
Divisão de Recolhimento e Desfazimento de Bens Móveis | Entradas e saídas
No entorno de um prédio de tijolos à vista, morros verdes-escuros indicam proximidade ao município de Viamão. Dentro, há um verdadeiro cemitério de móveis: vários apetrechos são empilhados em setores, formando uma verdadeira bagunça organizada. É a Divisão de Recolhimento e Desfazimento de Bens Móveis (DRDBM) da UFRGS, localizada no Câmpus Agronomia, e é também onde Éder da Silva Homem, de 34 anos, atua como prestador de serviços terceirizado há quase 12 anos.
Nascido em Viamão, já foi funcionário num supermercado e numa gráfica antes de vir parar aqui, em 2006. Seu pai, por uma questão de saúde, saiu da DRDBM em 2005, indicando à vaga o seu filho desempregado: Éder.
Na UFRGS, sempre trabalhou dentro do Departamento de Patrimônio, recebendo material, fazendo entregas e registrando a movimentação de entrada e saída de móveis. Como terceirizado, hoje é almoxarife no setor responsável pelo recolhimento dos bens inutilizados na Universidade. Lá também acontece o desfazimento de objetos por meio de doação, leilão ou inutilização e se disponibilizam materiais para serem reutilizados pelas Unidades da academia.

(Foto: Gustavo Diehl/Secom)
Pai de uma filha de 3 anos, comenta que às vezes tem que ficar brincando até as 11 horas da noite com a menina. Mesmo assim, acorda todos os dias às 5h, pega ônibus às 6h e chega ao trabalho às 7h, enquanto o seu expediente começa apenas às 7h30. “Não gosto de chegar atrasado, prefiro chegar antes”, explica.
Apesar de nunca ter trabalhado em outro setor da UFRGS, defende: “A chefia aqui é tranquila, a gente consegue conversar, não se tem um olhar diferenciado por sermos terceirizados. Eles nos ouvem e adotam muitas ideias, e isso é muito interessante, faz a gente querer ficar. Aqui é o melhor que tem, não adianta”.
Dentro do departamento, ele é conhecido como “Pino”: “Na verdade, quase ninguém aqui se chama por nome, quase todo mundo é por apelido”, brinca. Ao perguntar de suas amizades no trabalho, comenta: “É uma palhaçada só, todo mundo dá risada. Tem um que é careca e me mandou esses dias uma foto nossa dizendo ‘nesse tempo tu era magro e eu tinha cabelo!’. E são coisas desse tipo que vão marcando o tempo, sabe?”.


Além da boa relação de trabalho, Éder acresce: “Gosto (daqui) por não ter tanto movimento de pessoas: como nós recebemos o pessoal nas segundas e terças, nos outros três dias ou a gente sai (para fazer entregas), ou a gente fica aqui dentro arrumando o depósito. É bom porque tu vai arrumar as coisas e fica lá num silêncio, só mexendo no material. Às vezes ainda é uma coisa que tu não conhece, mas tu tem tempo para pegar, olhar e, de repente, aprender coisas diferentes”. Na DRDBM, os funcionários estão em contato com móveis e outros utensílios de tal maneira que passam a conhecer e compartilhar histórias com eles.
Éder lembra que, quando surgiu uma vaga de auxiliar de almoxarifado, foi por causa da morte de um colega, o Moacir: “Eu entrei no lugar dele e, quando fui usar o computador em que ele trabalhava, vi que tinha muitas fotos com os seus filhos. Muitas mesmo. Ele era divorciado, morava sozinho e tudo. É uma coisa que eu não costumo comentar, mas é um negócio que me marcou, sabe? Porque eu tive que apagar tudo aquilo ali. E como a gente não tinha contato com a família, não tinha nem como perguntar se alguém queria alguma foto”. E isso marca a Divisão de Recolhimento e Desfazimento de Bens Móveis: seus funcionários e todos aqueles materiais, aqueles montes de computadores, geladeiras, liquidificadores, mesas, cadeiras, armários, microscópios, enfim, tudo ali, de certo modo, um dia vai partir.
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