cesar Lopes é professor do Departamento de Ensino e Currículo e diretor da Faculdade de Educação (Faced).





