* Publicado na Edição 230 do JU
Nossas histórias são feitas de espectralidades. Constituem um jogo paradoxal em que assombrações, espectadores e exorcistas se confundem. Acontecimentos e práticas consideradas mortas obsessivamente retornam.
A exposição de 18 aquarelas em grande formato no Centro Cultural da UFRGS, apresentada no mês de dezembro passado, parte do projeto de extensão Memória – 50 anos dos expurgos da UFRGS, fez emergir um campo privilegiado de fantasmagorias. Sem dúvida, uma das atividades mais intensas que já experimentei.
Por 40 dias e noites me submeti a uma espécie de transe vertiginoso. Circulei com pessoas nunca vistas, batalhas perdidas, gritos esquecidos e gestos estranhos, carregados de muita expressão. Vi a realidade como desenho, fui perturbado pela arte, obtive o olhar de um louco.
Olhei as pessoas e medi suas sombras, fitei o detalhe dos seus brilhos nas pontas de seus narizes, a posição dos olhos, a geometria das cenas que se descortinavam. Estive com políticos, vivi seus medos, me embrenhei em multidões do passado e compartilhei suas tragédias.
Foi em meio a essa sanha incessante, em meu apartamento no Bom Fim, numa tarde quente de outubro, que sobreveio o inexplicável comum aos presságios e às conjurações. Na tela aberta do notebook que eu usava para capturar e copiar imagens, pousou um filhote de passarinho…. Tal acontecimento fraturou minha vontade, piorou a desordem afetiva, remexeu minhas perturbações éticas e morais e acrescentou uma dimensão surreal ao que eu fazia.
Somente quando foi finalizada a exposição, plenamente acolhida pelo Centro Cultural, foi que percebi no silêncio de um respeito profundo e insondável o que aquele pássaro havia conjurado e pressagiado. Isto aconteceu no dia da abertura, durante as palavras finais e emocionadas da professora homenageada Maria Luiza Armando: “Vocês me reconciliaram com a UFRGS”.




José Carlos Freitas Lemos é Arquiteto e Urbanista, doutor em Educação, professor da Faculdade de Arquitetura desde 1997, Ministrando disciplinas de ensino de croqui e projeto arquitetônico. Seus campos de pesquisa e extensão se relacionam a questões de ética e estética da alteridade em arquitetura e urbanismo.







