Ensaio | Setembro 2019

*Publicado na Edição 228 do JU

O andar pela cidade, de modo geral e sobretudo nas metrópoles, nos impõe um passo acelerado. Mas, mesmo na ambiência dominada pelo concreto e pelo asfalto, há momentos em que a relação espaço-tempo se alarga em razão da própria dinâmica do urbano. Talvez a maior imposição nesse sentido sejam os cruzamentos.

A luz vermelha assinala uma necessária pausa, e não são poucos os ansiosos com isso. Esse é, sem dúvida, um momento de potência da urbanidade. Na calçada, acumulam-se os transeuntes e daí decorrem os mais inusitados encontros: conhecidos, desafetos e mesmo estranhos se veem obrigados a socializar – mesmo que se ignorando uns aos outros.
Nos veículos, o momento de ensimesmar-se ou de distrair-se.

Uma esquina também é lugar de visibilidade, mas muitas vezes num modo de exposição que tem muito de subversão: é lugar de pedinte, vendedor, lavador de para-brisas, malabarista, prostituto ou prostituta e despacho.  É, pois, um retrato importante dos esquecimentos e apagamentos tão em voga neste assustador hoje que vivemos: as hierarquias sociais, a vulnerabilidade, o trabalho, a arte, o empoderamento, as questões de gênero, o racismo e a liberdade religiosa estão aí postos cotidianamente diante de nós – e mesmo que não nos deparemos com eles, seguem em nosso imaginário sobre esses espaços da urbe que estão tão presentes na cultura brasileira.

Em sua forma, a junção das quatro esquinas é metáfora dos crucifixos dos espaços religiosos, do grupo de estrelas dos símbolos nacionais ou dos cruzeiros e cruzados que por tanto tempo vigeram como moeda corrente. Neutralidade e laicidade da pátria única que nada! Mais esquinas, mais paradas, mais surpresas, mais subversão, por favor.

Everton Cardoso é jornalista, crítico cultural e professor universitário.

Amanda Misturini Sievering é estudante do 4.0 semestre do curso de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS.