Educação contra o racismo

Professora considera que cotas raciais já contribuíram para iniciar o quadro de mudanças em termos de igualdades entre as pessoas, mas há muito a percorrer
(Foto: Rochele Zandavalli/ Secom)

A ignorância ajuda a disseminar o racismo, diz a professora da Universidade Federal de Minas Gerais Nilma Lino Gomes. Primeira reitora negra de uma universidade federal no Brasil, a pedagoga foi primeira em muitas funções. Além de comandar a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira em 2013, Nilma foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial em 2015 e ministra das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos do governo de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016. Na aula magna de abertura do ano letivo de 2019 da UFRGS, a pedagoga defendeu que, mais do que nunca, é necessário utilizar a educação como ferramenta para combater o racismo.

Como é abordar o racismo em um momento de acirramento de disputas no país?
Acho que a UFRGS foi muito corajosa ao oferecer a aula inaugural sobre esse tema. Tempos atrás isso não aconteceria. É muito importante, em especial no momento em que vivemos o acirramento do ódio, uma divisão da sociedade, um período em que as pessoas estão explicitando o racismo de uma forma muito mais aberta porque se sentem institucionalmente aprovadas. Não obstante, o racismo é crime inafiançável e imprescritível. Em uma sociedade que se diz democrática, se há um parágrafo de sua Constituição com esse teor é porque ela reconhece que o racismo existe em sua estrutura social e tem que ser combatido. Com o advento da lei de cotas, as universidades e institutos federais passaram a adotar ações afirmativas, e a universidade não é mais a mesma porque hoje há uma diversidade que antes não existia. Por isso o racismo tem que ser abordado em todas as áreas do conhecimento, porque a ignorância é um dos fatores que fazem que esse mal seja perpetuado.

Por que as universidades demoraram tanto para se abrir às cotas?
Porque o Brasil vive um racismo ambíguo; é aquele preconceito que vai se afirmando através da sua negação. A universidade também se nutria da narrativa de uma democracia racial, e se as pessoas não estavam nas salas de aula é porque não eram competentes para isso. É um discurso meritocrático vazio: como fazer um discurso de mérito se de partida um contingente de pessoas está em situação de desvantagem em relação às outras? Quando são proporcionadas condições mais igualitárias, e essas pessoas negras que estavam em escolas públicas chegam às instituições de ensino superior – as pesquisas têm mostrado! –, elas têm desempenho acadêmico igual ou melhor que o dos alunos brancos. Isso faz cair por terra o discurso do mérito. Se as ações afirmativas demoraram ou não a ser implementadas, não sei, mas a discussão deve ser mantida.

“O racismo tem que ser abordado em todas as áreas do conhecimento, porque a ignorância é um dos fatores que fazem com que esse mal seja perpetuado.”

Nilma Lino Gomes

Estamos próximos de uma igualdade de condições entre as pessoas?
Acho que desigualdade social, racial e de gênero é um tripé. O avanço que temos é o reconhecimento dessa imbricação; diria que nós – sociedade brasileira – começamos a enxergar o peso desse tripé na vida das pessoas. Dessa forma, políticas públicas foram criadas para enfrentar e superar isso, trazendo melhorias para a vida das vítimas, dos discriminados, dos excluídos e para a sociedade como um todo. No entanto, essas desigualdades não estão superadas, porque foram muitos séculos para estruturar esse tripé e leva muito tempo para desconstruí-lo.

Além das cotas nas universidades, a legislação prevê ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Por que muitos colégios ainda têm dificuldade em inserir esses conteúdos em seus currículos?
É uma lei que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), e a luta para que o tema fosse incluído na LDB foi muito longa. Diria que a implementação dela hoje é irregular no Brasil, mas existe uma produção didática sobre história da África e cultura afro-brasileira que não havia. Há inúmeros cursos de formação de professores, editais de pesquisa, inclusão de estudantes nas pesquisas, produção de literatura afro-brasileira, tradução de livros. Então, a lei está acontecendo num contexto mais amplo do que somente o professor em sala de aula ensinando para o estudante. Agora, é verdade que encontramos resistência: “aqui não implemento” ou “isso é lei de negros”. Já ouvi isso enquanto pesquisadora, e é uma expressão do racismo. Porém, as escolas têm de cumprir, não está mais em discussão na sociedade.

Você ocupou cargos em ministérios e reitoria. Quando poderemos deixar de ressaltar as “primeiras vezes” de uma mulher negra? Chegaremos ao momento em que será normal e não exceção?
Já fui ‘primeira vez’ muitas vezes, o que confirma o racismo. Sou a exceção que confirma a regra, porque uma sociedade com 54% de negros demorar tanto a ter pessoas negras ocupando certos cargos mostra que o preconceito é naturalizado na sociedade. Não é apenas uma questão de a mulher negra ter que ser tratada de forma diferente, somos uma sociedade muito diversa étnico-racialmente. Como essa diversidade não estaria expressa nas relações de poder? Porque essa sociedade nutre nos espaços de poder e decisão o racismo, o machismo e a LGBTfobia. O que a gente não pode é retroceder em nossa democracia. Por mais imperfeita que ela seja, é muito melhor que um fascismo. Ela ainda é melhor que processos ditatoriais. Está na mão das pessoas reagir contra os retrocessos.

Estamos em um processo de retrocesso?
Sim, estamos num caminho de retrocesso. É o que sinalizam os atos dos últimos meses.

E quando a maior parte da população opta por esse caminho?
Não sei se as pessoas querem o retrocesso; acho que elas fazem escolhas movidas por armadilhas às vezes. Situações ardilosas, construídas onde o que se quer fazer de fato não está dito. As pessoas estão afetadas pela insegurança, pelo medo, pelos discursos políticos que manipulam esses sentimentos e prometem soluções mágicas. Elas acreditam e jogam com a esperança. Claro, algumas realmente consideram certos avanços problema, então almejam o retrocesso conservador; outras são movidas pela esperança e são essas que vão repensar suas escolhas. Vivemos um contexto horrível de notícias falsas, de disputas; portanto, creio que haverá pessoas repensando, e algumas, inclusive, já mudaram de ideia.

Samantha Klein

Repórter