Meu Lugar na UFRGS | Pesquisadora do campo encontra na EEA sua segunda casa e conta sobre como se encantou com a docilidade das búfalas com que trabalha
*Foto: Pietro Scopel/JU
“Eu sinto que aqui na Estação é como se eu encontrasse as minhas raízes. É como se fosse uma extensão da minha casa”, conta, orgulhosa Franciele Fernandes, mestranda do Programa de Pós-graduação em Microbiologia Agrícola e do Ambiente. Ao desenvolver sua pesquisa sobre leite de búfalas, a médica veterinária entra em contato com memórias afetivas de sua terra natal, Santo Ângelo, onde cresceu na fazenda do avô.
A Estação Experimental Agronômica é um dos diversos espaços da UFRGS usados para o desenvolvimento de pesquisas voltadas à produção no campo. O objetivo é manter a estrutura do tripé ensino, pesquisa e extensão, especialmente nos cursos de Medicina Veterinária, Agronomia e Zootecnia. Dos mais de 17 mil quilômetros quadrados de construções voltadas a esses fins, foi no tambo – onde é realizada a ordenha de búfalas – que Franciele se descobriu pesquisadora.
Ao nos guiar pelo espaço, Franciele conta com muita empolgação sobre sua pesquisa. Ela visa avaliar a qualidade do colostro, o primeiro leite produzido após o parto, fundamental para o desenvolvimento do guaxa (filhote de búfalo), para, assim, entender como ocorre a “transferência” de imunidade da mãe ao filhote.
Parte dessa empolgação também vem da compreensão do reconhecimento crescente sobre as potencialidades do leite de búfala. Mesmo que haja uma diferença do consumo de leite bovino para o de búfala, Franciele afirma que “a pesquisa da qualidade do leite abre nossos horizontes”, e divulgar esse conhecimento é parte importante do que é feito na EEA.
“[O leite de búfala] É meio que novidade. Sim, é mais caro. Mas é mais caro justamente porque a produção é menor. É interessante porque leite de búfala causa menos irritação em pessoas lactointolerantes, por exemplo”
Franciele Fernandes

A pesquisadora vai à Estação às segundas, terças e quartas, dias em que a ordenha das búfalas é feita. Também está lá aos domingos, para separar os animais para a ordenha do dia seguinte – mesmo que a van responsável pelo transporte à EEA só funcione em dias de semana.
Por gostarem do que faz, e por quererem o progresso da pesquisa, Franciele e outros cientistas organizam caronas solidárias e dividem os gastos com gasolina para ir à EEA aos domingos – fazem até um churrasco de vez em quando.
Apesar de hoje em dia passar grande parte da semana na Estação – inclusive tendo seu próprio quarto para manter seus pertences e poder dormir –, o começo da jornada acadêmica de Franciele não foi nessa área. Ela cursou seis semestres de Enfermagem na UFRGS, mas “sabia que o negócio mesmo era cuidar de bicho”, e relembra que, ao chegar à Estação, se encantou pela “docilidade das búfalas e pela perspectiva de crescimento da área”.
O encanto pelas búfalas
Franciele lamenta que haja um certo estigma de que búfalos são violentos, mas, depois de sete anos de convívio com eles na EEA, assegura: com reforço positivo e manejo adequado, podem ser animais mansos e dóceis. “Foi contato do dia a dia mesmo. Quanto mais eu via, mais eu percebia a docilidade que o animal vai expressar.”
Foi o caso de Claudinha, uma búfala filhote cuja mãe chegou debilitada à EEA e morreu durante o parto. Sem a mãe, Claudinha foi criada pela equipe da Estação como parte da família – com direito a mamadeiras e muito carinho. Hoje ela já é adulta e mãe do Francisco – um búfalo filhote que é xará do repórter que escreve esta reportagem.

Entre as descobertas sobre o leite de búfala realizadas no laboratório, as viagens longas até a Estação e todos os dias de frio e calor compartilhados com os colegas pesquisadores nos alojamentos, uma coisa é fato: Franciele ama o que faz. “Foi como se fosse um encontro às minhas origens, para voltar àquela vida do interior e juntar a paixão que eu sempre tive pelos animais.”





